Nicanor Parra – Perguntas e Respostas

então, tu achas que vale
a pena assassinar deus
se o mundo puder ser salvo?

– é claro que vale a pena

e vale a pena arriscar
a vida por uma ideia
que pode resultar falsa?

– é claro que vale a pena

pergunto se valerá
a pena comer siri
se vale a pena criar
filhos que se voltarão
contra os seus progenitores?

– é evidente que sim
que não

e que vale a pena

– pergunto se valerá
a pena tocar um disco
a pena ler uma árvore
a pena plantar um livro
se tudo desaparece
se nada perdurará

– talvez não valha a pena
– não chores

– estou sorrindo

– não nasça

– estou morrendo

Trad.: Nelson Santander

 

 

Nicanor Parra – Preguntas y Respuestas

¿qué te parece valdrá
la pena matar a dios
a ver si se arregla el mundo?

-claro que vale la pena

-¿valdrá la pena jugarse
la vida por una idea
que puede resultar falsa?

-claro que vale la pena

-¿pregunto yo si valdrá
la pena comer centolla
valdrá la pena criar
hijos que se volverán
en contra de sus mayores?

-es evidente que sí
que nó

que vale la pena

-Pregunto yo si valdrá
la pena poner un disco
la pena leer un árbol
la pena plantar un libro
si todo se desvanece
si nada perdurará

-tal vez no valga la pena

-no llores

-estoy riendo

-no nazcas

-estoy muriendo

Derek Walcott – O Amor Depois do Amor

Um dia virá
em que, eufórico,
você cumprimentará a si próprio chegando
à sua porta, em seu espelho
e cada um dará ao outro um sorriso de boas-vindas,

e você dirá, sente-se aqui. Coma.
Você amará outra vez o estranho que foi.
Sirva vinho. Reparta o pão. Restitua
o seu coração
para ele mesmo, para o estranho que um dia você amou

por toda sua vida, a quem você ignorou
por outro, que o conhece de cor.
Derrube da estante as cartas de amor,

as fotografias, os bilhetes desesperados,
arranque sua imagem do espelho.
Sente-se. Saboreie a sua vida.

Trad.: Nelson Santander

 

Derek Walcott – Love After Love

The time will come
when, with elation
you will greet yourself arriving
at your own door, in your own mirror
and each will smile at the other’s welcome,

and say, sit here. Eat.
You will love again the stranger who was your self.
Give wine. Give bread. Give back your heart
to itself, to the stranger who has loved you

all your life, whom you ignored
for another, who knows you by heart.
Take down the love letters from the bookshelf,

the photographs, the desperate notes,
peel your own image from the mirror.
Sit. Feast on your life.

Rainer Maria Rilke – A nós nos cabe andar

I.22

A nós, nos cabe andar.
Mas o tempo, os seus passos,
são mínimos pedaços
do que há de ficar.

É perda pura
tudo o que é pressa;
só nos interessa
o que sempre dura.

Jovem, não há virtude
na velocidade
e no voo aonde for.

Tudo é quietude:
escuro e claridade,
livro e flor.

Trad.: Augusto de Campos

Roger Wolfe – Pálpebra

Pedro Salinas
disse num poema
que não quer deixar de sentir
a dor da ausência
da mulher que ama
porque isso é tudo
o que dela fica:
a dor.
Não me recordo das suas palavras exactas.
Ele di-lo melhor do que eu.
Eram outros tempos.
Salinas está morto.
A mulher que ele amava também.
Em breve o estaremos todos.
A vida é uma simples pálpebra.
Abre os olhos
e fecha-os.

Trad.: Pedro Gomes Sena

Mia Couto – O Espelho

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.
Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

Mario Benedetti – Em Pé

Continuo em pé
por pulsar
por costume
por não abrir a janela decisiva
e olhar de uma vez a insolente
morte
essa mansa
dona da espera

continuo em pé
por preguiça nas despedidas
no fechamento e demolição
da memória

não é um mérito
outros desafiam
a claridade
o caos
ou a tortura

continuar em pé
quer dizer coragem

ou não ter
onde cair
morto

Octavio Paz – Irmandade

          Homenagem a Claudio Ptolomeo

Sou homem: duro pouco
E é enorme a noite.
Mas olho para cima:
As estrelas escrevem.
Sem entender, compreendo:
Também fui escrito
E neste mesmo instante
Alguém me soletra.

Pablo Neruda – De “Cem Sonetos de Amor”

XII

Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
Espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
Que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
Que antiga noite o homem toca com seus sentidos?

Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos
e dois corpos por um só mel derrotados.

Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia

corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra um raio.

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Mario Benedetti – Lento mas vem

Lento mas vem 
o futuro se aproxima 
devagar
mas vem

hoje está mais além
das nuvens que escolhe
e mais além do trovão
e da terra firme

demorando-se vem 
qual flor desconfiada 
que vigila ao sol 
sem perguntar-lhe nada

iluminando vem 
as últimas janelas 

lento mas vem 
o futuro se aproxima 
devagar
mas vem

já se vai aproximando 
nunca tem pressa 
vem com projetos 
e sacos de sementes

com anjos maltratados 
e fiéis andorinhas

devagar mas vem 
sem fazer muito ruído 
cuidando sobretudo 
os sonhos proibidos

as recordações dormidas 
e as recém-nascidas

lento mas vem 
o futuro se aproxima 
devagar
mas vem

já quase está chegando
com sua melhor notícia 
com punhos com olheiras 
com noites e com dias

com uma estrela pobre 
sem nome ainda 

lento mas vem
o futuro real 
o mesmo que inventamos 
nós mesmos e o acaso

cada vez mais nós mesmos 
e menos o acaso

lento mas vem 
o futuro se aproxima 
devagar
mas vem

lento mas vem 
lento mas vem 
lento mas vem

Ferreira Gullar – Digo Sim

Poderia dizer
que a vida é bela, e muito,
e que a revolução caminha com pés de flor
nos campos de meu país,
com pés de borracha
nas grandes cidades brasileiras
e que meu coração
é um sol de esperança entre pulmões
e nuvens

Poderia dizer que meu povo
é uma festa só na voz
de Clara Nunes
no rodar
das cabrochas no Carnaval
da Avenida.
Mas não. O poeta mente.

A vida nós a amassamos em sangue
e samba
enquanto gira inteira a noite
sobre a pátria desigual. A vida
nós a fazemos nossa
alegre e triste, cantando
em meio à fome
e dizendo sim
– em meio à violência e a solidão dizendo
sim –
pelo espanto da beleza
pela flama de Thereza
pelo meu filho perdido
neste vasto continente
por Vianinha ferido
pelo nosso irmão caído
pelo amor e o que ele nega
pelo que dá e que cega
pelo que virá enfim,
não digo que a vida é bela
tampouco me nego a ela:
– digo sim

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