James Kirkup – Ursa Maior

Suspensa entre os álamos domesticados no fim
da avenida familiar, a Ursa
Maior, em sua rede iluminada, balança,
como um portão abandonado que nem barra nem convida para entrar,
e pendura no poste arqueado sua silhueta de sete pontas.

Desenhada com a precisão de um problema desconhecido
solucionado na sala de aula mais alta do céu vazio,
ela revela sobre o quadro negro escuro da finitude
incomensurável da noite o ponto focal de luz.
Pois embora as agulhas pareçam indicar o polo,
cada estrela olha através de nós para o espaço sideral
de onde o sol que queima atrás e além de nós
anima imediatamente cada estéril face cristalina
com brilho devastado, sobre o qual nossos olhos
devem debruçar-se no tempo para captar, e morrer ao vê-lo.

Trad.: Nelson Santander

Ursa Major

Slung between the homely poplars at the end
of the familiar avenue, the Great
Bear in its lighted hammock swings,
like a neglected gate that neither bars admission nor invites,
hangs on the sagging pole its seven-pointed shape.

Drawn with the precision of an unknown problem
solved in the topmost classroom of the empty sky,
it demonstrates upon the inky blackboard of the night’s
immeasurable finity the focal point of light.
For though the pointers seem to indicate the pole,
each star looks through us into outer space
from where the sun that burns behind and past us
animates immediately each barren, crystal face
with ravaged brilliance, that our eyes
must lean out into time to catch, and die in seeing.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – A outra rosa

Ela beijou na rosa
(seu nome era um aguilhão
feminino e brutal)
a imagem de outra rosa

gravada em uma lousa
de mármore, cristalina.
A luz era mais fina
e, ao tato, tão airosa

quanto a flor que ardia
sem pausa em sua memória.
Em outro meio-dia,

a rosa era ilusória
promessa repartida;
e o beijo, a outra vida.

Trad.: Nelson Santander

La otra rosa

Ella besó en la rosa
(su nombre fue una espina
brutal y femenina)
la imagen de otra rosa

grabada en una losa
de mármol, cristalina.
La luz era más fina
y al tacto, tan hermosa

como la flor que ardía
sin pausa en su memoria.
En otro mediodía,

la rosa era ilusoria
promesa compartida;
y el beso, la otra vida.

Donald Hall – Últimos dias

“Era razoável
esperar.” Assim ele escreveu. No dia seguinte,
em um consultório,
a hematologista de Jane, Letha Mills, sentou-se,
tensa, sua secretária
em pé, de costas para a porta.
“Trago péssimas notícias,”
disse Letha. “A leucemia voltou.
Não há nada a fazer.”
Os quatro choramos. Ele perguntou há quanto tempo,
por que isso aconteceu agora?
Jane perguntou apenas: “Posso morrer em casa?”

Em casa, naquela tarde,
eles jogaram os remédios dela no lixo.
Jane vomitou. Ele chorava
enquanto ela permanecia com os olhos secos – em silêncio,
tentando esquecer. À noite,
ele pegou o telefone para fazer
ligações que trouxeram
uma criança ou um amigo para o horror.

Na manhã seguinte,
eles trabalharam escolhendo entre seus poemas
para Otherwise, selecionaram o
hinário para o seu funeral, e trocaram
palavras enquanto escreviam
e revisavam seu obituário. No dia seguinte,
com mais coisas a fazer
em seu livro, ele percebeu o quão fraca ela se sentia,
e disse que talvez não agora; talvez
mais tarde. Jane balançou a cabeça: “Agora,” ela disse.
“Temos que termina-lo agora.”
Mais tarde, enquanto caía exausta no sono,
ela disse, “Não foi divertido?
Trabalharmos juntos? Não foi divertido?”

Ele lhe perguntou, “Com que roupa
devemos vesti-la, quando a enterrarmos?”
“Não tinha pensado nisso,” ela disse.
“Eu queria saber sobre aquele salwar kameez
branco,” ele disse –
a seda indiana favorita dela que haviam comprado
em Pondicherry um ano
e meio antes, que, mais tarde, ela usava para se sentir melhor
ou mais bonita.
Ela sorriu. “Sim. Excelente,” ela disse.
Ele não lhe contou
que um ano antes, sonhando acordado,
ele a tinha visto
no caixão em seu salwar kameez branco.

