Chacal – EXP

Sylvia Plath – Achava que não Podia ser Magoada

Achava que não podia ser magoada;
achava que com certeza era
imune ao sofrimento —
imune às dores do espírito
ou à agonia.

Meu mundo tinha o calor do sol de abril
Meus pensamentos, salpicados de verde e ouro.
Minha alma em êxtase, ainda assim
conheceu a dor suave e aguda que só o prazer
pode conter.

Minha alma planava sobre as gaivotas
que, ofegantes, tão alto se lançando,
lá no topo pareciam roçar suas asas
farfalhantes no teto azul
do céu.

(Como é frágil o coração humano —
um latejar, um frêmito —
um frágil, luzente instrumento
de cristal que chora
ou canta.)

Então de súbito meu mundo escureceu
E as trevas encobriram minha alegria.
Restou uma ausência triste e doída
Onde mãos sem cuidado tocaram
e destruíram
minha teia prateada de felicidade.

As mãos estacaram, atônitas.
Mãos que me amavam, choraram ao ver
os destroços do meu firma-
mento.

(Como é frágil o coração humano —
espelhado poço de pensamentos.
Tão profundo e trêmulo instrumento
de vidro, que canta
ou chora.)

Trad.: Mônica Magnani Monte

 

I Thought That I Could Not Be Hurt – Sylvia Plath

I thought that I could not be hurt;
I thought that I must surely be
impervious to suffering—
immune to pain
or agony.

My world was warm with April sun
my thoughts were spangled green and gold;
my soul filled up with joy, yet
felt the sharp, sweet pain that only joy
can hold.

My spirit soared above the gulls
that, swooping breathlessly so high
o’erhead, now seem to to brush their whir—
ring wings against the blue roof of
the sky.

(How frail the human heart must be—
a throbbing pulse, a trembling thing—
a fragile, shining instrument
of crystal, which can either weep,
or sing.)

Then, suddenly my world turned gray,
and darkness wiped aside my joy.
A dull and aching void was left
where careless hands had reached out to
destroy

my silver web of happiness.
The hands then stopped in wonderment,
for, loving me, they wept to see
the tattered ruins of my firma—
ment

(How frail the human heart must be—
a mirrored pool of thought. So deep
and tremulous an instrument
of glass that it can either sing,
or weep).

Anatol Knotek – Time is running out

César Cantoni – O mais digno em nós

Eu sempre pensei que os ossos, com seu brilho mineral
de pedra polida pela chuva, são o que há de mais digno em nós:
sobrevivem largamente à putrefação indecorosa da carne
e não têm a malícia nem a maldade da alma.

Trad.: Nelson Santander

 

César Cantoni – Lo más digno de nosotros

Siempre pensé que los huesos, con su destello mineral
de piedra pulida por la lluvia, son lo más digno de nosotros:
sobreviven largamente a la putrefacción indecorosa de la carne
y no tienen la astucia ni la maldad del alma.

Sophia de Mello Breyner Andresen – Terror de te Amar

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

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Mario Benedetti – Angelus

Quem me diria que o destino era isso

Vejo a chuva através de letras invertidas
Uma parede com manchas que parecem homens
Os tetos dos ônibus brilhantes como peixes
E essa melancolia que impregna as buzinas

Aqui não há céu,
Aqui não há horizonte.

Há uma mesa grande para todos os braços
E uma cadeira que gira quando quero fugir.
Outro dia que se vai e o destino era isso.

É raro alguém ter tempo de se sentir triste:
Sempre surge uma ordem, um telefonema, uma campanhia
E claro, é proibido chorar sobre os livros
Porque não pega bem borrar a tinta.

Trad.: Nelson Santander

 

Mario Benedetti – Angelus

Quién me iba a decir que el destino era esto

Ver la lluvia a través de letras invertidas,
Un paredón con manchas que parecen prohombres,
El techo de los ómnibus brillantes como peces
Y esa melancolía que impregna las bocinas.

Aquí no hay cielo,
Aquí no hay horizonte.

Hay una mesa grande para todos los brazos
Y una silla que gira cuando quiero escaparme.
Otro día se acaba y el destino era esto.

Es raro que uno tenga tiempo de verse triste:
Siempre suena una orden, un teléfono, un timbre,
Y claro, está prohibido llorar sobre los libros
Porque no queda bien que la tinta se corra.

