Juan Vicente Piqueras – Oração do incrédulo

O importante é rezar, não importa a quem,
que as perguntas sejam as orações
do pensamento, plantem sua semente
em nossa solidão, e que não exista paz
que, à força de insistir, seja capaz
de não existir, não tenha remédio
senão atender à voz de quem a chama.

Que deus não exista, acaso
é razão para nele não crer?

Deus é o nome da sede, a sina
e a querência desta solidão
em que ambos consistimos.

De ninguém falo com deus, de deus com ninguém.
Escrevo-o com cuidado e em minúscula.
Sou ateu e laico todos os dias.
Mas há noites amnióticas
em que minha alma reza de joelhos,
não importa a quem,
pergunta, espera, pede.

E minha alma ajoelhada é uma vela
à luz da qual, em cuja noite, escrevo.

Trad.: Nelson Santander

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Plegaria del descreído

Lo importante es rezar, no importa a quién,
que las preguntas sean las plegarias
del pensamiento, planten su semilla
en nuestra soledad, y no haya paz
que, a fuerza de insistir, sea capaz
de no existir, no tenga más remedio
que acudir a la voz de quien la llama.

Que dios no exista, ¿acaso
es razón para no creer en él?

Dios es el nombre de la sed, el sino
y la querencia de esta soledad
en que ambos consistimos.

De nadie hablo con dios, de dios con nadie.
Lo escribo con cuidado y con minúscula.
Yo soy ateo y laico cada día.
Pero hay noches amnióticas
en que mi alma reza de rodillas
no importa a quién,
pregunta, espera, pide.

Y mi alma arrodillada es una vela
a cuya luz, en cuya noche, escribo.

Charles Bukowiski – oh, sim

há coisas piores do que
estar sozinho
mas muitas vezes leva décadas
para perceber isso
e na maioria das vezes
quando você percebe
é tarde demais
e não há nada pior
do que
tarde demais

Trad.: Nelson Santander

oh, yes

there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it’s too late
and there’s nothing worse
than
too late

Emily Dickinson – Após grande dor sobrevém um sentimento austero

Após grande dor sobrevém um sentimento austero –
Os Nervos ficam cerimoniosos como um cemitério –
Indaga o rijo Coração se foi Ele que sofreu,
Se Ontem, ou Séculos antes aconteceu?

Os pés, mecânicos, circundam sem cessar –
Nos Sopés, no Ar, em qualquer Lugar –
Um caminho de madeira
Que indiferentemente medra
Um contentamento de Quartzo, uma pedra –

A Hora de Chumbo chegou –
Lembrada, para quem perdurou,
Como as pessoas congeladas recordam a neve –
Primeiro – o Frio – após o Torpor – e por fim o até breve –

Trad.: Nelson Santander

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After great pain a formal feeling comes

After great pain a formal feeling comes –
The Nerves sit ceremonious, like Tombs –
The stiff Heart questions was it He, that bore,
And Yesterday, or Centuries before?

The feet, mechanical, go round –
Of Ground, or Air, or Aught –
A Wooden way
Regardless grown,
A Quartz contentment, like a stone –

This is the Hour of Lead –
Remembered, if outlived,
As Freezing persons, recollect the snow –
First – Chill – then Stupor – then the letting go –

William Carlos Williams – Nevasca

Neve:
anos de fúria seguindo
horas que flutuam indolentes —
a nevasca
deposita seu fardo
cada vez mais fundo por três dias
ou sessenta anos, não? Então
o sol! um tumulto de
flocos amarelos e azuis —
Árvores de aparência hirsuta destacam-se
em longas alamedas
sobre uma selvagem solidão.
O homem se vira e lá —
seu solitário rastro estendendo-se
sobre o mundo.

Trad.: Nelson Santander

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Blizzard

Snow:
years of anger following
hours that float idly down —
the blizzard
drifts its weight
deeper and deeper for three days
or sixty years, eh? Then
the sun! a clutter of
yellow and blue flakes —
Hairy looking trees stand out
in long alleys
over a wild solitude.
The man turns and there —
his solitary track stretched out
upon the world.

