Jorge Luis Borges – Limites

Há uma linha de Verlaine que não voltarei a recordar,
Há uma rua próxima que está vedada a meus passos,
Há um espelho que me viu pela última vez,
Há uma porta que fechei até o fim do mundo.
Entre os livros de minha biblioteca (estou vendo-os)
Há algum que já nunca abrirei.
Este verão cumprirei cinqüenta anos:
A morte me desgasta, incessante.

Trad.: Antonio Cicero

REPUBLICAÇÃO. Poema publicado no blog originalmente em 17/02/2016.

Límites

Hay una línea de Verlaine que no volveré a recordar,
Hay una calle próxima que está vedada a mis pasos,
Hay un espejo que me ha visto por última vez,
Hay una puerta que he cerrado hasta el fin del mundo.
Entre los libros de mi biblioteca (estoy viéndolos)
Hay alguno que ya nunca abriré.
Este verano cumpliré cincuenta años:
La muerte me desgasta, incesante.

De Inscripciónes (Montevideo, 1923), de Julio Platero Haedo

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Polaroide

Polaroide

para Eugenio Montejo

São sete contra a parede, em pé, e um sentado.
Mal conservam os traços desbotados
pelos anos. Os rostos resistem ao desgaste,
embora já não possuam as cores vivas
que ontem os distinguiram. Entre livros e taças,
os olhares sorridentes, as mãos dadas
celebrando a vida na prata e gelatina*
se apagam na sépia de sua jovem promessa.
No verso da foto estão escritos a data,
os nomes e o local desse encontro. Fomos
ao lançamento do livro de um dos amigos
que aparece na polaroide olhando para o vazio.
Depois houve a festa e mais tarde o acidente
nos levou ao cemitério. Dissemos em voz alta
os seus poemas. Os sete contra a parede, em pé,
um lia. Todos ainda nos lembramos dele
e quase que por hábito visito-o levando
girassóis. Todos envelhecemos,
menos ele, ali de olhos fixos. Ele nos olha
de seus 20 anos, que são os anos de sua ausência,
com olhos infinitos voltados para a câmera,
um verão após o outro, embora comece
a degradar seu tom alaranjado no duro
papel-cartão da fotografia.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: neste verso, o poema parece apresentar um interessante jogo de palavras. O poema descreve a torrente de sensações e lembranças que acomete o eu-lírico do poeta diante de uma velha fotografia. Ora, o filme fotográfico “utilizado em fotografia, é constituído por uma base plástica, (…) sobre a qual é depositada uma emulsão fotográfica. Esta é formada por uma fina camada de gelatina que contém cristais de sais de prata sensíveis à luz que chega a ela através da lente da câmera” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Filme_fotogr%C3%A1fico). Por outro lado, o substantivo “plata” significa também moedas de prata e, por extensão, dinheiro. Assim, o verso tanto pode estar-se referindo à fotografia em si quanto ao conteúdo dela: um grupo de jovens amigos bem sucedidos e bem alimentados celebrando a vida em um passado indeterminado.

Polaroid

para Eugenio Montejo

Son siete contra el muro, de pie, y uno sentado.
Apenas si conservan los rasgos desleídos
por los años. Las caras resisten su desgaste,
aunque ya no posean los nítidos colores
que ayer las distinguieron. Entre libros y copas,
las miradas sonrientes, las manos enlazadas
celebrando la vida de plata y gelatina
se borran en el sepia de su joven promesa.
Por detrás de la foto están escritos la fecha,
los nombres y el lugar de aquel encuentro. Fuimos
a presentar el libro de uno de los amigos
que aparece en la polaroid viendo hacia el vacío.
Después se hizo la fiesta y más tarde el accidente
nos llevó al cementerio. Dijimos en voz alta
sus poemas. Los siete contra el muro, de pie,
uno leía. Todos aún lo recordamos
y casi por costumbre le voy a visitar
con girasoles. Todos hemos envejecido
menos él, ahí en la vista fija. Nos mira
desde sus 20 años, que son los de su ausencia,
con ojos infinitos de frente hacia la cámara,
llevándose un verano tras otro, aunque comience
a degradar su tono naranja sobre el duro
cartón de la fotografía.

