Tarde na Andaluzia, de Sahar Romani, lido por Sandra Daher

Sandra Daher, uma generosa seguidora do blog, publica em seu perfil no Facebook a leitura que faz de poemas que a inspiram.

Em sua postagem mais recente, ela surge lendo o belíssimo “Tarde na Andaluzia”, de Sahar Romani, traduzido por mim e publicado há algum tempo no blog.

Confiram o resultado clicando no link que segue e aproveitem para vê-la declamando outros grandes poemas.

“Tarde na Andaluzia”, de Sahar Romani, lido por Sandra Daher

Tarde na Andaluzia

E por que a geometria não seria igual à divindade

1000 + 1 + 1 + 1 O que é a fé

senão a confiança no uno & infinito Uma vez


em Granada observei um muro de polígonos

ou eram estrelas ou abelhas ou por um segundo um fulgor

de gladíolos em um campo até que pude ver


uma galáxia planetas girando raios de uma roda

relógios ou botões videiras florescendo um tornado

de um século futuro jardim de elipses


a córnea do meu amante acesa em cada manhã

Deus tão distante & bem na minha frente


Trad.: Nelson Santander

Afternoon in Andalusia


But why wouldn’t geometry equal divinity

1000 + 1 + 1 + 1 What is faith

but trust in one & infinity Once


in Granada I studied a wall of polygons

or was it stars or bees or for a second a flash

of gladiolas in a field until I could see


a galaxy planets spinning spokes on a wheel

clocks or buttons vines blooming a tornado

from a future century garden of ellipses


my lover’s cornea alight each morning

God so far away & right in front of me

Stephen Dunn – Ignorância

O sonho antigo de voar se tornou realidade
e eu olho para cima, sem espanto.
Por que não cai?
Uma pergunta de criança que eu não sei responder.
Eu visto minha ignorância naquilo que eu sei.
Uma vez houve pterodátilos, eu digo.
Uma vez o céu era presságios e pássaros.

Ele é imenso e diminuto e tão alto
que não emite nem um som.
Se fosse para lançar bombas, se por sorte
uns poucos de nós fôssemos salvos
e tivéssemos que começar de novo, eu não teria nada
para o sofrimento além de palavras.

Digo à minha filha
que estive lá em cima, no céu,
mas nós dois não ficamos impressionados.
Ela viu Star Wars. E eu já não
peço mais um lugar à janela.
Diante de um voo, eu penso na morte.
Não direi isso a ela

como não lhe direi que a casa
é a sua caverna e eu o homem peludo que retorna
toda noite, frequentemente atônito e confuso.

Trad.: Nelson Santander

Ignorance

The ancient dream of flying has come true
and I look up, unamazed.
Why doesn’t it fall?
A child’s question I can’t explain.
I dress my ignorance in what I know.
Once there were pterodactyls, I say.
Once the sky was guesswork and birds.

It’s immense and small, so high
it isn’t making a sound.
If it were to drop bombs, if by luck
a few of us were saved
and had to start again, I’d have nothing
for the pain but words.

I tell my daughter
I’ve been up there, in the sky,
but both of us are unimpressed.
She’s seen Star Wars. And I no longer
ask for a window seat.
Faced with flying, I think of death.
I will not tell her this

as I will not tell her the house
is her cave and I the hairy man who returns
each night, often speechless and confused.

Linda Pastan – Por trás do

        "Busco pelo que está por trás das palavras que são ditas..."
– William Stafford

Por trás do “Eu te amo”
reside um “adeus”.
Por trás do
“adeus”
mora um “foi maravilhoso
ali no gramado, encharcados
de tanto verde,
juntos”.
Palavras que esperam
são escuras como sombras
nos quartos dos fundos
dos espelhos:
quando você levanta
sua mão direita
em saudação,
elas levantam a esquerda
em despedida.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

In back of

          "I'm looking for things back of remarks that are said..."
– William Stafford

In back of “I love you”
stands “goodbye.”
In back of
“goodbye”
stands “it was lovely
there in the grass, drenched
in so much green
together.”
Words that wait
are dark as shadows
in the back rooms
of mirrors:
when you raise
your right hand
in greeting,
they raise their left
in farewell.

