Jane Hirshfield – O emissário

Um dia, naquele quarto, um pequeno rato.
Dois dias depois, uma cobra.
Que, vendo-me entrar,
serpenteou a longa listra de seu
corpo para baixo da cama,
e depois se enrolou como um dócil animal doméstico.
Não sei como veio ou saiu.
Mais tarde, a lanterna nada encontrou.
Por um ano, eu observei
como alguma coisa – terror? felicidade? dor? –
entrou e, em seguida, saiu do meu corpo.
Sem saber como entrou,
sem saber como saiu.
Pendurou-se onde as palavras não podiam alcança-la.
Dormiu onde a luz não podia ir.
Seu cheiro não era de cobra nem de rato,
nem sensualista nem ascético.
Existem desvãos em nossas vidas
sobre os quais nada sabemos.
Através deles
o rebanho marcado desloca-se quando quer,
pernas longas e sedento,
coberto por uma poeira estranha.

Trad.: Nelson Santander

The envoy

One day in that room, a small rat.
Two days later, a snake.
Who, seeing me enter,
whipped the long stripe of his
body under the bed,
then curled like a docile house-pet.
I don’t know how either came or left.
Later, the flashlight found nothing.
For a year I watched
as something – terror? happiness? grief? –
entered and then left my body.
Not knowing how it came in,
Not knowing how it went out.
It hung where words could not reach it.
It slept where light could not go.
Its scent was neither snake nor rat,
neither sensualist nor ascetic.
There are openings in our lives
of which we know nothing.
Through them
the belled herds travel at will,
long-legged and thirsty, covered with foreign dust.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s