Alan Jenkins – Pertences

Segurei a mão dela, que estava sempre marcada
Por cortar, fatiar, pelas facas que estavam à espreita
No lavatório, mão mal-acabada,
Os nós avermelhados dos dedos, ásperos de esfregar com força
panelas, frigideiras, xícaras e pratos,
Dando amor do único jeito que ela sabia,
Em cada corte barato de carne, em assados e ensopados,
Comidas tradicionais que ela preparava e nós comíamos;
E vi que tinham tirado seus anéis,
Os anéis que ela havia guardado uma vez na gaveta da penteadeira
Com fotos desbotadas, coisas há muito esquecidas
(Vaporizadores de perfume, pentes de tartaruga, um instantâneo ou dois
Da época em que tiramos férias ‘no exterior’)
Mas sem os quais ultimamente ela nunca mais havia ficado, como se
Quisesse que todos soubessem que ela era sua esposa
Só agora que ele estava morto. E o relógio dela? –
Modelo clássico feminino, pulseira de ouro – havia sumido,
E eu nunca a tinha visto sem ele,
Nem em todos aqueles anos que eles se sentaram juntos
Assistindo as telenovelas e game shows que eu desdenhava
E nem quando chegou a minha vez de cozinhar para ela,
Costeletas ou porções de frango, sabores ingleses,
Sem graça, familiares, que ela dizia preferir
A qualquer ‘coisa estrangeira esquisita’
Que os jovens parecem comer hoje em dia, pelo que ela ouvira;
Nem em todas aquelas semanas em que não apareci, quando ela se sentava
Noite após noite e ficava encarando sem ver
A televisão, em seu clima interior,
Se colocava de pé, piscava, se servia de
Drinque após drinque, bebia e fixava o olhar – o uísque
Que, quando ele estava vivo, ela não tocaria,
Esse era o jeito dela estar com ele de novo;
Nem mais tarde, na ala psiquiátrica,
Onde ela piscava sem ver a parede, as enfermeiras
(Que roubariam qualquer coisa, ela dizia), e sonhava
Em quando ela era menina, com o tempo antes
De eu nascer, ou crescer e aprender a desprezar,
Enquanto a TV no canto retumbava
Para abafar os gemidos e imprecações de algumas ‘pobres almas’,
E ela tomava seus comprimidos e piscava e fixava o olhar
Enquanto os outros vagueavam, e babavam, e praguejavam…
Mas agora ela estava deitada aqui, um grosso elástico
Com seu nome escrito em tinta preta borrada era tudo o que ela usava
Na mão que eu segurava, uma mão manchada e enrugada
Cujos dedos não podiam mais apertar os meus
Ou acenar hesitantes, ou tatear minha manga –
As últimas palavras que ela dissera foram Por favor, não vá embora
Mas é claro que eu fui; agora eu estava de volta, embora ela
Não pudesse saber disso, ou virar o rosto para ver
Uma enfermeira trazer a malinha com os seus pertences para mim.

