Jorge Valdés Díaz-Vélez – O material do relâmpago

Calculaste em detalhes cada passo,
sutil, há muitos séculos. Finalmente
teu marido viajou e as crianças
foram dormir com os avós.
Estás agora sozinha e eufórica
voltaste-te a se maquiar e vestiste-te
de preto rigoroso e perfumaste
tua mínima porção de lingerie.
Estás tremendo, dizes a ti mesma, mas nada
te fará voltar atrás. Olhas tua imagem
levantada nos saltos, desafiadora.
Tu e a noite são jovens e belas
como uma tempestade que se aproxima.

Trad.: Nelson Santander

Materia del relámpago

Calculaste al detalle cada paso,
sutil, desde hace siglos. Finalmente
tu esposo está de viaje y tus pequeñas
se fueron a dormir con sus abuelos.
Así que ahora estás sola y con euforia
te has vuelto a maquillar y te has vestido
de negro riguroso y perfumado
tu mínima porción de lencería.
Estás temblando, te dices, pero nada
te hará volver atrás. Miras tu imagen
alzada en los tacones, desafiante.
Tú y la noche son jóvenes y hermosas
como una tempestad que se aproxima.

Blas de Otero – Ímpeto

Mas nem tudo há de ser ruína e vazio
E nem tudo escombro ou descongelação.
Por cima deste ombro levo o céu,
e por cima deste outro, um vasto rio

de entusiasmo. E meu corpo no meio,
árvore luzente gritando do chão.
E, entre raízes mortais, sofreguidão,
meu coração desperto, raio sombrio.

Somente o anseio me vence. Mas avanço
sem duvidar, sobre abismos infinitos,
com a mão estendida: se não alcanço

com minha mão, hei de alcançar com gritos!
e sigo, sempre, de pé, e assim, me lanço
às águas dos apetites que habito.

Trad.: Nelson Santander

Ímpetu

Mas no todo ha de ser ruina y vacío.
No todo desescombro ni deshielo.
Encima de este hombro llevo el cielo,
y encima de este otro, un ancho río

de entusiasmo. Y, en medio, el cuerpo mío,
árbol de luz gritando desde el suelo.
Y, entre raíz mortal, fronda de anhelo,
mi corazón en pie, rayo sombrío.

Sólo el ansia me vence. Pero avanzo
sin dudar, sobre abismos infinitos,
con la mano tendida: si no alcanzo

con la mano, ¡ya alcanzaré con gritos!
y sigo, siempre, en pie, y así, me lanzo
al mar, desde una fronda de apetitos.

Mary Oliver – O quarto signo do zodíaco

1.
Porque eu deveria ter ficado surpresa?
Caçadores percorrem a floresta
sem um som.
O caçador, armado com seu rifle,
a raposa com seus pés de seda,
a serpente em seu império de músculos —
todos se movem em silêncio,
famintos, cuidadosos, atentos.
Exatamente como o câncer
entrou na floresta do meu corpo,
sem um som.

2.
A questão é,
como será
depois do último dia?
Irei flutuar
pelo céu
ou me desgastarei
na terra ou em um rio —
sem lembrar de nada?
Quão desesperada eu ficaria
se não conseguisse lembrar-me
do nascer do sol, se não conseguisse
lembrar-me das árvores, rios; se não conseguisse
nem mesmo lembrar-me, amado,
do seu amado nome?

3.
Eu sei, você nunca pretendeu ser deste mundo.
Mas está nele do mesmo jeito.

Então por que não começar imediatamente?

Quero dizer, pertencendo a ele.
Há tanto o que admirar, sobre o que chorar.

E sobre o que escrever músicas ou poemas.

Abençoe os pés que a levam para lá e para cá.
Abençoe os olhos e os ouvidos que ouvem.
Abençoe a língua, a maravilha do paladar.
Abençoe o toque.

Você poderia viver cem anos, já aconteceu.
Ou não.
Estou falando da plataforma afortunada
de muitos anos,
nenhum dos quais, penso, eu já desperdicei.
Você precisa de um empurrão?
Você precisa de um pouco de escuridão para prosseguir?
Deixe-me, então, ser urgente como um punhal,
e lembra-la de Keats,
que de tão único de propósito e pensamento, por um tempo
teve uma vida inteira.

