Ada Limón – O que eu quero lembrar

Logo antes da casa do general Vallejo,
com suas imponentes pedras e paredes amarelas,

há um campo ao longo do caminho
para o qual as chuvas de primavera conduzem os sapos,

toda uma sinfonia deles, inaugurando
as horas logo após o sol

afundar no Oceano Pacífico, a apenas
uma hora de distância. Por que estou colocando

você aqui? Estou em um avião indo para o oeste
e todos os humanos são tão barulhentos

que chega a doer o sangue. Mas houve uma vez em que
me sentei próxima a um caminho que ainda estava quente

do calor do dia, pernas cruzadas,
com meu amigo chamado Eco que me ensinou

a amplificar o estranho som que os sapos
faziam simplesmente cobrindo meus ouvidos.

Eu preciso manter isso fechado dentro de mim,
quando as notícias do dia estão cheias de crianças mortas,

seus rostos abrindo suas bocas para o ar
que não virá. Uma vez eu também fui uma criança

e meu amigo e eu nos sentamos por talvez uma hora,
os olhos se ajustando ao céu noturno, cobrindo

e descobrindo nossos ouvidos para ouvir
a canção que os animais mais ternos faziam.

Trad.: Nelson Santander

What I Want to Remember

Right before General Vallejo’s home,
with its stately stone and yellow walls,

there’s a field along the footpath
where spring rains bring the frogs,

a whole symphony of them, breaking
open the hours just after the sun

sinks into the Pacific Ocean only
an hour away. Why am I placing

you here? I’m on a plane going west
and all the humans are so loud

it hurts the blood. But once I sat
next to a path that was still warm

from the day’s heat, cross-legged
with my friend named Echo who taught

me how to amplify the strange sound
the frogs made by cupping my ears.

I need to hold this close within me,
when today’s news is full of dead children,

their faces opening their mouths for air
that will not come. Once I was a child too

and my friend and I sat for maybe an hour,
eyes adjusting to the night sky, cupping

and un-cupping our ears to hear
the song the tenderest animals made.

Brigit Pegeen Kelly – Canção

Ouça: havia uma cabeça de cabra suspensa por cordas em uma árvore.
Por toda noite ela ficou lá pendurada e cantou. E aqueles que a ouviram
Sentiram um aperto em seus corações e pensaram que estavam ouvindo
O canto de uma ave noturna. Eles se sentaram em suas camas e depois
Se deitaram novamente. Na brisa noturna, a cabeça de cabra
Oscilava para frente e para trás, e de longe brilhava debilmente
Como a luz da lua brilhava nos trilhos do trem, a milhas de distância,
Ao lado dos quais o corpo sem cabeça da cabra repousava. Alguns garotos
Tinham arrancado sua cabeça. Foi um trabalho mais difícil do que eles imaginavam.
A cabra chorou como um homem e lutou muito. Mas eles
Terminaram o trabalho. Eles penduraram a cabeça ensanguentada perto da escola
E depois fugiram para a escuridão que parece tudo esconder.
A cabeça pendurada na árvore. O corpo repousando junto aos trilhos.
A cabeça chamou o corpo. O corpo, a cabeça.
Eles sentiam a falta um do outro. A ausência foi crescendo enorme entre eles,
Até que puxou o coração para fora do corpo, e
O coração arrancado voou em direção à cabeça, voou como uma ave voa
De volta para sua gaiola e o poleiro familiar de onde ela gorjeia.
Então o coração cantou na cabeça, primeiro baixinho e depois mais alto,
Cantou demorada e debilmente até que a luz da manhã surgiu sobre
A escola e sobre a árvore, e então o canto cessou…
A cabra pertencia a uma garotinha. Ela dera
À cabra o nome de Broken Thorn Sweet Blackberry, em homenagem
Ao arbusto de estrelas da noite, porque os cabelos sedosos da cabra
eram escuros como a água, porque ela tinha olhos como frutas silvestres.
A menina vivia perto de uma linha férrea elevada. À noite,
Ela ouvia os trens passando, o doce som do apito do trem
Pousando suavemente sobre sua cama, e todas as manhãs ela acordava
Para dar à cabra que balia seu balde de leite quente. Ela cantava para
A cabra canções sobre meninas com cordas e cozinheiros em barcos.
Ela a escovava com uma escova rígida. Ela sonhava diariamente
Que a cabra crescia, e a cabra crescia. Ela achava que eram seus sonhos que
Provocavam isso. Mas uma noite a menina não ouviu o apito do trem,
E na manhã seguinte ela despertou para um pátio vazio. A cabra
Tinha sumido. Tudo parecia estranho. Era como se uma tempestade
Tivesse passado enquanto ela dormia, vento e pedras e chuva
Arrancando os galhos e as frutas. Ela sabia que alguém
Havia roubado a cabra e que o animal se machucara. Ela a
Chamou. Durante toda a manhã, e à tarde, ela chamou
E chamou. Ela andou e andou. Em seu peito um mau pressentimento
Como a sensação das pedras talhando a macia planta
De seus pés descalços. Então alguém encontrou o corpo da cabra
Ao lado dos trilhos elevados, as moscas já enchendo seus recipientes macios
Na garganta cortada do bicho. Então alguém encontrou a cabeça
Pendurada na árvore perto da escola. Eles se apressaram em levar
Embora aquelas coisas para que a menina não as visse.
Eles se apressaram em levantar dinheiro para comprar outra cabra para a menina.
Eles se apressaram em achar os garotos que tinham feito aquilo, para ouvi-los
Dizer que tinha sido uma brincadeira, uma brincadeira, que não passara de uma brincadeira…
Mas ouça: eis o que interessa. Os garotos pensaram em
Divertir-se e pronto. Foi um trabalho mais difícil do que eles
Imaginavam, esse estúpido sacrifício, mas eles terminaram o trabalho,
Assobiando enquanto lavavam suas grandes mãos no escuro.
O que eles não sabiam era que a cabeça da cabra já estava
Cantando atrás deles na árvore. O que eles não sabiam
Era que a cabeça da cabra continuaria cantando, só para eles,
Muito tempo depois que as cordas viessem abaixo, e que eles aprenderiam a ouvir,
Balde após balde, golpe após paciente golpe. Eles
Despertariam à noite pensando ter ouvido o vento nas árvores
Ou uma ave noturna, mas seus corações bateriam mais forte. Haveria
um assobio, um zumbido, um murmúrio alto, e, finalmente, uma canção,
A canção que um menino perdido canta baixinho lembrando-se do chamado de sua mãe.
Não uma canção cruel, não, não, em absoluto. Esta canção
É doce. Ela é doce. O coração morre desta doçura.

