Giuseppe Ungaretti – Natal

Republicação: “Natal”, um poema de Giuseppe Ungaretti

Avatar de Nelson Santandersingularidade - poesia e etc.

Natal

Não tenho vontade
de mergulhar-me
em um novelo
de estradas

Carrego tanto
cansaço
sobre os ombros

Deixai-me assim
como uma

coisa
colocada
em um

canto
e esquecida

Aqui
não se sente
outra presença
que o calor bom

Estou
com as quatro
cabriolas
de fumaça
da lareira.

Trad.: Luigi Lucchesi

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Eugénio de Andrade – Último Poema

É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os dióspiros ardendo na sombra.
Quem assim tem o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.

Philip Larkin – Canções de amor na velhice

Ela guardou canções, tomavam pouco espaço
E as capas lhe eram belas:
Uma que apanhou sol e de matizes baços;
Uma cheia de círculos de jarra d´água;
Uma colada, num “acesso de ordem” dela,
E colorida, pela filha – aguar-
daram assim, até que em sua viuvez as
Achou, procurando algo, e pôs-se dessa vez a

Reaprender como cada acorde, obediente
E franco, introduziu
Palavras se espalhando com hífens, e o alento
Infalível da juventude, a tomar vulto
Como uma árvore na primavera – daí o
Frescor entoado, que jazia oculto,
E a certeza do tempo armazenado, igual
À vez em que as tocou primeiro – e o principal:

O clarão dessa tão falada luz, o amor,
Rompeu, mostrou enfim,
Vogando no alto, o seu nascente resplendor,
Sempre anunciando resolver e saciar,
Pôr as coisas em ordem todo o tempo. Assim,
Empilhá-las de volta ali, chorar,
Foi duro, sem admitir, de forma inglória,
Que nunca fora assim, e não seria agora.

Trad.: Alípio Correia de Franca Neto

Love song in age

She kept her songs, they took so little space,
The covers pleased her:
One bleached from lying in a sunny place,
One marked in circles by a vase of water,
One mended, when a tidy fit had seized her,
And coloured, by her daughter –
So they had waited, till in widowhood
She found them, looking for something else, and stood

Relearning how each frank submissive chord
Had ushered in
Word after sprawling hyphenated word,
And the unfailing sense of being young
Spread out like a spring-woken tree, wherein
That hidden freshness sung,
That certainty of time laid up in store
As when she played them first. But, even more,

The glare of that much-mentioned brilliance, love,
Broke out, to show
Its bright incipience sailing above,
Still promising to solve, and satisfy,
And set unchangeably in order. So
To pile them back, to cry,
Was hard, without lamely admitting how
It had not done so then, and could not now.

Aqui: https://alipiocorreia.wordpress.com/2013/07/16/alguns-poemas-de-philip-larkin-ingles-portugues/

Neil Gaiman – As coletoras de cogumelos

The Mushroom Hunters, by Neil Gaiman

Como você sabe, meu pequeno, a ciência é o estudo
da natureza e do comportamento do universo.
Ela se baseia na observação, na experimentação e na medição,
e na formulação de leis para descrever os fatos revelados.

Nos velhos tempos, dizem, os homens já vinham equipados com cérebros
projetados para seguir cárneas-feras em uma corrida,
para se lançarem cegamente no desconhecido,
e depois encontrarem o caminho de volta para casa mesmo quando perdidos
e tendo que carregar um antílope morto entre eles.
Ou, em dias ruins de caça, nada.

As mulheres, que não precisavam correr até a presa,
tinham cérebros que detectavam marcos e traçavam caminhos entre eles
a partir do espinheiro e através dos cascalhos
e olhavam embaixo do tronco de uma árvore meio caída,
porque às vezes havia cogumelos.

Antes do tacape, ou do cutelo de sílex,
a primeira de todas as ferramentas foi a tipoia de bebê para
manter nossas mãos livres
e algo onde colocar os frutos silvestres e os cogumelos,
as raízes e as folhas boas, as sementes e as lagartas.
Depois, um pilão de pedra para rachar, esmagar, moer ou triturar.

E às vezes os homens caçavam as feras
nas florestas profundas,
e nunca mais voltavam.

