Wendell Berry – Antes do Anoitecer

Da varanda no crepúsculo, observei
um martim-pescador selvagem em um voo
que ele só poderia estar realizando por deleite.

Ele desceu pelo rio, chapinhando
contra o rosto turvo da água
como uma pedra saltitante, passando

rio abaixo até sumir de vista. E ainda
eu podia ouvir o chapinhar
cada vez mais distante

à medida que escurecia. Ele voltou
pelo mesmo caminho, escuro como sua sombra,
súbito além dos salgueiros.

O chapinhar foi se tornando inaudível.
Estava escuro então. A noite
o havia acolhido em algum lugar.

— no lugar para onde ele se dirigia
ou onde, guiado por sua alegria,
ele chegou.

Trad.: Nelson Santander

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Before dark

From the porch at dusk I watched
a kingfisher wild in flight
he could only have made for joy.

He came down the river, splashing
against the water’s dimming face
like a skipped rock, passing

on down out of sight. And still
I could hear the splashes
farther and farther away

as it grew darker. He came back
the same way, dusky as his shadow,
sudden beyond the willows.

The splashes went on out of hearing.
It was dark then. Somewhere
the night had accommodated him

— at the place he was headed for
or where, led by his delight,
he came.

Joseph Stroud – Primeira Canção

Naquela distante manhã na fazenda de Ruth
quando me escondi entre as glicínias
e observei os beija-flores. Eu pensei
que o rubi ou o ouro que reluzia em seus pescoços
fosse o sangue adocicado das flores.
Eles mergulhavam seus bicos perfurantes
em uma coroa de pétalas até suas cabeças
desaparecerem. As flores se confundiam com as asas,
e a respiração que eu ouvia
vinha das finas hastes das glicínias em movimento.
Naquela noite, meu rosto pressionado contra a janela,
olhei para fora na escuridão
onde a lua se afogava nos salgueiros
junto à lagoa. Meu coração, sanguíneo jaspe,
mudou. Aquela longa noite, a fazenda,
aqueles rútilos pássaros, todos esses anos idos.
Os cavalos em pé quietos e enormes
na escuridão trespassada pela lua.

Trad.: Nelson Santander

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First Song

That long-ago morning at Ruth’s farm
when I hid in the wisteria
and watched hummingbirds. I thought
the ruby or gold that gleamed on their throats
was the honeyed blood of flowers.
They would stick their piercing beaks
into a crown of petals until their heads
disappeared. The blossoms blurred into wings,
and the breathing I heard
was the thin, moving stems of wisteria.
That night, my face pressed against the window,
I looked out into the dark
where the moon drowned in the willows
by the pond. My heart, bloodstone,
turned. That long night, the farm,
those jeweled birds, all these gone years.
The horses standing quiet and huge
in the moon-crossing blackness.

Joan Margarit – Água-forte

O granizo metralha as vidraças,
as rajadas arrasam as calçadas.
E tu e eu aqui, onde o mau tempo
resume os obstáculos que às vezes
nos levam à beira do abismo.
Olhos brilhantes de desacertos,
mãos queimadas por se salvarem agarradas
aos gelados corrimãos do inferno.
Que o acaso continue disparando
sem razão, como sempre, nas vidraças.
Além do amor – desse nosso amor –
nada faz sentido.

Trad.: Nelson Santander

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Joan Margarit – Aguafuerte

El granizo ametralla los cristales,
las ráfagas arrasan las aceras.
Tú y yo estamos aquí, donde el mal tiempo
resume los obstáculos que a veces
nos han llevado al borde del abismo.
Ojos brillantes de equivocaciones,
manos quemadas por salvarse asidas
a la helada baranda del infierno.
Que el azar continúe disparando
sin razón, como siempre, a los cristales.
Más allá del amor —de nuestro amor—
nada tiene sentido.

Manuel Vilas – Delia’s Gone

Bendito seja o suicídio.

O melhor do nosso amor foi termos nos suicidado.

Tantos suicidas em Paris, Nova Iorque,
Genebra, Londres, Estocolmo e Madrid.

Homens e mulheres que se jogam pelas janelas,
do décimo ou décimo primeiro andar,
tentando voar no absurdo vento das cidades.

