Joan Margarit – Ela me disse

Procuremos uma casa para morrer.
Por exemplo, aquele apartamento
onde começamos a nossa história:
arquitetura vulgar dos anos sessenta,
mas arejado e com flores.

Um bom lugar – e alegre – para nele morrer:
Talvez na sala, sempre com música
e a luz que chegava do mar.
Ou na cozinha, em que recebia
as ordens de avante, a todo vapor,
que emitia o nosso amor.
Morrer talvez no quarto das meninas,
o medo entre os pôsteres e a luz.
Também nas sombras onde chorei
enquanto sentia tua respiração
de madrugada, planejando deixar-me.
Morrer no lugar mais silencioso:
nosso quarto, ali
onde eu te traí e tu me traíste.

Tudo isso ela me disse.
Se eu tivesse conseguido comove-la,
onde estaríamos agora?
Onde estaria o nosso amor,
quanto teria durado, quem sabe se algumas horas?
Quem nos dirá é a última estrela,
a estrela da morte naquele céu
sobre uma praia escura onde ainda te digo:
teus olhos me lembram as noites de verão

Trad.: Nelson Santander

 

https://www.cancioneros.com/nc/18757/0/tus-ojos-me-recuerdan-antonio-machado-paco-ibanez

 

Ella me dice

Busquemos una casa en que morir.
Por ejemplo, aquel ático
en el que comenzamos nuestra historia:
vulgar arquitectura de los años sesenta,
pero con aire y flores.

Un buen sitio — y alegre — para morir en él:
puede que en el salón, siempre con música
y la luz que llegaba desde el mar.
O en la cocina, donde recibía
las órdenes de avante a toda máquina
que daba nuestro amor.
Morir quizá en el cuarto de las niñas,
el miedo entre los pósters y la luz.
También la oscuridad donde lloré
mientras sentía su respiración
de madrugada, planeando irme.
Morir en el lugar más silencioso:
nuestro cuarto, allí
donde yo te engañé y tú me engañaste.

Todo esto me dice.
Si la hubiera logrado conmover,
¿dónde estaríamos ahora?
¿Dónde estaría nuestro amor,
lo que hubiese durado, quién sabe si unas horas?
La que nos lo dirá es la última estrella,
la estrella de la muerte en aquel cielo
sobre una playa a oscuras donde te digo aún:
tus ojos me recuerdan las noches de verano.

W. S. Merwin – A estrada

Parece grande demais para que apenas um homem
Caminhe sobre ela Como se ela e o dia vazio
Fossem tudo o que existisse. E um cachorrinho
Trotando no compasso das ondas de calor, perto
Do horizonte, parecendo nunca avançar.
O sol e todas as coisas
Estão empoçados nos mesmos lugares, e a vala
É sempre a mesma, repleta de todo tipo de
Osso, enquanto o ar vazio continua a zumbir
Aquele som memorizado das coisas que por ali
Passaram. E as placas com cabeças enormes e corpos
Desnutridos, ensaiando passos de dança no calor,
E outras, grandes como casas, todas prometem,
Mas sem nada dentro, apenas uma parede,
E falam de outros lugares onde você pode comer,
Beber, tomar um banho, deitar-se numa cama
Ouvindo música, e sentir-se seguro. Se você
Olhar ao redor, verá que, em sentido contrário,
voltando, é igual; e que agora está mais distante
De onde veio, provavelmente,
Do que dos lugares que poderia alcançar prosseguindo.

Trad.: Nelson Santander

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The Highway

It seems too enormous just for a man to be
Walking on. As if it and the empty day
Were all there is. And a little dog
Trotting in time with the heat waves, off
Near the horizon, seeming never to get
Any farther. The sun and everything
Are stuck in the same places, and the ditch
Is the same all the time, full of every kind
Of bone, while the empty air keeps humming
That sound it has memorized of things going
Past. And the signs with huge heads and starved
Bodies, doing dances in the heat,
And the others big as houses, all promise
But with nothing inside and only one wall,
Tell of other places where you can eat,
Drink, get a bath, lie on a bed
Listening to music, and be safe. If you
Look around you see it is just the same
The other way, going back; and farther
Now to where you came from, probably,
Than to places you can reach by going on.