Trad.: Nelson Santander

Effects

I held her hand, that was always scarred
From chopping, slicing, from the knives that lay in wait
In bowls of washing-up, that was raw,
The knuckles reddened, rough from scrubbing hard
At saucepan, frying pan, cup and plate
And giving love the only way she knew,
In each cheap cut of meat, in roast and stew,
Old-fashioned food she cooked and we ate;
And I saw that they had taken off her rings,
The rings she’d kept once in her dressing-table drawer
With faded snapshots, long-forgotten things
(Scent-sprays, tortoise-shell combs, a snap or two
From the time we took a holiday ‘abroad’)
But lately had never been without, as if
She wanted everyone to know she was his wife
Only now that he was dead. And her watch? –
Classic ladies’ model, gold strap – it was gone,
And I’d never known her not have that on,
Not in all the years they sat together
Watching soaps and game shows I’d disdain
And not when my turn came to cook for her,
Chops or chicken portions, English, bland,
Familiar flavours she said she preferred
To whatever ‘funny foreign stuff’
Young people seemed to eat these days, she’d heard;
Not all the weeks I didn’t come, when she sat
Night after night and stared unseeing at
The television, at her inner weather,
Heaved herself upright, blinked and poured
Drink after drink, and gulped and stared – the scotch
That, when he was alive, she wouldn’t touch,
That was her way to be with him again;
Not later in the psychiatric ward,
Where she blinked unseeing at the wall, the nurses
(Who would steal anything, she said), and dreamt
Of when she was a girl, of the time before
I was born, or grew up and learned contempt,
While the TV in the corner blared
To drown some ‘poor soul’s’ moans and curses,
And she took her pills and blinked and stared
As the others shuffled round, and drooled, and swore…
But now she lay here, a thick rubber band
With her name on it in smudged black ink was all she wore
On the hand I held, a blotched and crinkled hand
Whose fingers couldn’t clasp mine any more
Or falteringly wave, or fumble at my sleeve –
The last words she had said were Please don’t leave
But of course I left; now I was back, though she
Could not know that, or turn her face to see
A nurse bring the little bag of her effects to me.

Stanley Plumly – Rinoceronte branco

O último da minha espécie, um dos últimos apreciadores das flores
e da grama das pastagens do norte, e certamente
um dos poucos habilitados a esfregar as costas no baobá
e no carvalho centenário que ainda sobrevive no quintal.

O truque está na pedra, parecer algo que se soltou
de uma montanha, algo tão sobrante a ponto de não
estar vivo, ainda que se assemelhe, no comportamento, a um sonho raivoso,
do tipo que faz você despertar ofegante falando pra si mesmo

naquele idioma que começa no estômago e no intestino.
A velhice é um disfarce, rija por fora, suave por dentro.
Até minha armadura está virando pó, logo uma pata,
depois a outra, a neuropatia, minha circunspecção, a pegada

ficando maior, mais profunda. Eu mal me reconheço, exceto na
minha memória, exceto quando a mente se sobrepõe ao corpo
solitário. Então eu me arrasto, em parte vazio, em parte
cheio de saudade — Estou meio cego, mas vejo o que vejo,

o meio sol na colina. O tempo de uma vida é longo demais,
então carrego meu tempo daqui para lá, pelos únicos
percursos secos do mundo, o nariz, o chifre, minha grande cabeça pendida,
a tonelagem do meu coração quase mais do que posso carregar.

Trad.: Nelson Santander

White Rhino

The last of my kind, one of the last lovers of flowers
and the lawns of the northern grasses, and certainly
one of the few able to rub backsides with the baobab
and the century-nearing oak still surviving in the yard.

The trick is stone, to look like something broken
from a mountain, something so leftover so as not
to be alive, yet resemble in demeanor dream anger,
the kind that wakes you out of breath talking to yourself

in that language that starts in the belly and the bowel.
Old age is a disguise, the hard outside, the soft inside.
Even the plated armor is turning dust, then one foot
after the other, neuropathy my gravity, the footprint

larger, deeper. I hardly recognize myself except in
memory, except when the mind overwhelms the lonely
body. So I lumber on, part of me empty, part of me
filled with longing—I’m half-blind but see what I see,

the half sun on the hill. How long a life is too long,
as I take my time from here to there, the one world
dried-out distances, nose, horn, my great head lifted down,
the tonnage of my heart almost more than I can carry.