Pat Boran – Desde que você se foi…

Desde que você se foi…

os dias aprenderam um novo idioma,
as noites falam em línguas –

as vozes da chuva na janela do quarto,
do vento sussurrando na rua varrida pela chuva,

os canos da casa chamando,
tina após tina de água.

A perda descobre novas canções
em antigos instrumentos.

Trad.: Nelson Santander

Since You Left…

the days have learnt a new language,
evenings speak in tongues –

the voices of rain at the bedroom window,
of wind whispering in the rain-swept street,

the house pipes calling,
bowl to water bowl.

Loss discovers new songs
in ancient instruments.

Joseph Hillman – Para capturar a mim mesmo

Para capturar a mim mesmo
eu devo cavar um buraco

Perfurar a película que
separa a vida da morte
Com pá, pá de corte
ou mãos afiadas

Fazer a terra desabrochar
Em uma floração de
preto e ocre

Permitir que os muros se ergam
ao meu redor como
desmoronados
cortinados
engolindo-
me inteiro
enquanto
vou mais
fundo

Mais fundo
naquele buraco

Tão fundo que
não posso sair
novamente
e tenho que
viver o
resto de
meus dias
esperando
que o meu
captor
me liber-
te

Trad.: Nelson Santander

To capture myself

To capture myself
I must dig a hole

Puncture the film that
separates life and death
With spade or shovel
or sharpened hand

Make the earth unfold
Into a blossom of
black and ochre

Let the walls rise
around me like
crumbling
curtains
swallowing
me whole
as I make
my way
deeper

Deeper into
that hole

So deep that
I cannot get
out again
and must
live the
rest of
my days
waiting
for my
captor
to free
me.

Mary Oliver – Pesado

Naquela época
Eu pensei que não poderia
me aproximar mais da dor
sem morrer

eu me aproximei
e não morri.
Certamente teve
a mão de Deus nisso,

assim como as dos amigos.
Ainda assim, eu estava curvada,
e meu riso,
como disse o poeta,

havia desaparecido.
Então disse o meu amigo Daniel
(valente mesmo entre os leões):
“Não é o peso que você carrega

mas como você o carrega –
livros, luto, ladrilhos –
tudo está na maneira
como você o abraça, equilibra, carrega-o

quando não pode, e não quer,
abandoná-lo.”
Então eu fui praticar.
Já reparou?

Já ouviu
o riso
que sai, vez ou outra,
de minha boca assustadas?

Como eu me demoro
admirando, admirando, admirando
as coisas deste mundo
que são gentis, e talvez

também turbulentas –
rosas ao vento,
os gansos-do-mar nas ondas íngremes,
um amor
para o qual não há resposta?

Trad.: Nelson Santander

Heavy

That time
I thought I could not
go any closer to grief
without dying

I went closer,
and I did not die.
Surely God
had his hand in this,

as well as friends.
Still, I was bent,
and my laughter,
as the poet said,

was nowhere to be found.
Then said my friend Daniel,
(brave even among lions),
“It’s not the weight you carry

but how you carry it –
books, bricks, grief –
it’s all in the way
you embrace it, balance it, carry it

when you cannot, and would not,
put it down.”
So I went practicing.
Have you noticed?

Have you heard
the laughter
that comes, now and again,
out of my startled mouth?

How I linger
to admire, admire, admire
the things of this world
that are kind, and maybe

also troubled –
roses in the wind,
the sea geese on the steep waves,
a love
to which there is no reply?

