Categoria: Poema
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Ana Martins Marques – de “Três Postais”

São Paulo Depois de um tempo todas as coisas ficam marcadas como se estivessem impregnadas de veneno Há um tempo em que os lugares são limpos e novos abertos como clareiras mas já não é este o tempo Sobre cada lugar se sobrepõe a experiência do lugar como um selo num cartão postal Por exemplo…
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Alberto Caeiro – Quando vier a primavera

Quando vier a primavera, Se eu já estiver morto, As flores florirão da mesma maneira E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada. A realidade não precisa de mim. Sinto uma alegria enorme Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma. Se soubesse que amanhã morria E a primavera era…
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José Alcaraz – Volta para Casa

Atravessa as ruas absorto nos ecos das pessoas, distante inclusive de seus pensamentos. Não chove, não abre seu guarda-chuva, no entanto, como sempre, molham-se não só seus sapatos como a vida também, porque às vezes não recorda que o mundo o reclama. Caminha como quem não sabe para onde, a cada passo crê estar só…
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Hans Magnus Enzensberger – A Visita

Quando levantei os olhos da página em branco havia um anjo no quarto. Um anjo bastante comum presumivelmente de menor hierarquia. Você não pode imaginar, ele disse, o tanto que você é dispensável. Dos quinze mil tons de azul, ele disse, cada um faz mais diferença Do que tudo que você possa fazer ou deixar…
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Manuel António Pina – Interiores

Onde estamos agora que não nos vemos, tu sentada diante da TV e eu escrevendo isto, não sei o quê, como outros dois que nós não conhecemos? Será que alguma coisa permaneceu do nosso amor como uma inevitabilidade, uma saudade pousada agora na mão de Deus existindo para sempre na sua breve eternidade? Talvez percorramos…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Reza da Manhã de Maio

Senhor, dai-me a inocência dos animais Para que eu possa beber nesta manhã A harmonia e a força das coisas naturais. Apagai a máscara vazia e vã De humanidade, Apagai a vaidade, Para que eu me perca e me dissolva Na perfeição da manhã E para que o vento me devolva A parte de mim…
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Jorge Luis Borges – As Causas

Todas as gerações e os poentes. Os dias e nenhum foi o primeiro. A frescura da água na garganta De Adão. O ordenado Paraíso. O olho decifrando a maior treva. O amor dos lobos ao raiar da alba. A palavra. O hexâmetro. Os espelhos. A Torre de Babel e a soberba. A lua que os…
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Hans Magnus Enzensberger – Discurso pós-jantar em um noivado

Este eu, um invólucro que, contanto que ninguém o abra, parece compacto, regular como um Kinder ovo, quase apetitoso. Só por dentro é escuro. Quem sabe o que estará esperando por você lá. Obsessões, sem dúvida, hábitos enferrujados, medos incompreensíveis, truques de segunda mão, desejos infantis. Que você deseje tê-la, esta caixa de presente, beira…
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Juan Vicente Piqueras – Véspera de Permanecer

Tudo está preparado: a mala, as camisas, os mapas, a tola esperança. Estou tirando o pó das pálpebras. Já pus na lapela a rosa dos ventos. Tudo está pronto: o mar, o ar, o atlas. Só me falta o quando, o onde, um diário de bordo, cartas de navegação, ventos propícios, coragem e alguém que…
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Carlos Drummond de Andrade – Balanço

A pobreza do eu a opulência do mundo A opulência do eu a pobreza do mundo A pobreza de tudo a opulência de tudo A incerteza de tudo na certeza de nada