Alguns cogumelos irão matá-lo
enquanto outros revelarão deuses para você
e alguns alimentarão a fome em nossas barrigas. Identifique.
Outros nos matarão se os comermos crus,
e ainda nos matarão se os cozinharmos apenas uma vez,
mas se os fervermos em água de nascente, e despejarmos a água,
e fervermos novamente, e despejarmos a água,
só então poderemos come-los com segurança. Observe.

Observe o parto, meça o inchaço das barrigas e o formato dos seios,
e através da experiência descubra como trazer bebês ao mundo com segurança.

Observe tudo.

Como as coletoras de cogumelos percorreram os seus caminhos
e observaram o mundo, e compreenderam o que observaram.
E como algumas delas prosperaram e lamberam os lábios,
enquanto outras apertaram seus estômagos e sucumbiram.
Assim foram elaboradas e transmitidas as leis sobre o que é seguro. Formule.

As ferramentas que fabricamos para edificar nossas vidas:
nossas roupas, nossa comida, nosso caminho para casa…
tudo isso se baseou na observação,
na experimentação, na medição, na verdade.

E a ciência, você se lembra, é o estudo
da natureza e do comportamento do universo,
baseado na observação, no experimento, e medição,
e na formulação de leis para descrever esses fatos.

A corrida continua. Um dos primeiros cientistas
desenhou feras nas paredes das cavernas
para mostrar aos seus filhos, agora todos gordos de cogumelos
e frutos silvestres, o que seria seguro caçar.

Os homens continuam correndo atrás de feras.

As cientistas caminham mais lentamente até o topo da colina,
descem até a beira da água e passam pelo lugar onde corre a argila vermelha.
Elas carregam seus bebês nas tipoias que teceram,
liberando suas mãos para colher os cogumelos.

Trad.: Nelson Santander

The mushroom hunters

Science, as you know, my little one, is the study
of the nature and behaviour of the universe.
It’s based on observation, on experiment, and measurement,
and the formulation of laws to describe the facts revealed.

In the old times, they say, the men came already fitted with brains
designed to follow flesh-beasts at a run,
to hurdle blindly into the unknown,
and then to find their way back home when lost
with a slain antelope to carry between them.
Or, on bad hunting days, nothing.

The women, who did not need to run down prey,
had brains that spotted landmarks and made paths between them
left at the thorn bush and across the scree
and look down in the bole of the half-fallen tree,
because sometimes there are mushrooms.

Before the flint club, or flint butcher’s tools,
The first tool of all was a sling for the baby
to keep our hands free
and something to put the berries and the mushrooms in,
the roots and the good leaves, the seeds and the crawlers.
Then a flint pestle to smash, to crush, to grind or break.

And sometimes men chased the beasts
into the deep woods,
and never came back.

Some mushrooms will kill you,
while some will show you gods
and some will feed the hunger in our bellies. Identify.
Others will kill us if we eat them raw,
and kill us again if we cook them once,
but if we boil them up in spring water, and pour the water away,
and then boil them once more, and pour the water away,
only then can we eat them safely. Observe.

Observe childbirth, measure the swell of bellies and the shape of breasts,
and through experience discover how to bring babies safely into the world.

Observe everything.

And the mushroom hunters walk the ways they walk
and watch the world, and see what they observe.
And some of them would thrive and lick their lips,
While others clutched their stomachs and expired.
So laws are made and handed down on what is safe. Formulate.

The tools we make to build our lives:
our clothes, our food, our path home…
all these things we base on observation,
on experiment, on measurement, on truth.

And science, you remember, is the study
of the nature and behaviour of the universe,
based on observation, experiment, and measurement,
and the formulation of laws to describe these facts.

The race continues. An early scientist
drew beasts upon the walls of caves
to show her children, now all fat on mushrooms
and on berries, what would be safe to hunt.

The men go running on after beasts.

The scientists walk more slowly, over to the brow of the hill
and down to the water’s edge and past the place where the red clay runs.
They are carrying their babies in the slings they made,
freeing their hands to pick the mushrooms.