Ciaran O’Driscoll – Por favor, permaneça na linha

Este é o futuro, minha esposa diz.
Nós já estamos lá, e é exatamente
como o presente. Seu futuro, aqui, ela diz.
E estou falando com um robô ao telefone.
O robô está me dando inúmeras opções,
nenhuma das quais atende às minhas necessidades.
Ótimo, diz o robô
quando eu lhe dou o número do meu telefone.
E Excelente, diz o robô
quando eu lhe dou o número da minha conta bancária.
Eu tenho um ótimo número de telefone
e um excelente número de conta bancária,
mas não consigo encontrar nada que satisfaça minhas necessidades
no telefone, e por minha conta
(que, na verdade, é a conta do robô)
passa dinheiro, meu dinheiro, para pagar por nada.
Estou pagando um robô para não fazer nada.
Esta chamada é gratuita, diz o robô.
Sim, mas estou pagando por ela, eu grito,
da minha excelente conta bancária
para minha ótima conta de telefone.
Ótimo, diz o robô.
E minha esposa diz, Este é o futuro.
Desculpe, não entendi, diz o robô.
Por favor, diga Sim ou Não.
Ou você pode dizer Repita ou Menu.
Você pode dizer Sim, Não, Repita ou Menu,
ou você pode dizer Atendente se quiser falar
com alguém real, que é tão robótico quanto.
Eu grito Atendente! e a ligação cai,
e minha esposa diz, Este é o futuro.
Nós já estamos lá e é exatamente
como o presente. Seu futuro, aqui, ela diz.
E estou falando com um robô ao telefone,
e ele não me dá nenhuma opção
sob o disfarce de incontáveis alternativas.
Agradecemos sua paciência. Por favor, permaneça na linha.
Eine Kleine Nachtmusik. Por favor, permaneça.
Eine Kleine Nachtmusik. Por favor, permaneça.
Eine porra de Kleine Nachtmusik.
E o robô me transfere para si mesmo.
Sua ligação é importante para nós, ele diz.
E meu tradutor diz, Isso quer dizer
que a sua ligação não é importante para eles.
E minha esposa diz, Este é o futuro.
E meu tradutor diz, Por favor, permaneça na linha
significa que, apesar de todas as suas conquistas,
a única maneira de satisfazer suas necessidades agora
é saqueando. Ótimo, diz o robô.

Por favor, permaneça. Por favor, envelheça. Por favor, arrefeça.
Por favor, o que te mandarem, faça. Envelheça. Arrefeça.
Este é o futuro. Por favor, permaneça.

Trad.: Nelson Santander

Please Hold

This is the future, my wife says.
We are already there, and it’s the same
as the present. Your future, here, she says.
And I’m talking to a robot on the phone.
The robot is giving me countless options,
none of which answer to my needs.
Wonderful, says the robot
when I give him my telephone number.
And Great, says the robot
when I give him my account number.
I have a wonderful telephone number
and a great account number,
but I can find nothing to meet my needs
on the telephone, and into my account
(which is really the robot’s account)
goes money, my money, to pay for nothing.
I’m paying a robot for doing nothing.
This call is free of charge, says the robot.
Yes but I’m paying for it, I shout,
out of my wonderful account
into my great telephone bill.
Wonderful, says the robot.
And my wife says, This is the future.
I’m sorry, I don’t understand, says the robot.
Please say Yes or No.
Or you can say Repeat or Menu.
You can say Yes, No, Repeat or Menu,
or you can say Agent if you’d like to talk
to someone real, who is just as robotic.
I scream Agent! and am cut off,
and my wife says, This is the future.
We are already there and it’s the same
as the present. Your future, here, she says.
And I’m talking to a robot on the phone,
and he is giving me no options
in the guise of countless alternatives.
We appreciate your patience. Please hold.
Eine Kleine Nachtmusik. Please hold.
Eine Kleine Nachtmusik. Please hold.
Eine fucking Kleine Nachtmusik.
And the robot transfers me to himself.
Your call is important to us, he says.
And my translator says, This means
your call is not important to them.
And my wife says, This is the future.
And my translator says, Please hold
means that, for all your accomplishments,
the only way you can now meet your needs
is by looting. Wonderful, says the robot.

Please hold. Please grow old. Please grow cold.
Please do what you’re told. Grow old. Grow cold.
This is the future. Please hold.