4.
No final da tarde de ontem, sob o calor,
todas as frágeis flores azuis em floração
nos arbustos no quintal ao lado haviam
tombado dos arbustos e jaziam
enrugadas e desvanecentes no gramado. Mas
esta manhã os arbustos estavam cheios de
flores azuis novamente. Nenhuma delas
remanescia na grama. Como, eu
me questionei, elas rolaram de volta para os
ramos, que ferozmente queriam,
como todos nós, apenas um pouco mais de
vida?

Trad.: Nelson Santander

The fourth sign of the zodiac

1.
Why should I have been surprised?
Hunters walk the forest
without a sound.
The hunter, strapped to his rifle,
the fox on his feet of silk,
the serpent on his empire of muscles —
all move in a stillness,
hungry, careful, intent.
Just as the cancer
entered the forest of my body,
without a sound.

2.
The question is,
what will it be like
after the last day?
Will I float
into the sky
or will I fray
within the earth or a river —
remembering nothing?
How desperate I would be
if I couldn’t remember
the sun rising, if I couldn’t
remember trees, rivers; if I couldn’t
even remember, beloved,
your beloved name.

3.
I know, you never intended to be in this world.
But you’re in it all the same.

So why not get started immediately.

I mean, belonging to it.
There is so much to admire, to weep over.

And to write music or poems about.

Bless the feet that take you to and fro.
Bless the eyes and the listening ears.
Bless the tongue, the marvel of taste.
Bless touching.

You could live a hundred years, it’s happened.
Or not.
I am speaking from the fortunate platform
of many years,
none of which, I think, I ever wasted.
Do you need a prod?
Do you need a little darkness to get you going?
Let me be urgent as a knife, then,
and remind you of Keats,
so single of purpose and thinking, for a while,
he had a lifetime.

4.
Late yesterday afternoon, in the heat,
all the fragile blue flowers in bloom
in the shrubs in the yard next door had
tumbled from the shrubs and lay
wrinkled and fading in the grass. But
this morning the shrubs were full of
the blue flowers again. There wasn’t
a single one on the grass. How, I
wondered, did they roll back up to
the branches, that fiercely wanting,
as we all do, just a little more of
life?

Robert Hayden – Aqueles domingos de inverno

Também aos domingos
meu pai acordava cedo
e vestia suas roupas no frio azul escuro,
depois, com as mãos rachadas doloridas
do trabalho no tempo durante a semana, ele fazia
os fogos empilhados arderem. Ninguém nunca o agradeceu.

Eu acordava e ouvia o
frio se partindo em fragmentos.
Quando as salas ficavam aquecidas, ele me chamava,
e lentamente eu me levantava e me vestia,
temendo a raiva crônica daquela casa,

Falava indiferentemente
com ele,
que havia expulsado o frio
e também engraxado meus sapatos bons.
O que sabia eu, o que sabia eu
dos austeros e solitários ofícios do amor?

Trad.: Nelson Santander

Those Winter Sundays

Sundays too
my father got up early
and put his clothes on in the blue black cold,
then with cracked hands that ached
from labor in the weekday weather made
banked fires blaze. No one ever thanked him.

I’d wake and hear the
cold splintering, breaking.
When the rooms were warm, he’d call,
and slowly I would rise and dress,
fearing the chronic angers of that house,

Speaking indifferently
to him,
who had driven out the cold
and polished my good shoes as well.
What did I know, what did I know
of love’s austere and lonely offices?

Marisa de la Peña – O tempo que nos resta

“Somos o tempo que nos resta”
J. M. Caballero Bonald.

É isso o que somos: o tempo que nos resta,
o último batimento interrompido,
a palavra não dita,
o deserto cruzado,
e o caminho sem nome
que deixamos para trás.

Somos o abandono, a intempérie,
as luzes apagadas,
e as portas, fechadas para sempre,
ao fim de um adeus forjado nos costumes.

Mas somos o tempo que nos resta,
a voz que não se apaga,
a enxada que ainda golpeia, sem se render,
o poema não escrito,
a ópera inacabada de Puccini,
a derrota assumida, mastigada.
E o que nos resta para viver.

Trad.: Nelson Santander

El tiempo que nos queda

“Somos el tiempo que nos queda”
J. M. Caballero Bonald.

Eso somos: el tiempo que nos queda,
el último latido detenido,
la palabra no dicha,
el desierto cruzado,
y la senda sin nombre
que dejamos atrás.