Mary Oliver – Quando a morte chegar

Quando a morte chegar
como um urso faminto no outono;
Quando a morte chegar e tirar todas as moedas brilhantes de sua bolsa

para me comprar, e fechá-la com um estalo;
quando a morte chegar
como o sarampo-varíola

quando a morte chegar
como um iceberg entre as omoplatas,

quero atravessar o portal cheia de curiosidade, perguntando:
como será essa sombria cabana?

E por isso olho para tudo como uma irmandade,
e vejo o tempo como nada além de uma ideia,
e considero a eternidade como outra possibilidade,

e penso em cada vida como uma flor, tão comum
quanto uma margarida do campo, e ainda assim tão singular,

e em cada nome como uma confortável canção entre os lábios,
que, como toda canção, tende ao silêncio,

e em cada corpo como um leão de coragem, e algo
precioso para a terra.

Quando tudo terminar, quero dizer que por toda minha vida
fui uma noiva desposada pelo assombro.
Fui o noivo, tomando o mundo em meus braços.

Quando tudo terminar, não quero me perguntar
se fiz de minha vida algo especial e verdadeiro.
Não quero me encontrar suspirando e assustada,
ou cheia de argumentos.

Não quero terminar tendo apenas passado por este mundo.

Trad.: Nelson Santander

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When death comes

When death comes
like the hungry bear in autumn;
when death comes and takes all the bright coins from his purse

to buy me, and snaps the purse shut;
when death comes
like the measle-pox

when death comes
like an iceberg between the shoulder blades,

I want to step through the door full of curiosity, wondering:
what is it going to be like, that cottage of darkness?

And therefore I look upon everything
as a brotherhood and a sisterhood,
and I look upon time as no more than an idea,
and I consider eternity as another possibility,

and I think of each life as a flower, as common
as a field daisy, and as singular,

and each name a comfortable music in the mouth,
tending, as all music does, toward silence,

and each body a lion of courage, and something
precious to the earth.

When it’s over, I want to say all my life
I was a bride married to amazement.
I was the bridegroom, taking the world into my arms.

When it’s over, I don’t want to wonder
if I have made of my life something particular, and real.
I don’t want to find myself sighing and frightened,
or full of argument.

I don’t want to end up simply having visited this world.

Robert Graves – Através do pesadelo

Jamais se desencante daquele
Lugar no qual algumas vezes você sonha estar,
Deitada muito além de todo sonho,
Ou daqueles que você lá encontra, embora raramente
se sente na companhia deles.

O indomável, o vivo, o gentil.
Você não os conhece? Quem? Eles transportam
O tempo circular como um sábio-rio ao redor de suas casas
E não há como, pelas veredas da história,
Nomeá-los ou numera-los.

Em seus olhos dormentes eu leio a jornada
A que você, incoerentemente, se refere; o que desperta
Minha admiração amorosa, de que você deve viajar,
Através do pesadelo, para uma terra perdida e isolada,
Tímida por natureza.

Trad.: Nelson Santander

Through Nightmare

Never be disenchanted of
That place you sometimes dream yourself into,
Lying at large remove beyond all dream,
Or those you find there, though but seldom
In their company seated –

The untameable, the live, the gentle.
Have you not known them? Whom? They carry
Time looped so river-wise about their house
There’s no way in by history’s road
To name or number them.

In your sleepy eyes I read the journey
Of which disjointedly you tell; which stirs
My loving admiration, that you should travel
Through nightmare to a lost and moated land
Who are timorous by nature.

Jane Hirshfield – O emissário

Um dia, naquele quarto, um pequeno rato.
Dois dias depois, uma cobra.
Que, vendo-me entrar,
serpenteou a longa listra de seu
corpo para baixo da cama,
e depois se enrolou como um dócil animal doméstico.
Não sei como veio ou saiu.
Mais tarde, a lanterna nada encontrou.
Por um ano, eu observei
como alguma coisa – terror? felicidade? dor? –
entrou e, em seguida, saiu do meu corpo.
Sem saber como entrou,
sem saber como saiu.
Pendurou-se onde as palavras não podiam alcança-la.
Dormiu onde a luz não podia ir.
Seu cheiro não era de cobra nem de rato,
nem sensualista nem ascético.
Existem desvãos em nossas vidas
sobre os quais nada sabemos.
Através deles
o rebanho marcado desloca-se quando quer,
pernas longas e sedento,
coberto por uma poeira estranha.