Francisco Brines – Esplendor negro

Somente uma vez experimentaste aquele Esplendor negro,
e intermitentemente recordas a experiência com imprecisão,
aproximações difusas, iminências,
e assim, desde a tua juventude, arrastas frio
um invisível manto escarlate de cinzas.
E não foi necessário cegar os olhos,
pois das brancas luzes das estrelas
chegou aquele delírio, a possibilidade mais exata e singela:
em vez de Deus ou do mundo
aquele negro Esplendor,
que nem sequer é um ponto, pois não há nele espaço,
nem se pode nomear, porque não se expande.
Serenidade e Vertigem têm o mesmo valor,
pois as palavras já estão ditas desde a aurora da terra,
e as palavras são apenas a expressão de um engano.
Voltar para o centro daquilo é ir para a periferia da vida
sem conhecer a vida, um não-mundo impossível,
pois somente não ter nascido poderia aproximar-te desta experiência.
Criar a inexistência e sua totalidade
não te fez poderoso,
nem derramou teu pranto, e nada redimiste.
A mesma incompreensão ao contemplar o mundo
produziu em ti o terror daquele Esplendor negro,
e aquele desamparo ao cobrirem-te os lençóis.

Trad.: Nelson Santander

Esplendor negro

Sólo una vez pudiste conocer aquel Esplendor negro,
e intermitentemente recuerdas la experiencia con vaguedad,
aproximaciones difusas, inminencias,
y así, desde tu juventud, arrastras frío,
un invisible manto de ceniza escarlata.
Y no fue necesario cegar los ojos,
pues de las luces claras de los astros
llegó el delirio aquel, la posibilidad más exacta y sencilla:
en vez de Dios o el mundo
aquel negro Esplendor,
que ni siquiera es punto, pues no hay en él espacio,
ni se puede nombrar, porque no se dilata.
Valen igual Serenidad y Vértigo,
pues las palabras están dichas desde la noche de la tierra,
y las palabras son tan solo expresión de un engaño.
Volver al centro aquel es ir por las afueras de la vida,
sin conocer la vida, un no mundo imposible,
pues sólo el no nacer te pudiera acercar a esa experiencia.
Crear la inexistencia y su totalidad,
no te hizo poderoso,
ni derramó tu llanto, y nada redimiste.
La misma incomprensión que contemplar el mundo
te produjo el terror de aquel Esplendor negro,
y aquel desvalimiento al cubrirte las sábanas.

Walter de la Mare – Os que Ouviam

‘Tem alguém em casa?’ indagou o Viajante
   Defronte à porta enluarada;
Seu cavalo no silêncio ruminava o capim
   Da forragem fértil e enfolhada:
E uma ave voou para muito além da torre,
   Acima de sua cabeça:
E de novo a porta ele outra vez castigou;
   ‘Tem alguém em casa?’ ele disse.
Mas ninguém desceu para atender o Viajante;
   Do peitoril ninguém nem nada
Inclinou-se para olha-lo nos olhos cinzentos,
   Onde ele estava, pasmo e mudo.
Somente uma horda vigilante de fantasmas
   Que habitava tal casa então
Ficou ouvindo em silêncio, à luz da lua,
   A voz vinda do humano chão:
Imóveis à luz do luar sobre a escada escura
   Que dava num salão sem nada,
Ouvindo, atentos, num ar revolto e agitado
   O apelo que dele emanava.
E sentiu em seu peito como eram diferentes,
   Eles quietos, ele exaltado,
Seu cavalo inquieto a pastar na relva escura,
   Sob o denso céu estrelado;
De repente então ele bateu na porta, ainda
   Mais alto, e a cabeça ergueu: -
‘Diga-lhes que eu vim, e que ninguém me respondeu,
   Que fui correto’, esclareceu.
Nem o menor meneio fizeram os que ouviam,
   Conquanto as palavras cortantes
Ditas rompessem as sombras da casa silente
   Para longe do Viajante:
Sim, eles ouviram seus pés por sobre os estribos,
   Sons de ferraduras no chão,
E o sutil silêncio que suavemente ascendeu,
   Enquanto os cascos se afastavam.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 02/02/2017

