Joan Margarit – Não há milagres

Chovia preguiçosamente.
Dezenove de outubro, nove da noite.
Joana foi assustada para a sala de cirurgia
em nossa companhia.
Quando entrou, ficamos esperando
na sala mal iluminada ao lado dos elevadores.
Contam que, em uma tentativa
de se salvar, ela disse um eu te amo ao cirurgião.
Acreditávamos que uma fada poderia nos devolver
Joana, calma, como sempre,
com seus confiantes olhos cintilantes.
Às onze, observamos
as gotas de chuva na vidraça
como se escorressem pela noite.
A noite era a lâmina de uma foice.

Trad.: Nelson Santander

NO HAY MILAGROS

Llovía con desidia.
Diecinueve de octubre, las nueve de la noche.
Joana iba asustada hacia el quirófano
en nuestra compañía.
Cuando entró nos quedamos a esperar
en la salita mal iluminada junto a los ascensores.
Cuentan que en un intento
de salvarse le dijo te quiero al cirujano.
Creíamos que un hada podría devolvernos
a Joana, tranquila, la de siempre,
con sus confiados ojos centelleantes.
A las once, mirábamos
las gotas de la lluvia en el cristal
como si resbalaran por la noche.
La noche era una hoja de guadaña.

Joan Margarit – Enquanto tu dormes

Na praça tomada pela chuva
observo a alta janela iluminada
que não quero perder: não hei de render-me
à condenação da vida.
Este lugar não mais pertence à cidade:
uma praça vazia com a luz
do hospital refletindo nas poças.
As portas automáticas
se abrem de vez em quando e dão lugar
a uma obscura figura corriqueira.
Muletas cruzam, invisíveis, a rua
e se aproximam de um carro, o nosso,
o que nos levará sob a chuva
até o silêncio da dor futura.
Teu calor efêmero.
Triste felicidade a desta paz
enquanto me lembro que tu e eu tivemos
manhãs que retinham nossos olhos.
Apavorava-me tanto
deixar-te sozinha um dia.
Por mais fraca e pequena que seja
a janela iluminada na noite,
esta é a minha consolação:
não haverá maior desamparo do que o meu.

Trad.: Nelson Santander

MIENTRAS TÚ DUERMES

En la plaza tomada por la lluvia
miro la alta ventana iluminada
que no quiero perder: no he de rendirme
a la condena de la vida.
Este lugar ya no es de la ciudad:
una plaza sin nadie con la luz
de hospital reflejándose en los charcos.
Las puertas automáticas
se abren de vez en cuando y dejan paso
a una oscura figura rutinaria.
Unas muletas cruzan, invisibles, la calle
y se acercan a uno de los coches, el nuestro,
el que nos llevará bajo la lluvia
hacia el silencio del dolor futuro.
Tu calidez efímera.
Triste felicidad la de esta paz
mientras recuerdo que tú y yo teníamos
mañanas que guardaban nuestros ojos.
Me daba tanto miedo
dejarte sola un día.
Por débil y pequeña que en la noche
llegue a ser la ventana iluminada,
éste es mi consuelo:
no habrá más desamparo ya que el mío.

Pere Rovira – Oração para J. M. R.

Música do amor, que te escondes
em lugares escuros, doces, como rosas do jazz,
ilumina o dia azul, espalha-te sob os pinheiros
e faz brilhar as flores, as paredes e a terra.
Sê aquela água secreta que esperávamos,
e, por um momento, devolve-nos
a eterna criança que hoje abandonamos
em poços invisíveis.
Um pouco de um instante, para que nos ajude
a não chorar de medo e de vergonha
sentindo seu mistério de bondade.
Dá-nos, música de ouro, lágrimas tão puras
quanto a vida que enterraremos hoje.
Música sagrada, faz-lhe companhia,
tu que vens do outro mundo para o nosso,
tu que já sabes como é o seu silêncio.

Pere Rovira (5 de junio de 2001)

ORACIÓN PARA J. M. R.

