Matthew Sweeney – As mariposas

As mariposas

Ou o poema que começa com um verso de Diane Di Prima

Na neve, as mariposas caminham rigidamente,
elas nem ao menos tentam voar.
Suas pegadas são cobertas à medida que são feitas,
enquanto elas seguem umas às outras para casa
pelas frias colunas dos postes de iluminação
para esperar lá a chegada da luz.
A cada crepúsculo há menos delas,
e todas mais cansadas do que antes,
contudo, elas ainda elevam suas vozes
para saudar o filamento incandescente –
primeiro laranja, depois amarelo
como os olhos delas. E a neve
se acumula em suas asas dobradas,
tornando-as pesadas, fazendo com que algumas
caiam para serem esmagadas sob botas,
ou comidas por um cachorro que passa,
enquanto atrás delas outras caminham rigidamente,
seguindo as mortas para casa.

Trad.: Nelson Santander

The moths

Or poem beginning with a line by Diane Di Prima

In the snow the moths walk stiffly,
they don’t even try to fly.
Their footprints fill in as they make them,
as they follow one another home
up the cold poles of streetlamps
to wait there for the light.
Each dusk there’s less of them,
and all more tired than before
but still they raise their voices
to greet the glowing filament –
first orange, then yellow
like their eyes. And the snow
gathers on their folded wings,
making them heavy, making some
fall to be crunched under boots,
or eaten by a passing dog,
while behind them, more walk stiffly
following the dead ones home.

César Cantoni – O Tempo Irreparável

Quem teria pensado nisso, então?
O certo é que meu pai está morto
como se nunca tivesse existido.
Um dia congelaram suas mãos e os pés,
e a casa se encheu de parentes,
e minha mãe chorou, de joelhos, junto ao leito.
Ainda me lembro.

Meu pai está morto ou já não existe,
e não basta agora saber que ele era feliz.
Neste silencioso amanhecer de outono,
enquanto a água borbulha na chaleira,
e o rádio informa as últimas catástrofes,
e eu cumpro o rito habitual de me barbear,
só uma coisa é real: sua ausência, que não cessa.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em 17/02/2018

César Cantoni – El Tiempo Irreparable

Quién iba, entonces, a pensarlo.
Lo cierto es que mi padre está muerto
como si nunca hubiese estado vivo.
Un día se le helaron las manos y los pies,
y la casa se llenó de parientes,
y mi madre lloró, de rodillas, junto al lecho.
Todavía lo recuerdo.

Mi padre está muerto o ya no está,
y no es suficiente ahora saber que fue feliz.
En este callado amanecer de otoño,
mientras el agua burbujea en la pava,
y la radio reporta las últimas catástrofes,
y yo cumplo con el rito habitual de afeitarme,
sólo una cosa es real: su ausencia, que no cesa.

Czesław Miłosz – Café

Daqueles que se encontravam à mesa do café
onde, no meio-dia de inverno, um jardim de gelo reluzia nas vidraças,
só eu sobrevivi.
Eu poderia entrar ali se quisesse
e, tamborilando meus dedos em um frio vazio,
convocar as sombras.

Com incredulidade, toco o mármore frio,
com incredulidade, toco minha própria mão.
Isto – é, e eu – estou em cada novo devir,
enquanto eles estão presos para todo o sempre
em suas últimas palavras, seus últimos olhares,
e tão remotos quanto o Imperador Valentiniano
ou os chefes dos Masságetas, sobre os quais nada sei,
embora mal tenha passado um ano, ou dois. Ou três.

Ainda posso derrubar árvores nas florestas do extremo norte,
posso palestrar de uma plataforma ou rodar um filme
usando técnicas das quais eles nunca ouviram falar.
Posso descobrir o sabor das frutas das ilhas oceânicas
e ser fotografado em trajes da segunda metade do século.
Mas eles são para sempre como bustos em sobrecasacas e jabôs em alguma monstruosa enciclopédia.

Às vezes, quando a aurora da tarde pinta os telhados de uma rua miserável
e eu contemplo o céu, vejo nas nuvens brancas
uma mesa tremulando. O garçom rodopia com sua bandeja
e eles olham para mim com uma explosão de risos,
pois eu ainda não sei o que é morrer pelas mãos de um homem,
eles sabem – eles o sabem muito bem.