Sobre o poeta, o poema e a tradução

Walter de la Mare nasceu em 25 de abril de 1873, em Charlton, Kent, Inglaterra, e morreu em 22 de junho de 1956, em Twickenham, Middlesex, Inglaterra. Começou a escrever por volta de 1890 e nunca mais parou. Sua produção foi enorme, incluindo romances, novelas, contos, poemas, antologias, ensaios, críticas e comentários. Pouco conhecido no Brasil, ele é lembrado, principalmente nos países de língua inglesa, como um poeta das primeiras letras e um contador de histórias de fantasmas, o que, segundo seus críticos, desviaria a atenção da busca espiritual, que é o ponto central da escrita.
O poema acima, com cuja tradução eu contribuí, é o seu trabalho mais conhecido. “The Listeners”, com efeito, figura em inúmeras antologias de poemas e foi, durante décadas, o poema preferido dos professores ingleses para ensinar recitação a seus alunos.
No poema, que foi publicado pela primeira vez em “The Listeners, and Others Poems” (1912), um incógnito viajante chega com seu cavalo a uma casa (castelo? Château?) que parece deserta. Ele bate à porta, mas ninguém responde. Ele insiste, mas os fantasmas que aparentemente ocupam a casa escutam mas nunca respondem aos apelos do Viajante. O viajante insiste, mas ninguém responde. Perplexo, ele volta a bater na porta, com mais força ainda, e, levantando a cabeça grita: “Diga-lhes que eu vim, e que ninguém me respondeu, que fui correto”. Ainda sem respostas, o Viajante vai embora. Os fantasmas ouvem o viajante indo embora e o silêncio que retorna quando os cascos do cavalo se afastam.
Ao final da leitura do poema, inúmeras questões surgem, como bem resumiu Braulio Tavares:
“Que lugar é este? Que mansão é esta? Não sabemos. Vemos o desfecho de uma história que não nos foi contada, mas que ressoa dentro de nós como as batidas do cavaleiro noturno ressoam à porta da casa deserta. Por que esse homem voltou? Por que os fantasmas lá dentro se escondem, silenciam, fazem de conta que não o ouvem chamar? Quem é esse Viajante que vem de tão longe, a essa hora, somente para cumprir uma palavra dada?”
A internet está repleta de interpretações acerca do poema. Há de tudo: o visitante queria dizer aos seus fantasmas – pessoas que ele amava, hoje já mortas – que quitou alguma dívida que tinha para com eles em vida. Que, ao contrário, o viajante é quem seria o fantasma que bate insistentemente à porta da casa sem se fazer ouvir pelos habitantes, pessoas vivas como nós (à semelhança do que ocorre no filme “Os Outros”, de Alejandro Amenábar). Em uma viagem psicanalítica, o viajante seria a voz interior de alguém, tentando nos alertar acerca de algum perigo. Há os que digam também que o poema seria uma metáfora para os mistérios com os quais nos defrontamos na vida, seja como “visitantes”, seja como ouvintes. Nós passaríamos nossas vidas fazendo perguntas, sem nem sempre conseguir obter as respostas.
Não importa a mensagem em si – ou importa, mas apenas para quem lê. O que realmente importa é que, do ponto de vista do fazer poético, o poema é extremamente bem construído. Seu mérito está em conseguir evocar com eficiência uma atmosfera fantasmagórica que permanece no espírito do leitor mesmo depois de horas após a leitura do poema. Para tanto, o autor se vale de todos os recursos poéticos disponíveis – aliterações, anáforas, metáforas, metonímias, paradoxos – que emprestam ao poema uma força insuspeita.
Ao decidir traduzi-lo, procurei na internet em busca de alguma tradução, para fins de comparação. Nada encontrei. Pode até ser que exista, mas não logrei êxito em localizar. Talvez pelo fato do nome do autor não estar no panteon dos grandes poetas, ou pela fama que o poema granjeou como literatura escolar (mal comparando, seria o equivalente, no Brasil, a um poema de J G de Araújo Jorge), o fato é que, aparentemente, ninguém se aventurou a traduzi-lo (se alguém conhecer uma tradução, por favor me mande).
Ao fazê-lo, procurei manter o esquema das rimas (ABCB, DEFE, e assim por diante). Na métrica, enquanto o original segue um esquema não muito rígido e alternado que vai de seis a quatorze sílabas, predominando, quanto ao ritmo, os pés anapestos e jambos, optei por manter um esquema rígido na metrificação (para facilitar para mim, é claro), alternando versos bárbaros de treze sílabas com octassilábicos. Quanto ao ritmo, tentei manter, tanto quanto pude, a opção original pelos anapestos e jambos.

