Louise Glück – Matinas (2)

Pai inalcançável, quando fomos, pela primeira vez,
exilados do paraíso, criaste
uma réplica, um lugar em certo sentido
diferente do paraíso,
concebido para ensinar uma lição: de outro modo,
o mesmo – beleza em ambos os lados, beleza
sem alternativa – Exceto
que não sabíamos qual era a lição. Deixados sozinhos,
nos consumimos. Anos
de escuridão se seguiram; nos revezávamos
cuidando do jardim, as primeiras lágrimas
encheram nossos olhos à medida que a terra
toldava-se de pétalas, algumas
vermelho escuras, outras cor de pele –
Nunca pensamos em ti,
a quem estávamos aprendendo a adorar.
Apenas sabíamos que não estava na natureza humana amar
apenas o que retribui o amor.

Trad.: Nelson Santander

Matins

Unreachable father, when we were first
exiled from heaven, you made
a replica, a place in one sense
different from heaven, being
designed to teach a lesson: otherwise
the same — beauty on either side, beauty
without alternative — Except
we didn’t know what was the lesson. Left alone,
we exhausted each other. Years
of darkness followed; we took turns
working the garden, the first tears
filling our eyes as earth
misted with petals, some
dark red, some flesh colored —
We never thought of you
whom we were learning to worship.
We merely knew it wasn’t human nature to love
only what returns love.

Louise Glück – Matinas* (1)

Brilha o sol; perto da caixa de correio, folhas
de uma bétula dividida, dobradas, plissadas como barbatanas.
Abaixo, hastes ocas de narcisos brancos, Tulipas,
Cantatrice**; folhas
escuras de violetas selvagens. Noah diz
que os depressivos odeiam a primavera, desequilíbrio
entre o mundo interior e exterior. Eu defendo
outra perspectiva – deprimida, sim, mas de alguma forma apaixonadamente
unida à árvore viva, meu corpo
realmente enrolado no tronco dividido, quase em paz, na chuva da tarde,
quase capaz de sentir
a seiva borbulhando e crescendo: Noah diz que isso é
um erro dos depressivos, identificar-se
com uma árvore, enquanto o alegre coração
vagueia pelo jardim feito uma folha que cai, uma representação
da parte, não do todo.

*N. do T.: A palavra “matins” (“matinas” em língua portuguesa) pode ser interpretada de ao menos duas maneiras: na primeira, em um contexto literário, refere-se ao canto matinal dos pássaros. Na segunda, no âmbito da liturgia católica, “Matinas” faz parte das chamadas Horas Canônicas, que eram antigas divisões de tempo adotadas pelo cristianismo e serviam como guias para as orações do dia. As Matinas eram compostas por três noturnos, sendo que cada noturno incluía três salmos e leituras extensas da Escritura e da patrística. Além das Matinas, as Horas Canônicas incluíam também as Laudes (oração matinal), a Hora Média (Terça, Sexta e Noa), as Vésperas (oração da tarde) e as Completas (rezadas antes do repouso noturno). Portanto, os poemas que constituem a série “Matins” em “The Wild Iris” (um total de sete poemas espalhados pela obra) admitem uma dupla interpretação, já que o substantivo pode se referir tanto ao mundo natural (o canto dos pássaros) quanto ao mundo divino (a oração matutina).

** N. do T.: uma espécie de narciso branco.

Trad.: Nelson Santander

Matins

The sun shines; by the mailbox, leaves
of the divided birch tree folded, pleated like fins.
Underneath, hollow stems of the white daffodils, Ice Wings, Cantatrice; dark
leaves of the wild violet. Noah says
depressives hate the spring, imbalance
between the inner and the outer world. I make
another case — being depressed, yes, but in a sense passionately
attached to the living tree, my body
actually curled in the split trunk, almost at peace, in the evening rain
almost able to feel
sap frothing and rising: Noah says this is
an error of depressives, identifying
with a tree, whereas the happy heart
wanders the garden like a falling leaf, a figure for
the part, not the whole.

Louise Glück – A íris selvagem

No fim do meu sofrimento
havia uma saída.

Ouça-me: aquilo que você chama de morte
eu me recordo.

Acima, ruídos, ramos de pinheiros se movendo.
Depois, nada. O sol fraco
cintilava sobre a superfície ressequida.

É terrível sobreviver
como consciência
enterrada na terra escura.

E então acabou: aquilo que você teme, sendo
uma alma e incapaz
de falar, terminando abruptamente, a terra dura
cedendo um pouco. E o que tomei por
pássaros se movendo nos arbustos rasteiros.