Robinson Jeffers – Regresso

Um pouco abstratos e um pouco sábios demais,
É tempo de beijarmos a terra novamente,
É tempo de deixar que as folhas chovam dos céus,
Deixar que a rica vida corra para as raízes novamente.
Eu irei para os Sur Rivers feiticeiros,
E neles mergulharei meus braços até o peito.
Encontrarei minha contabilidade onde treme a folha dos amieiros
Com o vento oceânico sobre os seixos do leito
do rio. Eu tocarei as coisas e não mais as reflexões,
Que se reproduzem como silenciosas efêmeras escurecendo o ar,
As nuvens de insetos que cegam nossos apaixonados falcões
Para que eles não possam atacar, e dificilmente voar.
Coisas são o alimento do falcão e nobre é a montanha, Oh elevado
Pico Blanco, íngreme onda do mar em mármore entalhado.

Trad.: Nelson Santander

Return

A little too abstract, a little too wise,
It is time for us to kiss the earth again,
It is time to let the leaves rain from the skies,
Let the rich life run to the roots again.
I will go to the lovely Sur Rivers
And dip my arms in them up to the shoulders.
I will find my accounting where the alder leaf quivers
In the ocean wind over the river boulders.
I will touch things and things and no more thoughts,
That breed like mouthless May-flies darkening the sky,
The insect clouds that blind our passionate hawks
So that they cannot strike, hardly can fly.
Things are the hawk’s food and noble is the mountain, Oh noble
Pico Blanco, steep sea-wave of marble.

Jorge Valdés Días-Vélez – Pro nobis

Pro nobis

                                        para José Emilio Pacheco


Uma vez mais, abriu o Averno suas mandíbulas escaldantes.
Assomam os pesadelos e o terror da morte
se o sono o invade e se transforma em chama negra,
se, ao dormir, o levam até ele, ao lagar
luxurioso dos demônios. O menino, mudo,
contempla sua silhueta e chora. Na escuridão 
de sua cama ele se sabe mau se não reza
e não implora o perdão do Espírito Santo
pelos remorsos que o próprio Diabo fomenta.
Por todos os seus pecados pede misericórdia
e diz suas orações, repetidamente,
rogando por sua alma enlameada e pela indigna
vizinha de sua rua que beija seus cílios
toda vez que olha para ele; por sua prima Rebeca
com quinze anos completados às margens de uns peitos
de mel e de serpente; por sua irmã, que guarda
revistas de pin-ups no fundo de seu guarda-roupas;
pelas meninas de sua sala de aula que cheiram a jasmim
e a densa primavera, por todas as atrizes
que torturam seu espírito nas tardes de sábado
depois do catecismo. Por sua grande culpa,
tão somente por sua culpa, pede perdão mil vezes,
até que chega o sono narcótico e ele se perde
naquelas miragens que experimenta em sua própria carne
e em nome do Amor que feriu ao jurar em falso.

Trad.: Nelson Santander
Pro nobis

                                        para José Emilio Pacheco

De nuevo abrió sus fauces calientes el Averno.
Vienen las pesadillas y el terror a morir
si el sueño al invadirlo se vuelve flama negra,
si al dormir se lo llevan a él, al lujurioso
lagar de los demonios. El niño enmudecido
contempla su silueta y llora. En la oscuridad
de su cama se sabe maligno si no reza
y no implora el perdón del Espíritu Santo
por los remordimientos que atiza el mismo Diablo.
Por todos sus pecados pide misericordia
y dice sus oraciones, otra vez y otra,
rogando por su alma enlodada y por la indigna
vecina de su calle que besa sus pestañas
cada vez que le mira; por su prima Rebeca
con quince años cumplidos a orillas de unos pechos
de miel y de serpiente; por su hermana, que guarda
revistas de pin-ups al fondo de su armario;
por las chicas del aula olorosas a jazmín
y a densa primavera, por todas las actrices
que torturan su espíritu la tarde de los sábados
después del catecismo. Por su culpa grandísima,
tan sólo por su culpa dice perdón mil veces,
hasta que llega el sueño narcótico y se pierde
en esos espejismos que vive en carne propia
y en nombre del Amor que hirió al jurar en vano.