Trad.: Nelson Santander

Song

Listen: there was a goat’s head hanging by ropes in a tree.
All night it hung there and sang. And those who heard it
Felt a hurt in their hearts and thought they were hearing
The song of a night bird. They sat up in their beds, and then
They lay back down again. In the night wind, the goat’s head
Swayed back and forth, and from far off it shone faintly
The way the moonlight shone on the train track miles away
Beside which the goat’s headless body lay. Some boys
Had hacked its head off. It was harder work than they had imagined.
The goat cried like a man and struggled hard. But they
Finished the job. They hung the bleeding head by the school
And then ran off into the darkness that seems to hide everything.
The head hung in the tree. The body lay by the tracks.
The head called to the body. The body to the head.
They missed each other. The missing grew large between them,
Until it pulled the heart right out of the body, until
The drawn heart flew toward the head, flew as a bird flies
Back to its cage and the familiar perch from which it trills.
Then the heart sang in the head, softly at first and then louder,
Sang long and low until the morning light came up over
The school and over the tree, and then the singing stopped …
The goat had belonged to a small girl. She named
The goat Broken Thorn Sweet Blackberry, named it after
The night’s bush of stars, because the goat’s silky hair
Was dark as well water, because it had eyes like wild fruit.
The girl lived near a high railroad track. At night
She heard the trains passing, the sweet sound of the train’s horn
Pouring softly over her bed, and each morning she woke
To give the bleating goat his pail of warm milk. She sang
Him songs about girls with ropes and cooks in boats.
She brushed him with a stiff brush. She dreamed daily
That he grew bigger, and he did. She thought her dreaming
Made it so. But one night the girl didn’t hear the train’s horn,
And the next morning she woke to an empty yard. The goat
Was gone. Everything looked strange. It was as if a storm
Had passed through while she slept, wind and stones, rain
Stripping the branches of fruit. She knew that someone
Had stolen the goat and that he had come to harm. She called
To him. All morning and into the afternoon, she called
And called. She walked and walked. In her chest a bad feeling
Like the feeling of the stones gouging the soft undersides
Of her bare feet. Then somebody found the goat’s body
By the high tracks, the flies already filling their soft bottles
At the goat’s torn neck. Then somebody found the head
Hanging in a tree by the school. They hurried to take
These things away so that the girl would not see them.
They hurried to raise money to buy the girl another goat.
They hurried to find the boys who had done this, to hear
Them say it was a joke, a joke, it was nothing but a joke …
But listen: here is the point. The boys thought to have
Their fun and be done with it. It was harder work than they
Had imagined, this silly sacrifice, but they finished the job,
Whistling as they washed their large hands in the dark.
What they didn’t know was that the goat’s head was already
Singing behind them in the tree. What they didn’t know
Was that the goat’s head would go on singing, just for them,
Long after the ropes were down, and that they would learn to listen,
Pail after pail, stroke after patient stroke. They would
Wake in the night thinking they heard the wind in the trees
Or a night bird, but their hearts beating harder. There
Would be a whistle, a hum, a high murmur, and, at last, a song,
The low song a lost boy sings remembering his mother’s call.
Not a cruel song, no, no, not cruel at all. This song
Is sweet. It is sweet. The heart dies of this sweetness.