Somos el abandono, la intemperie,
las luces apagadas,
y las puertas, cerradas para siempre,
tras un adiós forjado en la costumbre.

Pero somos el tiempo que nos queda,
la voz que no se apaga,
la azada que aún golpea, sin rendirse,
el poema no escrito,
la ópera inacabada de Puccini,
la derrota asumida, masticada,
y aquello que nos queda por vivir.

Rubén Darío – Quando vieres a amar

Quando vieres a amar, se não houveres amado,
saberás que neste mundo
é o sofrimento maior e mais profundo
ser a um só tempo feliz e malfadado.

Corolário: o amor é um algar
de luz e sombra, poesia e prosa,
no qual se faz a coisa mais custosa
que é, a um só tempo, rir e chorar.

O pior, o mais terrível,
é que viver sem ele é impossível.

Trad.: Nelson Santander

Cuando llegues a amar

Cuando llegues a amar, si no has amado,
sabrás que en este mundo
es el dolor más grande y más profundo
ser a un tiempo feliz y desgraciado.

Corolario: el amor es un abismo
de luz y sombra, poesía y prosa,
y en donde se hace la más cara cosa
que es reír y llorar a un tiempo mismo.

Lo peor, lo más terrible,
es que vivir sin él es imposible.

Juan Vicente Piqueras – Ristorante dal 1882–

Ristorante dal 1882–
leio no cardápio e me ponho a pensar
que numa noite, há mais de um século,
numa noite igual a esta,
houve um grupo de amigos que aqui jantou,
como nós fazemos agora,
e riram, conversaram, passaram o sal,
mais ou menos felizes, fugazes, encantados
de estarem juntos rindo
como nós fazemos agora,
e que nenhum deles vive mais
e agora somos nós,
os que reservamos esta grande mesa
neste restaurante
que tanto apreciamos por ser antigo,
o ar fantasma do garçom,
e o cozinheiro que nunca vimos
e que tanto admiramos
por seu saber nos fazer esquecer
com sabores sagrados, requintados,
que esta poderia ser perfeitamente
nossa última ceia.

Trad.: Nelson Santander

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Ristorante dal 1882-

Ristorante dal 1882-
leo en la carta y me da por pensar
que en una noche de hace más de un siglo,
en una noche que era igual a ésta,
hubo un grupo de amigos que cenaron aquí,
como ahora nosotros,
y rieron, charlaron, se pasaron la sal,
más o menos felices, fugaces, encantados
de estar juntos riendo
como ahora nosotros,
y que ninguno de ellos vive ya
y ahora son nosotros,
los que hemos reservado esta gran mesa
en esto restaurante
del que tanto nos gusta que sea antiguo,
el aire fantasma del camarero,
y el cocinero que nunca hemos visto
y al que admiramos tanto
por su saber hacernos olvidar
con sabores piadosos, exquisitos,
que ésta podría ser perfectamente
nuestra última cena.

Alfonso Brezmes – Notas marginais

Às vezes, voltamos às páginas
onde outrora fomos felizes.

É tão fácil quanto deixá-las correr
para trás por entre os dedos,
voltar às páginas marcadas,
àquelas breves notas com as quais
quisemos indicar a outro leitor
que ali deveria se deter.

Basta examina-las para ver
que já não são as mesmas:
algo mudou neste breve
intervalo em que nos ausentamos.

Voltar é outra forma de medir
a magnitude incerta da ferida.

Trad.: Nelson Santander

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Notas marginales

A veces volvemos a las páginas
donde una vez fuimos felices.

Es tan fácil como dejar que corran
hacia atrás entre los dedos,
volver a las marcas que dejamos,
a esas breves notas con las que
quisimos indicar a otro lector
que allí debiera detenerse.

Basta con buscarlas para ver
que ya no son las mismas:
algo ha cambiado en este corto
intervalo en que nos fuimos.

Volver es otra forma de medir
la magnitud incierta de la herida.

Carlos Montemayor – Memória

Estou aqui, em casa, a sós.
Aqui estão os móveis, o ar, os ruídos.
Tenho um sentimento tão transparente
quanto a vidraça de uma janela.
É como a janela pela qual olhava a neve ao amanhecer,
há muitos anos, quando criança,
e colava o rosto contra o vidro e compreendia toda a vida.
É um desejo calmo, como a tarde.
É estar como estão todas as coisas.
Ter meu lugar como tudo o que há na casa.
Perdurar pelo tempo que for, como as coisas.
Não ser mais nem melhor que elas.
Apenas ser, em meio à minha vida,
parte do silêncio de todas as coisas.