Dilruba Ahmed – Fase um

Por ter deixado a geladeira aberta
ontem à noite, eu a perdoo.
Por conjurar cortinas brancas
em vez de viver a sua vida.

Pelas mudas que murcham, agora,
em pequenos potes, eu a perdoo.
Por dizer não num primeiro momento,
mas sim como uma reflexão tardia.

Eu a perdoo pelas visões horrendas
após o parto, provocadas pela perda
de sono. E quando o bebê acordou
várias vezes, por sua silenciosa reprovação

no escuro, “Qual é o seu problema?”
Perdoo-lhe por deixar as videiras
tomarem conta do jardim. Por temer
sua própria propensão para o amor.

Por perder, de novo, sua mala
na viagem para São Francisco;
pela igualmente descuidada viagem
de volta, movida a cafeína.

Perdoo-lhe por ter deixado
as janelas abertas na chuva
encharcando de novo os livros
da biblioteca. Por ostentar

apenas revisões de si mesma,
com pontuação trabalhada,
em vez da verdade desordenada,
eu a perdoo. Por cantar principalmente

quando o chuveiro abafa
sua voz. Por tanto admirar
o baterista, você não conseguiu ouvir
a bateria. Em latas esquecidas,

que o perdão se acumule. Reúna-se
nas sarjetas. Jorre dos canos.
Dos ramos, uma grande e constante chuva
de azeitonas, aliviadas

da crueldade e da mesquinhez.
Com elas, uma rajada de asas, treze
pombas cinzas. Pomada reservada
para curandeiros e profetas. Eu a perdoo.

Eu a perdoo. Por se sentir estranha
e nervosa sem nenhuma razão.
Por carregar a urna vazia de Keats
com tanta calma a ponto de se preocupar

em talvez não ter nenhum
centro moral, afinal. Por tratar sua mãe
com desprezo quando ela merecia
compaixão. Eu a perdoo. Eu a

Perdoo. Eu a perdoo. Por cultivar
uma capacidade de amar que é grande
mas que talvez só seja igualada
por sua solidão. Por ser incapaz

de perdoar a si mesma primeiro para
depois poder perdoar aos outros e,
finalmente, encontrar uma maneira de se tornar
o amor que você deseja neste mundo.

Trad.: Nelson Santander

Phase One

For leaving the fridge open
last night, I forgive you.
For conjuring white curtains
instead of living your life.

For the seedlings that wilt, now,
in tiny pots, I forgive you.
For saying no first
but yes as an afterthought.

I forgive you for hideous visions
after childbirth, brought on by loss
of sleep. And when the baby woke
repeatedly, for your silent rebuke

in the dark, “What’s your beef?”
I forgive your letting vines
overtake the garden. For fearing
your own propensity to love.

For losing, again, your bag
en route from San Francisco;
for the equally heedless drive back
on the caffeine-fueled return.

I forgive you for leaving
windows open in rain
and soaking library books
again. For putting forth

only revisions of yourself,
with punctuation worked over,
instead of the disordered truth,
I forgive you. For singing mostly

when the shower drowns
your voice. For so admiring
the drummer you failed to hear
the drum. In forgotten tin cans,

may forgiveness gather. Pooling
in gutters. Gushing from pipes.
A great steady rain of olives
from branches, relieved

of cruelty and petty meanness.
With it, a flurry of wings, thirteen
gray pigeons. Ointment reserved
for healers and prophets. I forgive you.

I forgive you. For feeling awkward
and nervous without reason.
For bearing Keats’s empty vessel
with such calm you worried

you had, perhaps, no moral
center at all. For treating your mother
with contempt when she deserved
compassion. I forgive you. I forgive

you. I forgive you. For growing
a capacity for love that is great
but matched only, perhaps,
by your loneliness. For being unable

to forgive yourself first so you
could then forgive others and
at last find a way to become
the love that you want in this world.

Ted Kooser – Luz das estrelas

A noite toda, essa chuva suave do passado distante.
Não admira que às vezes eu desperte como uma criança.

