Dilruba Ahmed – Fase um

Por ter deixado a geladeira aberta
ontem à noite, eu a perdoo.
Por conjurar cortinas brancas
em vez de viver a sua vida.

Pelas mudas que murcham, agora,
em pequenos potes, eu a perdoo.
Por dizer não num primeiro momento,
mas sim como uma reflexão tardia.

Eu a perdoo pelas visões horrendas
após o parto, provocadas pela perda
de sono. E quando o bebê acordou
várias vezes, por sua silenciosa reprovação

no escuro, “Qual é o seu problema?”
Perdoo-lhe por deixar as videiras
tomarem conta do jardim. Por temer
sua própria propensão para o amor.

Por perder, de novo, sua mala
na viagem para São Francisco;
pela igualmente descuidada viagem
de volta, movida a cafeína.

Perdoo-lhe por ter deixado
as janelas abertas na chuva
encharcando de novo os livros
da biblioteca. Por ostentar

apenas revisões de si mesma,
com pontuação trabalhada,
em vez da verdade desordenada,
eu a perdoo. Por cantar principalmente

quando o chuveiro abafa
sua voz. Por tanto admirar
o baterista, você não conseguiu ouvir
a bateria. Em latas esquecidas,

que o perdão se acumule. Reúna-se
nas sarjetas. Jorre dos canos.
Dos ramos, uma grande e constante chuva
de azeitonas, aliviadas

da crueldade e da mesquinhez.
Com elas, uma rajada de asas, treze
pombas cinzas. Pomada reservada
para curandeiros e profetas. Eu a perdoo.

Eu a perdoo. Por se sentir estranha
e nervosa sem nenhuma razão.
Por carregar a urna vazia de Keats
com tanta calma a ponto de se preocupar

em talvez não ter nenhum
centro moral, afinal. Por tratar sua mãe
com desprezo quando ela merecia
compaixão. Eu a perdoo. Eu a

Perdoo. Eu a perdoo. Por cultivar
uma capacidade de amar que é grande
mas que talvez só seja igualada
por sua solidão. Por ser incapaz

de perdoar a si mesma primeiro para
depois poder perdoar aos outros e,
finalmente, encontrar uma maneira de se tornar
o amor que você deseja neste mundo.

Trad.: Nelson Santander

Phase One

For leaving the fridge open
last night, I forgive you.
For conjuring white curtains
instead of living your life.

For the seedlings that wilt, now,
in tiny pots, I forgive you.
For saying no first
but yes as an afterthought.

I forgive you for hideous visions
after childbirth, brought on by loss
of sleep. And when the baby woke
repeatedly, for your silent rebuke

in the dark, “What’s your beef?”
I forgive your letting vines
overtake the garden. For fearing
your own propensity to love.

For losing, again, your bag
en route from San Francisco;
for the equally heedless drive back
on the caffeine-fueled return.

I forgive you for leaving
windows open in rain
and soaking library books
again. For putting forth

only revisions of yourself,
with punctuation worked over,
instead of the disordered truth,
I forgive you. For singing mostly

when the shower drowns
your voice. For so admiring
the drummer you failed to hear
the drum. In forgotten tin cans,

may forgiveness gather. Pooling
in gutters. Gushing from pipes.
A great steady rain of olives
from branches, relieved

of cruelty and petty meanness.
With it, a flurry of wings, thirteen
gray pigeons. Ointment reserved
for healers and prophets. I forgive you.

I forgive you. For feeling awkward
and nervous without reason.
For bearing Keats’s empty vessel
with such calm you worried

you had, perhaps, no moral
center at all. For treating your mother
with contempt when she deserved
compassion. I forgive you. I forgive

you. I forgive you. For growing
a capacity for love that is great
but matched only, perhaps,
by your loneliness. For being unable

to forgive yourself first so you
could then forgive others and
at last find a way to become
the love that you want in this world.

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