Lawrence Ferlinghetti – Receita para a felicidade em Khabarovsk ou em qualquer lugar

Uma grande avenida arborizada
com uma grande cafeteria ao sol
com café preto forte em xícaras muito pequenas.

Uma mulher ou um homem não necessariamente
muito bonito(a) que te ame.

Um dia aprazível.

Trad.: Nelson Santander

Recipe For Happiness in Khabarovsk Or Anyplace

One grand boulevard with trees
with one grand cafe in sun
with strong black coffee in very small cups.

One not necessarily very beautiful
man or woman who loves you.

One fine day.

Garrett Hongo – Mendocino Rose

Na Califórnia, ao norte da Golden Gate,
a vinha cresce por quase todos os cantos,
      brotando de pastagens,
de baixo das sombras dos eucaliptos
      à beira da estrada,
ultrapassando todos os casebres fantasmas e cercas quebradas
      que se desintegram de podres,
encharcadas pelas chuvas frescas.

Ela mimetiza, em suas réplicas firmes, parecidas com nuvens,
      a forma de tudo o que asfixia,
uma delicada vegetação
      treliçada ao lado
de um celeiro ou estação de bombeamento,
      muito distante dos penhascos acima da Highway 1,
florzinhas e flores,
      da estrada mesmo,
parecidas com nós e dreadlocks,
      efêmeras e gloriosas,
suspensas em beirais cobertos de vegetação.

Eu ouvia uma fita no som do carro,
uma canção que eu tocava e rebobinava,
      e tocava de novo,
uma balada ou uma canção de amor
      cantada pelo meu tenor favorito,
um havaiano conhecido por sua pobreza
      mas riqueza de coração,
e senti, rodando pelas tortuosas curvas
      daquela estrada costeira,
deslizando no asfalto escorregadio
      através dos desníveis e das curvas em S,
e freando na hora certa,
      que ela teria servido como o hino fúnebre
que eu não sabia cantar
      quando precisava,
uma canção para cadenciar meu coração
      e seu balbuciar desafinado.

Ipo lei manu, ele cantou, sem se confundir,
E envio estas grinaldas,
e as rosas pareciam, por toda parte ao meu redor então,
      profusas e luxuriosas
como a chuva em suas vestes cinzentas,
      procissões ondulantes sobre a terra,
ecos, em emaranhados de cores extravagantes,
      de música
e de formas em colapso
      sobre as quais elas pareciam triunfar.

Trad.: Nelson Santander

Em sua biografia, Volcano: A Memoir of Hawai’i, o autor assim discorre sobre esse poema:

Quando percebi o que aquele homem estava cantando, um verdadeiro sentimento de luto cresceu dentro de mim como uma rebentação e eu mergulhei nele. Eu olhei para além da estrada de asfalto preto que serpenteava à minha frente em direção às rosas florescendo ao meu redor como se também fossem uma música. Olhei para os penhascos do outro lado do Pacífico… Não era apenas um lugar, mas uma determinação de propósito, suponho, um sentimento de conexão não tanto com um lugar em particular, embora isso ajude, mas com o mundo dos sentimentos e da abertura a eles, essa troca entre o humano e o que quer que seja o resto – o infinito, digamos, ou o mundo natural do espírito puro que os filósofos românticos do século XIX definiram como sublime. O que quer que seja maior do que o eu, mas que, no entanto, fortalece o eu, oprime e anima o eu. “E quem, se eu chorasse, me ouviria entre as ordens angelicais?” escreveu Rilke, com ceticismo, em suas Elegias de Duino. “E mesmo que um deles me tomasse inesperadamente em seu oração, aniquilar-me-ia sua existência demasiado forte” Pois que é o Belo senão o grau do Terrível que ainda suportamos e que admiramos porque, concluiu, impassível, desdenha destruir-nos. É o vajra do budista, o relâmpago da percepção pura e cósmica, um luto que leva à eternidade.