Música del amor, que te escondías
en sitios negros, dulces, como rosas del jazz,
enciende el día azul, extiéndete debajo de los pinos
y haz que brillen las flores, los muros y la tierra.
Sé aquella agua secreta que esperaba,
y, un instante, devuélvenos
la niña eterna que hoy abandonamos
en pozos invisibles.
Un poco de un instante, para que nos ayude
a no llorar de miedo y de vergüenza
sintiendo su misterio de bondad.
Danos, música de oro, unas lágrimas limpias
como la vida que hoy enterraremos.
Música santa, hazle compañía,
tú que vienes del otro mundo al nuestro,
tú que ya sabes cómo es su silencio.

Pere Rovira (5 de junio de 2001)

Nelson Santander – Apresentação de “Joana”, de Joan Margarit

Em 16 de fevereiro deste ano, falecia, aos 82 anos de idade, vítima de um câncer, Juan Margarit I Consarnau, o grande poeta, arquiteto e catedrático catalão (foi professor da disciplina Cálculos Estruturais da Escola Superior de Arquitetura de Barcelona, de 1964 até sua aposentadoria, em 1998), vencedor do Prêmio Miguel de Cervantes (2019), dentre inúmeras outras distinções literárias. Foi, sem dúvida, um dos maiores poetas catalães de todos os tempos.

Pouco conhecido no Brasil (e mesmo em Portugal), sua morte mereceu escassas resenhas da imprensa brasileira, que não fez justiça à importância do poeta para as letras catalã e espanhola (ele escreveu simultaneamente e publicou toda a sua obra nas duas línguas) e para a literatura mundial. Joana Emídio Marques, do sítio eletrônico Observador, de Portugal, em coluna escrita quando da publicação, naquele país, da coletânea Misteriosamente Feliz (tradução de Miguel Filipe Mochila. Edição/reimpressão: novembro de 2020. Editora: Flâneur / Língua Morta) vai ao ponto:

Abrimos a antologia ‘Misteriosamente Feliz’, lemos uns quantos poemas e ficamos estarrecidos: como é que este poeta nos anda a passar despercebido há mais de 40 anos?

Uma das grandes utopias da modernidade tecnológica, cientifica, digital é prometer-nos de que nada nos escapará. Que estamos no mundo todo sem sair de casa, que tudo o que há a saber e a descobrir está ao nosso alcance num clic. No entanto, muitos de nós não conhecemos Joan Margarit, o enorme poeta que se tornou um dos símbolos da cultura catalã e da Catalunha independente. Seguramente um dos grandes poetas do século XXI.

Margarit não é apenas um dos mais amados e premiados poetas da Catalunha, é também um dos mais lidos poetas contemporâneos espanhóis. Até porque, apesar de escrever em catalão, o poeta encarrega-se ele próprio de traduzir tudo para castelhano, pelo que a sua obra é amplamente conhecida e aumenta a nossa estranheza de não haver editores interessados em divulgá-la.

Joana Emídio Marques (https://observador.pt/especiais/joan-margarit-pode-um-homem-salvar-uma-lingua/ Consulta em 20/08/2021)

Quando me deparei pela primeira vez com a poesia de Joan Margarit, em 2018, soube que ali estava um poeta pouquíssimo conhecido em língua portuguesa que merecia ser lido por essas bandas. Passei então a traduzir poemas colhidos na internet e escolhidos ao sabor de minhas predileções pessoais. O primeiro deles foi Discurso do método, publicado no blog em 07/06/2018. Desde então, já traduzi e publiquei mais de 50 poemas Joan Margarit (há outros no forno, a serem publicados oportunamente). Caso alguém queira conhecer esses poemas, clique na tag com o nome do poeta ou aqui: https://singularidadepoetica.art/category/joan-margarit/

