Jane Hirshfield – Encantamento para se recitar contra o ódio

Até que cada respiração repudie eles, aqueles, outros.
Até que a Dramatis Personae da primeira página do livro diga: “Cada um deles é você.”
Até que a esperança se dobre à sua desesperança apenas quando um ser se dobrar para outro.
Até que a crueldade se dobre às suas ações e subitamente perceba: eu.
Até que a raiva e a injúria se reconheçam como pernas incineráveis de uma mesa imprestável.
Até que se dobrem espontaneamente os indiferentes joelhos.
Até que o medo se curve para o seu objeto como a sombra de um pássaro se curva para o seu pássaro.
Até que a dor da solidão penetre as mãos, as costelas, os tornozelos.
Até que o som que o rato faz penetre a boca do gato.
Até que os inaudíveis ácidos banhem o coral.
Ate que se sinta que o que ninguém está pesando já não é mais sem peso.
Até que se sinta que o que ninguém está ganhando já não é mais subtraído.
Até que a dor, a pena, a confusão, o riso, a saudade se reconheçam nos espelhos.
Até que por nós nós queiramos dizer eu, eles, você, o rato almiscarado, o tigre, a fome.
Até que por eu nós queiramos dizer como late um cachorro, soando e sumindo, soando e sumindo completamente.
Até que por até nós queiramos dizer eu, nós, você, eles, o rato almiscarado, o tigre, a fome,
o solitário latido do cão antes de obter uma resposta.

Trad.: Nelson Santander

Spell to be said against hatred

Until each breath refuses they, those, them.
Until the Dramatis Personae of the book’s first page says “Each one is you.”
Until hope bows to its hopelessness only as one self bows to another.
Until cruelty bends to its work and sees suddenly: I.
Until anger and insult know themselves burnable legs of a useless table.
Until the unsurprised unbidden knees find themselves bending.
Until fear bows to its object as a bird’s shadow bows to its bird.
Until the ache of the solitude inside the hands, the ribs, the ankles.
Until the sound the mouse makes inside the mouth of the cat.
Until the inaudible acids bathing the coral.
Until what feels no one’s weighing is no longer weightless.
Until what feels no one’s earning is no longer taken.
Until grief, pity, confusion, laughter, longing know themselves mirrors.
Until by we we mean I, them, you, the muskrat, the tiger, the hunger.
Until by I we mean as a dog barks, sounding and vanishing and sounding and
vanishing completely.
Until by until we mean I, we, you, them, the muskrat, the tiger, the hunger,
the lonely barking of the dog before it is answered.

Warsan Shire – Casa

ninguém sai de casa a não ser que
a casa seja a boca de um tubarão
você só corre para a fronteira
quando vê a cidade inteira correndo também

seus vizinhos correm mais rápidos do que você
respiram o sangue em suas gargantas
o menino com quem você ia para a escola e
que a beijou atordoada atrás da velha fábrica de estanho
segura uma arma maior do que o próprio corpo
você só sai de casa
quando a casa não deixa você ficar.

ninguém sai de casa a não ser que a casa a persiga
fogo sob os seus pés
sangue quente em sua barriga
não é algo que você tenha planejado fazer
até a lâmina queimar ameaças em
seu pescoço
e mesmo assim você carregou o hino
silenciosamente
apenas rasgando seu passaporte em um banheiro de aeroporto
soluçando enquanto cada pedacinho de papel
deixava claro que você não iria voltar.

você tem que entender
que ninguém coloca seus filhos em um barco
a menos que a água seja mais segura do que a terra
ninguém queima as palmas das mãos
sob trens
debaixo de vagões
ninguém passa dias e noites no estômago de um caminhão
se alimentando de jornais a menos que as milhas percorridas
signifiquem algo mais do que a jornada
ninguém rasteja sob cercas
ninguém quer ser espancado
lamentado

ninguém escolhe campos de refugiados
ou revistas íntimas em que seu
corpo fica todo dolorido
ou a prisão,
porque a prisão é mais segura
do que uma cidade de fogo
e um carcereiro
na noite
é melhor do que um caminhão
de homens que se parecem com seu pai
ninguém poderia aguentar
ninguém teria estômago pra isso
nenhuma pele seria resistente o suficiente