Joan Margarit – Nada engrandece um velho

Nem essa violência com a qual desejo
ter sempre razão.
Nem tampouco crer que a felicidade
tem uma relação, sutil, com a mentira.
Nem chegar a ter
o coração tão sujo como o meu,
apesar de ter sido a guerra que o sujou.
Minha paz deve ser uma falsa paz.
Tampouco não abjurar a luxúria
e a vaidade.
Como podemos ser vaidosos, os velhos? Essa é a nossa derrota.
Um campo de batalha onde, ao anoitecer,
estou cercado pelos mortos enquanto ouço
vozes distantes de jovens
celebrando o que hoje,
para eles, é ainda a vitória.

Trad.: Nelson Santander

Nada enaltece a un viejo

Ni esa violencia con la que deseo
tener siempre razón.
Ni tampoco creer que la felicidad
tiene una relación, sutil, con la mentira.
Ni llegar a tener
tan sucio el corazón como los míos,
a pesar de que a ellos los ensució la guerra.
Mi paz debe ser una paz falsa.
Tampoco no abjurar de la lujuria
ni de la vanidad.
¿Cómo podemos ser vanidosos, los viejos? Esa es nuestra derrota.
Un campo de batalla donde, al oscurecer,
me rodean los muertos mientras oigo
lejanas voces de gente joven
celebrando lo que hoy,
para ellos, es aún la victoria.

Javier Salvago – Variações sobre um velho tema

Os violinos de Verlaine.
Os sonhados caminhos da tarde, de don Antonio.*
Um velho cheiro de campo.
Um velho cheiro de lápis e cadernos.
O céu cinzento.
O vento entre as árvores.
A carícia das primeiras chuvas.
A tristeza sem causa.
A solidão sonora.
A noite, cada vez mais escura e prolongada.
Um cigarro que, subitamente, tem o sabor do primeiro cigarro.
Uma velha canção que te devolve os teus quinze anos.
Toda tua vida em imagens, que surgem atropeladamente como
em um filme mal editado…

É chegado o outono.

Trad.: Nelson Santander

*N. do T.: o poeta se refere ao famoso poema “Chanson D’Automne”, de Verlaine (https://singularidadepoetica.art/2019/04/02/paul-verlaine-chanson-dautomne-em-seis-traducoes/ ) e ao  poema “Yo voy soñando caminos”, do poeta espanhol Antonio Machado (Sevilla, 26/07/1875 – Colliure, 22/02/1939), que pode ser acessado nesse link: https://albalearning.com/audiolibros/machado/yovoysonando.html 

Variaciones sobre un viejo tópico

Los violines de Verlaine.
Los soñados caminos de la tarde, de don Antonio.
Un viejo olor a campo.
Un viejo olor a lápices y a cuadernos.
El cielo gris.
El viento entre los árboles.
La caricia de las primeras lluvias.
La tristeza sin causa.
La soledad sonora.
La noche, cada vez más oscura y más larga.
Un cigarrillo que de pronto te sabe al primer cigarrillo.
Una antigua canción que te devuelve tus quince años.
Toda tu vida en imágenes, que acuden atropelladamente como
en una película mal montada…

Ha llegado el otoño.

Wendell Berry – Questionário

1. Quanto veneno você está disposto
a consumir para o sucesso do livre
mercado e do comércio internacional? Por favor,
indique seus venenos preferidos.

2. Em nome do bem, quanto
mal você está disposto a praticar?
Preencha os campos abaixo
com os nomes de suas maldades e
atos de ódio favoritos.

3. Que sacrifícios você está disposto
a fazer pela cultura e pela civilização?
Por favor, liste os monumentos, santuários
e obras de arte que você
destruiria de bom grado.

4. Em nome do patriotismo e de nossa
bandeira, quanto de nossa amada
terra você está disposto a profanar?
Liste nos espaços a seguir
as montanhas, rios, cidades e fazendas
sem as quais você poderia passar mais facilmente.

5. Descreva sucintamente as ideias, ideais ou esperanças,
as fontes de energia, as questões de segurança
pelas quais você mataria uma criança.
Indique, por favor, as crianças que
você estaria disposto a matar.

Trad.: Nelson Santander

Questionnaire

1. How much poison are you willing
to eat for the success of the free
market and global trade? Please
name your preferred poisons.

2. For the sake of goodness, how much
evil are you willing to do?
Fill in the following blanks
with the names of your favorite
evils and acts of hatred.