Você, que não se lembra
da passagem do outro mundo,
eu lhe digo o que poderia falar vezes sem conta: o que quer que
retorne do esquecimento retorna
para encontrar uma voz:

do cerne da minha vida jorrou
uma grande fonte, sombras azuis
profundas na água azul do mar.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: Sobre este poema, a poeta Fleda Brown diz:

“Aqui está o poema do título. Você sabe como é uma íris selvagem?
(…) Essa [flor de] íris está descrevendo como é sair debaixo da terra escura. Está descrevendo o quão terrível é permanecer enterrado durante todo o inverno, estar consciente de estar enterrado, esperando. Então o surgimento da terra, o falar com a única voz que uma flor tem, sua flor. É estranho como Glück nos faz sentir como se fossemos a íris e, na verdade, percebemos que SOMOS, como a íris, a consciência que espera para falar com nossa própria voz.(…)”

E referindo-se aos versos finais do poema:

“Eu acho que ninguém jamais descreveu a flor de íris melhor do que isso: uma grande fonte, sombras azuis profundas na água do mar azul. Não posso olhar para uma íris agora sem ver uma fonte.”

http://fledabrown.com/columnist/michigan-writers-on-the-air/louise-gluck/

Uma coincidência(?) curiosa: o poema de Glück se assemelha a um dos poemas mais estudados de Carlos Drummond de Andrade: o enigmático “Áporo“, de “A Rosa do Povo”, publicado pela primeira vez em 1945.

Apesar das diferenças de época, contexto e origem dos autores, os poemas apresentam algumas semelhanças notáveis, tais como:

1. Perspectiva não humana: ambos os poemas são narrados por uma entidade não humana – um inseto em “Áporo” e uma flor em “The Wild Iris”;

2. Ciclo da vida: os dois poemas retratam o ciclo da vida, morte e renascimento. Em “Áporo”, o inseto cava na terra, morre e renasce como uma orquídea. Em “The Wild Iris”, a flor passa pelo ciclo de vida, morte e renascimento várias vezes.

3. Metáfora para a experiência humana: os poemas, cada um a seu modo, usam suas respectivas entidades não humanas como metáforas para a experiência humana. Uma possível interpretação de “Áporo” é que o inseto simboliza o cidadão oprimido pela ditadura Vargas. Em “The Wild Iris”, a flor parece simbolizar a alma humana passando por um renascimento mental ou emocional.

O poema de Louise Glück não tem a mesma carga política do admirável texto de Drummond, mas os aspectos que os aproximam revelam muito sobre a universalidade da experiência humana e da própria natureza da poesia, com seu poder de expressar emoções profundas e explorar temas universais.

The wild iris

At the end of my suffering
there was a door.

Hear me out: that which you call death
I remember.

Overhead, noises, branches of the pine shifting.
Then nothing. The weak sun
flickered over the dry surface.

It is terrible to survive
as consciousness
buried in the dark earth.

Then it was over: that which you fear, being
a soul and unable
to speak, ending abruptly, the stiff earth
bending a little. And what I took to be
birds darting in low shrubs.

You who do not remember
passage from the other world
I tell you I could speak again: whatever
returns from oblivion returns
to find a voice:

from the center of my life came
a great fountain, deep blue
shadows on azure seawater.

Wendell Berry – Antes do Anoitecer

Da varanda no crepúsculo, observei
um martim-pescador selvagem em um voo
que ele só poderia estar realizando por deleite.

Ele desceu pelo rio, chapinhando
contra o rosto turvo da água
como uma pedra saltitante, passando

rio abaixo até sumir de vista. E ainda
eu podia ouvir o chapinhar
cada vez mais distante

à medida que escurecia. Ele voltou
pelo mesmo caminho, escuro como sua sombra,
súbito além dos salgueiros.

O chapinhar foi se tornando inaudível.
Estava escuro então. A noite
o havia acolhido em algum lugar.

— no lugar para onde ele se dirigia
ou onde, guiado por sua alegria,
ele chegou.

Trad.: Nelson Santander

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Before dark

From the porch at dusk I watched
a kingfisher wild in flight
he could only have made for joy.

He came down the river, splashing
against the water’s dimming face
like a skipped rock, passing

on down out of sight. And still
I could hear the splashes
farther and farther away

as it grew darker. He came back
the same way, dusky as his shadow,
sudden beyond the willows.

The splashes went on out of hearing.
It was dark then. Somewhere
the night had accommodated him

— at the place he was headed for
or where, led by his delight,
he came.