Nelson Santander, 02/02/2017

Gale, Cengage Learning – A Study Guide for Walter de la Mare’s “The Listeners”; https://books.google.com.br/books?id=_7Y3DQAAQBAJ&pg=PT13&dq=the+listeners+la+mare+meter&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwjWlLzv_PHRAhUCgZAKHZ2QCPMQ6AEIGjAA#v=onepage&q=the%20listeners%20la%20mare%20meter&f=false (consultado em 02/02/2017)

Tavares, Braulio. Os que Escutavam. Texto publicado no blog Mundo Fantasmo, do escritor Braulio Tavares. Em http://mundofantasmo.blogspot.com.br/search/label/Walter%20de%20la%20Mare (consultado em 02/02/2017)

O poema original:

Walter de la Mare – The Listeners

‘Is there anybody there?’ said the Traveller,
   Knocking on the moonlit door;
And his horse in the silence champed the grasses
   Of the forest’s ferny floor:
And a bird flew up out of the turret,
   Above the Traveller’s head:
And he smote upon the door again a second time;
   ‘Is there anybody there?’ he said.
But no one descended to the Traveller;
   No head from the leaf-fringed sill
Leaned over and looked into his grey eyes,
   Where he stood perplexed and still.
But only a host of phantom listeners
   That dwelt in the lone house then
Stood listening in the quiet of the moonlight
   To that voice from the world of men:
Stood thronging the faint moonbeams on the dark stair,
   That goes down to the empty hall,
Hearkening in an air stirred and shaken
   By the lonely Traveller’s call.
And he felt in his heart their strangeness,
   Their stillness answering his cry,
While his horse moved, cropping the dark turf,
   ’Neath the starred and leafy sky;
For he suddenly smote on the door, even
   Louder, and lifted his head:—
‘Tell them I came, and no one answered,
   That I kept my word,’ he said.
Never the least stir made the listeners,
   Though every word he spake
Fell echoing through the shadowiness of the still house
   From the one man left awake:
Ay, they heard his foot upon the stirrup,
   And the sound of iron on stone,
And how the silence surged softly backward,
   When the plunging hoofs were gone.

Source: The Collected Poems of Walter de la Mare (1979)