Mendocino Rose

In California, north of the Golden Gate,
the vine grows almost everywhere,
      erupting out of pastureland,
from under the shade of eucalyptus
      by the side of the road,
overtaking all the ghost shacks and broken fences
      crumbling with rot
and drenched in the fresh rains.

It mimes, in its steady, cloudlike replicas,
      the shape of whatever it smothers,
a gentle greenery
      trellised up the side
of a barn or pump station
      far up the bluffs above Highway 1,
florets and blossoms,
      from the road anyway,
looking like knots and red dreadlocks,
      ephemeral and glorious,
hanging from overgrown eaves.

I’d been listening to a tape on the car stereo,
a song I’d play and rewind,
      and play again,
a ballad or a love song
      sung by my favorite tenor,
a Hawaiian man known for his poverty
      and richness of heart,
and I felt, wheeling through the vinelike curves
      of that coastal road,
sliding on the slick asphalt
      through the dips and in the S-turns,
and braking just in time,
      that it would have served as the dirge
I didn’t know to sing
      when I needed to,
a song to cadence my heart
      and its tuneless stammering.

Ipo lei manu, he sang, without confusion,
I send these garlands,
and the roses seemed everywhere around me then,
      profuse and luxurious
as the rain in its grey robes,
      undulant processionals over the land,
echoes, in snarls of extravagant color,
      of the music
and the collapsing shapes
      they seemed to triumph over.

Alison C. Rollins – Para quem me lê agora

Para quem me lê agora

depois de Jorge Luis Borges

Você é invulnerável.
A única constante é a mudança.
Tal repetição leva à nostalgia
do presente. Tenso e tímido
você recita este livro de cor. Às
cegas, você me confia à memória.
O calvo e impertinente filósofo
sabe que o caráter do homem é o seu destino.
Este poema – não vivo, mas os vestígios
de um construto conhecido como vontade.
Heráclito caminha sobre as águas na Líbia
ou: nenhum homem jamais entrou no mesmo rio duas vezes.
Desconfie de como o tradutor distorce
minhas palavras, estas ruínas que ele interpreta como
vivas. Por que você teme ser esquecido?
Saiba que de certa forma
você já está morto.

Trad.: Nelson Santander

To Whoever Is Reading Me

after Jorge Luis Borges

You are invulnerable.
The only thing constant is change.
Such repetition leads to nostalgia
for the present. Tense and timid
you recite this book by heart. Blind-
folded you commit me to memory.
The baldhead scallywag philosopher
knows that man’s character is his fate.
This poem – not alive, but the remains
of a construct known as will.
Heraclitus is walking on water in Libya
or: no man ever steps in the same river twice.
Be wary of how the translator twists
my words, these ruins he interprets as
alive. Why do you dread being forgotten?
Know that in some sense
you are already dead.

Tyree Daye – Rio Neuse

Diga-lhes para não irem
à orla sozinhos.

Diga-lhes onde
podem beber

sem precisar olhar
por cima dos ombros.

Diga-lhes que o afogamento
está em terceiro em sua lista

de preocupações.
A primeira é deite-se,

a segunda, vem cá.
Mesmo a água

em que fui batizado
não é segura.

Eu sabia que Deus
era homem

porque ele pôs
um bebê em Maria

sem a per-
missão dela.

Trad.: Nelson Santander

Neuse River

Tell them not to go
to the banks alone.

Tell them where
they can drink

without watching
over shoulders.

Tell them drowning
is third on your list

of concerns.
First is lie down,

second, come here.
Even the water

I was baptized in
isn’t safe.

I knew God
was a man

because he put
a baby in Mary

without her
permission.

Lisel Mueller – Há manhãs

Mesmo agora, em que o enredo
pede que eu me torne pedra,
o sol intervém. Em algumas manhãs
de verão eu saio
e o céu se abre
e se derrama sobre mim
como se eu fosse um santo
prestes a morrer. Mas o enredo
pede que eu viva,
seja comum, diga nada
a ninguém. Dentro de casa
os espelhos queimam quando eu passo.