Pedro Salinas – Não Te Vejo

Não te vejo. Bem sei
que estás aqui, atrás
de uma frágil parede
de ladrilhos e cal, bem ao alcance
da minha voz, se chamasse.
Mas não chamarei.
Chamarei amanhã,
quando, ao não te ver mais
imagine que continuas
aqui perto, ao meu lado,
e que basta hoje a voz
que ontem eu não quis dar.
Amanhã… quando estiveres
lá atrás de uma
frágil parede de ventos,
de céus e de anos.

Trad.: Antonio Cicero

REPUBLICAÇÃO. Poema originalmente publicado no blog em 17/02/2016.

No te veo

No te veo. Bien sé
que estás aquí, detrás
de una frágil pared
de ladrillos y cal, bien al alcance
de mi voz, si llamara.
Pero no llamaré.
Te llamaré mañana,
cuando, al no verte ya
me imagine que sigues
aqui cerca, a mi lado,
y que basta hoy la voz
que ayer no quise dar.
Mañana… cuando estés
allá detrás de una
frágil pared de vientos,
de cielos y de años.

Anabel Torres – Quando meu corpo e minha cabeça

Quando meu corpo e minha cabeça
começaram a arder e a provocar incêndios,
minha mãe, como bombeiro enlouquecido,
me perseguia por toda a casa.

Apontava contra mim, implacável
o poderoso jorro de seu medo
e tratava de me enterrar.

Assim cresci.

Meu pai era diferente.

Defendia diante de mim, por igual, e com igual veemência e convicção
as vantagens do gelo e do fogo.

Quando meus incêndios chegavam
a seu máximo ponto de fusão
se afastava, discreto.

Se fracassavam,
me sugeria novos lugares.
Me dava pistas sobre alguns incêndios que ele havia provocado.
Me falava das maravilhas da sombra
ou me trazia fósforos.

Se estava longe, mandava longas cartas,
celebrando a vida, a palavra,
nossa comum piromania.

E sempre acrescentava esse p.s.:
“Anabel, o dólar é estritamente para sorvetes ou fósforos”.

Quando meu pai temia por minha segurança
– e sem dúvida temia, pois conhecia não só meu amor pelo fogo
mas minha propensão às queimaduras –
o fazia sozinho, em sua casa.

Minha mãe, criada em San Benito, residente
do purgatório
bela
como um cesto de tangerinas
quando não era seu dia de turno,
com seu sorriso de cerejeiras e pássaro em seus dias livres,
ao morrer me amou por sobre todas as coisas:
não permitiu que eu herdasse sua mangueira.
Devolveu-a à sua família,
à casa de onde veio intacta.

Meu pai, ao morrer, há três anos, continuou morrendo.
Logrou tão dificilmente morrer, que inclusive
desde então
já saiu ileso de alguns atentados.

Amava tanto a vida. Era tão vigoroso
frente ao frio.
Era tão rico em incêndios.

Trad.: Carlito Azevedo

Cuando mi cuerpo y mi cabeza

Cuando mi cuerpo y mi cabeza
empezaron a arder y a hacer incendios,
mi madre, como un bombero enloquecido
me perseguía por toda la casa.

Apuntaba hacia mí, implacable,
el potente chorro de su miedo
y trataba de tumbarme.

Así crecí.

Mi padre fue distinto.

Defendió ante mí, por igual, y con igual vehemencia y convicción
las ventajas del hielo y el fuego.

Cuando mis incendios llegaban
a su máximo punto de fusión
se apartaba, discreto.