Sobre o poeta, o poema e a tradução

Walter de la Mare nasceu em 25 de abril de 1873, em Charlton, Kent, Inglaterra, e morreu em 22 de junho de 1956, em Twickenham, Middlesex, Inglaterra. Começou a escrever por volta de 1890 e nunca mais parou. Sua produção foi enorme, incluindo romances, novelas, contos, poemas, antologias, ensaios, críticas e comentários. Pouco conhecido no Brasil, ele é lembrado, principalmente nos países de língua inglesa, como um poeta das primeiras letras e um contador de histórias de fantasmas, o que, segundo seus críticos, desviaria a atenção da busca espiritual, que é o ponto central da escrita.
O poema acima, com cuja tradução eu contribuí, é o seu trabalho mais conhecido. “The Listeners”, com efeito, figura em inúmeras antologias de poemas e foi, durante décadas, o poema preferido dos professores ingleses para ensinar recitação a seus alunos.
No poema, que foi publicado pela primeira vez em “The Listeners, and Others Poems” (1912), um incógnito viajante chega com seu cavalo a uma casa (castelo? Château?) que parece deserta. Ele bate à porta, mas ninguém responde. Ele insiste, mas os fantasmas que aparentemente ocupam a casa escutam mas nunca respondem aos apelos do Viajante. O viajante insiste, mas ninguém responde. Perplexo, ele volta a bater na porta, com mais força ainda, e, levantando a cabeça grita: “Diga-lhes que eu vim, e que ninguém me respondeu, que fui correto”. Ainda sem respostas, o Viajante vai embora. Os fantasmas ouvem o viajante indo embora e o silêncio que retorna quando os cascos do cavalo se afastam.
Ao final da leitura do poema, inúmeras questões surgem, como bem resumiu Braulio Tavares:
“Que lugar é este? Que mansão é esta? Não sabemos. Vemos o desfecho de uma história que não nos foi contada, mas que ressoa dentro de nós como as batidas do cavaleiro noturno ressoam à porta da casa deserta. Por que esse homem voltou? Por que os fantasmas lá dentro se escondem, silenciam, fazem de conta que não o ouvem chamar? Quem é esse Viajante que vem de tão longe, a essa hora, somente para cumprir uma palavra dada?”
A internet está repleta de interpretações acerca do poema. Há de tudo: o visitante queria dizer aos seus fantasmas – pessoas que ele amava, hoje já mortas – que quitou alguma dívida que tinha para com eles em vida. Que, ao contrário, o viajante é quem seria o fantasma que bate insistentemente à porta da casa sem se fazer ouvir pelos habitantes, pessoas vivas como nós (à semelhança do que ocorre no filme “Os Outros”, de Alejandro Amenábar). Em uma viagem psicanalítica, o viajante seria a voz interior de alguém, tentando nos alertar acerca de algum perigo. Há os que digam também que o poema seria uma metáfora para os mistérios com os quais nos defrontamos na vida, seja como “visitantes”, seja como ouvintes. Nós passaríamos nossas vidas fazendo perguntas, sem nem sempre conseguir obter as respostas.
Não importa a mensagem em si – ou importa, mas apenas para quem lê. O que realmente importa é que, do ponto de vista do fazer poético, o poema é extremamente bem construído. Seu mérito está em conseguir evocar com eficiência uma atmosfera fantasmagórica que permanece no espírito do leitor mesmo depois de horas após a leitura do poema. Para tanto, o autor se vale de todos os recursos poéticos disponíveis – aliterações, anáforas, metáforas, metonímias, paradoxos – que emprestam ao poema uma força insuspeita.
Ao decidir traduzi-lo, procurei na internet em busca de alguma tradução, para fins de comparação. Nada encontrei. Pode até ser que exista, mas não logrei êxito em localizar. Talvez pelo fato do nome do autor não estar no panteon dos grandes poetas, ou pela fama que o poema granjeou como literatura escolar (mal comparando, seria o equivalente, no Brasil, a um poema de J G de Araújo Jorge), o fato é que, aparentemente, ninguém se aventurou a traduzi-lo (se alguém conhecer uma tradução, por favor me mande).
Ao fazê-lo, procurei manter o esquema das rimas (ABCB, DEFE, e assim por diante). Na métrica, enquanto o original segue um esquema não muito rígido e alternado que vai de seis a quatorze sílabas, predominando, quanto ao ritmo, os pés anapestos e jambos, optei por manter um esquema rígido na metrificação (para facilitar para mim, é claro), alternando versos bárbaros de treze sílabas com octassilábicos. Quanto ao ritmo, tentei manter, tanto quanto pude, a opção original pelos anapestos e jambos.