Trad.: Nelson Santander

The envoy

One day in that room, a small rat.
Two days later, a snake.
Who, seeing me enter,
whipped the long stripe of his
body under the bed,
then curled like a docile house-pet.
I don’t know how either came or left.
Later, the flashlight found nothing.
For a year I watched
as something – terror? happiness? grief? –
entered and then left my body.
Not knowing how it came in,
Not knowing how it went out.
It hung where words could not reach it.
It slept where light could not go.
Its scent was neither snake nor rat,
neither sensualist nor ascetic.
There are openings in our lives
of which we know nothing.
Through them
the belled herds travel at will,
long-legged and thirsty, covered with foreign dust.

May Swenson – Indagações

Corpo minha casa
meu cavalo meu cão de caça
o que farei
quando você ruir?

Onde vou dormir
Como vou montar
O que vou caçar?

Onde posso ir
sem minha montaria
rápida e impaciente?
Como saberei
se na mata à frente
há perigos ou tesouros
quando o corpo, meu cão
bom e fiel, estiver morto

Como será
jazer no céu
sem teto ou porta
e vento por visão?

Com a nuvem como manto
como vou me esconder?

Trad.: Nelson Santander

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Question

Body my house
my horse my hound
what will I do
when you are fallen

Where will I sleep
How will I ride
What will I hunt

Where can I go
without my mount
all eager and quick
How will I know
in thicket ahead
is danger or treasure
when Body my good
bright dog is dead

How will it be
to lie in the sky
without roof or door
and wind for an eye

With cloud for shift
how will I hide?

Mary Oliver – A jornada

Um dia você finalmente soube
o que precisava fazer e começou,
embora as vozes à sua volta
continuassem gritando
seus maus conselhos –
embora a casa toda
começasse a tremer
e você sentisse o velho apelo
em seus tornozelos.
“Remende minha vida!”,
cada voz clamava.
Mas você não parou.
Você sabia o que precisava fazer,
embora o vento tateasse
com seus dedos rijos
as próprias fundações,
e embora a melancolia deles
fosse terrível.
Já era tarde o bastante,
e a noite, feroz,
e a estrada estava cheia de galhos
e pedras espalhadas.
Mas pouco a pouco
ao deixar aquelas vozes para trás,
as estrelas começaram a arder
através das camadas de nuvens,
e havia uma nova voz,
que você lentamente
reconheceu como sua,
e que se manteve a seu lado
enquanto você avançava cada vez mais fundo
no mundo,
decidida a fazer
a única coisa que poderia fazer –
determinada a salvar
a única vida que poderia salvar.

Trad.: Nelson Santander

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The journey

One day you finally knew
what you had to do, and began,
though the voices around you
kept shouting
their bad advice –
though the whole house
began to tremble
and you felt the old tug
at your ankles.
“Mend my life!”
each voice cried.
But you didn’t stop.
You knew what you had to do,
though the wind pried
with its stiff fingers
at the very foundations,
though their melancholy
was terrible.
It was already late
enough, and a wild night,
and the road full of fallen
branches and stones.
But little by little,
as you left their voice behind,
the stars began to burn
through the sheets of clouds,
and there was a new voice
which you slowly
recognized as your own,
that kept you company
as you strode deeper and deeper
into the world,
determined to do
the only thing you could do —
determined to save
the only life that you could save.

William Stafford – O sonho de agora

Quando acorda, da noite e dos outros
sonhos, para o sonho de agora,
você conduz o dia para fora das trevas
como a uma chama.
Quando a primavera acontece no norte e as flores
desabrocham no solo e até adormecem,
você alteia o verão com sua respiração
para que ele não se perca jamais tão profundamente.
Sua vida você vive com a luz que encontra
e escolta da melhor maneira possível,
conduzindo na escuridão por onde quer que vá
sua diminuta chama que outra vez se acenderá.

Trad.: Nelson Santander

The Dream of Now

When you wake to the dream of now
from night and its other dream,
you carry day out of the dark
like a flame.
When spring comes north and flowers
unfold from earth and its even sleep,
you lift summer on with your breath
lest it be lost ever so deep.
Your life you live by the light you find
and follow it on as well as you can,
carrying through darkness wherever you go
your one little fire that will start again.

