Louise Glück – Matinas* (1)

Brilha o sol; perto da caixa de correio, folhas
de uma dividida bétula, dobradas, plissadas como barbatanas.
Abaixo, hastes ocas de narcisos brancos, Tulipas,
Cantatrice**; folhas
escuras de violetas selvagens. Noah diz
que os depressivos odeiam a primavera, desequilíbrio
entre os mundos interior e exterior. Eu defendo
outra causa – deprimida, sim, mas de algum modo apaixonadamente
unida à árvore viva, meu corpo
efetivamente enrolado no tronco fendido, quase em paz, na chuva da tarde,
quase capaz de sentir
a seiva espumando e crescendo: Noah diz que isto é
um erro dos depressivos, identificar-se
com uma árvore, enquanto o coração satisfeito
vagueia pelo jardim feito uma folha que cai, uma imagem
da parte, não do todo.

*N. do T.: a palavra “matins” (“matinas” em língua portuguesa) pode ser interpretada em ao menos duas acepções: na primeira, literária, as “matins” se referem ao canto matinal dos pássaros. Na segunda, relativa à liturgia católica, as “Matinas” fazem parte das chamadas Horas Canônicas, antigas divisões de tempo adotadas pelo cristianismo que serviam como diretrizes para as orações do dia. As Matinas eram compostas por três noturnos, cada noturno com três salmos mais as leituras longas da Escritura e da patrística. Além delas, também faziam parte do ciclo das horas canônicas as Laudes (oração matinal), a Hora Média (Terça, Sexta e Noa), as Vésperas (oração da tarde) e as Completas (rezadas antes do repouso noturno).

Portanto, os poemas que compõem a série “Matins”, em “The Wild Iris” (são sete ao todo espalhados pela obra), aceitam dupla interpretação, podendo o substantivo se referir tanto ao mundo natural (o canto dos pássaros) quanto ao mundo divino (a oração da manhã).

** N. do T.: uma espécie de narciso branco.

Trad.: Nelson Santander

Matins

The sun shines; by the mailbox, leaves
of the divided birch tree folded, pleated like fins.
Underneath, hollow stems of the white daffodils, Ice Wings, Cantatrice; dark
leaves of the wild violet. Noah says
depressives hate the spring, imbalance
between the inner and the outer world. I make
another case — being depressed, yes, but in a sense passionately
attached to the living tree, my body
actually curled in the split trunk, almost at peace, in the evening rain
almost able to feel
sap frothing and rising: Noah says this is
an error of depressives, identifying
with a tree, whereas the happy heart
wanders the garden like a falling leaf, a figure for
the part, not the whole.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s