Joseph Stroud – Primeira Canção

Naquela distante manhã na fazenda de Ruth
quando me escondi entre as glicínias
e observei os beija-flores. Eu pensei
que o rubi ou o ouro que reluzia em seus pescoços
fosse o sangue adocicado das flores.
Eles mergulhavam seus bicos perfurantes
em uma coroa de pétalas até suas cabeças
desaparecerem. As flores se confundiam com as asas,
e a respiração que eu ouvia
vinha das finas hastes das glicínias em movimento.
Naquela noite, meu rosto pressionado contra a janela,
olhei para fora na escuridão
onde a lua se afogava nos salgueiros
junto à lagoa. Meu coração, sanguíneo jaspe,
mudou. Aquela longa noite, a fazenda,
aqueles rútilos pássaros, todos esses anos idos.
Os cavalos em pé quietos e enormes
na escuridão trespassada pela lua.

Trad.: Nelson Santander

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First Song

That long-ago morning at Ruth’s farm
when I hid in the wisteria
and watched hummingbirds. I thought
the ruby or gold that gleamed on their throats
was the honeyed blood of flowers.
They would stick their piercing beaks
into a crown of petals until their heads
disappeared. The blossoms blurred into wings,
and the breathing I heard
was the thin, moving stems of wisteria.
That night, my face pressed against the window,
I looked out into the dark
where the moon drowned in the willows
by the pond. My heart, bloodstone,
turned. That long night, the farm,
those jeweled birds, all these gone years.
The horses standing quiet and huge
in the moon-crossing blackness.

Joan Margarit – Água-forte

O granizo metralha as vidraças,
as rajadas arrasam as calçadas.
E tu e eu aqui, onde o mau tempo
resume os obstáculos que às vezes
nos levam à beira do abismo.
Olhos brilhantes de desacertos,
mãos queimadas por se salvarem agarradas
aos gelados corrimãos do inferno.
Que o acaso continue disparando
sem razão, como sempre, nas vidraças.
Além do amor – desse nosso amor –
nada faz sentido.

Trad.: Nelson Santander

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Joan Margarit – Aguafuerte

El granizo ametralla los cristales,
las ráfagas arrasan las aceras.
Tú y yo estamos aquí, donde el mal tiempo
resume los obstáculos que a veces
nos han llevado al borde del abismo.
Ojos brillantes de equivocaciones,
manos quemadas por salvarse asidas
a la helada baranda del infierno.
Que el azar continúe disparando
sin razón, como siempre, a los cristales.
Más allá del amor —de nuestro amor—
nada tiene sentido.

Manuel Vilas – Delia’s Gone

Bendito seja o suicídio.

O melhor do nosso amor foi termos nos suicidado.

Tantos suicidas em Paris, Nova Iorque,
Genebra, Londres, Estocolmo e Madrid.

Homens e mulheres que se jogam pelas janelas,
do décimo ou décimo primeiro andar,
tentando voar no absurdo vento das cidades.

Bendito seja o suicídio, que nos iguala aos anjos
mais famosos na escala do Universo.

É temperamental, a morte por amor.

Suicida-te, não significa nada, o mundo resplandecerá
ainda mais e não haverá tristeza alguma porque já então ninguém te ama.

Homens e mulheres que dispararam de negras pistolas
contra suas inocentes e derrotadas têmporas,
que castigaram seu sistema digestivo
com cápsulas verdes e brancas, rubras e amarelas.

Não suportei quando me abandonaste, meu amor.

Não suportei ficar desempregado, meu amor.

Não podia ver-te com outra, meu amor.

São Ian Curtis, São Mariano José de Larra, Santa Silvia Plath,
a santa forca, a santa pistola e o santo gás,
e o amor sempre,
o amor
tão assassino.

Diga adeus ao teu corpo, já vazio.

Bendito seja o suicídio,
que nos afasta do escrutínio de todos os Imperadores.

Bendito seja o suicídio, o grande adeus dos lunáticos.

Que bela é a morte e seu irmão, o sonho,
disse um inglês ilustre.

Não podia suportar as nuvens, o mar, as ruas,
meu amor.

Cobre-me de terra, estarei bem não estando,
meu amor.

Compra-me um caixão barato, ficarei bem assim.

Não preciso que te lembres de mim, meu amor.

Trad.: Nelson Santander

Delia’s Gone

Bendito sea el suicidio.

Lo mejor de nuestro amor fue suicidarnos.

Tantos suicidas en París, en Nueva York,
en Ginebra, en Londres, en Estocolmo y en Madrid.

Hombres y mujeres que se arrojan por las ventanas,
desde décimos o undécimos pisos,
intentando volar en el absurdo viento de las ciudades.

Bendito sea el suicidio, que nos iguala a los ángeles
más famosos en las rutinarias gradas del Universo.

Es temperamental, la muerte por amor.

Suicídate, no significa nada, el mundo resplandecerá
aún más y no habrá tristeza alguna porque nadie te ama ya.