Trad.: Nelson Santander

Starlight

All night, this soft rain from the distant past.
No wonder I sometimes waken as a child.

Sharon Olds – A corrida

Quando cheguei no aeroporto, corri até o guichê,
comprei uma passagem, dez minutos depois
me disseram que o voo tinha sido cancelado, os médicos
tinham dito que meu pai não sobreviveria àquela noite
e o voo fora cancelado. Um jovem
de bigode castanho-escuro me disse
que de outra companhia aérea partiria um voo
sem escalas em sete minutos. Pegue
aquele elevador, desça até
o primeiro andar, vire à direita, você
verá um ônibus amarelo, desça no
segundo terminal da Pan Am, eu
corri, eu que não tenho senso de direção
corri exatamente para onde ele havia indicado, um peixe
deslizando rio acima habilmente contra
a corrente. Saltei daquele ônibus com as
malas nas quais tinha jogado tudo
em cinco minutos e corri, as malas
sacudindo-me de um lado para o outro como que
para provar que eu estava sob as leis da matéria,
corri até um homem que levava uma flor na lapela,
eu, que sempre pego o fim da fila, pedi
Ajude-me. Ele olhou para o meu bilhete e disse
Vire à esquerda e à direita, suba as escadas e depois
corra. Subi pesadamente as escadas rolantes,
e no topo vi o corredor,
então respirei fundo, e disse
adeus ao meu corpo, adeus ao conforto,
usei minhas pernas e meu coração como se
fosse usa-los de bom grado só para isso,
para toca-lo novamente nesta vida. Corri, e as
malas bateram contra mim, rodaram e viajaram
em órbitas irregulares, eu, que já vi fotos de
mulheres correndo, seus pertences amarrados
em lenços presos em seus punhos, abençoei as
longas pernas que ele me deu, o meu forte
coração, que abandonei à sua própria sorte,
e corri para o Portão 17 e eles já estavam
levantando o compacto losango
branco da porta para encaixa-lo na
junção do avião. Como os que não são
muito ricos, virei-me de lado e
esgueirei-me pelo buraco da agulha, e depois
caminhei pelo corredor em direção ao meu pai. O jato
estava cheio e os cabelos das pessoas brilhavam, elas
sorriam, o interior do avião estava cheio de uma
névoa de luz dourada de endorfina,
chorei como choram as pessoas ao entrar no céu,
com grande alívio. Decolamos
mansamente de uma ponta do continente
e não paramos até pousarmos suavemente na
outra ponta, entrei em seu quarto
e assisti seu peito subir lentamente
e afundar novamente, a noite toda
o observei respirar.

Trad.: Nelson Santander

The Race

When I got to the airport I rushed up to the desk,
bought a ticket, ten minutes later
they told me the flight was cancelled, the doctors
had said my father would not live through the night
and the flight was cancelled. A young man
with a dark brown moustache told me
another airline had a nonstop
leaving in seven minutes. See that
elevator over there, well go
down to the first floor, make a right, you’ll
see a yellow bus, get off at the
second Pan Am terminal, I
ran, I who have no sense of direction
raced exactly where he’d told me, a fish
slipping upstream deftly against
the flow of the river. I jumped off that bus with those
bags I had thrown everything into
in five minutes, and ran, the bags
wagged me from side to side as if
to prove I was under the claims of the material,
I ran up to a man with a flower on his breast,
I who always go to the end of the line, I said
Help me. He looked at my ticket, he said
Make a left and then a right, go up the moving stairs and then
run. I lumbered up the moving stairs,
at the top I saw the corridor,
and then I took a deep breath, I said
goodbye to my body, goodbye to comfort,
I used my legs and heart as if I would
gladly use them up for this,
to touch him again in this life. I ran, and the
bags banged against me, wheeled and coursed
in skewed orbits, I have seen pictures of
women running, their belongings tied
in scarves grasped in their fists, I blessed my
long legs he gave me, my strong
heart I abandoned to its own purpose,
I ran to Gate 17 and they were
just lifting the thick white
lozenge of the door to fit it into
the socket of the plane. Like the one who is not
too rich, I turned sideways and
slipped through the needle’s eye, and then
I walked down the aisle toward my father. The jet
was full, and people’s hair was shining, they were
smiling, the interior of the plane was filled with a
mist of gold endorphin light,
I wept as people weep when they enter heaven,
in massive relief. We lifted up
gently from one tip of the continent
and did not stop until we set down lightly on the
other edge, I walked into his room
and watched his chest rise slowly
and sink again, all night
I watched him breathe.

