Francisco Brines – A realidade não permanece

Esta tarde rebelde me leva a Bath
e a ti, mas não à cidade de ruas
tranquilas, nem a quem tu deves ser hoje.
O quarto fica maior na penumbra
enquanto chove suavemente na rua.
Há, na lareira, um fogo que aquece
nossos corpos nus, e que ilumina
o vasto espaço de forma insuficiente.
És a luz que o fogo de teus cabelos
e o íntimo repouso dos lençóis merecem; sobre o tapete,
e contra o vermelho ardente, fazes teu corpo dançar.
Deitas-te ou caminhas, e conversas
subitamente séria, teu sorriso me ouve.
Como se o mundo fosse apenas um vão excesso
em nossas existências solitárias.

Agora que só em nossas vidas
existe tal mundo.
Ou encontraste, de novo, as paredes
do mesmo quarto em um país estranho?
Se contigo o acaso foi tão benigno,
extremo foi seu rigor com quem se lembra
de uma tarde tão longa em Bath,
que penetrou a noite, até as luzes quebradas
de um dia quase eterno.
Aquele quarto, que, por acaso, guarda agora
apenas a memória viva de um único habitante:
aquele que contemplou, de uma cama vazia,
a escassa realidade de um fogo extinto.

Trad.: Nelson Santander

La realidad no permanece

Esta revuelta tarde me lleva a Bath
y a ti, pero no a la ciudad de reposadas
calles, ni a quien tú debes ser en el día de hoy.
La habitación se agranda en la penumbra
mientras llueve en la calle suavemente.
Hay, en la chimenea, un fuego que calienta
nuestros cuerpos desnudos, y que alumbra
el vasto espacio con insuficiencia.
Es la luz que merecen las llamas de tu pelo
y el íntimo reposo de las sábanas; sobre la alfombra,
y contra el rojo ardiente, haces tu cuerpo danza.
Te tiendes o caminas, y conversas
con repentina seriedad, me escucha tu sonrisa.
Como si el mundo fuese sólo un exceso vano
en nuestras solas existencias.
Ahora que sólo en nuestras vidas hay
la existencia del mundo.
¿O acaso has encontrado, de nuevo, las paredes
de igual habitación en un país extraño?
Si contigo el azar fue tan benigno
extrema su rigor con quien recuerda
una tarde tan larga en Bath,
que penetró en la noche, hasta las luces rotas
de un día casi eterno.
Aquella habitación, que, acaso, guarda ahora
sólo el recuerdo vivo de un único habitante:
ese que contemplaba, desde un lecho vacío,
la escasa realidad de un destruido fuego.

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