Eventualmente, acabei me deparando, de forma esparsa, com alguns poemas que se destacavam aos meus olhos não só pela qualidade, excepcional, mas acima de tudo pelo tema que eles abordavam: a experiência do poeta diante da morte de uma de suas filhas. Esses poemas, publicados no livro que leva o mesmo nome da filha falecida – Joana – me impressionaram profundamente, não só pela sua temática, mas também por sua beleza dolorosa e cristalina. O primeiro desses poemas que traduzi e publiquei (em julho de 2018) foi Um pobre instante, cujos primeiros versos foram assim traduzidos por mim:

A morte não é mais do que isto: um quarto,
a luminosa tarde na janela,
e este toca-fitas na mesinha
tão desligado como o teu coração
com todas as tuas canções cantadas para sempre.
[…]

Joan Margarit, “Um pobre instante”, in Joana (2002)

Esses versos iniciais são a pura essência do realismo lírico da poesia de Joan Margarit: o verso claro, simples, coeso, o diálogo com os clássicos na técnica de se valer de uma questão de alta indagação (a morte) que vai sendo refinada e resumida a objetos da realidade cotidiana (o quarto, a tarde que brilha do outro lado da janela, o toca-fitas da filha que partiu) para poder ser abarcada em toda sua dimensão e tornar-se suportável. Os outros poemas de Joana que traduzi com o passar do tempo – todos retirados de publicações na internet – eram de igual qualidade.

Mas eu só pude compreender o que Joana realmente representava quando recentemente adquiri este livro e pude ler todos os poemas que o compõem de uma sentada. Não vou sequer tentar descrever o impacto que uma obra dessas causa no apreciador de poesia. Qualquer adjetivação soaria artificial. Peço aos pouco mais de 10 seguidores que eventualmente acessam esta página que o façam por eles mesmos e, se quiserem, deixem seus comentários.

Sim, porque a partir de amanhã começarei a publicar no blog os poemas que compõem Joana, em sua íntegra, na ordem em que foram dispostos no livro.

Antes, porém, a despeito do próprio Joan Margarit esclarecer sucintamente o como, o quando e o porquê de ter escrito este livro, na introdução da obra que será publicada amanhã, cumpre fazer uma breve introdução para quem não conhece o contexto geral em que a obra foi gestada.

Joan Margarit era casado com Mariona Ribalta com quem teve quatro filhos: Mònica, Anna, Joana e Carles. Dos quatro filhos, Joan e Mariona sepultaram dois: Anna, que morreu pouco depois de nascer, em 67. E Joana, falecida em 2001, com 30 anos de idade, de câncer.

Joana nascera com uma síndrome rara (síndrome de Rubinstein-Taybe) que lhe causou uma série de deficiências físicas e mentais – o que não a impediu de ter uma vida afetiva riquíssima no seio da família. Nas palavras de Joan Margarit:

(Joana) Foi, desde muito cedo, uma pessoa muito especial: de um lado — por causa de suas deficiências, que lhe deixaram o amor como única ferramenta para sobreviver — era incapaz de rancor, de orgulho, de quaisquer dos mais ínfimos sinais de maldade. Por outro lado, a paixão pela vida e sua sensibilidade lhe permitiam compreender e utilizar todas as conexões sentimentais com as pessoas. Ter sido seu pai significou estar sempre ao lado do que a vida pode oferecer de mais delicado e bondoso. Isto não quer dizer que tenha sido uma época sem dificuldades, sofrimentos e crises de desespero, especialmente até que a saúde encontrasse o ponto de equilíbrio necessário dentro de suas limitações. Nada se compara a poder cuidar de alguém a quem se ama, mas é difícil encontrar alguém como Joana com quem estabelecer uma relação de uma alegria e ternura tão profundas que, com o passar dos anos, já não se sabe quem cuida de quem.

Joan Margarit, prólogo, in Joana (2002)

Joana já era uma presença importante em outras obras anteriores de Joan Margarit, mas a sua morte marca um antes e um depois na vida e na obra do poeta. Impactado com o sofrimento da última etapa da vida da amada cria, ele começa, oito meses antes da morte dela, a escrever os poemas que comporiam o livro. Joana, com efeito, foi escrito entre outubro de 2000 e setembro de 2001 e publicado em 2002.