Bendito seja o suicídio, que nos iguala aos anjos
mais famosos na escala do Universo.

É temperamental, a morte por amor.

Suicida-te, não significa nada, o mundo resplandecerá
ainda mais e não haverá tristeza alguma porque já então ninguém te ama.

Homens e mulheres que dispararam de negras pistolas
contra suas inocentes e derrotadas têmporas,
que castigaram seu sistema digestivo
com cápsulas verdes e brancas, rubras e amarelas.

Não suportei quando me abandonaste, meu amor.

Não suportei ficar desempregado, meu amor.

Não podia ver-te com outra, meu amor.

São Ian Curtis, São Mariano José de Larra, Santa Silvia Plath,
a santa forca, a santa pistola e o santo gás,
e o amor sempre,
o amor
tão assassino.

Diga adeus ao teu corpo, já vazio.

Bendito seja o suicídio,
que nos afasta do escrutínio de todos os Imperadores.

Bendito seja o suicídio, o grande adeus dos lunáticos.

Que bela é a morte e seu irmão, o sonho,
disse um inglês ilustre.

Não podia suportar as nuvens, o mar, as ruas,
meu amor.

Cobre-me de terra, estarei bem não estando,
meu amor.

Compra-me um caixão barato, ficarei bem assim.

Não preciso que te lembres de mim, meu amor.

Trad.: Nelson Santander

Delia’s Gone

Bendito sea el suicidio.

Lo mejor de nuestro amor fue suicidarnos.

Tantos suicidas en París, en Nueva York,
en Ginebra, en Londres, en Estocolmo y en Madrid.

Hombres y mujeres que se arrojan por las ventanas,
desde décimos o undécimos pisos,
intentando volar en el absurdo viento de las ciudades.

Bendito sea el suicidio, que nos iguala a los ángeles
más famosos en las rutinarias gradas del Universo.

Es temperamental, la muerte por amor.

Suicídate, no significa nada, el mundo resplandecerá
aún más y no habrá tristeza alguna porque nadie te ama ya.

Hombres y mujeres que dispararon negras pistolas
contra sus inocentes y vencidas sienes,
que castigaron su aparato digestivo
con cápsulas verdes y blancas, rojas y amarillas.

No soporté que me abandonaras, amor mío.

No soporté quedarme sin trabajo, amor mío.

No podía verte con otra, amor mío.

San Ian Curtis, San Mariano José de Larra, Santa Silvia Plath,
la santa horca, la santa pistola y el santo gas,
y el amor siempre,
el amor
tan asesino.

Di adiós a tu cuerpo, se ha quedado vacío.

Bendito sea el suicidio,
que nos aleja de la mirada de todos los Emperadores.

Bendito sea el suicidio, el gran adiós de los lunáticos.

Qué bella es la muerte y su hermano el sueño,
dijo un inglés ilustre.

No podía soportar las nubes, el mar, las calles,
amor mío.

Cúbreme de tierra, estaré bien no estando,
amor mío.

Cómprame un ataúd barato, estará bien así.

No hace falta que me recuerdes, amor mío.

Joan Margarit – Anos Sessenta

Lento, muito mais lento, tempo meu:
falemos sobre o amor mesmo que as rosas
tenham que acabar sempre na lixeira.
Deslumbrou-nos um futuro. Que futuro?
Sem esperança alguma, críamos em algo,
ou, porque era difícil a fé em algo,
nunca perdemos a esperança.
Restam as bandeiras vermelhas de perigo
defronte ao mar bravio.

Lembro-me de nós querendo fugir,
buscando em algum atlas
um distante país civilizado
– a despojada Islândia –
onde encontrar proteção por meio do esquecimento.
O espanto do cônsul, lembras?
Em seu escritório,
o gordo importador de bacalhau
não nos ofereceu mais
do que o fedor de peixes e os intermináveis invernos.

O sonho era destruir ícones.
E isso precisamente
foi-se tornando pouco a pouco realidade
sem nenhum drama, no dia a dia.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – Años Sesenta

Lento, mucho más lento, tiempo mío:
hablemos del amor aunque las rosas
tengan que acabar siempre en la basura.
Nos deslumbró un futuro. ¿Qué futuro?
Sin esperanza alguna, creíamos en algo
o, porque era difícil la fe en algo,
nunca perdimos la esperanza.
Quedan banderas rojas de peligro
frente a la mala mar.