Susana Cattaneo – Quando já não estiver…

Quem porá o pé
sobre a marca que o meu deixou?
Quem olhará estas árvores
onde meus olhos deixaram sinais?
Alguém ouvirá cantar um pássaro
que será outro.
Alguém respirará os mesmos pinheiros
de um verde mais cansado.
A vida será uma folha em branco
e não poderei timbrá-la com minha palavra.

Trad.: Nelson Santander

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Cuando ya no esté…

¿Quién pondrá el pie
sobre la marca que dejó el mío?
¿Quién mirará estos árboles
donde mis ojos dejaron huellas?
Alguien oirá cantar un pájaro
que será otro.
Alguien respirará los mismos pinos
de un verde más cansado.
La vida será un papel en blanco
y no lo podré sellar con mi palabra.

Laurie Lee – A sombra abandonada

Percorrendo a sombra abandonada
das habitações da minha infância,
meus ouvidos relembram o badalar,
ouvindo suas vozes soterradas.

Ouço o verão primordial,
as margens da aurora iluminadas por aves,
o pulsar de sangue da escrevedeira-amarela
dourando meus olhos de berço.

Ouço a lua-de-estanho subir
e a moeda do crepúsculo cair,
o rastejar da geada e o gemido
do degelo e o pio dos piscos no inverno.

Ouço novamente a casa falante
e as quatro vogais do vento,
e o sussurrar dos monstros da meia-noite
na lívida garganta do meu quarto.

Liturgia das estações e da paisagem,
o texugo e a persistência da chuva,
o trissar dos morcegos e o salto dos
coelhos borbulhando sob a colina:

Cada língua antiga e ecoada
canta para o meu olhar que recua,
mas a voz do menino, o menino que procuro,
na minha boca está muda.

Trad.: Nelson Santander

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The abandoned shade

Walking the abandoned shade
of childhood’s habitations,
my ears remembering chime,
hearing their buried voices.

Hearing original summer,
the birdlit banks of dawn,
the yellow-hammer beat of blood
gilding my cradle eyes.

Hearing the tin-moon rise
and the sunset’s penny fall,
the creep of frost and weep of thaw
and bells of winter robins.

Hearing again the talking house
and the four vowels of the wind,
and midnight monsters whispering
In the white throat of my room.

Season and landscape’s liturgy,
badger and sneeze of rain,
the bleat of bats, and bounce of rabbits
bubbling under the hill:

Each old and echo-salted tongue
sings to my backward glance;
but the voice of the boy, the boy I seek,
within my mouth is dumb.

César Vallejo – Os passos distantes

  Meu pai dorme. Seu semblante augusto
exprime um tranquilo coração;
está agora tão doce…
se há algo nele de amargo, serei eu.

  Há solidão no lar; se reza;
e não há notícias das crianças hoje.
Meu pai desperta, ausculta
a fuga para o Egito, o último adeus.

  Está agora tão perto;
se há algo nele de ausente, serei eu.
e minha mãe passeia entre os pomares,
saboreando um sabor já sem sabor.
Está agora tão suave,
tão alada, tão fugidia, tão amorosa.

  Há solidão no lar sem algazarra,
sem novidades, sem o verde, sem infância.
E se há algo partido nesta tarde,
e que encolhe e que range,
são dois velhos caminhos brancos, curvos.
Por eles, caminha a pé meu coração.

Trad.: Nelson Santander

Los pasos lejanos

  Mi padre duerme. Su semblante augusto
figura un apacible corazón;
está ahora tan dulce…
si hay algo en él de amargo, seré yo.

  Hay soledad en el hogar; se reza;
y no hay noticias de los hijos hoy.
Mi padre se despierta, ausculta
la huida a Egipto, el restañante adiós.

  Está ahora tan cerca;
si hay algo en él de lejos, seré yo.
Y mi madre pasea allá en los huertos,
saboreando un sabor ya sin sabor.
Está ahora tan suave,
tan ala, tan salida, tan amor.