vão
para casa negros
refugiados
imigrantes imundos
suplicantes de asilo
sugando nosso país até seca-lo
pretos com as mãos estendidas
eles cheiram estranho
selvagens
bagunçaram seu país e agora querem
bagunçar o nosso
como fazem as palavras
os olhares de reprovação
escorrem pelas suas costas
talvez porque o golpe seja mais suave
do que um membro arrancado

ou as palavras sejam mais ternas
do que quatorze homens entre
suas pernas
ou os insultos sejam mais fáceis
de engolir
do que cascalho
do que osso
do que o corpo do seu filho
em pedaços.
eu quero ir para casa,
mas a casa é a boca de um tubarão
a casa é o cano da arma
e ninguém deixaria sua casa
a menos que a casa persiga você até a costa
a menos que a casa mande você
acelerar seus passos
deixar suas roupas para trás
rastejar através do deserto
vagar pelos oceanos
afogar-se
salvar-se
passar fome
implorar
esquecer o orgulho
sua sobrevivência é mais importante

ninguém sai de casa até que a casa seja uma voz suada em seu ouvido
dizendo –
vá embora,
fuja de mim agora
eu não sei o que me tornei
mas sei que qualquer lugar
é mais seguro do que aqui

Trad.: Nelson Santander

Home

no one leaves home unless
home is the mouth of a shark
you only run for the border
when you see the whole city running as well

your neighbors running faster than you
breath bloody in their throats
the boy you went to school with
who kissed you dizzy behind the old tin factory
is holding a gun bigger than his body
you only leave home
when home won’t let you stay

no one leaves home unless home chases you
fire under feet
hot blood in your belly
it’s not something you ever thought of doing
until the blade burnt threats into
your neck
and even then you carried the anthem under
your breath
only tearing up your passport in an airport toilets
sobbing as each mouthful of paper
made it clear that you wouldn’t be going back

you have to understand,
that no one puts their children in a boat
unless the water is safer than the land
no one burns their palms
under trains
beneath carriages
no one spends days and nights in the stomach of a truck
feeding on newspaper unless the miles travelled
means something more than journey.
no one crawls under fences
no one wants to be beaten
pitied

no one chooses refugee camps
or strip searches where your
body is left aching
or prison,
because prison is safer
than a city of fire
and one prison guard
in the night
is better than a truckload
of men who look like your father
no one could take it
no one could stomach it
no one skin would be tough enough

the
go home blacks
refugees
dirty immigrants
asylum seekers
sucking our country dry
niggers with their hands out
they smell strange
savage
messed up their country and now they want
to mess ours up
how do the words
the dirty looks
roll off your backs
maybe because the blow is softer
than a limb torn off

or the words are more tender
than fourteen men between
your legs
or the insults are easier
to swallow
than rubble
than bone
than your child body
in pieces.
i want to go home,
but home is the mouth of a shark
home is the barrel of the gun
and no one would leave home
unless home chased you to the shore
unless home told you
to quicken your legs
leave your clothes behind
crawl through the desert
wade through the oceans
drown
save
be hunger
beg
forget pride
your survival is more important

no one leaves home until home is a sweaty voice in your ear
saying-
leave,
run away from me now
i dont know what i’ve become
but i know that anywhere
is safer than here

Louise Glück – Viúvas

Minha mãe está jogando cartas com minha tia,
Spite and Malice*, o passatempo da família, o jogo
que minha vó ensinava a todas as suas filhas.

É o auge do verão: quente demais para sair.
Hoje minha tia está em vantagem; ela está recebendo as cartas boas.
Minha mãe está se arrastando, com problemas em se concentrar.
Ela não consegue se acostumar com a própria cama neste verão.
Ela não teve problema nenhum no último verão,
quando teve que se acostumar com o chão. Ela aprendeu a dormir lá
para ficar perto do meu pai.
Ele estava morrendo; ele tinha uma cama especial.

Minha tia não cede nem um centímetro, não leva
em consideração o cansaço da minha mãe.
É como elas foram criadas: você demonstra respeito lutando.
Desistir insulta o oponente.

Cada jogador tem uma pilha à sua esquerda e cinco cartas na mão.
É bom estar dentro de casa em dias como este,
ficar onde está fresco.
E este é um jogo melhor do que os outros, melhor do que solitaire**.

Minha vó pensava adiante; ela preparou suas filhas.
Elas têm cartas; elas têm uma a outra.
Elas não precisam de mais companhia.

O jogo continua por toda a tarde, mas o sol não se move.
Ele segue batendo, deixando a grama amarela.
É assim que deve parecer para a minha mãe.
E então, de repente, a coisa termina.