Na introdução feita para a republicação da obra em 2020, o também poeta e catedrático Luis García Montero explica:

“Joana (2002) é o livro em que Joan Margarit deixou o testemunho dos últimos dias de vida e morte da sua filha Joana, no ano de 2001 […]. A grave deficiência com que nasceu e a dependência durante anos da mãe e do pai foi uma experiência decisiva, capaz de transformar os sentimentos e as razões do existir. Essa experiência aos poucos foi marcando os passos de um amor, de uma convivência, de uma realização e de uma obra poética. Uma realidade tão contundente e enraizada, vivida com honestidade, não pode ser abordada com retórica, nem com estratégias adoçantes, ou com lisonjas falaciosas, ou com excessos ostensivos. Só pode verbalizar-se ou formalizar-se através de um compromisso íntimo com a verdade. Não faltam experiências e vozes vazias. A poesia é o lugar sagrado onde este poeta secular decidiu não aceitar a mentira, não se enganar, não se camuflar entre enganos ao olhar para o presente, relembrar o passado ou ter ilusões sobre o futuro. E não se trata de levantar em posse de uma Verdade escrita em maiúsculas, mas de comprometer-se a não mentir. Não há dogmatismo sem lealdade ética com as vigas da própria identidade.”

in Joana, Joan Margarit, Editora Fondo de Cultura Económica de España, 1ª edição (23 março de 2020)

É impossível mergulhar na leitura dos poemas de Joana e sair indiferente da experiência. Tentando mitigar a tristeza que permeou todo o período no qual o livro foi escrito, Margarit não nos poupa de nada. Em um verdadeiro striptease da alma, a via crucis emocional que ele é obrigado a percorrer no período nos é apresentada sem censura. Está tudo lá: o sofrimento por um futuro inevitável, sua descrença nos aspectos espirituais da morte, as dolorosas intervenções cirúrgicas às quais a filha foi submetida, o sofrimento e a dor experimentados por ela, a deterioração progressiva da saúde no final, os reflexos familiares, a morte, o funeral, o pós-morte, os remorsos etc.. Comove a coragem com que o poeta enfrenta essa realidade dilacerante, optando conscientemente por não se iludir sobre o futuro, enquanto agarra-se desesperadamente a fiapos de construções intelectuais para tentar seguir em frente, com resignação:

[…]
Mas, se estás morrendo, ainda vives,
e faço irromper a última alegria
em teu rosto cansado enquanto tomo
entre as minhas tuas pequenas mãos.
E repito para mim mesmo:
morrer ainda é viver.
[…]

Joan Margarit, “Súplica”, in Joana (2002)

Por isso, ele não se poupa nem nos poupa de nada: talvez imbuído do objetivo – mencionado no prólogo – de fechar este ciclo para reencontrar, se é que é possível, a Joana de antes, Margarit é assustadoramente sincero:

[…].
Com a testa apoiada na vidraça
peço perdão às minhas filhas mortas,
porque já quase nunca penso nelas.
[…]

Joan Margarit, “No final da noite”, in Joana (2002)

Mas o leitor se decepcionará se julgar que Joana é um recanto apenas de dor e expiação. Embora escrito por um pai devastado pela perda da filha amada, a obra é também o produto final de um artesão da palavra, que, por princípio e técnica compositiva, busca, sempre que possível, fugir ao subjetivismo:

“Tenho a tendência, mesmo nos poemas mais subjetivos, de tirar o máximo possível do sentimento – o sujeito – para que prevaleça um certo senso de objetividade naqueles que leem o poema”

Joan Margarit, em entrevista a José Luis Morante [https://www.joanmargarit.com/category/noticies/page/4/], consultado em 30/08/2021

E, embora profundamente triste, o livro não chega a ser pessimista. Algo que perpassa todo o livro é a percepção da passagem do tempo e da marca que ela deixa em cada um de nós. Assim, os poemas de Joana são sobretudo uma forma de não esquecer, apesar da marcha implacável do tempo. Não esquecer a ternura, o amor, os escassos momentos de deleite.