Hilda Hilst – Obriga-me

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo, prazer, lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro.
E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

Charles Bukowski – A Retirada

desta vez o negócio acabou comigo.

me sinto como as tropas alemãs
açoitadas pela neve e pelos comunistas
caminhando curvadas
as botas gastas
forradas com papel jornal.

minha condição é tão terrível quanto.

talvez até pior.

a vitória estava tão perto
a vitória estava logo ali.

enquanto ela estava ali diante de meu espelho
mais jovem e bela do que
qualquer outra mulher que eu já conhecera
penteando metros e mais metros de cabelo ruivo
enquanto eu a observava.

e quando ela veio para a cama
estava mais bela do que nunca
e o amor foi muito muito bom.

onze meses.

agora ela se foi
como todas se vão.

desta vez o negócio acabou comigo.

é um longo caminho de volta
mas de volta pra onde?

Trad.: Pedro Gonzaga

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Paola Rodrigues – Vida Lúcida

Assim como ninguém explicou o início
As ondas continuam a chegar na costa
Tudo corre sempre em direção ao fim
Os copos caem e as cidades se amontoam em nossas costas
Amar o perdido deixa confundido este coração

Ainda que os dias continuem a nascer
Os ônibus andem, os outros durmam
Meus pés tropeçam em suas pernas
E eu calo a boca ao seu lado
Nada pode o ouvido contra o sem sentido apelo do não

E por que é que não estamos satisfeitos?
Ou por que é que tentamos não estar simplesmente bem com o que é perfeito?
E duvidamos de uma vida lúcida

Depois de alguns cortes encontro vocês, meus amigos
Que também são vidro, cortam e quebram
Tudo por ter duvidado de que não seria assim tão trágico
Mas bom
E volto a sentir areia nos meus pés
As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão

Duvidei e talvez ainda duvide
De que tudo isso tenha como acabar bem
E de tantas outras coisas que hoje são tão bobas
E talvez um dia eu ria de tanto duvidar
De que a vida pode ser grande, com vocês
Em geral a gente tenta não deixar manchas
Nem gritar muito alto só pra manter a ordem das coisas
A dor é muda e a rotina caminha lenta
Acumulando concreto em nossos corpos
Num gigantesco escombro que chamamos de casa

Eu não me esforço pra lembrar
Daquele dia em que nos reconhecemos
Do amor que eu sinto pelo amor que você sente
Por todas as coisas que não sou eu
E por todos os ossos

Esses anos passaram rápido
E eu não pude notar o momento da despedida, pela segunda vez
Talvez eu tivesse dito alguma coisa
Talvez eu tivesse pedido desculpas
Por não ter sido perfeita
Mesmo sabendo que nunca estamos satisfeitos

E por que é que não estamos satisfeitos?
Ou por que é que tentamos não estar simplesmente bem com o que é perfeito?
E duvidamos de uma vida lúcida

Mesmo que visse pouco, eu te vi naquele bar
Num dia em que nada fazia sentido e nem tinha valor
Eu vi em você o amor ébrio e talvez alguma pena,
Você me levou pra casa e abraçamos uma despedida
Como quem dá adeus a um dia único
Depois disso encarei o chão entorpecida e com vergonha da verdade
Vi a areia suja em nossos pés

A noite segue seca
E assim como ninguém explicou o início
Longe, as ondas continuam a chegar na costa
Tudo corre sempre em direção ao fim
Os copos continuam a cair
E amar o perdido ainda deixa confundido este coração

Mikhail Svetlov – Dois

Deitaram-se junto à fogueira,
estenderam os corpos sem forças,
e uma bala atravessou a têmpora de um
entrando pela nuca do outro.

Abraçados às metralhadoras,
de que cuidavam escrupulosamente,
nem a tempestade, nem a neve convertida em gelo
conseguiram retirar-lhas.

Um oficial aproximou-se dos moribundos,
tirou-os dos braços um do outro desajeitadamente
e enquanto o seu olho verificava a mira
ordenou que entregassem a arma.

Mas os rostos mortos não revelam medo,
a alegria adormeceu nas suas expressões…
E o terceiro logo sentiu frio
face à sinistra felicidade daqueles dois.

1924

Versão de Diogo Vaz Pinto, a partir de tradução de Natalia Litvinova
(http://omelhoramigo.blogspot.com.br/2016/12/dois.html)