Contudo, ele não conseguia parar de
planejar. Naquela noite, ele explodiu:
“Quando Gus morrer, vou manda-lo
cremar e espalhar suas cinzas
sobre o seu túmulo!” Ela riu,
seus grandes olhos se acenderam e ela concordou:
“Vai ser bom
para os narcisos.” Ela jazia, pálida, sobre
o travesseiro florido:
“Perkins, de onde você tira essas ideias?”

Eles conversaram sobre suas
aventuras – dirigir pela Inglaterra
quando eles se casaram,
e as excursões à China e Índia.
Também se lembraram dos
dias normais – os verões no lago, trabalhando
juntos em poemas,
passeando com o cachorro, lendo Chekhov
em voz alta. Quando ele elogiou
os milhares de encontros vespertinos
que os levaram ao
êxtase e ao repouso nesta cama pintada,
Jane irrompeu em lágrimas
e gritou, “Nunca mais, porra. Nunca mais, porra!”

Incontinente nas três noites
antes de morrer, Jane precisou ser içada
para o vaso sanitário.
Ele a limpou e a ajudou a retornar para a cama.
Às cinco ele alimentou o cão
e voltou para encontra-la do outro lado do quarto,
sentada em uma poltrona reta.
Se ela não conseguia ficar em pé, como conseguiu caminhar até lá?
Ele temeu que ela caísse
e chamou uma ambulância para o hospital,
mas quando contou a Jane,
sua boca se contraiu e as lágrimas começaram.
“Temos que ir?” Ele cancelou.
Jane disse, “Perkins, esteja comigo quando eu morrer.”

“Morrer é simples,” ela disse.
“O que é pior é… a separação.”
Quando ela já não falava,
eles se deitavam juntos, tocando-se,
e ela fixava nele seus lindos,
enormes, redondos olhos castanhos,
brilhantes, sem piscar,
e apaixonados de amor e de pavor.

Um a um eles vieram,
os mais velhos e queridos, para dizer adeus
à amiga do coração.
No início, ela pronunciou seus nomes, chorou e se comoveu;
em seguida ela sorriu; depois
entortou um dos cantos da boca para cima. No último dia,
ela se despediu silenciosamente
com suas mãos retorcidas e os olhos bem abertos.

Saindo de seu lugar ao lado dela,
onde seus olhos estavam fixos, ele lhe disse:
“Vou colocar essas cartas
na caixa do correio.” Ela não tinha falado
por três horas, e então Jane disse
suas últimas palavras: “Tá bom.”

Às oito daquela noite,
seus olhos se abriram e assim permaneceram
até que ela morreu, a respiração do tronco encefálico
começou, ele se curvou para beijar
seus lábios frios e pálidos novamente, e os sentiu
uma última vez se juntando
e franzindo para beija-lo de volta.

Nas últimas horas, ela mantivera
os antebraços erguidos com os dedos pálidos cerrados
na altura da bochecha, como
a estatueta da deusa sobre a pia do banheiro.
Por vezes, seu punho direito sacudia
ou espasmava em direção ao rosto. Por doze horas,
até ela morrer, ele continuou
coçando o grande e ossudo nariz de Jane Kenyon.
Um cheiro forte, quase doce,
começou a subir de sua boca aberta.
Ele observou o peito dela ficar imóvel.
Com o polegar, ele fechou seus redondos olhos castanhos.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: Donald Hall escreveu este poema para sua esposa, a também poeta Jane Kenyon, com quem foi casado por muitos anos (de 1972 a 1995). Cerca de três anos antes de completar seu 50º aniversário, Kenyon foi diagnosticada com uma leucemia que, depois de uma breve remissão, voltou de forma devastadora e a matou, em 22/04/1995. Donald Hall morreu em 23/06/2018, aos 89 anos de idade. No blog você pode ler as traduções que fiz de alguns poemas dela: https://singularidadepoetica.art/category/jane-kenyon/

Last Days

“It was reasonable
to expect.” So he wrote. The next day,
in a consultation room,
Jane’s hematologist Letha Mills sat down,
stiff, her assistant
standing with her back to the door.
“I have terrible news,”
Letha told them. “The leukemia is back.
There’s nothing to do.”
The four of them wept. He asked how long,
why did it happen now?
Jane asked only: “Can I die at home?”