Eiléan Ní Chuilleanáin – A torre da dama

Vazia, minha alta torre inclina-se
Para trás no penhasco; meu colmo
Conversa com a amplidão dispersa,
Garças. A parede cinza
Corta para baixo e encontra
Um instável córrego inundado
Por seixos, pequenas aves
Mergulhadoras. Lá embaixo, meus porões sondam.

Atrás de mim, as oblíquas veias da colina
Se deslocam; úmida está minha cozinha,
Aranhas escondidas sob tonéis marrons.

Eu ouço a corrente mudar de ritmo, olho do fogão
Para ver que agora o bote de extremidades quadradas flutua
Livremente, para cima e para baixo, o cordame perfeitamente nivelado.

Abrindo a porta da cozinha
As amoreiras na pedreira sentem falta do meu cabelo
Brotando tão alto que seus frutos se perdem.

E subindo as altas escadas, minha cama está
Arrumada, mesmo com uma raiz de sicômoro
Em minha pequena janela.

A noite toda eu repouso coberta por lençóis, e minha vassoura persegue
Espirais de poeira nos pisos radiantes: o espanador amarelo desliza
Sobre as prateleiras, ao redor dos puxadores: cerdas afagando pavimentos
Dançando com as aranhas em volta da cozinha no escuro
Enquanto os gatos escalam a torre e o rio se enche
Com uma colher de luz da parede do porão lá embaixo.

Trad.: Nelson Santander
The Lady's Tower

Hollow my high tower leans
Back to the cliff; my thatch
Converses with the spread sky,
Heronries. The grey wall
Slices downward and meets
A sliding flooded stream
Pebble-banked, small diving
Birds. Downstairs my cellars plumb.

Behind me shifting oblique veins
Of the hill; my kitchen is damp,
Spiders shaded under brown vats.

I hear the stream change pace, glance from the stove
To see the punt is now floating freely
Bobs square-ended, the rope dead-level.

Opening the kitchen door
The quarry brambles miss my hair
Sprung so high their fruit wastes.

And up the tall stairs my bed is made
Even with a sycamore root
At my small window.

All night I lie sheeted, my broom chases down treads
Delighted spirals of dust: the yellow duster glides
Over shelves, around knobs: bristle stroking flagstone
Dancing with the spiders around the kitchen in the dark
While cats climb the tower and the river fills
A spoonful of light on the cellar walls below.

Eiléan Ní Chuilleanáin – O quarto de um cavalheiro

Essas compridas sombras recuando,
Um rio de telhados inclinando-se
Do lado do vale.
Frontões e chaminés
E torres, com árvores aninhadas entre elas:
Todas as formas de um cemitério
Vistas do alto de sua janela.

Um espelho em forma de caixão responde,
Luz suave, polido, liso como a pele,
Azul como grama cortada no gramado,
Gravatas retorcidas dobradas sobre ele.

Abrindo a porta, todas as paredes apontam ao mesmo tempo para a cama
Enorme seda vermelha em 1/4 do quarto
Nós afogados em mogno profundo
E uniformes volumes azuis guardados ao alcance da mão.