Hombres y mujeres que dispararon negras pistolas
contra sus inocentes y vencidas sienes,
que castigaron su aparato digestivo
con cápsulas verdes y blancas, rojas y amarillas.

No soporté que me abandonaras, amor mío.

No soporté quedarme sin trabajo, amor mío.

No podía verte con otra, amor mío.

San Ian Curtis, San Mariano José de Larra, Santa Silvia Plath,
la santa horca, la santa pistola y el santo gas,
y el amor siempre,
el amor
tan asesino.

Di adiós a tu cuerpo, se ha quedado vacío.

Bendito sea el suicidio,
que nos aleja de la mirada de todos los Emperadores.

Bendito sea el suicidio, el gran adiós de los lunáticos.

Qué bella es la muerte y su hermano el sueño,
dijo un inglés ilustre.

No podía soportar las nubes, el mar, las calles,
amor mío.

Cúbreme de tierra, estaré bien no estando,
amor mío.

Cómprame un ataúd barato, estará bien así.

No hace falta que me recuerdes, amor mío.

Joan Margarit – Anos Sessenta

Lento, muito mais lento, tempo meu:
falemos sobre o amor mesmo que as rosas
tenham que acabar sempre na lixeira.
Deslumbrou-nos um futuro. Que futuro?
Sem esperança alguma, críamos em algo,
ou, porque era difícil a fé em algo,
nunca perdemos a esperança.
Restam as bandeiras vermelhas de perigo
defronte ao mar bravio.

Lembro-me de nós querendo fugir,
buscando em algum atlas
um distante país civilizado
– a despojada Islândia –
onde encontrar proteção por meio do esquecimento.
O espanto do cônsul, lembras?
Em seu escritório,
o gordo importador de bacalhau
não nos ofereceu mais
do que o fedor de peixes e os intermináveis invernos.

O sonho era destruir ícones.
E isso precisamente
foi-se tornando pouco a pouco realidade
sem nenhum drama, no dia a dia.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – Años Sesenta

Lento, mucho más lento, tiempo mío:
hablemos del amor aunque las rosas
tengan que acabar siempre en la basura.
Nos deslumbró un futuro. ¿Qué futuro?
Sin esperanza alguna, creíamos en algo
o, porque era difícil la fe en algo,
nunca perdimos la esperanza.
Quedan banderas rojas de peligro
frente a la mala mar.

Nos recuerdo a los dos queriendo huir,
buscando en algún atlas
un lejano país civilizado
—la despeinada Islandia—
donde hallar protección a través del olvido.
La extrañeza del cónsul, ¿la recuerdas?
En su oficina,
el gordo importador de bacalao
no nos ofreció más
que el hedor a pescado y los largos inviernos.

El sueño era destruir moldes.
Y eso precisamente
se ha hecho poco a poco realidad
sin dramatismo alguno, día a día.

Luis Alberto de Cuenca – Nos veremos novamente

Nos veremos novamente onde sempre é de dia
e os feios são bonitos e eternamente jovens,
onde os poderosos não abusam dos mais fracos
e, das árvores, pendem brinquedos e gibis.

Nesta morada de luz que não fere os olhos
Voltaremos, tu e eu, a dizer-nos bobagens
de mãos dadas, contemplando as ondas a morrer
sem estresse nem pressa, onde o sol não se põe.

E vivenciarei em teus lábios o amor que a Terra
sentiu pelo Céu quando o mundo era uma criança,
e o tempo deixará de solfejar sua lúgubre
canção de despedida enquanto nos abraçamos.

Volveremos a vernos

Volveremos a vernos donde siempre es de día
y los feos son guapos y eternamente jóvenes,
donde los poderosos no abusan de los débiles
y cuelgan de los árboles juguetes y tebeos.

En ese hogar de luz que no hiere los ojos
volveremos tú y yo a decirnos bobadas
cogidos de la mano, viendo morir las olas
sin agobios ni prisas, donde el sol no se pone.

Y viviré en tus labios el amor que la Tierra
sintiera por el Cielo cuando el mundo era un niño,
y el tiempo dejará de salmodiar su lúgubre
canción de despedida mientras nos abrazamos.

Karmelo C. Iribarren – A herança

Ultimamente,
quando me vejo no espelho,
é meu avô quem me encara,
mais que meu pai.

Cinquenta anos
para começar a entrar na posse
da única herança que ele me deixou,

e que acabará me matando.

Trad.: Nelson Santander

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La herencia

Últimamente,
cuando me asomo al espejo,
es mi abuelo el que me mira,
más que mi padre.

Cincuenta años
para empezar a cobrar
la única herencia que me dejó,

y que acabará matándome.