Home that afternoon,
they threw her medicines into the trash.
Jane vomited. He wailed
while she remained dry-eyed – silent,
trying to let go. At night
he picked up the telephone to make
calls that brought
a child or a friend into the horror.

The next morning,
they worked choosing among her poems
for Otherwise, picked
hymns for her funeral, and supplied each
other words as they wrote
and revised her obituary. The day after,
with more work to do
on her book, he saw how weak she felt,
and said maybe not now; maybe
later. Jane shook her head: “Now,” she said.
“We have to finish it now.”
Later, as she slid exhausted into sleep,
she said, “Wasn’t that fun?
To work together? Wasn’t that fun?”

He asked her, “What clothes
should we dress you in, when we bury you?”
“I hadn’t thought,” she said.
“I wondered about the white salwar
kameez,” he said –
her favorite Indian silk they bought
in Pondicherry a year
and a half before, which she wore for best
or prettiest afterward.
She smiled. “Yes. Excellent,” she said.
He didn’t tell her
that a year earlier, dreaming awake,
he had seen her
in the coffin in her white salwar kameez.

Still, he couldn’t stop
planning. That night he broke out with,
“When Gus dies I’ll
have him cremated and scatter his ashes
on your grave!” She laughed
and her big eyes quickened and she nodded:
“It will be good
for the daffodils.” She lay pallid back
on the flowered pillow:
“Perkins, how do you think of these things?”

They talked about their
adventures – driving through England
when they first married,
and excursions to China and India.
Also they remembered
ordinary days – pond summers, working
on poems together,
walking the dog, reading Chekhov
aloud. When he praised
thousands of afternoon assignations
that carried them into
bliss and repose on this painted bed,
Jane burst into tears
and cried, “No more fucking. No more fucking!”

Incontinent three nights
before she died, Jane needed lifting
onto the commode.
He wiped her and helped her back into bed.
At five he fed the dog
and returned to find her across the room,
sitting in a straight chair.
When she couldn’t stand, how could she walk?
He feared she would fall
and called for an ambulance to the hospital,
but when he told Jane,
her mouth twisted down and tears started.
“Do we have to?” He canceled.
Jane said, “Perkins, be with me when I die.”

“Dying is simple,” she said.
“What’s worst is… the separation.”
When she no longer spoke,
they lay along together, touching,
and she fixed on him
her beautiful enormous round brown eyes,
shining, unblinking,
and passionate with love and dread.

One by one they came,
the oldest and dearest, to say goodbye
to this friend of the heart.
At first she said their names, wept, and touched;
then she smiled; then
turned one mouth-corner up. On the last day
she stared silent goodbyes
with her hands curled and her eye stuck open.

Leaving his place beside her,
where her eyes stared, he told her,
“I’ll put these letters
in the box.” She had not spoken
for three hours, and now Jane said
her last words: “O.K.”

At eight that night,
her eyes open as they stayed
until she died, brain-stem breathing
started, he bent to kiss
her pale cool lips again, and felt them
one last time gather
and purse and peck to kiss him back.

In the last hours, she kept
her forearms raised with pale fingers clenched
at cheek level, like
the goddess figurine over the bathroom sink.
Sometimes her right fist flicked
or spasmed toward her face. For twelve hours
until she died, he kept
scratching Jane Kenyon’s big bony nose.
A sharp, almost sweet
smell began to rise from her open mouth.
He watched her chest go still.
With his thumb he closed her round brown eyes.