Trad.: Nelson Santander

Cafe

Of those at the table in the cafe
where on winter noons a garden of frost glittered on windowpanes
I alone survived.
I could go in there if I wanted to
and drumming my fingers in a chilly void
convoke shadows.

With disbelief I touch the cold marble,
with disbelief I touch my own hand.
It – is, and I – am in ever novel becoming,
while they are locked forever and ever
in their last word, their last glance,
and as remote as Emperor Valentinian
or the chiefs of the Massagetes, about whom I know nothing,
though hardly one year has passed, or two or three.

I may still cut trees in the woods of the far north,
I may speak from a platform or shoot a film
using techniques they never heard of.
I may learn the taste of fruits from ocean islands
and be photographed in attire from the second half of the century.
But they are forever like busts in frock coats and jabots in some monstrous encyclopedia.

Sometimes when the evening aurora paints the roofs in a poor street
and I contemplate the sky, I see in the white clouds
a table wobbling. The waiter whirls with his tray
and they look at me with a burst of laughter
for I still don’t know what it is to die at the hand of man,
they know – they know it well.


                              Polish; trans. Czeslaw Milosz

Nikki Giovanni – Permissões

Eu matei uma aranha
Não uma reclusa marrom assassina
Nem mesmo uma viúva negra
E, pra falar a verdade,
Foi apenas um tipo
Pequeno de aranha frágil
Que deveria ter fugido
Quando peguei o livro
Mas ela não o fez
E ela me assustou
E eu a esmaguei

Eu não acho que
Esteja autorizada a

Matar qualquer coisa

Só porque estou

Com medo

Trad.: Nelson Santander

Allowables

I killed a spider
Not a murderous brown recluse
Nor even a black widow
And if the truth were told this
Was only a small
Sort of papery spider
Who should have run
When I picked up the book
But she didn’t
And she scared me
And I smashed her

I don’t think
I’m allowed

To kill something

Because I am

Frightened

Rudy Francisco – Compaixão

Ela me pede para matar a aranha.
Em vez disso, empunho as armas
mais pacíficas que consigo encontrar.

Eu pego um guardanapo e uma xícara.
Capturo a aranha, coloco-a para fora
e deixo-a ir embora.

Se alguma vez eu for apanhado no lugar errado
na hora errada, apenas por estar vivo
e não incomodar ninguém,

Espero ser acolhido
com o mesmo tipo
de compaixão.

Trad.: Nelson Santander

Mercy

She asks me to kill the spider.
Instead, I get the most
peaceful weapons I can find.

I take a cup and a napkin.
I catch the spider, put it outside
and allow it to walk away.

If I am ever caught in the wrong place
at the wrong time, just being alive
and not bothering anyone,

I hope I am greeted
with the same kind
of mercy.

Linda Pastan – A filha

Triste por saber que Linda Pastan – uma das minhas poetas norteamericanas favoritas – nos deixou. Ela deixa um legado imensurável à literatura americana, tendo sido uma das mais importantes e influentes poetisas de sua geração.

Com sua escrita lírica e intensa, Linda Pastan capturou a essência da vida cotidiana e da alma humana, explorando temas como amor, perda, solidão e significado da vida. Suas obras são elogios à simplicidade e à beleza da vida. Vai fazer uma falta enorme.

A filha

Gostaria de ter tido outra chance
com o meu pai, desempenhado
um papel diferente
no drama da minha infância.

Questões sem respostas assombram,
mas questões nunca formuladas apodrecem.
Sua cidade se desenrola em preto e branco granulado:
o trotar do cavalo do leiteiro,

o fedor daquele cortiço, a fome.
Como foi para ele, uma criança, nadar
em uma nova e estranha língua, tentando não se afogar?
Isso produziu seus silêncios,

suas raivas? Mas o que produziu minhas lágrimas
atrás de portas fechadas, minhas malcriações,
minhas recusas? Eu vivia uma vida mais simples,
embora a vida para mim parecesse maçante, não simples.

Velhas mágoas se desenrolam
em sonhos acordados ou em vigília.
Hamlet tinha seu fantasma. Eu tenho apenas
um túmulo silencioso, longe demais para visitar.

Trad.: Nelson Santander

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The Daughter

I wish I had another chance
with my father, had played
a different role
in the drama of my childhood.