Nos recuerdo a los dos queriendo huir,
buscando en algún atlas
un lejano país civilizado
—la despeinada Islandia—
donde hallar protección a través del olvido.
La extrañeza del cónsul, ¿la recuerdas?
En su oficina,
el gordo importador de bacalao
no nos ofreció más
que el hedor a pescado y los largos inviernos.

El sueño era destruir moldes.
Y eso precisamente
se ha hecho poco a poco realidad
sin dramatismo alguno, día a día.

Luis Alberto de Cuenca – Nos veremos novamente

Nos veremos novamente onde sempre é de dia
e os feios são bonitos e eternamente jovens,
onde os poderosos não abusam dos mais fracos
e, das árvores, pendem brinquedos e gibis.

Nesta morada de luz que não fere os olhos
Voltaremos, tu e eu, a dizer-nos bobagens
de mãos dadas, contemplando as ondas a morrer
sem estresse nem pressa, onde o sol não se põe.

E vivenciarei em teus lábios o amor que a Terra
sentiu pelo Céu quando o mundo era uma criança,
e o tempo deixará de solfejar sua lúgubre
canção de despedida enquanto nos abraçamos.

Volveremos a vernos

Volveremos a vernos donde siempre es de día
y los feos son guapos y eternamente jóvenes,
donde los poderosos no abusan de los débiles
y cuelgan de los árboles juguetes y tebeos.

En ese hogar de luz que no hiere los ojos
volveremos tú y yo a decirnos bobadas
cogidos de la mano, viendo morir las olas
sin agobios ni prisas, donde el sol no se pone.

Y viviré en tus labios el amor que la Tierra
sintiera por el Cielo cuando el mundo era un niño,
y el tiempo dejará de salmodiar su lúgubre
canción de despedida mientras nos abrazamos.

Karmelo C. Iribarren – A herança

Ultimamente,
quando me vejo no espelho,
é meu avô quem me encara,
mais que meu pai.

Cinquenta anos
para começar a entrar na posse
da única herança que ele me deixou,

e que acabará me matando.

Trad.: Nelson Santander

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La herencia

Últimamente,
cuando me asomo al espejo,
es mi abuelo el que me mira,
más que mi padre.

Cincuenta años
para empezar a cobrar
la única herencia que me dejó,

y que acabará matándome.

Jaime Gil de Biedma – Canção de aniversário

Porque são já seis anos desde então,
porque não há na terra, ainda,
nada tão doce quanto um quarto
para dois, se for teu e meu;
porque até o tempo, esse parente pobre
que conheceu dias melhores,
parece hoje partidário da felicidade,
cantemos, alegria!

E, depois, levantemo-nos mais tarde,
como no domingo. Que a manhã plena
nos faça amarmos-nos novamente,
mas melhor: de um jeito
que à noite não se pode imaginar,
enquanto o quarto se impregna
de sol e calma vizinhança, como o tempo,
e de história serena.

O eco dos dias de prazer,
o desejo, a música acordada
dentro do coração, e que eu mal coloquei
em meus poemas, por romântica;
todo o perfume, todo o passado infiel,
o que foi doce e nostálgico,
não vês como se somam à realidade que então
sonhavas e sonhavas?

A realidade – não tão bonita –
com a inconveniência de serem duas,
suas vergonhosas noites de amor sem desejo
e de desejo sem amor,
que nem em seis séculos dormindo sozinho
as pagaríamos. E com
suas vagas transições, da traição ao tédio,
do tédio à traição.

A vida não é um sonho, tu já sabes
que temos a tendência de esquece-lo.
Mas um pouco de sonho, não mais, um sim não é
para agora, calando-nos
o resto da história, e um instante
– enquanto tu e eu nos desejamos
uma vida feliz e longa em comum -, estou seguro
de que não pode causar dano.

Trad.: Nelson Santander

Canción de aniversario

Porque son ya seis años desde entonces,
porque no hay en la tierra, todavía,
nada que sea tan dulce como una habitación
para dos, si es tuya y mía;
porque hasta el tiempo, ese pariente pobre
que conoció mejores días,
parece hoy partidario de la felicidad,
cantemos, alegría!