Sobre Joana já se disse:

[…] Talvez o melhor que se possa dizer sobre um livro seja que ele é necessário. Além da vida e além da literatura, é isso. Poucas vezes esses versos comoventes produziram tamanha sensação de conforto.

Javier Rodríguez Marcos, Conforto e desolação, El País, 17/05/2002 [https://elpais.com/diario/2002/05/18/babelia/1021679426_850215.html], consultado em 21/08/2021

Joana é um livro sofrido, pungente. Mas é também, ao seu modo triste, um livro de esperança e de amor. E, por todas estas razões, imprescindível.

Espero que os que me leem compartilhem comigo do mesmo entusiasmo.

Nelson Santander

Francisco Brines – Últimos dias

Na herdade ele confina a memória
e o corpo que declina. Tudo morre
sobre este mundo vivo; e a laranjeira,
e o voo do pombo, são traspassados
por um raio outonal de azul.
Acompanham-lhe os livros; as caminhadas
trazem até ele o odor de rosas abertas,
e o suave abatimento dos dias.
Ele ardeu na solidão, e agora escuta
a primavera viva dos melros.
Dias há em que foge de casa,
e no sul, próximo às águas, onde habitam
os jovens, ele se hospeda. Aprecia-lhes
a nudez, suas risadas, a ilusão
que depositam na vida. E eles tocam
nele uma estranheza, seu olhar
vivo, a abolição do entusiasmo.
A Cidade dos Jovens não dorme,
é fogo e é silêncio enquanto o hóspede
se prepara para retornar. Em sua alcova,
retomará a lenta despedida
da vida. Com rosas, e pombos,
e o único desejo que ainda o tenta:
seu próximo retorno à Cidade.
Uma noite, tenta um poema
pessoal, embora vago, como se escrito
por ele, quando jovem, pressentindo
os dias venturosos da velhice.
E é o último engano de sua vida.

Trad.: Nelson Santander

Días Finales


En la heredad recluye la memoria
y el cuerpo que declina. Todo muere
sobre este mundo vivo; y el naranjo,
y el vuelo del palomo, es traspasado
por un rayo otoñal desde el azul.
Se acompaña de libros; los paseos
llevan a él olor de abiertas rosas,
y el suave abatimiento de los días.
Ardió en la soledad, y ahora escucha
la primavera viva de los mirlos.
Algunos días huye de la casa,
y al sur, junto a las aguas, donde habitan
los jóvenes se hospeda. Agradece
su desnudez, sus risas, el engaño
que tienen de la vida. Y ellos tocan
en él una extrañeza, su mirada
viva, la abolición del entusiasmo.
La Ciudad de los Jóvenes no duerme,
es fuego y es silencio, cuando el huésped
se dispone al regreso. En su alcoba
recobrará la lenta despedida
de la vida. Con rosas, y palomos,
y el único deseo que aún le tienta:
su próximo regreso a la Ciudad.
Alguna noche intenta algún poema
personal, aunque vago, como escrito
por él, cuando era joven, presintiendo
los días venturosos de vejez.
Y es el último engaño de su vida

Joan Margarit – Faróis na noite

Tento seduzir-te no passado.
As mãos ao volante e esta luz
de boate no painel me permitem
– fantasia invernal – dançar contigo.
Atrás de mim, como um grande caminhão,
o amanhã fabrica explosões de luzes.
Ninguém o conduz e ele me ultrapassa,
mas agora tu e eu viajamos juntos
e a carruagem pode ser a dos cavalos
dos anos sessenta para Paris.
“Je ne regrette rien”, canta Edith Piaf.
Desço o vidro, infiltra-se a noite
fria da rodovia, e o passado
se aproxima de frente, velozmente:
cruza e me cega sem baixar as luzes.