Trad.: Nelson Santander

There Are Mornings

Even now, when the plot
calls for me to turn to stone,
the sun intervenes. Some mornings
in summer I step outside
and the sky opens
and pours itself into me
as if I were a saint
about to die. But the plot
calls for me to live,
be ordinary, say nothing
to anyone. Inside the house
the mirrors burn when I pass.

W. H. Auden – Aquele que Ama Mais

Contemplando as estrelas, logo eu discirno
Que, por elas, eu posso ir para o inferno,
Porém, na terra, a indiferença é o que menos
Temos a temer, de animais e humanos

Como seria se os astros de paixão
Por nós ardessem e disséssemos não?
Se os afetos nunca podem ser iguais
Pois que seja eu aquele que ama mais.

Por mais admirador que eu julgue ser
De estrelas que de mim não querem saber
Não posso dizer, agora que as contemplo,
Que lhes tive saudade em algum momento.

Se sumissem ou morressem todas elas
Me habituaria a um céu sem estrelas
E a sentir como sublime a treva total
Embora isso levasse um tempo, afinal.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 28/08/2017

The More Loving One

Looking up at the stars, I know quite well
That, for all they care, I can go to hell,
But on earth indifference is the least
We have to dread from man or beast.

How should we like it were stars to burn
With a passion for us we could not return?
If equal affection cannot be,
Let the more loving one be me.

Admirer as I think I am
Of stars that do not give a damn,
I cannot, now I see them, say
I missed one terribly all day.

Were all stars to disappear or die,
I should learn to look at an empty sky
And feel its total dark sublime,
Though this might take me a little time.

John Murillo – Variações sobre um tema de Elizabeth Bishop

Comece com a perda. Perca tudo. Então perca tudo outra vez.
Perca uma boa mulher em um dia ruim. Encontre uma mulher melhor,
e depois perca cinco amigos correndo atrás dela. Aprenda a perder como se
sua vida dependesse disso. Aprenda que sua vida depende disso.
Aprenda como se aprende caratê, ou a andar de bicicleta. Aprenda-o, domine-o.
Perca dinheiro, perca tempo, perca sua mente natural.
Seja abandonado e depois aprenda a abandonar. Perca e
perca novamente. Mensure o caixão de um pai em comparação com as
células T de um primo. Beije sua irmã através do vidro de uma cela.
Saiba por que sua mulher não está atendendo suas ligações.
Perca o sono. Perca a religião. Perca sua carteira em El Segundo1.
Abra sua janela. Ouça: as últimas notas lentas
de uma canção de Donny Hathaway2. Uma criança chorando. Ouça:
um bêbado pragueja contra a lua. Ele soa como
seu tio morto que, antes de partir, perdeu uma perna
para o açúcar. Uma vergonha. Aprenda que o que é dado pode ser tomado;
e o que pode ser tomado, o será. Pode apostar nisso sem
perder. Claro como o anoitecer e uma cama vazia. Perca
e perca de novo. Perca até que isso seja a sua segunda natureza. Perca
mais, e perca mais rápido3. Incline-se pela janela aberta, ouça:
a criança está rindo agora. Não, é o bêbado de novo
na rua, perdendo sua voz, sofrendo por estrelas invisíveis.

Trad.: Nelson Santander

Nota:

  1. Cidade americana do Estado da Califórnia.
  2. Cantor e compositor norte-americano de soul, gospel e jazz que se suicidou em 1979, aos 33 anos de idade.
  3. Primeiro verso da terceira estrofe de “One Art”, de Elizabeth Bishop, ao qual o presente poema faz referência expressa. Para ajudar na compreensão da presente tradução, colo aqui a tradução magnífica que Paulo Henriques Britto fez do poema de Bishop e, na sequência, o original:

A Arte de Perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

— Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

Trad.: Paulo Henriques Britto

One Art

The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

– Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like a disaster.

