Paola Rodrigues – Vida Lúcida

Assim como ninguém explicou o início
As ondas continuam a chegar na costa
Tudo corre sempre em direção ao fim
Os copos caem e as cidades se amontoam em nossas costas
Amar o perdido deixa confundido este coração

Ainda que os dias continuem a nascer
Os ônibus andem, os outros durmam
Meus pés tropeçam em suas pernas
E eu calo a boca ao seu lado
Nada pode o ouvido contra o sem sentido apelo do não

E por que é que não estamos satisfeitos?
Ou por que é que tentamos não estar simplesmente bem com o que é perfeito?
E duvidamos de uma vida lúcida

Depois de alguns cortes encontro vocês, meus amigos
Que também são vidro, cortam e quebram
Tudo por ter duvidado de que não seria assim tão trágico
Mas bom
E volto a sentir areia nos meus pés
As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão

Duvidei e talvez ainda duvide
De que tudo isso tenha como acabar bem
E de tantas outras coisas que hoje são tão bobas
E talvez um dia eu ria de tanto duvidar
De que a vida pode ser grande, com vocês
Em geral a gente tenta não deixar manchas
Nem gritar muito alto só pra manter a ordem das coisas
A dor é muda e a rotina caminha lenta
Acumulando concreto em nossos corpos
Num gigantesco escombro que chamamos de casa

Eu não me esforço pra lembrar
Daquele dia em que nos reconhecemos
Do amor que eu sinto pelo amor que você sente
Por todas as coisas que não sou eu
E por todos os ossos

Esses anos passaram rápido
E eu não pude notar o momento da despedida, pela segunda vez
Talvez eu tivesse dito alguma coisa
Talvez eu tivesse pedido desculpas
Por não ter sido perfeita
Mesmo sabendo que nunca estamos satisfeitos

E por que é que não estamos satisfeitos?
Ou por que é que tentamos não estar simplesmente bem com o que é perfeito?
E duvidamos de uma vida lúcida

Mesmo que visse pouco, eu te vi naquele bar
Num dia em que nada fazia sentido e nem tinha valor
Eu vi em você o amor ébrio e talvez alguma pena,
Você me levou pra casa e abraçamos uma despedida
Como quem dá adeus a um dia único
Depois disso encarei o chão entorpecida e com vergonha da verdade
Vi a areia suja em nossos pés

A noite segue seca
E assim como ninguém explicou o início
Longe, as ondas continuam a chegar na costa
Tudo corre sempre em direção ao fim
Os copos continuam a cair
E amar o perdido ainda deixa confundido este coração

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