Trad.: Nelson Santander

Faros en la noche

Intento seducirte en el pasado.
Las manos al volante y esta luz
de club nocturno del tablier me dejan
-fantasía invernal- bailar contigo.
Detrás de mí, igual que un gran camión,
el mañana hace ráfagas de luces.
No lo conduce nadie y me adelanta,
pero ahora tú y yo viajamos juntos
y el coche puede ser el dos caballos
de los años sesenta hacia París.
«Je ne regrette rien» canta Edith Piaf.
Bajo la ventanilla, entra la noche
fria de la autopista, y el pasado
se aproxima de cara, velozmente:
cruza y me ciega sin bajar las luces.

Francisco Brines – Discurso pagão

Achais, por acaso, que por crerdes
na imortalidade
ela vos deve ser dada?
Ela é obra da fé, do egoísmo
ou da desolação.
E, se existe, não importa não haverdes nela acreditado:
respostas ignorantes são todas humanas
se a morte interroga.

Continuai com vossos faustosos ritos, oferendas aos deuses,
ou grandes monumentos funerários,
as acolhedoras preces, vossa esperança cega.
Ou aceitai o vazio que virá,
onde nem mesmo um vento estéril soprará.
O que há de vir pertencerá a todos,
pois não há mérito em nascer
e nada justifica nossa morte.

Trad.: Nelson Santander

Alocución pagana

¿Es que, acaso, estimáis que por creer
en la inmortalidad,
os tendrá que ser dada?
Es obra de la fe, del egoísmo
o la desolación.
Y si existe, no importa no haber creído en ella:
respuestas ignorantes son todas las humanas
si a la muerte interroga.

Seguid con vuestros ritos fastuosos, ofrendas a los dioses,
o grandes monumentos funerarios,
las cálidas plegarias, vuestra esperanza ciega.
O aceptad el vacío que vendrá,
en donde ni siquiera soplará un viento estéril.
Lo que habrá de venir será de todos,
pues no hay merecimiento en el nacer
y nada justifica nuestra muerte.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – A última vez de Casanova

Giacomo se envolve no crepúsculo do Florian

Perguntas-me, Lesbia, quantos dos teus beijos
seriam suficientes para me satisfazer.
Catulo

Enquanto beijo tua boca, doce
donzela na conquista, mordo
as comissuras de tua mãe
e os lábios que tuas irmãs
cedem ao peso do desejo;
beijo as próximas mulheres
distantes e ainda desconhecidas
por minha cobiça, aquelas
que um dia serão tu em outra
tu, que agora pressionas meus lábios
contra tua máscara de névoa,
e abres o negro veludo
onde minha angústia deposita,
com um grito úmido e abafado,
o rubi do meu coração
fumegante ao pé de teu reflexo.

Trad.: Nelson Santander

La última vez de Casanova

Giacomo se envuelve en el crepúsculo del Florian

Me preguntas cuántos besos tuyos, Lesbia,
me bastarían para estar satisfecho.
Cátulo

Mientras beso tu boca, dulce
doncella en la conquista, muerdo
las comisuras de tu madre
y los labios que tus hermanas
ceden al peso del deseo;
beso a las próximas mujeres
lejanas y desconocidas
aún por mi codicia, aquellas
que algún día serán tú en otra
tú, que ahora oprimes mis labios
contra tu máscara de niebla,
y abres el negro terciopelo
donde mi angustia deposita,
con un grito húmedo y sordo,
el rubí de mi corazón
humeante al pie de tu reflejo.

Javier Salvago – Outra idade

Já passou a idade de ser poeta
porque tudo passa, é a lei da vida;
embora eu continue, por dependência ou vício,

falando a um pedaço de papel, a poesia
já não é mais minha pátria, nem meu território.
Só regresso às vezes, de visita,

como quem volta para onde foi feliz.

Trad.: Nelson Santander

Otra edad

Se me pasó la edad de ser poeta
porque todo se pasa, es ley de vida;
aunque siga, por vicio o por querencia,

hablándole a un papel, la poesía
ya no es mi patria, ni mi territorio.
Sólo regreso a veces, de visita,

como quien vuelve a donde fue dichoso.