Questions unanswered haunt,
but questions never asked fester.
His city unreels in grainy black and white:
clop of a milkman’s horse,

that tenement reek, hunger.
What was it like for him, a child, swimming
in a strange new language, trying not to drown?
Did that produce his silences,

his angers? But what produced my tears
behind closed doors, my rudeness,
my refusals? I lived a simpler life,
though life to me seemed dull, not simple.

Old sorrows play out
in waking or sleeping dreams.
Hamlet had his ghost. I only have
a silent grave, too far away to visit.

César Cantoni – Álbum de Família

Morreu meu pai, morreram meus avós,
morreram meus tios de sangue e por afinidade.
Uma família inteira de ferreiros,
marceneiros, curtidores, pedreiros,
jaz agora sem forças embaixo da terra.

E eu, o mais inútil de todos,
o que não sabe fazer nada com as mãos,
logrei sobreviver impunemente
para chorar diante de uma foto
o melhor do meu sangue.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 06/02/2018

César Cantoni – Album de Familia

Murió mi padre, murieron mis abuelos,
murieron mis tíos carnales y políticos.
Una familia entera de herreros,
ebanistas, curtidores, albañiles,
yace ahora sin fuerzas bajo tierra.

Y yo, el más inútil de todos,
el que no sabe hacer nada con las manos,
he logrado sobrevivir impunemente
para llorar delante de una foto
lo mejor de mi sangre.

Pat Schneider – A paciência das coisas comuns

É um tipo de amor, não acha?
Como a caneca retém o chá,
Como a cadeira se mantém robusta e sólida,
Como o chão recebe a sola dos sapatos
Ou os dedos. Como as solas dos pés sabem
Onde devem estar.
Eu tenho pensado na paciência
Das coisas comuns, em como as roupas
Esperam respeitosamente nos guarda-roupas
E o sabão seca discretamente no prato,
E as toalhas sorvem a umidade
da pele das costas.
E na adorável repetição dos degraus.
E o que é mais generoso do que uma janela?

Trad.: Nelson Santander

The Patience of Ordinary Things

It is a kind of love, is it not?
How the cup holds the tea,
How the chair stands sturdy and foursquare,
How the floor receives the bottoms of shoes
Or toes. How soles of feet know
Where they’re supposed to be.
I’ve been thinking about the patience
Of ordinary things, how clothes
Wait respectfully in closets
And soap dries quietly in the dish,
And towels drink the wet
From the skin of the back.
And the lovely repetition of stairs.
And what is more generous than a window?

César Cantoni – O mais digno em nós

Eu sempre achei que os ossos, com seu brilho mineral
de pedra polida pela chuva, são o que de mais digno há em nós:
sobrevivem longamente à putrefação indecorosa da carne
e não têm a malícia nem a maldade da alma.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em 26/01/2018

César Cantoni – Lo más digno de nosotros

Siempre pensé que los huesos, con su destello mineral
de piedra pulida por la lluvia, son lo más digno de nosotros:
sobreviven largamente a la putrefacción indecorosa de la carne
y no tienen la astucia ni la maldad del alma.

Ruth Lepson – No dia da audiência do nosso divórcio

No dia da audiência do nosso divórcio

você me convidou para almoçar em uma cantina.
Nunca tínhamos sido tão gentis um com o outro.
Quando você disse que eu ainda era uma desleixada, nós rimos.
Depois do almoço, ficamos no estacionamento.
Você disse: você tem a última palavra,
mas eu respondi, Não, estou cansada de ser
aquela que resume tudo.
Você tem a última palavra.

Mas você não conseguiu pensar em nenhuma.
Então você se encaminhou para o nosso carro prateado,
e eu para o vermelho.
Já se passaram três anos.
E mesmo isso é só uma história agora.
Ultimamente, não sinto mais como se vivesse com você.
Mas eu me lembro de nossa amabilidade naquele dia,
quando já não importava mais.

Trad.: Nelson Santander

The Day Of Our Divorce Hearing

you treated me to lunch, a spaghetti place.
We had never been so kind to each other.
When you said I’m still a slob, we laughed.
After lunch, we stood in the parking lot.
You said, you have the last word,
but I said, No, I’m tired of being
the one who sums things up.
You get the last word.

But you couldn’t think of one.
So off you went to our silver car,
I to our red one.
It’s three years later.
And even that’s just a story now.
Lately I don’t feel as if I lived with you.
But I remember our kindness that day,
when it no longer mattered.