E um calendário de mesa, uma caneta-tinteiro,
Uma pesada luminária em mármore verde,
Uma caixa de charutos, vazia mas espanada,
Sobre a lareira fria, uma emoldurada jovem
Com um vestido branco aponta o futuro.

A casa repousa em silêncio,
O linóleo brilhante
Rangeria se você pisasse nele.
Lá fora ainda está chovendo
Mas os pássaros começaram a cantar.

Trad.: Nelson Santander

A Gentleman’s Bedroom

Those long retreating shades,
A river of roofs inclining
In the valley side.
Gables and stacks
And spires, with trees tucked between them:
All graveyard shapes
Viewed from his high windowpane.

A coffin-shaped looking-glass replies,
Soft light, polished, smooth as fur,
Blue of mown grass on a lawn,
With neckties crookedly doubled over it.

Opening the door, all walls point at once to the bed
Huge red silk in a quarter of the room
Knots drowning in deep mahogany
And uniform blue volumes shelved at hand.

And a desk calendar, a fountain pen,
A weighty table-lighter in green marble,
A cigar-box, empty but dusted,
A framed young woman in a white dress
Indicate the future from the cold mantel.

The house sits silent,
The shiny linoleum
Would creak if you stepped on it.
Outside it is still raining
But the birds have begun to sing.

Francisco Brines – A realidade não permanece

Esta tarde rebelde me leva a Bath
e a ti, mas não à cidade de ruas
tranquilas, nem a quem tu deves ser hoje.
O quarto fica maior na penumbra
enquanto chove suavemente na rua.
Há, na lareira, um fogo que aquece
nossos corpos nus, e que ilumina
o vasto espaço de forma insuficiente.
És a luz que o fogo de teus cabelos
e o íntimo repouso dos lençóis merecem; sobre o tapete,
e contra o vermelho ardente, fazes teu corpo dançar.
Deitas-te ou caminhas, e conversas
subitamente séria, teu sorriso me ouve.
Como se o mundo fosse apenas um vão excesso
em nossas existências solitárias.

Agora que só em nossas vidas
existe tal mundo.
Ou encontraste, de novo, as paredes
do mesmo quarto em um país estranho?
Se contigo o acaso foi tão benigno,
extremo foi seu rigor com quem se lembra
de uma tarde tão longa em Bath,
que penetrou a noite, até as luzes quebradas
de um dia quase eterno.
Aquele quarto, que, por acaso, guarda agora
apenas a memória viva de um único habitante:
aquele que contemplou, de uma cama vazia,
a escassa realidade de um fogo extinto.

Trad.: Nelson Santander

La realidad no permanece

Esta revuelta tarde me lleva a Bath
y a ti, pero no a la ciudad de reposadas
calles, ni a quien tú debes ser en el día de hoy.
La habitación se agranda en la penumbra
mientras llueve en la calle suavemente.
Hay, en la chimenea, un fuego que calienta
nuestros cuerpos desnudos, y que alumbra
el vasto espacio con insuficiencia.
Es la luz que merecen las llamas de tu pelo
y el íntimo reposo de las sábanas; sobre la alfombra,
y contra el rojo ardiente, haces tu cuerpo danza.
Te tiendes o caminas, y conversas
con repentina seriedad, me escucha tu sonrisa.
Como si el mundo fuese sólo un exceso vano
en nuestras solas existencias.
Ahora que sólo en nuestras vidas hay
la existencia del mundo.
¿O acaso has encontrado, de nuevo, las paredes
de igual habitación en un país extraño?
Si contigo el azar fue tan benigno
extrema su rigor con quien recuerda
una tarde tan larga en Bath,
que penetró en la noche, hasta las luces rotas
de un día casi eterno.
Aquella habitación, que, acaso, guarda ahora
sólo el recuerdo vivo de un único habitante:
ese que contemplaba, desde un lecho vacío,
la escasa realidad de un destruido fuego.