Louise Glück – Acalanto

Minha mãe é especialista em uma coisa:
enviar pessoas que ela ama para o outro mundo.
Os pequeninos, os bebês — estes
ela embala, sussurrando ou cantando baixinho. Não posso dizer
o que ela fez pelo meu pai;
o que quer que tenha sido, tenho certeza de que foi o certo.

De fato, é a mesma coisa preparar uma pessoa
para dormir ou para morrer. Os acalantos — todos eles dizem
para não ter medo, é assim que eles parafraseiam
os batimentos cardíacos da mãe.
Assim, os vivos se acalmam lentamente; são só
os moribundos que não conseguem, que recusam.

Os moribundos são como piões, como giroscópios —
eles giram tão rapidamente que parecem imóveis.
Eles então se partem em pedaços: nos braços da minha mãe,
minha irmã era uma nuvem de átomos, de partículas — é essa a diferença.
Quando uma criança está dormindo, ela ainda está inteira.

Minha mãe viu a morte; ela não fala sobre a integridade da alma.
Ela segurou um criança, um velho, enquanto, em comparação, a escuridão
se solidificava ao redor deles, e por fim se transformava em terra.

A alma é como toda matéria:
por que permaneceria intacta, fiel à sua única forma,
quando poderia ser livre?

Trad.: Nelson Santander

Lullaby

My mother’s an expert in one thing:
sending people she loves into the other world.
The little ones, the babies—these
she rocks, whispering or singing quietly. I can’t say
what she did for my father;
whatever it was, I’m sure it was right.

It’s the same thing, really, preparing a person
for sleep, for death. The lullabies—they all say
don’t be afraid, that’s how they paraphrase
the heartbeat of the mother.
So the living grow slowly calm; it’s only
the dying who can’t, who refuse.

The dying are like tops, like gyroscopes—
they spin so rapidly they seem to be still.
Then they fly apart: in my mother’s arms,
my sister was a cloud of atoms, of particles—that’s the difference.
When a child’s asleep, it’s still whole.

My mother’s seen death; she doesn’t talk about the soul’s integrity.
She’s held an infant, an old man, as by comparison the dark grew
solid around them, finally changing to earth.

The soul’s like all matter:
why would it stay intact, stay faithful to its one form,
when it could be free?

Warsan Shire – para mulheres que são ‘difíceis’ de amar

Você é um corcel correndo sozinha
e ele tenta doma-la
compara você a uma autoestrada impossível
para uma casa em chamas
diz que você o está cegando
que ele nunca poderia deixar você
esquecer que você
não quer nada além de você
que você o atordoa, você é insustentável
que toda mulher antes ou depois de você
está embebida no seu nome
que você enche a boca dele
que os dentes dele doem com a memória do sabor
do seu corpo apenas uma grande sombra buscando a sua
mas que você é sempre muito intensa
assustadora no jeito que você o deseja
sem-vergonha e sacrificial
ele lhe diz que nenhum homem pode viver à altura daquele
que habita a sua cabeça
e você tentou mudar, não foi?
fechou mais a boca
tentou ser mais suave
mais bonita
menos volátil, menos desperta
mas mesmo enquanto dormia você podia senti-lo
se afastando de você em seus sonhos
então o que você queria fazer amor
abrir a cabeça dele?
você não pode fazer dos seres humanos um lar
alguém já deveria ter-lhe dito isso
e se ele quer ir embora
então deixe-o ir
você é assustadora
e estranha e bela
algo que nem todos sabem como amar.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: quem me apresentou esse belo poema foi minha filha, Ariadne, que “encomendou” também a sua tradução. Como eu não sou louco de dizer não para a mulher mais assustadora e estranha e bela de minha vida, eis o resultado. É seu, filha.

for women who are ‘difficult’ to love

You are a horse running alone
and he tries to tame you
compares you to an impossible highway
to a burning house
says you are blinding him
that he could never leave you
forget you
want anything but you
you dizzy him, you are unbearable
every woman before or after you
is doused in your name
you fill his mouth
his teeth ache with memory of taste
his body just a long shadow seeking yours
but you are always too intense
frightening in the way you want him
unashamed and sacrificial
he tells you that no man can live up to the one who
lives in your head
and you tried to change didn’t you?
closed your mouth more
tried to be softer
prettier
less volatile, less awake
but even when sleeping you could feel
him travelling away from you in his dreams
so what did you want to do love
split his head open?
you can’t make homes out of human beings
someone should have already told you that
and if he wants to leave
then let him leave
you are terrifying
and strange and beautiful
something not everyone knows how to love.