Y luego levantémonos más tarde,
como domingo. Que la mañana plena
se nos vaya en hacer otra vez el amor,
pero mejor: de otra manera
que la noche no puede imaginarse,
mientras el cuarto se nos puebla
de sol y vecindad tranquila, igual que el tiempo,
y de historia serena.

El eco de los días de placer,
el deseo, la música acordada
dentro en el corazón, y que yo he puesto apenas
en mis poemas, por romántica;
todo el perfume, todo el pasado infiel,
lo que fue dulce y da nostalgia,
¿no ves cómo se sume en la realidad que entonces
soñabas y soñaba?

La realidad – no demasiado hermosa –
con sus inconvenientes de ser dos,
sus vergonzosas noches de amor sin deseo
y de deseo sin amor,
que ni en seis siglos de dormir a solas
las pagaríamos. Y con
sus transiciones vagas, de la traición al tedio,
del tedio a la traición.

La vida no es un sueño, tú ya sabes
que tenemos tendencia a olvidarlo.
Pero un poco de sueño, no más, un si es no es
por esta vez, callándonos
el resto de la historia, y un instante
– mientras que tú y yo nos deseamos
feliz y larga vida en común -, estoy seguro
que no puede hacer daño.

Joan Margarit – Inverno de 95

Esta carta a escrevo para alguém
que está em um barco pelo norte
de Tenerife, em cinquenta e sete.
Um rapaz que, da amurada,
mira o duro poente sobre o mar
e estuda arquitetura em Barcelona,
para onde retorna agora. Aviso-te
com um sinal de alerta: a alegria
que sentes ao deixar teu pai para trás
revela a solidão sob uma luz dourada.
Teu pai já te espera,
outra vez, no porto de chegada:
não te conhece e olha para nenhuma parte,
nada diz e tampouco te responde.
Lentamente, com o dorso da mão
roças-lhe a face enquanto lhe falas
como se tratasse de ti mesmo,
como se o amanhã fosse agora.
O ontem nos espera no amanhã,
vai sempre mais depressa que nós.

Trad.: Nelson Santander

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Invierno del 95

Esta carta la escribo para alguien
que va en un barco por el norte
de Tenerife, en el cincuenta y siete.
Un muchacho que, desde la baranda,
mira el férreo poniente sobre el mar
y estudia arquitectura en Barcelona,
adonde vuelve ahora. Te aviso
con un gesto de alarma: la alegría
que sientes al dejar tu padre atrás
muestra la soledad bajo una luz dorada.
Tu padre ya te espera,
otra vez, en el puerto de llegada:
no te conoce y mira hacia ninguna parte,
nada dice y tampoco te contesta.
Despacio, con el dorso de la mano
le rozas la mejilla mientras le hablas
como si se tratase de ti mismo,
igual que si el mañana fuese ahora.
El ayer nos espera en el mañana,
va siempre más deprisa que nosotros.

Henry Reed – A nomeação das peças

Hoje temos a nomeação das peças. Ontem
Tivemos a limpeza diária. E amanhã de manhã,
Teremos o que fazer depois da ordem de “fogo”. Mas hoje,
Hoje nós temos a nomeação das peças. A japonica
Arde como coral em todos os jardins adjacentes,
E hoje nós temos a nomeação das peças.

Isto é o zarelho móvel inferior. E isto
É o zarelho móvel superior, cuja utilidade você entenderá
quando receber sua bandoleira. E este é o elo de encaixe,
Que no seu caso você não tem. Os ramos
Mantêm nos jardins seus gestos silenciosos e eloquentes,
Que no nosso caso nós não temos.

Esta é a trava de segurança, que é sempre liberada
Com um simples movimento do polegar. E por favor não quero
Ver ninguém usando o dedo. Você pode fazer isso com facilidade
Se tiver alguma força no polegar. As flores
São frágeis e imóveis, nunca permitem que alguém as veja
usando seus dedos.

E isto que você vê é o ferrolho. A finalidade dele
É o de destravar a culatra, como pode ver. Podemos deslizá-lo
Rapidamente para trás e para frente: chamamos isso de
Libertar a retratora. E rapidamente para trás e para frente
As primeiras abelhas estão apalpando e assediando as flores:
Chamam isso de libertar a primavera.