Minha tia está nisto há mais tempo; talvez por isso ela esteja jogando melhor.
Suas cartas evaporam: é isso o que se quer, esse é o objetivo: no final,
quem não tem nada, vence.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.:

* O Spite and Malice é uma espécie de jogo de cartas tradicional, semelhante à Paciência, que pode ser jogado por duas ou mais pessoas. Nele, o objetivo é jogar todas as cartas da pilha que fica à esquerda do jogador nos três montes que ficam no centro da mesa/tabuleiro. Vence quem primeiro se livrar de todas as cartas.

** Solitaire é qualquer jogo de tabuleiro que se pode jogar sozinho (com cartas, dominós, etc.) – em especial o jogo de Paciência, jogado com cartas. Optei por manter o nome do jogo como ele é conhecido nos EUA porque a autora o emprega para fazer um eficiente jogo de palavras: embora o jogo se chame Solitaire (palavra francesa que, obviamente, significa solitário), quando as viúvas se juntam para jogá-lo, o objetivo é fugir desse estado.

Widows

My mother’s playing cards with my aunt,
Spite and Malice, the family pastime, the game
my grandmother taught all her daughters.

Midsummer: too hot to go out.
Today, my aunt’s ahead; she’s getting the good cards.
My mother’s dragging, having trouble with her concentration.
She can’t get used to her own bed this summer.
She had no trouble last summer,
getting used to the floor. She learned to sleep there
to be near my father.
He was dying; he got a special bed.

My aunt doesn’t give an inch, doesn’t make
allowance for my mother’s weariness.
It’s how they were raised: you show respect by fighting.
To let up insults the opponent.

Each player has one pile to the left, five cards in the hand.
It’s good to stay inside on days like this,
to stay where it’s cool.
And this is better than other games, better than solitaire.

My grandmother thought ahead; she prepared her daughters.
They have cards; they have each other.
They don’t need any more companionship.

All afternoon the game goes on but the sun doesn’t move.
It just keeps beating down, turning the grass yellow.
That’s how it must seem to my mother.
And then, suddenly, something is over.

My aunt’s been at it longer; maybe that’s why she’s playing better.
Her cards evaporate: that’s what you want, that’s the object: in the end,
the one who has nothing wins.

Nelson Santander – Singularidade

Logo no início do blog, publiquei alguns poemas de minha autoria, não tanto pelo valor intrínseco que cada um deles dificilmente possa ter, mas para deixa-los “arquivados” nesse grande arquivo virtual que é a internet. Dentre eles, o poema que segue é aquele que considero o menos ruim de todos os que cometi.

Como minhas duas últimas publicações (do dia 27 e 29/11) foram de poemas também intitulados “Singularidade”, achei interessante republicar a minha “Singularidade”. Se não para fins de comparação, ao menos para ilustrar como cada um de nós, valendo-nos de um mesmo tema como mote, o abordamos de maneiras distintas: Marie Howe, à maneira tradicional dos poetas modernos, com sua preocupação com o humano e a natureza; Marissa Davis – cujo poema é uma espécie de resposta a Howe – com sua fragmentação experimental da palavra e o uso do fluxo do pensamento, tão caro às vanguardas literárias do século XX; e a minha singularidade – um poema neoconcreto com suas preocupações existenciais centradas no tempo-espaço.

Nelson Santander – Singularidade

Marissa Davis – Singularidade

Singularidade

(depois de Marie Howe)

no início sem verbo
iguana & mirra
magma & mariposa-fantasma do recife
& os cordyceps fazendo cócegas em seus nervos
& cedro & arquipélago & anêmona
pássaro dodo & cardeal esperando por seu sal
vermelho do oceano & óleo cru agora lama
preta agora o mais naïve plâncton hesitante
cada ovo agarrado à cópia maleável
de mim não-mulher sem-raça
assexuada como o procarioto extático
que enfureceria o sangue do meu tio
ou a bactéria que faria viúvo
o filho mais velho da filha mais velha dele
meu tio, o filho dele nosso sol mamute
& seus incontáveis irmãos & ácaros & turfa
apatosaurus & rio nilo
& carvalho verde & nude & calafrio-corado &
queratina fermentada inseto-estripada eu & você
baço & fêmur sete-anos renovados
sete-anos vertendo & tirando & sendo esta poeira
& meus filhos & seus filhos
& os filhos deles & os filhos
dos ursos negros & gladíolos & toranja pink florida
aqui não aliados mas a mesma respiração perpétua
agarrados uns aos outros com a própria pele
frio-dormente & podridão & nascimento & ter nascido
no olimpo da menor
possibilidade uma vez antes outrora