Juan Vicente Piqueras – Museu da Acrópole

Uma mão de mármore, mas apenas os dedos,
sobre um ombro de mármore sem cabeça.

Um braço erodido que ninguém estende a ninguém.

Um cavalo sem patas.
Um cavaleiro que é apenas suas coxas.

Dionísio aos pedaços, recomposto.

Um touro sem chifres que está sendo devorado
por um leão que lá não está,
apenas suas garras.

Admiramos o desaparecido.
Talvez nossa cultura nasça dessas ausências,
do vazio, do que não há.

Também nós somos o que resta
de nós,
o que nos falta,
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Trad.: Nelson Santander

Museo de la Acrópolis

Una mano de mármol, pero sólo los dedos,
sobre un hombro de mármol sin cabeza.

Un brazo erosionado que nadie tiende a nadie.

Un caballo sin patas.
Un jinete que es sólo sus muslos.

Dionisos a pedazos, recompuesto.

Un toro sin cuernos que está siendo devorado
por un león que no está,
sólo sus garras.

Admiramos lo desaparecido.
Tal vez nuestra cultura nace de estas ausencias,
de lo vacío, de lo que no hay.

También nosotros somos lo que queda
de nosotros,
lo que nos falta,
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Javier Salvago – Canção do Esquecimento

A cor dos olhos daquele paixão juvenil.
O calor do primeiro beijo, do qual não me
lembro, embora saiba que deva ter sido
inesquecível. Tantos colegas e amigos
da escola ou de farra, que um dia foram próximos.
O latim. Tantos nomes de montanhas e de rios.
Tantas duras lições. Tantos e tantos livros,
devorados com paixão, sempre abertos, lidos
e esquecidos, assim como esquecemos caminhos,
propósitos, feridas, afetos e afeições,
paisagens e rostos que o tempo diluiu.

Quando a vida passa, são muitas as deslembranças.

Trad.: Nelson Santander

Canción del olvido

El color de los ojos de aquel amor de niño.
El calor del primer beso, que no consigo
recordar, aunque sé que debió de haber sido
inolvidable. Tantos compañeros y amigos
de colegio o de farra, que un día fueron íntimos.
El latín. Tantos nombres de montañas y ríos.
Tantas duras lecciones. Tantos y tantos libros,
con pasión devorados, siempre abiertos, leídos
y olvidados, igual que olvidamos caminos,
propósitos, heridas, afectos y cariños,
paisajes y rostros que el tiempo ha diluido.

Cuando la vida pasa, son tantos los olvidos.

Hannah Sullivan – 3.31 (de “Three Poems”)

O que subsistirá a nós?
Larkin pensava que a resposta poderia ser “amor,”
Mas não conseguiu prova-lo.

“A pasta de rascunhos era o lugar mais interessante.” “Sempre foi você, no final.”
“Ele tentou lhe dizer à sua maneira.”

Curtas cadeias de carbono no pó,
Esta é a resposta prática.
Velhos laptops, marca-passos, parafusos ósseos.
Filamentos de DNA revelando a causa da morte.
E-mails que mandamos e rascunhos que não enviamos.
As coisas que dissemos e as que deveríamos ter dito.

Videos pornô baixados revelam
Inclinações que chocam nossos amigos:
Mordaças de algodão, cordas ferindo as fendas
De colegiais japonesas de vinte e poucos anos.
Mas nada imundo o suficiente para interessar a estranhos.

Antigos amantes cruzam suas pernas, dobram de novo o papel,
Estudam a imagem residual na janela do metrô.
Ninguém se lembra de tudo sobre alguém.

Uma rápida limpada das axila às 6, um toque de perfume,
Dança de meia-calça, duas manchas de sangue.
Um dedo que arranca cabelos rebeldes e prende o elástico.
Neve na segunda semana de dezembro.