Chamam isso de libertar a primavera: é perfeitamente fácil
Se você tiver alguma força no polegar: como o ferrolho,
e a culatra, e a peça de armar, e o ponto de equilíbrio,
Que no nosso caso não temos; e a amendoeira em flor
Silenciosa em todos os jardins e as abelhas indo para trás e para frente
Pois hoje temos a nomeação das peças.

Trad.: Nelson Santander

Um pouco sobre o poema e sua tradução

The naming of parts, escrito em 1942 pelo poeta inglês Henry Reed, é a Parte I de uma coletânea de seis poemas chamada Lessons of War (Lições de Guerra). Reed, que era visceralmente contra a guerra, utiliza os poemas dessa coletânea para expressar seu posicionamento pacifista, fazendo uma espécie de paródia do treinamento do Exército Britânico durante a Segunda Guerra Mundial.

As cinco estrofes de The Naming of Parts (que traduzi por A Nomeação das Peças) se estruturam, cada uma, em torno de duas vozes: a de um instrutor que ensina o funcionamento de um rifle, usando uma linguagem rigorosamente técnica, e a que parece ser a de um recruta mais interessado na natureza ao seu redor do que na aula que está sendo ministrada. Em vez de aprender sobre a arma, o recruta se apropria de parte das expressões e palavras do instrutor para transfigura-las poeticamente, dando-lhes novo significado.

Na primeira estrofe, por exemplo, o instrutor esclarece que aquele dia é dedicado à nomeação das peças do rifle. O dia anterior foi reservado para a limpeza das armas e no dia seguinte eles irão para o campo de batalha. O recruta, todavia, está absorto nas camélias que ardem “como coral em todos os jardins adjacentes”.

Na estrofe seguinte, o instrutor demonstra como funciona a colocação da correia de transporte do rifle (também conhecida no Brasil como “bandoleira”) e aponta a existência de um dispositivo de encaixe que, no entanto, não está presente nos rifles dos recrutas (a passagem é intencionalmente irônica, já que o Exército da Rainha estava mal preparado e mal equipado para a guerra). O recruta não está preocupado com isso: ele está de olho nas árvores vizinhas, cujos galhos se justapõem e se encaixam silenciosamente, mas de forma eloquente.

As demais estrofes têm a mesma estrutura lógico-formal, contrastando o palavreado técnico e monótono do instrutor com a visão poética e reveladora do recruta. Surgem também, aqui e ali, insinuações de cunho sexual (segundo alguns intérpretes, uma alusão sub-reptícia à sexualidade reprimida dos soldados em razão da guerra), evidenciadas pela menção às abelhas polinizando as flores, em contraposição ao movimento de vai-e-vem do ferrolho do rifle. A última estrofe resume as lições aprendidas com o instrutor e, por que não?, com o recruta.

A tradução do poema apresentou algumas dificuldades que não sei se consegui resolver satisfatoriamente.

Logo na primeira estrofe, Reed usa os verbos “firing” e “glistens” (em português, “disparar” e “brilhar”, respectivamente, mas que também podem significar “arder”) pra demonstrar a brutal diferença entre atirar em alguém e iluminar o mundo com a beleza. Em português, os verbos utilizados para designar o disparo de uma arma de fogo são “atirar”, “disparar”, “descarregar”, etc. Ou seja, em língua portuguesa o termo “fogo” não tem um correspondente verbal. Por essa razão, e para manter a conexão entre o verbo “firing” (disparar com uma arma de fogo) e o brilho das camélias, optei, por um lado, por usar a palavra “fogo” extraída de um comando militar (o famoso “Preparar… apontar… Fogo!”) e, de outro, uma das acepções da palavra “glistens” em português – “arder” – que significa “estar em chamas, abrasado; incendiar-se, queimar” (todas relativas ao fogo), mas que, no caso, está empregada no sentido de produzir brilho, cintilar.