Nelson Santander, 02/02/2017

Gale, Cengage Learning – A Study Guide for Walter de la Mare’s “The Listeners”; https://books.google.com.br/books?id=_7Y3DQAAQBAJ&pg=PT13&dq=the+listeners+la+mare+meter&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwjWlLzv_PHRAhUCgZAKHZ2QCPMQ6AEIGjAA#v=onepage&q=the%20listeners%20la%20mare%20meter&f=false (consultado em 02/02/2017)

Tavares, Braulio. Os que Escutavam. Texto publicado no blog Mundo Fantasmo, do escritor Braulio Tavares. Em http://mundofantasmo.blogspot.com.br/search/label/Walter%20de%20la%20Mare (consultado em 02/02/2017)

Alberto Ríos – Coelhos e fogo

Tudo já foi dito
Menos uma última coisa – terrível – sobre o
Deserto: durante os incêndios no deserto de Sonora,
Incêndios rasteiros que ocorrem antes das monções e no grande,
Profundo, extenso e sufocante calor dos meses mais quentes,
Os meses mais longos,
Nas hipnóticas e imensuráveis tréguas de agosto e julho —
Durante esses incêndios de verão, lebres —
Lebres e qualquer outra coisa
Que viva nas matas das encostas,
Mas especialmente lebres —
As lebres podem acabar presas entre as chamas,
Não importa quão grandes e velozes e fortes e lisas elas sejam.
E quando são apanhadas,
Acossadas dentro e contra os grossos
Troncos e os finos ferrões dos cactos,
Quando não podem mais recuar,
Quando não podem mais se mover, a chama —
Ela as toca,
E seus pelos pegam fogo.
É claro, elas fogem da chama,
Encontrando força mesmo quando não há nenhuma para ser encontrada,
Dando grandes saltos para o alto sobre a onda de fogo, ou recuando
Ainda mais através do impenetrável
Emaranhado de saguaro endurecido
E figo-da-índia e cholla e espinheiro,
Mas seja qual for o caminho que elas encontram,
O que acontece é o que acontece: elas pegam fogo
E depois levam o fogo com elas quando correm.
No início, elas não sabem que estão pegando fogo,
Correndo tão rápido que fazem as chamas
Explodir como um motor de foguete e fumaça atrás deles,
Mas então as lebres se cansam
E a chama as alcança,
Coladas a elas como os espinhos dos cactos,
Que a princípio deve ser o que elas pensam que sentem em suas peles.
Eles já sentiram isso antes, todos os coelhos.
Mas desta vez a sensação não para.
E, claro, eles incendeiam os arbustos e o capim secos
Mais uma vez, provocando mais fogo, ao redor deles.
Eu lamento pelos coelhos.
E lamento que
Saibamos disso.

Trad.: Nelson Santander

Rabbits and Fire

Everything’s been said
But one last thing about the desert,
And it’s awful: During brush fires in the Sonoran desert,
Brush fires that happen before the monsoon and in the great,
Deep, wide, and smothering heat of the hottest months,
The longest months,
The hypnotic, immeasurable lulls of August and July—
During these summer fires, jackrabbits—
Jackrabbits and everything else
That lives in the brush of the rolling hills,
But jackrabbits especially—
Jackrabbits can get caught in the flames,
No matter how fast and big and strong and sleek they are.
And when they’re caught,
Cornered in and against the thick
Trunks and thin spines of the cactus,
When they can’t back up any more,
When they can’t move, the flame—
It touches them,
And their fur catches fire.
Of course, they run away from the flame,
Finding movement even when there is none to be found,
Jumping big and high over the wave of fire, or backing
Even harder through the impenetrable
Tangle of hardened saguaro
And prickly pear and cholla and barrel,
But whichever way they find,
What happens is what happens: They catch fire
And then bring the fire with them when they run.
They don’t know they’re on fire at first,
Running so fast as to make the fire
Shoot like rocket engines and smoke behind them,
But then the rabbits tire
And the fire catches up,
Stuck onto them like the needles of the cactus,
Which at first must be what they think they feel on their skins.
They’ve felt this before, every rabbit.
But this time the feeling keeps on.
And of course, they ignite the brush and dried weeds
All over again, making more fire, all around them.
I’m sorry for the rabbits.
And I’m sorry for us
To know this.