Mas como foi sentir aquele cheiro depois,
Em minhas mãos?

Trad.: Nelson Santander

3.31

What will survive of us?
Larkin thought the answer might be “love,”
But couldn’t prove it.

“The drafts folder was the most interesting place.” “It was always you, in the end.”
“He tried to tell you in his own way.”

Short chains of carbon in the dust,
This is the practical answer.
Old laptops, pacemakers, leg pins.
DNA fibres revealing death’s cause.
Emails we sent and drafts we didn’t send.
The things we said and those we should’ve.

Downloaded porn videos reveal
Proclivities that shock our friends:
Cotton gags, string cutting into the clefts
Of twenty-something Japanese schoolgirls.
But nothing filthy enough to interest strangers.

Old lovers cross their legs, refold the paper,
Study the afterimage in the metro window.
No one remembers everything about someone.

A quick armpit wash at 6, a fluster of perfume,
Dancing into tights, two daubs of blood.
A finger pulls vagrant hairs, snags the elastic.
Snow in the second week of December.

But how was it that you smelled afterwards,
On my hands?

Charles Simic – O altar

A estátua de plástico da Virgem
Em cima de uma penteadeira
Com um espelho enegrecido
De um salão de beleza de pesadelo.

Dois seixos do túmulo de um astro de rock,
Um pequeno e sorridente macaco de dar corda,
Uma concha, uma moeda egípcia de bronze,
E o canhoto vermelho de um ingresso de cinema.

Uma mancha de luz solar na emoldurada
Fotografia de comunhão de um menino
Com os olhos de alguém
Que irá se afogar em um lago naquele verão.

Um altar dignificando o deus do acaso.
O que é belo, ele adverte,
É encontrado acidentalmente e não procurado.
O que é belo facilmente se perde.

Trad.: Nelson Santander

The Altar

The plastic statue of the Virgin
On top of a bedroom dresser
With a blackened mirror
From a bad-dream grooming salon.

Two pebbles from the grave of a rock star,
A small, grinning wind-up monkey,
A seashell, bronze Egyptian coin,
And a red movie ticket stub.

A splotch of sunlight on the framed
Communion photograph of a boy
With the eyes of someone
Who will drown in a lake that summer.

An altar dignifying the god of chance.
What is beautiful, it cautions,
Is found accidentally and not sought after.
What is beautiful is easily lost.

X. J. Kennedy – O objetivo do tempo é evitar que tudo aconteça de uma só vez

Imagine que sua vida seja um telescópio dobrado
Atemporal, que desmoronou num piscar de olhos
Do ventre de sua mãe, você, berrando, cai
Em uma casa de repousos. Imagine que você destrói
Seu carro, seu casamento — uma criança devastando
Um campo de margaridas, estudante, adolescente espinhento
Com a amada, fechando às pressas o zíper das calças
Ao ouvir os passos de seus pais no andar de baixo — tudo de uma vez.

Einstein estava certo. Isso seria muito intenso.
Você precisa de uma chance de se exibir, de dar um recital
Enfadonho diante de uma plateia indiferente
Igualmente lenta tanto para achincalha-lo quanto para aplaudi-lo.
O tempo leva seu tempo desdobrando-se. Mas, mesmo assim,
Você irá se perguntar quando sua vida terminar: hein? O que aconteceu?

Trad.: Nelson Santander

“The Purpose of Time is to Prevent Everything from Happening at Once”

Suppose your life a folded telescope
Durationless, collapsed in just a flash
As from your mother’s womb you, bawling, drop
Into a nursing home. Suppose you crash
Your car, your marriage — toddler laying waste
A field of daisies, schoolkid, zit-faced teen
With lover zipping up your pants in haste
Hearing your parents’ tread downstairs — all one.

Einstein was right. That would be too intense.
You need a chance to preen, to give a dull
Recital before an indifferent audience
Equally slow in jeering you and clapping.
Time takes its time unraveling. But, still,
You’ll wonder when your life ends: Huh? What happened?