Na primeira estrofe encontramos também a palavra Japonica. A Japonica é uma das espécies da flor conhecida como Camélia, cujo nome científico é Camellia japonica, nativa das florestas do sul do Japão. Reed não escolheu esta flor ao acaso. O nome remete diretamente ao Japão, que durante a Segunda Guerra Mundial se aliou à Alemanha e Itália para formar o Eixo, inimigo das forças Aliadas das quais a Inglaterra fazia parte. Em português, não é comum fora dos círculos especializados o uso de expressões científicas para denominar as plantas. Ninguém além dos botânicos chama a mini-rosa de Rosa chinensis, a margarida de Leucanthemum vulgare ou a Flor-de-lis de Sprekelia Formosissima. Todavia, não é totalmente fora de propósito, nesse caso, o uso do nome científico já que ele se presta a especificar a qual espécie de camélia estamos nos referindo. Assim, fica mantida a alusão poética desejada pelo autor.

Outra dificuldade foi identificar corretamente os nomes das peças mencionadas no poema e encontrar a nomenclatura correspondente em português, ainda mais considerando que estamos falando de um rifle da Segunda Guerra Mundial, que provavelmente nem mesmo é mais fabricado. Recorri à internet e tenho dúvidas sobre se consegui encontrar, em português, todos os termos técnicos das peças citadas no poema. O certo é que, em algumas passagens, optei deliberadamente por não buscar o exato termo em nossa língua (embora mantendo o sentido técnico original), para tentar emular a conexão que o texto faz entre as peças da arma e os devaneios do recruta. Por exemplo, “Piling swivel” poderia ser traduzido como “argola móvel para empilhamento/agrupamento (dos rifles)” – e desconheço se há uma peça com a mesma função em rifles brasileiros, e qual o nome que é dado a ela no Brasil. No poema, a peça “piling swivel” se correlaciona com os ramos de árvores que “Mantêm nos jardins seus gestos silenciosos e eloquentes”. Assim, optei por traduzir o nome desta peça como “elo de encaixe”, que, além de, imagino eu, indicar corretamente a função da peça, faz referência aos galhos de árvores que se encaixam uns aos outros.

Dentro ainda da técnica de alusão “arma-natureza” utilizada pelo poeta, uma expressão em especial se mostrou impossível de ser recuperada com os dois significados usados no poema. A expressão “easing the spring”, em inglês, pode tanto significar tanto “soltar/libertar/distensionar a mola” quanto “soltar/libertar a primavera”. Habilmente, Reed utiliza as duas acepções desta expressão para justapor o universo da guerra ao da natureza, numa estrofe com evidente conotação sexual (bem por isso, traduzi “cocking-piece” por “peça de armar”). Foi impossível encontrar uma palavra em português que significasse simultaneamente “mola” e “primavera”. Por isso, optei por uma palavra (“retratora”, relativa à mola retratora e recuperadora do ferrolho) que recupera ao menos parte da fonética da sua correspondente no último verso da estrofe (“primavera”).

Observação final: como iria republicar este poema, aproveitei para fazer alguns ajustes na tradução, em 08/08/2024.

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The naming of parts

Today we have naming of parts. Yesterday,
We had daily cleaning. And tomorrow morning,
We shall have what to do after firing. But today,
Today we have naming of parts. Japonica
Glistens like coral in all of the neighboring gardens,
And today we have naming of parts.

This is the lower sling swivel. And this
Is the upper sling swivel, whose use you will see,
When you are given your slings. And this is the piling swivel,
Which in your case you have not got. The branches
Hold in the gardens their silent, eloquent gestures,
Which in our case we have not got.

This is the safety-catch, which is always released
With an easy flick of the thumb. And please do not let me
See anyone using his finger. You can do it quite easy
If you have any strength in your thumb. The blossoms
Are fragile and motionless, never letting anyone see
Any of them using their finger.

And this you can see is the bolt. The purpose of this
Is to open the breech, as you see. We can slide it
Rapidly backwards and forwards: we call this
Easing the spring. And rapidly backwards and forwards
The early bees are assaulting and fumbling the flowers:
They call it easing the Spring.

They call it easing the Spring: it is perfectly easy
If you have any strength in your thumb: like the bolt,
And the breech, and the cocking-piece, and the point of balance,
Which in our case we have not got; and the almond-blossom
Silent in all of the gardens and the bees going backwards and forwards
For today we have naming of parts.