Categoria: Poesia em Língua Espanhola
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Jorge Valdés Díaz-Vélez – Xochiquetzal

Xochiquetzal1 (Homenagem a Chuang-Tzu2) Ontem sonhei contigo. Vestias uma gabardine de pele, e por baixo nada.Era outono e estavas ensopadapela chuva; caminhavas em alguma gare de Madrid indo para lugarnenhum. Estancavas ocasionalmenteteus passos para sentires transluzentetua pele resplandecer ao luar de um espelho invisível em que haviaum homem que sonhava com uma mulhere uma mulher…
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Laia Noguera Clofent – [Amo a vida simples]
![Laia Noguera Clofent – [Amo a vida simples]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2023/02/img_53191-scaled.jpg)
Amo a vida simples,de me sentar à entradapara ver as pessoas passar,como se move um pardal,como se inclina a tardenas casas do corpo. Já sei que morrereimuito antes de morreremas árvores que amo. Mas isso não me preocupa,porque no instanteem que se me romper o último fioserei só aquela mulherque se sentava à entradapara simplesmente…
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Vicente Gaos – Testamento

Eu, Vicente Gaos, natural do nada, de mil séculos de idade, de estado civilsolitário, instáveldomiciliado/refugiado num canto do cosmos,de profissão náufrago na sombra,sem carteira de identidade, sem títulos, condecorações nem diplomas de espécie alguma,sem qualquer sinal particular visível no peito nem em nenhuma outra parte do corpo,sem outra cicatriz além de uma necrose do miocárdio,uma…
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Ernesto Pérez Vallejo – Perdão, falava em voz alta

Queres mesmo que eu seja sincero? Se não esperas nada de ninguémNunca poderão desapontá-la.A esperança é aquele relógioque sempre marca a hora errada. Se não escolheres o caminho errado algumas vezescomo diabos saberás qual deles era o certo? Nos momentos felizes, não sabemos ao certo se estamos tristes.Mas, quando tristes, todos sabemos quando estávamos felizes.…
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Javier Salvago – Fim de Festa

Enfim sós, vida. A festa acaboue não resta ninguém para nos obrigara sorrir, ou a inventar desagradáveismentiras inofensivas. Todos se foram. Despe-te sem medo. Conheçoas velhas rugas de tua triste carne.Acariciei-as. Sei o que teu rostooculta por baixo da maquiagem. Enfim sós, vida. A casa em silêncioe tu e eu nus, calados e ausentes,– juntos…
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Luis Alberto de Cuenca – Insônia

A vida é muito curta.Não há tempo para fazer nada. Não há meiosde reunir dias suficientespara aprender alguma coisa. Tu te levantas,abraças tua namorada, tomas teu café da manhã,trabalhas, comes, dormes, vais ao cinema,e sequer tens um momentopara ler Sêneca e acreditarque tudo neste mundo tem conserto.A vida é um instante. Não entendopor que esta…
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Joaquín Benito de Lucas – Elegia

Quando agora retornoà minha cidade, não posso contera emoção de saber que não sou esperado.Não me espera meu pai, que desceu rio abaixomuito lentamente entre os juncos, sob pontes enevoadas. Não me espera meu irmão,que me esperava sempre ao lado de um balcãoqualquer, em uma rua qualquerbrindando ao meu últimolivro ou por sua desgraçaou por…
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Juan Luis Panero – Epitáfio diante de um Espelho

Dura há de ser a vida para ti,que tuas crenças sacrificastes a uma estranha honradez,para ti, cuja única certeza é tua memóriae, portanto, teu sepulcro mais infausto.Dura há de ser a vida, quando os anos passareme por fim destruírem a ilusória pátria da tua adolescência,quando vires, como hoje, este fantasmaque tempos atrás te consolou com…
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Juan Vicente Piqueras – Nomes Apagados

A mente não é um lápis para tomar notas,É uma borracha. Marko Vesovič Meu pai foi pouco a pouco esquecendo a linguagem.E começou pelos nomes. O queseu cérebro primeiro esqueceu não foram os advérbiose pronomes, nem os adjetivos,como seria plausível acreditar,nem os resíduos das preposições,mas os substantivos. A maçã deixou de ser uma maçã,o copo…
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Luis Alberto de Cuenca – Abre todas as Portas

Abre todas as portas, a que conduz ao ouro,a que leva ao poder, a que esconde o mistériodo amor; a que oculta o segredo insondávelda felicidade, a que a vida te ofertapara sempre no gozo de uma visão sublime.Abre todas as portas, sem te mostrares curioso,nem dar importância às manchas de sangueque salpicam as paredes…