3. What sacrifices are you prepared
to make for culture and civilization?
Please list the monuments, shrines,
and works of art you would
most willingly destroy.

4. In the name of patriotism and
the flag, how much of our beloved
land are you willing to desecrate?
List in the following spaces
the mountains, rivers, towns, farms
you could most readily do without.

5. State briefly the ideas, ideals, or hopes,
the energy sources, the kinds of security,
for which you would kill a child.
Name, please, the children whom
you would be willing to kill.

Audre Lorde – As abelhas

Na rua, em frente a uma escola,
o que as crianças aprenderam
as possui.
Garotos gritam enquanto apedrejam um enxame de abelhas
que tenta se reunir
entre a janela do refeitório e uma grade de ferro.
Os garotos arremessam pedras furiosas
despedaçando as janelas.
As abelhas, zumbindo sua raiva,
demoram a atacar.
Então, um dos meninos é picado
em uma destruição mais rápida
e os inspetores escolares aparecem com
longas varas de madeira estendidas diante deles
eles avançam sobre a colmeia
destruindo os salões de cera quase concluídos
esmagando os novos túneis
enquanto o mel fresco escorre
pelos cabos de suas vassouras
e os pés dos moleques se tornam peritos
em destruição,
pisoteando as aturdidas abelhas restantes
na terra.

Curiosas e afastadas
quatro garotinhas assistem a tudo fascinadas
aprendendo uma secreta lição
e tentando entender elas mesmas a destruição.
Uma delas grita:
“Ei, as abelhas não estavam causando nenhum problema!”
e atravessa as ruínas que zumbem debilmente
para espreitar o vazio recanto raspado
“Nós poderíamos ter estudado a fabricação do mel!”

Trad.: Nelson Santander

The bees

In the street outside a school
what the children learn
possesses them.
Little boys yell as they stone a flock of bees
trying to swarm
between the lunchroom window and an iron grate.
The boys sling furious rocks
smashing the windows.
The bees, buzzing their anger,
are slow to attack.
Then one boy is stung
into quicker destruction
and the school guards come
long wooden sticks held out before them
they advance upon the hive
beating the almost finished rooms of wax apart
mashing the new tunnels in
while fresh honey drips
down their broomsticks
and the little boy feet becoming expert
in destruction
trample the remaining and bewildered bees
into the earth.

Curious and apart
four little girls look on in fascination
learning a secret lesson
and trying to understand their own destruction.
One girl cries out
“Hey, the bees weren’t making any trouble!”
and she steps across the feebly buzzing ruins
to peer up at the empty, grated nook
“We could have studied honey-making!”

Barbara Ras – Você não pode ter tudo

Mas você pode ter a figueira e suas folhas fartas como mãos de palhaço
enluvadas de verde. Você pode ter o toque de um único dedo de onze anos de idade
em seu rosto, acordando-a à uma da madrugada para dizer que o hamster reapareceu.
Você pode ter o ronronar do gato e o olhar comovente
do cachorro preto, o olhar que diz: se eu pudesse morderia
toda dor até que ela a abandonasse, e quando fosse agosto
você poderia tê-la em agosto e em abundância. Você pode ter amor,
embora frequentemente ele seja misterioso como a espuma branca
que borbulha no topo da panela sobre o feijão vermelho
até que você perceba que o gêmeo da espuma é o sangue.
Você pode ter a pele no centro entre as pernas de um homem,
tão sólida, tão parecido com um boneco. Você pode ter uma vida intelectual,
brilhando ocasionalmente em vestes sacerdotais, nunca admitindo a mesquinhez,
jamais se rebaixando para subornar o guarda taciturno que lhe avisará sobre
todas as estreitas estradas da fronteira.
Você pode, às vezes, falar uma língua estrangeira,
o que pode significar algo. Você pode visitar a lápide
onde seu pai chorou abertamente. Você não pode trazer os mortos de volta,
mas pode ter as palavras perdoar e esquecer de mãos dadas
como se fossem passar a vida toda juntas. E você pode ser grata
pela maquiagem, pelo jeito que ela beija seu rosto, parte tempero, parte amnésia, grata
por Mozart, suas muitas notas correndo umas com as outras em direção à alegria, pelas toalhas
absorvendo as gotas em sua pele limpa, e pela sede mais profunda,
pelo maracujá, pela saliva. Você pode ter o sonho,
o sonho do Egito, os cavalos do Egito e você cavalgando na areia escaldante.
Você pode ter o seu avô sentado ao lado da sua cama,
pelo menos por algum tempo, você pode ter nuvens e cartas, o salto
de distâncias, e comida indiana com um molho amarelo como o nascer do sol.
Você não pode contar com a graça de ser a escolhida no meio da multidão
mas eis aqui sua amiga para ensinar-lhe salto em altura,
sobre como se lançar sobre o sarrafo, de costas,
até que você aprenda sobre o amor, sobre a doce rendição,
e aqui estão os caramujos, ônibus que se ajoelham, fazendas na mente
tão reais como a África. E quando a maturidade a desapontar,
você ainda pode invocar a lembrança do cisne negro na lagoa
de sua infância, do pão de centeio com manteiga de amendoim e bananas
que sua avó lhe dava enquanto o resto da família dormia.
Há a voz que você ainda pode invocar à vontade, como a de sua mãe,
ela sempre irá sussurrar, você não pode ter tudo,
mas tem isso.