Si fracasaban,
me sugería nuevos sitios.
Me daba claves sobre algunos incendios que él había
hecho propios.
Me hablaba de las maravillas de la sombra
o me traía fósforos.

Si estaba lejos, mandaba largas cartas,
celebrando la vida, la palabra,
nuestra común piromanía.

Y siempre agregaba esta postdata:
‘Anabel, el dólar es estrictamente para helados
o fósforos’.

Cuando mi padre temía por mi seguridad
– y debió temer, pues conocía no sólo mi gusto por el fuego
sino mi propensión a las quemaduras –
lo hacía solo, en su casa.

Mi madre, criada en San Benito, residente
del purgatorio,
hermosa
como un reguero de mandarinas
cuando no estaba de turno,
con su risa de cerezos y pájaro en sus días libres,
al morir me amó por encima de todas las cosas:
No permitió que yo heredara su manguera.
La devolvió a su familia,
a la casa de donde era intacta.

Mi padre, al morir hace tres años, siguió muriendo.
Logró tan difícilmente morir, que incluso
desde entonces
ha salido ileso de algunos atentados.

Amaba tanto la vida. Era tan vigoroso
frente al frío.
Era tan rico en incendios.

Joana – Sumário

Joana – Joan Margarit

Tradução: Nelson Santander

SUMÁRIO

Apresentação de “Joana”, de Joan Margarit

Joana – Prólogo

Oração para J. M. R.

Enquanto tu dormes

Não há milagres

Riera Pahissa

Amanhecer em Cádiz

Luzes de natal em Sant Just

Às quatro da madrugada

Manhã de domingo com a música de Lluís Claret

Metrô Fontana

Pai e filha

Sant Just, 2 de março de 2001

A felicidade

Oceano Atlântico, 1956

História natural

Água

Mãe e filha

Pilhagem

Súplica

Mari

Última caminhada

Um pobre instante

O dia depois da morte

Teu lobo

Final

Noite de junho

Espaço e tempo

Uma história

Uma fotografia pendurada na parede

Passageira

Recordações militares

Canção de ninar

O presente e Forès

Professor Bonaventura Bassegoda

O primeiro verão sem ti

Quadro com pássaros

Lápide

A espera

Um lugar perdido

No final da noite

Joan Margarit – No final da noite

O ar está congelando.
Até o rouxinol mantém-se em silêncio.
Com a testa apoiada na vidraça
peço perdão às minhas filhas mortas,
porque já quase nunca penso nelas.
O tempo passou, deixando sobre a cicatriz
sua argila empoeirada, e ocorre que, mesmo
quando se ama alguém, sobrevém o esquecimento.
A luz tem a mesma aspereza das gotas
que vão, com o degelo, caindo dos ciprestes.
Ponho uma tora, removo as cinzas,
ressurge a chama entre as brasas.
Começo a fazer café
e vossa mãe, do quarto,
sorri com sua voz: Que cheiro bom.
Acordaste muito cedo esta manhã.

Trad.: Nelson Santander

Joana e Joan, em 2000. Foto: arquivo da família Margarit Ribalta

JOANA FOI ESCRITO DE 10 DE OUTUBRO DE 2000 A 1 DE SETEMBRO DE 2001

What will survive of us is love.
PHILIP LARKIN

Nota a JOANA


Este livro foi escrito violando todos os conselhos que os poetas nos damos sobre a distância obrigatória entre os fatos e o poema. Uma vez que precisava escreve-lo assim, e, ademais, já começo a ter idade suficiente para ignorar os conselhos, usei como garantia a vigilância poética — pela qual ora agradeço — de meus amigos Pere Rovira, Paco Díaz de Castro, Ramón Andrés, Enrique Badosa, Luis García Montero, Antonio Jiménez Millán, Miguel Ángel e Ana del Arco, Isidor Cònsul, Maite Merodio e Jesús Munárriz, Àlex Susanna e Sam Abrams. E de Almudena del Olmo, que, diante das minhas dúvidas, me disse: Não penses mais nisso e dá-lhe o título do que é realmente a tua obsessão: Nunca mais. Foi assim que este livro começou a ser intitulado, mas no final ganhou o nome simples da protagonista, em relação à qual, ao fim e ao cabo, o título sugerido não passava de uma afirmação filosófica. Como me recordou Sam Abrams, o mesmo corvo de Poe diz Nevermore, e o nosso Nunca mais é Never again.