Mary Oliver – Gansos selvagens

Você não precisa ser bom.
Você não precisa atravessar o deserto de joelhos,
por cem milhas, em penitência.
Você só precisa deixar o suave animal do seu corpo
amar o que ele ama.
Fale-me sobre o desespero, o seu, e eu lhe direi o meu.
Enquanto isso, o mundo continua.
Enquanto isso, o sol e os translúcidos seixos da chuva
movem-se por entre as paisagens,
sobre as pradarias e as árvores profundas,
as montanhas e os rios.
Enquanto isso, os gansos selvagens, altos no límpido ar azul,
estão voltando para casa outra vez.
Quem quer que você seja, não importa o quão solitário esteja,
o mundo se oferta à sua imaginação,
clama por você como os gansos selvagens, ásperos e inspiradores —
incessantemente anunciando o seu lugar
na família das coisas.

Trad.: Nelson Santander

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Wild Geese

You do not have to be good.
You do not have to walk on your knees
for a hundred miles through the desert repenting.
You only have to let the soft animal of your body
love what it loves.
Tell me about despair, yours, and I will tell you mine.
Meanwhile the world goes on.
Meanwhile the sun and the clear pebbles of the rain
are moving across the landscapes,
over the prairies and the deep trees,
the mountains and the rivers.
Meanwhile the wild geese, high in the clean blue air,
are heading home again.
Whoever you are, no matter how lonely,
the world offers itself to your imagination,
calls to you like the wild geese, harsh and exciting –
over and over announcing your place
in the family of things.

Juan Vicente Piqueras – A sala vazia

a Carlos Edmundo de Ory

Era um de teus jogos favoritos.
O que há em uma sala vazia?,
perguntavas. Mantínhamo-nos em silêncio.

O que há em uma sala vazia?

Os que não conheciam o jogo
às vezes diziam: nada, e tu dizias: não.
Nada é nada, e eu disse o quê
.

Até que alguém dizia, por exemplo: silêncio.
E tu dizias: sim.
E outro dizia: .
E o jogo começava a decolar.

Algumas pegadas no chão.
Um fantasma. Uma tomada. O buraco
de um prego. A penumbra.
O quadrado que deixa na parede
a ausência de um quadro. Um fio.
Uma carta no chão.
A marca de uma palma na parede.
Um raio de sol que entra pela janela.
Uma teia de aranha. Uma pedaço
de papel. Uma unha. Uma formiga perdida.
A música que vem da rua
(há música sem alguém que a ouça?).
Uma mancha de fuligem ou umidade.
Garatujas ou pássaros ou nomes
ou um desenho de Laura na parede.

Tua ias dizendo sim ou não.
Tu sabias. Eras o inventor do jogo.
Tu sabias, Carlos, o que há
na sala vazia onde acabas de entrar.

Era um de teus jogos favoritos.
– O que há em uma sala vazia?
– Um fantasma.
– Já disseram isso.
– Sim, mas aquele a que me refiro é outro.

Trad.: Nelson Santander

 

La habitación vacía

a Carlos Edmundo de Ory

Era uno de tus juegos preferidos.
¿Qué hay en una habitación vacía?,
preguntabas. Guardábamos silencio.

¿Qué hay en una habitación vacía?

Los que no conocían el juego
tal vez decían: Nada, y tú decías: No.
Nada es nada, he dicho qué.

Hasta que alguien decía, por ejemplo: Silencio.
Y tú decías: .
Y otro decía: Polvo.
Y el juego comenzaba a tomar vuelo.

Unas huellas de pasos en el suelo.
Un fantasma. Un enchufe. El agujero
de un clavo. La penumbra.
El cuadrado que deja en la pared
la ausencia de un cuadro. Un hilo.
Una carta en el suelo.
La huella de una mano en la pared.
Un rayito de sol que entra por la ventana.
Una telaraña. Un trozo
de papel. Una uña. Una hormiga extraviada.
La música que llega de la calle
(¿hay música sin alguien que la escuche?).
Una mancha de humo o de humedad.
Garabatos o pájaros o nombres
o un dibujo de Laura en la pared.

Tú ibas diciendo sí o no.
Tú lo sabías. Eras el inventor del juego.
Tú ya sabías, Carlos, lo que hay
en la habitación vacía donde acabas de entrar.

Era uno de tus juegos preferidos.
– ¿Qué hay en una habitación vacía?
– Un fantasma.
– Ya lo han dicho.
– Sí, pero el que yo digo es otro.