Categoria: Poema
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Manuel António Pina – O Regresso

Como quem, vindo de países distantes fora de si, chega finalmente aonde sempre esteve e encontra tudo no seu lugar, o passado no passado, o presente no presente, assim chega o viajante à tardia idade em que se confundem ele e o caminho. Entra então pela primeira vez na sua casa e deita-se pela primeira…
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Inês Dias – Reconquista

Do meu bisavô, ferreiro e construtor de pontes, conheci apenas as iniciais, gravadas na pedra com que tomara o último dos elementos. Mas a sul do passado, o meu avô repetia-lhe ainda os gestos, ensinando-me a travar as marés com pequenos diques improvisados – paus de gelado, seixos, pedacinhos de cordel. Nunca mais o futuro…
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Lawrence Ferlinghetti – Café Notre Dame

Uma espécie de trauma sexual prende um casal abismado Ele está segurando as duas mãos dela nas suas Ela está beijando as mãos dele Estão olhando-se nos olhos de muito perto Ela tem um casaco de peles feito duma centena de coelhos correndo Ele tem um casaco clássico sombrio e calças cinza-de-pardo Agora estão a…
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Marina Tzvietáieva – Um poema em duas traduções

Tentativa de ciúme – Trad.: Augusto de Campos Como vai você com a outra? Fácil, não é? — Um golpe de remo! — E de pronto a linha da costa Se foi e você já nem se lembra De mim, ilha flutuante (No céu, por certo, não no mar)! Almas! Almas! — antes amar Como…
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Anne Sexton – Para o meu Amante Voltando Para a Esposa

Ela está bem aqui. Ela foi cuidadosamente esculpida para você saída de sua infância saída dentre seus cem colegas de escola preferidos. Ela sempre esteve aqui, meu bem. Ela é de fato extraordinária. Fogos de artifício no meio do sempre maçante Fevereiro e tão real como uma panela de ferro fundido. Vamos ser sinceros, eu…
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Mario Benedetti – Tempo sem Tempo

Preciso de tempo, necessito desse tempo que os outros deixam de lado porque lhes sobra ou já não sabem o que fazer com ele tempo em branco em rubro em verde mesmo em castanho escuro não me importa a cor cândido tempo que eu não posso abrir e fechar como uma porta tempo para olhar…
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Manuel António Pina – Luz

Talvez que noutro mundo, noutro livro, tu não tenhas morrido e talvez nesse livro não escrito nem tu nem eu tenhamos existido e tenham sido outros dois aqueles que a morte separou e um deles escreva agora isto como se acordasse de um sonho que um outro sonhasse (talvez eu), e talvez então tu, eu,…
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Marina Colasanti – Rota de Colisão

De quem é esta pele que cobre a minha mão como uma luva? Que vento é este que sopra sem soprar encrespando a sensível superfície? Por fora a alheia casca dentro a polpa e a distância entre as duas que me atropela. Pensei entrar na velhice por inteiro como um barco ou um cavalo. Mas…
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Raul de Carvalho – Amiúde

No vale dos afetos ninguém está seguro: Míngua a lembrança, Esquece-se o rosto, Retorna-se ao eu, Os lábios secam, as palavras dormem, os sonhos dispersam-se, a presença ausenta-se, há o lago de que não se vê o fundo – E apenas as pequenas ilusões – um café, o cigarro, a limonada – imitam dois corações…
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Roger Wolfe – A Última Noite da Terra

O melro de todos os anos voltou a visitar minha casa E, no entanto, permaneço aqui. Sua melodia não muda, já o escrevi antes. Mas o meu trabalho é constatar o óbvio e é isso que o melro faz-me recordar. O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem por sua própria mão ou com ajuda. As…