AL FONDO DE LA NOCHE

Está helando en el aire.
Guarda silencio hasta el ruiseñor.
Con la frente apoyada en el cristal
pido perdón a mis dos hijas muertas,
porque ya casi nunca pienso en ellas.
El tiempo ha ido dejando sobre la cicatriz
su polvorienta arcilla, y es que, incluso
cuando uno ama a alguien, sobreviene el olvido.
La luz tiene la misma dureza de las gotas
que van, con el deshielo, cayendo del ciprés.
Pongo un leño, remuevo las cenizas,
vuelve a surgir la llama entre las brasas.
Empiezo a hacer café
y vuestra madre, desde el dormitorio,
sonríe con su voz: Qué buen aroma.
Has madrugado mucho esta mañana.

JOANA FUE ESCRITO DEL 10 DE OCTUBRE DE 2000 AL 1 DE SEPTIEMBRE DE 2001

What will survive of us is love.
PHILIP LARKIN

Nota a JOANA

Este libro fue escrito vulnerando todos los consejos que los poetas damos sobre la obligada distancia entre los hechos y el poema. Puesto que necesitaba hacerlo así y, además, ya empiezo a tener la edad de saltarme los consejos, he utilizado como garantía la vigilancia poética —que aquí agradezco— de mis amigos Pere Rovira, Paco Díaz de Castro, Ramón Andrés, Enrique Badosa, Luis García Montero, Antonio Jiménez Millán, Miguel Ángel y Ana del Arco, Isidor Cònsul, Maite Merodio y Jesús Munárriz, Àlex Susanna y Sam Abrams.Y de Almudena del Olmo, que, ante mis dudas, me dijo: No le des más vueltas y ponle por título lo que realmente es tu obsesión: Nunca más. Así se empezó titulando este libro, pero al final ha ganado el sencillo nombre de la protagonista frente al que, al fin y al cabo, no era más que una afirmación filosófica. Como me
ha recordado Sam Abrams, el mismo cuervo de Poe dice Nevermore, y nuestro Nunca más es Never again.

Joan Margarit – Um lugar perdido

UM LUGAR PERDIDO
In memoriam
Marta Ribalta i Taltavull (17-VIII-1946, 11-V-1999)
Joana Margarit i Ribalta (20-VIII-1970, 2-VI-2001)

Reluz o sol do conto de fadas
que para Marta foi esta casa
pequena e luminosa em frente aos campos.
Ninguém tocou em um único tronco
da lenha cortada e ordenada.
Joana fez um desenho para ela
onde lhe dizia: Que sejas muito feliz.
Quando Joana tinha dois anos éramos
tu e eu que lhe dizíamos:
Que sejas muito feliz.

Não é difícil imaginar que as duas
ainda estão aqui,
sentir a brisa das conversas
agitando o cortinado da porta.
Mas não há nada além de nossos olhos.
E os arranham velozes andorinhas
que agora se lançam
com seus chilreios entre as árvores frutíferas.

Trad.: Nelson Santander

UN LUGAR PERDIDO
In memoriam
Marta Ribalta i Taltavull (17-VIII-1946, 11-V-1999)
Joana Margarit i Ribalta (20-VIII-1970, 2-VI-2001)

Reluce el sol del cuento de la infancia
que para Marta fue esta luminosa,
pequeña casa enfrente de los campos.
Nadie ha tocado un solo tronco
de la leña cortada y ordenada.
Joana hizo un dibujo para ella
en donde le decía: Que seas muy feliz.
A los dos años éramos tú y yo
los que a Joana le decíamos:
Que seas muy feliz.