Variation on a Theme by Elizabeth Bishop

Start with loss. Lose everything. Then lose it all again.
Lose a good woman on a bad day. Find a better woman,
then lose five friends chasing her. Learn to lose as if
your life depended on it. Learn that your life depends on it.
Learn it like karate, like riding a bike. Learn it, master it.
Lose money, lose time, lose your natural mind.
Get left behind, then learn to leave others. Lose and
lose again. Measure a father’s coffin against a cousin’s
crashing T-cells. Kiss your sister through prison glass.
Know why your woman’s not answering her phone.
Lose sleep. Lose religion. Lose your wallet in El Segundo.
Open your window. Listen: the last slow notes
of a Donny Hathaway song. A child crying. Listen:
a drunk man is cussing out the moon. He sounds like
your dead uncle, who, before he left, lost a leg
to sugar. Shame. Learn what’s given can be taken;
what can be taken, will. This you can bet on without
losing. Sure as nightfall and an empty bed. Lose
and lose again. Lose until it’s second nature. Losing
farther, losing faster. Lean out your open window, listen:
the child is laughing now. No, it’s the drunk man again
in the street, losing his voice, suffering each invisible star.

Timothy Liu – Os restos

Os restos

                                                  —Wuxi, China

Saindo do novo cemitério, meu pai
pegou a minha mão, tendo acabado de reenterrar os restos
mortais de seu próprio pai e suas duas esposas —
sua mãe morrera de tuberculose quando ele tinha dez anos.

Ele pegou a minha mão e disse: Agora posso morrer em paz
mesmo que não tenhamos os ossos verdadeiros
. Os bandidos da aldeia
contratados pelo meu tio se certificaram de que os túmulos
atrás da casa em que meu pai crescera não sentiriam

uma única lâmina de pá entrar enquanto eles estivessem ali
de sentinela com os braços cruzados. A esposa do meu tio
teve um sonho em que de uma fenda aberta da sepultura
demônios saíam apressados — fantasmas ancestrais que não queriam ser

perturbados. Em menos de uma década, tratores virão
botar abaixo a aldeia dos Liu. 
As cinzas da minha
avó, os ossos do meu avô, meu próprio pai
se afastando com dois punhados de terra e dizendo:

Isso terá que servir. Tantos outros morreram
sem ter deixado nada para trás. Eu nunca mais voltarei
a este lugar. 
Meu pai beijou a minha mão,
eu que atravessei doze fusos horários para estar aqui

ao seu lado em uma van emprestada, eu olhando pela
janela para um campo uma vez invadido por
soldados japoneses marchando para o oeste ao longo dos trilhos,
meu pai e seus irmãos escondidos em um depósito,

um cavalo morto encontrado no pátio da escola logo após
a partida dos soldados. Suas mãos são tão macias!, eu digo
ao meu pai. As suas também, ele responde. Lembra-se de
quando foi a última vez em que nos demos as mãos? 
Eu devia ser

uma criança, eu respondo, talvez com oito, ou dez? Você tinha seis
anos, meu pai diz. E ainda sou seu filho, eu digo,
apoiando-me no ombro dele, nossas mãos do mesmo tamanho.
E eu serei sempre seu pai, meu pai responde

antes que eu tenha a oportunidade de dizer outra palavra,
meu pai de oitenta anos já caindo no sono.

Trad.: Nelson Santander

The Remains

                                                  —Wuxi, China

Walking out of the new cemetery, my father
takes my hand, having just re-interred the remains
of his own father and his father’s two wives—
his mother dead from T.B. by the time he was ten.

He takes my hand and says, Now I can die in peace
even if we didn’t get the actual bones. Village thugs
hired by my uncle made sure the burial mounds
behind the house my father grew up in would not feel

a single shovel blade go in as they stood there
sentinel with arms crossed. My uncle’s wife
had a dream that out of the grave’s opened gash
demons rushed—ancestral ghosts not wanting to be

disturbed. In less than a decade, bulldozers will come
to take the Liu village down. My grandfather’s
ashes, my grandmother’s bones, my own father
walking away with two fistfuls of dirt and saying,

This will have to do. So many others have died
who’ve left nothing behind. I’ll never come back
to this place again. My father kisses my hand,
I who’ve flown across twelve time zones to be here

at his side in a borrowed van, me looking out
the window at a countryside once overrun
with Japs marching West along the railroad tracks,
my father and his siblings hiding in an outhouse,

a dead horse found in the schoolyard soon after
the soldiers had gone. Your hands are so soft! I say
to my father. So are yours, he says. Remember
when it was we last held hands? I must have been

a kid, I say, maybe eight, or ten? You were six,
my father says. And I’m still your son, I say,
leaning into his shoulder, our hands the same size.
And I’ll always be your father, my father says

before I have the chance to say another word,
my eighty-year-old father nodding off into sleep.