Trad.: Nelson Santander

Singularity

(after Marie Howe)

in the wordless beginning
iguana & myrrh
magma & reef ghost moth
& the cordyceps tickling its nerves
& cedar & archipelago & anemone
dodo bird & cardinal waiting for its red
ocean salt & crude oil now black
muck now most naïve fumbling plankton
every egg clutched in the copycat soft
of me unwomaned unraced
unsexed as the ecstatic prokaryote
that would rage my uncle’s blood
or the bacterium that will widow
your eldest daughter’s eldest son
my uncle, her son our mammoth sun
& her uncountable siblings & dust mite & peat
apatosaurus & nile river
& maple green & nude & chill-blushed &
yeasty keratined bug-gutted i & you
spleen & femur seven-year refreshed
seven-year shedding & taking & being this dust
& my children & your children
& their children & the children
of the black bears & gladiolus & pink florida grapefruit
here not allied but the same perpetual breath
held fast to each other as each other’s own skin
cold-dormant & rotting & birthing & being born
in the olympus of the smallest
possible once before once

Marie Howe – Singularidade

Singularidade

(depois de Stephen Hawking)

Você às vezes não gostaria de acordar para a singularidade
que um dia fomos?

tão compactos ninguém
precisava de cama, ou comida, ou dinheiro —

ninguém se escondendo no banheiro da escola
ou sozinho em casa

abrindo a gaveta
onde os comprimidos são guardados.

Pois cada átomo que pertence a mim
Pertence a você. Lembra-se?

Não havia Natureza. Não havia
eles. Nem testes

para determinar se o elefante
sofre por sua cria ou se

o recife de coral sente dor. Oceanos
arruinados não falam Inglês ou Farsi ou Francês;

se pudéssemos acordar para o que éramos
— quando éramos oceano e antes disso

quando o céu era terra, e o animal, energia, e a rocha era
líquida e as estrelas eram espaço e espaço não era

nada — nada

antes de começarmos a acreditar que os humanos eram tão importantes
diante desta terrível solidão.

Podem as moléculas se lembrar?
o que uma vez foi? antes de algo acontecer?

Não Eu, não Nós, ninguém. Não havia
o verbo, nem o substantivo
só um ponto muito minúsculo repleto de

é é é é é

A totalidade de tudo em casa

Trad.: Nelson Santander

Singularity


(after Stephen Hawking)

Do you sometimes want to wake up to the singularity
we once were?

so compact nobody
needed a bed, or food or money —

nobody hiding in the school bathroom
or home alone

pulling open the drawer
where the pills are kept.

For every atom belonging to me as good
Belongs to you. Remember?

There was no Nature. No
them. No tests

to determine if the elephant
grieves her calf or if

the coral reef feels pain. Trashed
oceans don’t speak English or Farsi or French;

would that we could wake up to what we were
— when we were ocean and before that

to when sky was earth, and animal was energy, and rock was
liquid and stars were space and space was not

at all — nothing

before we came to believe humans were so important
before this awful loneliness.

Can molecules recall it?
what once was? before anything happened?

No I, no We, no one. No was
No verb no noun
only a tiny tiny dot brimming with

is is is is is

All everything home

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Ex libris

Eu reli novamente aqueles versos
que falavam de amor e que lemos
na noite em que ardeu Troia e nos perdemos
no fundo de seus negros universos.

Ouvi em cada folha os macios
relevos de tua pele em que achamos
haver bebido ao sol em seus racemos
e ao mar que refletia em seus cicios

fartos nossa ascensão ao precipício.
Fareja-se a luz desses momentos
Ao toque de um vinco. Há um indício

por debaixo das linhas sublinhadas,
uma brisa de ti, teus dedos lentos
abertos em quinas despovoadas.

Trad.: Nelson Santander

Ex libris

He vuelto a releer aquellos versos
que hablaban del amor y que leímos
la noche que ardió Troya y nos perdimos
al fondo de sus negros universos.