Trad.: Nelson Santander

You can’t have it all

But you can have the fig tree and its fat leaves like clown hands
gloved with green. You can have the touch of a single eleven-year-old finger
on your cheek, waking you at one a.m. to say the hamster is back.
You can have the purr of the cat and the soulful look
of the black dog, the look that says, If I could I would bite
every sorrow until it fled, and when it is August,
you can have it August and abundantly so. You can have love,
though often it will be mysterious, like the white foam
that bubbles up at the top of the bean pot over the red kidneys
until you realize foam’s twin is blood.
You can have the skin at the center between a man’s legs,
so solid, so doll-like. You can have the life of the mind,
glowing occasionally in priestly vestments, never admitting pettiness,
never stooping to bribe the sullen guard who’ll tell you
all roads narrow at the border.
You can speak a foreign language, sometimes,
and it can mean something. You can visit the marker on the grave
where your father wept openly. You can’t bring back the dead,
but you can have the words forgive and forget hold hands
as if they meant to spend a lifetime together. And you can be grateful
for makeup, the way it kisses your face, half spice, half amnesia, grateful
for Mozart, his many notes racing one another towards joy, for towels
sucking up the drops on your clean skin, and for deeper thirsts,
for passion fruit, for saliva. You can have the dream,
the dream of Egypt, the horses of Egypt and you riding in the hot sand.
You can have your grandfather sitting on the side of your bed,
at least for a while, you can have clouds and letters, the leaping
of distances, and Indian food with yellow sauce like sunrise.
You can’t count on grace to pick you out of a crowd
but here is your friend to teach you how to high jump,
how to throw yourself over the bar, backwards,
until you learn about love, about sweet surrender,
and here are periwinkles, buses that kneel, farms in the mind
as real as Africa. And when adulthood fails you,
you can still summon the memory of the black swan on the pond
of your childhood, the rye bread with peanut butter and bananas
your grandmother gave you while the rest of the family slept.
There is the voice you can still summon at will, like your mother’s,
it will always whisper, you can’t have it all,
but there is this.

Ursula K. Le Guin – Hino ao tempo

O Tempo diz “Que haja”
e instantaneamente, a todo instante,
existe espaço e o esplendor
de cada galáxia brilhante.

E olhos contemplando o céu cintilante.
E a dança dos mosquitos, tremulante.
E a extensão do mar.
E a morte, e o azar.

O tempo deixa espaço
para ir e voltar para casa
e no ventre do tempo
tudo começa e acaba.

Tempo é ser e ser é tempo
é tudo o mesmo elemento,
o brilho, a visão,
a abundante escuridão.

Trad.: Nelson Santander

Hymn to time

Time says “Let there be”
every moment and instantly
there is space and the radiance
of each bright galaxy.

And eyes beholding radiance.
And the gnats’ flickering dance.
And the seas’ expanse.
And death, and chance.

Time makes room
for going and coming home
and in time’s womb
begins all ending.

Time is being and being
time, it is all one thing,
the shining, the seeing,
the dark abounding.