No es difícil pensar que, todavía,
siguen aquí las dos,
sentir la brisa de conversaciones
agitando el visillo de la puerta.
Pero no hay nada más que nuestros ojos.
Y los rayan veloces golondrinas
que ahora están lanzándose
con sus chillidos entre los frutales.

Joan Margarit – A espera

Muitas coisas estão sentindo a tua falta.
Cada dia é repleto de momentos que esperam
aquelas pequenas mãos
que seguraram as minhas tantas vezes.
Teremos de nos habituar à tua ausência.
Um verão já passou sem teus olhos
e o mar também terá que se acostumar.
Por muito tempo ainda,
a rua esperará diante de nossa porta,
pacientemente, pelos teus passos.
Não se cansará nunca de esperar:
ninguém sabe esperar como uma rua.
E a mim me domina este desejo
de que me toques e de que me olhes,
de que me digas o que fazer com minha vida,
enquanto os dias, com chuva ou céu azul,
já organizam a solidão.

Trad.: Nelson Santander

LA ESPERA

Muchas cosas te están echando en falta.
Cada día se llena de momentos que esperan
esas pequeñas manos
que cogieron las mías tantas veces.
Tendremos que avezarnos a tu ausencia.
Ya ha pasado un verano sin tus ojos
y el mar también tendrá que acostumbrarse.
Durante mucho tiempo todavía,
la calle esperará ante nuestra puerta,
con paciencia, tus pasos.
No se cansará nunca de esperar:
nada sabe esperar como una calle.
Y a mí me colma esta voluntad
de que me toques y de que me mires,
de que me digas qué hago con mi vida,
mientras los días van, con lluvia o cielo azul,
organizando ya la soledad.

Joan Margarit – Lápide

LÁPIDE
ANNA, 1967; JOANA, 1970-2001

Nossa memória guarda vossos nomes
em uma pequena praia que jamais
figurará nos mapas dos navios.
Quão próximas estais aqui, uma da outra,
minhas filhas, depois de tanto tempo.
Tão unidas agora, atrás de vossos nomes,
que olham para o mar
e que o sol lê a cada amanhecer.

Trad.: Nelson Santander

LÁPIDA
ANNA, 1967; JOANA, 1970-2001

Nuestra memoria guarda vuestros nombres
en una leve playa que jamás
figurará en los mapas de los barcos.
Qué cerca estáis aquí, la una de la otra,
hijas mías, después de tanto tiempo.
Tan juntas ya, detrás de vuestros nombres,
que miran hacia el mar
y que el sol lee cada amanecer.

Joan Margarit – Quadro com pássaros

A parede é, deste lado, escura e triste,
como naquela história
que um dia te contei. Fosse de verdade,
todos os pássaros que pintaste
estariam a tua espera do outro lado
cantando para ti:
acolher-te-ia aquela parte clara
de que falava a história
como o faríamos tua mãe e eu
se pudesses voltar para casa novamente.

Conto para mim mesmo esta história
enquanto olho para os últimos pássaros que pintaste.
Aqui, do lado sombrio da parede,
como poderia eu pagar por esta ilusão
de sentir-te na brisa de um momento?

Trad.: Nelson Santander

CUADRO CON PÁJAROS

El muro es, de este lado, oscuro y triste,
igual que en aquel cuento
que un día te expliqué. De ser verdad,
todos los pájaros que tú pintaste
te esperarían en el otro lado
cantando para ti:
te acogería esa parte clara
de la que hablaba el cuento
como lo haríamos tu madre y yo
si pudieses volver de nuevo a casa.

Me explico a mí mismo esta historia
mientras miro los últimos pájaros que pintaste.
Aquí, en el lado lóbrego del muro,
¿de qué forma podría pagar esta ilusión
de sentirte en la brisa de un momento?