He oído en cada página los tersos
acentos de tu piel donde creímos
haber bebido al sol en sus racimos
y al mar que reflejaba en sus diversos

murmullos nuestro ascenso al precipicio.
Se puede oler la luz de esos momentos
Al tacto de un doblez. Queda un indicio

debajo de las líneas subrayadas,
un hálito de ti, tus dedos lentos
abiertos en esquinas despobladas.

Louise Glück – Abundância

Um vento frio sopra nas noites de verão, agitando o trigo.
O trigo se curva, as folhas dos pessegueiros
farfalham noite afora.

No escuro, um menino cruza o campo:
pela primeira vez, ele tocou uma garota
e então volta para casa como um homem, com a fome de um homem.

Lentamente, as frutas amadurecem —
cestas e mais cestas delas de uma única árvore,
então algumas apodrecem todos os anos,
e por algumas semanas há muitas:
antes e depois, nenhuma.

Entre as fileiras de trigo
você pode ver os ratos, lampejando e correndo
pelo terreno, não obstante as torres de trigo acima deles,
movendo-se com o vento do verão.

A lua está cheia. Um som estranho
vem do campo — talvez o vento.

Mas para os ratos é uma noite como outra qualquer de verão.
Frutos e grãos: um tempo de abundância.
Ninguém morre, ninguém passa fome.

Nenhum som, exceto o rugido do trigo.

Trad.: Nelson Santander

Abundance

A cool wind blows on summer evenings, stirring the wheat.
The wheat bends, the leaves of the peach trees
rustle in the night ahead.

In the dark, a boy’s crossing the field:
for the first time, he’s touched a girl
so he walks home a man, with a man’s hungers.

Slowly the fruit ripens—
baskets and baskets from a single tree
so some rots every year
and for a few weeks there’s too much:
before and after, nothing.

Between the rows of wheat
you can see the mice, flashing and scurrying
across the earth, though the wheat towers above them,
churning as the summer wind blows.

The moon is full. A strange sound
comes from the field—maybe the wind.

But for the mice it’s a night like any summer night.
Fruit and grain: a time of abundance.
Nobody dies, nobody goes hungry.

No sound except the roar of the wheat.

Edna St. Vincent Millay – Até tarde

Com a faca cega do Sono, se quiser,
Corte cada dia pela metade, amado —
Os anos que o Tempo tira do meu viver,
Ele deduzirá daquele outro lado!

Trad.: Nelson Santander

 

Midnight Oil *

Cut if you will, with Sleep’s dull knife,
Each day to half its length, my friend,—
The years that Time takes off my life,
He’ll take from off the other end!

 

*N do T.: O título do poema se origina da expressão inglesa burn the midnight oil (queimar o óleo da meia-noite, em tradução livre), uma expressão idiomática que significa algo como ler, estudar ou trabalhar até tarde da noite. Traduzir expressões idiomáticas ou gírias para o português no mais das vezes significa basicamente tentar encontrar expressões idiomáticas e gírias já existentes em nossa língua que tenham mais ou menos o mesmo significado da frase/gíria que se quer traduzir. Tarefa inglória, como se vê. O problema aqui é ainda maior, pois a poeta opta por cortar a expressão original pela metade (como sugere que se faça com o próprio Sono no corpo do poema) e, pior, no título da obra (midnight oil não está no corpo do poema, mas é alcançada pelo sentido geral dele). O melhor que deu para fazer aqui foi também limar a expressão trabalhar até tarde para tentar recuperar, ao menos em parte, o efeito do original.

Derek Mahon – Tudo vai ficar bem

Como eu não ficaria feliz em contemplar
as nuvens que se dissipam além da janela do sótão
e a maré alta refletida no teto?
Haverá mortes, haverá mortes,
mas não há necessidade de falar sobre isso.
Os poemas fluem espontaneamente da mão
e a fonte oculta é o coração vigilante.
O sol se levanta, apesar de tudo,
e as distantes cidades são belas e brilhantes.
Eu me deito aqui em uma profusão de luz solar
assistindo o nascer do dia e as nuvens flutuando.
Tudo vai ficar bem.

Trad.: Nelson Santander

Everything is Going to be All Right

How should I not be glad to contemplate
the clouds clearing beyond the dormer window
and a high tide reflected on the ceiling?
There will be dying, there will be dying,
but there is no need to go into that.
The poems flow from the hand unbidden
and the hidden source is the watchful heart.
The sun rises in spite of everything
and the far cities are beautiful and bright.
I lie here in a riot of sunlight
watching the day break and the clouds flying.
Everything is going to be all right.