Trad.: Nelson Santander

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Memoria

Estoy aquí, en la casa, a solas.
Aquí están los muebles, el aire, los ruidos.
Tengo un sentimiento tan transparente
como el vidrio de una ventana.
Es como la ventana en que miraba la nieve al amanecer,
hace muchos años, cuando era niño,
y pegaba la cara contra el cristal y comprendía toda la vida.
Es un deseo en calma, como la tarde.
Es estar como están todas las cosas.
Tener mi sitio como todo lo que está en la casa.
Perdurar el tiempo que sea, como las cosas.
No ser más ni mejor que ellas.
Sólo ser, en medio de la mi vida,
parte del silencio de todas las cosas

Jorge Valdés Díaz-Vélez – S.T.T.R. Sit Tibi Terra Levis

Hoje lembro os mortos da minha casa
Octavio Paz

De todos os nossos mortos, jamais esqueceremos
o primeiro. O meu habita a raiz do outono,
sob os álamos. Sua memória
me oferece uma murta enquanto se inclina
com os braços abertos de outros dias. Lembro
de sua estatura nas sombras, prestes a afastar-se
do espelho, seu rosto velado, o ornamento
das obstinadas lições de algum piano. Cruzou,
em uma tarde sem sol, a linha que une
a vida à morte. Seu corpo era a ausência
presente, o nome sem ser nomeado. Foi o primeiro
morto a morrer subitamente, e para sempre
haverá de sê-lo. O menino que fui então agora
o distingue sentado no peitoril da janela. Víamos
um barco na pureza impassível das nuvens,
e diásporas de formigas nas lieder de Schubert;
e me falava de Stevenson ou Melville, da jornada
que quis realizar quando jovem, ao fim da nostalgia
que se alçava em sua voz quando cantava. Fez
aquela única viagem naquela tarde. Até então
nunca havia perscrutado os olhos de um morto,
o eco imóvel de dois diáfanos poços,
nem os prantos dos meus, perplexos, que eram outros.

Ele foi o primeiro ausente de tantos e de ninguém,
a presença, o não-ser, a fatigada luz
exposta, o que se nomeia sob as árvores,
de repente, ao esquecermos que já não está
mais aqui sua solidão, sua frágil anedota de navios
fantasmas, de arpejos que iluminaram o sonho
daquela nossa vida. Que lhe seja leve a terra
que fecunda, seu exílio sem fim sob nossas folhas.

Trad.: Nelson Santander

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S.T.T.L. Sit Tibi Terra Levis

Hoy recuerdo a los muertos de mi casa
Octavio Paz

De todos nuestros muertos jamás olvidaremos
al primero. Habita en la raíz del otoño,
debajo de los álamos, el mío. Su memoria
me ofrece un arrayán al tiempo que se inclina
con los brazos abiertos de otros días. Recuerdo
su estatura en penumbras a punto de apartarse
del espejo, su rostro velado, el abalorio
de las tercas lecciones de algún piano. Cruzó
la línea que reúne la vida con la muerte
una tarde sin sol. Su cuerpo era la ausencia
presente, lo nombrado sin nombrar. Era el muerto
primero en estar muerto de súbito, y por siempre
habrá de serlo. El niño que fui entonces ahora
lo distingue sentado en un alféizar. Veíamos
un barco en la pureza impasible de las nubes,
y diásporas de hormigas en los lieder de Schubert;
y me hablaba de Stevenson o Melville, del trayecto
que quiso hacer de joven al fin de la nostalgia
que se alzaba en su voz cuando cantaba. Hizo
aquel único viaje aquella tarde. Hasta entonces
nunca me había asomado a los ojos de un muerto,
el eco inóvil de dos diáfanos aljibes,
ni al llanto de los míos, perplejos, que eran otros.

Él fue el primer ausente de cuántos y de nadie,
la presencia, el no ser, la fatigada luz
abierta, el que se nombra debajo de los árboles
de pronto, al olvidarnos que ya no sigue aquí
su soledad, su frágil anécdota de buques
invisibles, de arpegios que alumbraron el sueño
de aquella vida nuestra. Le sea leve la tierra
que fecunda, su exilio sin fin tras nuestras hojas.