  Hay soledad en el hogar sin bulla,
sin noticias, sin verde, sin niñez.
Y si hay algo quebrado en esta tarde,
y que baja y que cruje,
son dos viejos caminos blancos, curvos.
Por ellos va mi corazón a pie.

Charles Bukowski – Manual de Combate

Eles chamaram Celine de nazista
eles chamaram Pound de fascista
eles chamaram Hamsun de nazista
eles puseram Dostoiévski diante de um esquadrão
de fuzilamento
e você sabe que eles atiraram em Lorca
submeteram Hemingway a tratamento de choque
e você sabe que ele se matou
e eles levaram Villon para fora da cidade (Paris)
e Mayakovsky
se desiludiu com o regime
e depois de uma desavença amorosa
bem
ele se matou.
Chatterton ingeriu veneno de rato
e funcionou.
e alguns dizem que Malcom Lowy morreu
afogado no próprio vômito
enquanto estava bêbado.
Crane tomou o rumo da hélice
do navio ou dos tubarões.

Era escuro o sol de Harry Crosby.
Berryman preferiu a ponte.
Plath não acendeu o forno.

Pascal cortou seus pulsos na
banheira (é melhor assim:
na água morna).
Thomas e Behan beberam
até a morte.
há muitos outros
e você quer ser um
escritor?
é esse tipo de guerra,
sabe:
criação mata;
muitos enlouquecem,
alguns perdem o rumo e
não conseguem
prosseguir.
uns poucos chegam à velhice.
uns poucos fazem dinheiro.
uns passam fome (como Vallejo).
é esse tipo de guerra:
baixas por todo lado.

tudo bem, vá em frente
mas quando eles o descartarem
pelo seu ponto fraco
não me venha com os seus
problemas

eu datilografei isso esta noite
sobre a mesa da cozinha
enquanto ouvia
Music for the Royal Fireworks
de Handel.

agora vou fumar um cigarro
na banheira
e depois vou
dormir.

Trad.: Nelson Santander

combat primer

they called Celine a Nazi
they called Pound a fascist
they called Hamsun a Nazi
they put Dostoevsky in front of a firing
squad
and you know they shot Lorca
gave Hemingway shock treatments
and you know he shot himself
and they ran Villon out of town (Paris)
and Mayakovsky
disillusioned with the regime
and after a lover’s quarrel
well
he shot himself.
Chatterton took rat poison
and it worked.
and some say Malcom Lowry died
swallowing his own vomit
while drunk.
Crane went the way of the boat
propellor or the sharks.

Harry Crosby’s sun was black.
Berryman preferred the bridge.
Plath didn’t light the oven.

Pascal cut his wrists in the
bathtub (it’s best that way:
in warm water).
Thomas and Behan drank themselves
to death.
there are many others
and you want to be a
writer?
it’s that kind of war,
you know:
creation kills;
many go mad,
some lose the way and
can’t do it
anymore.
a few go into old age.
a few make money.
some starve (like Vallejo).
it’s that kind of war:
casualties everywhere.

all right, go ahead
but when they sandbag you
from the blind side
don’t come to me with your
troubles.

I typed this tonight
on this kitchen table
while listening to
Music for the Royal Fireworks
by Handel.

now I’m going to smoke a cigarette
in the bathtub
and then I’m going to
sleep.

Jane Hirschfield – Meu esqueleto

Meu esqueleto,
que um dia doeu
com o próprio crescimento,

está agora,
a cada ano
imperceptivelmente menor,
mais leve,
absorvido por sua própria
concentração.

Quando eu dancei,
você dançou.
Quando você quebrou,
eu.

E assim foi, deitando,
caminhando,
subindo os fatigantes degraus.
Seus maxilares. Meu pão.

Algum dia você,
o que resta de você,
será extirpado deste casamento.

Artrite dos ossos do pulso,
harpa trincada da caixa torácica,
ponta partida do calcanhar,
exposta cavidade do crânio,
pratos gêmeos da pélvis –
cada pedaço seu me deixará para trás,
afinal serena.

O que sabia eu de seus dias,
suas noites,
eu que o segurei por toda minha vida
em minhas mãos
e pensei que elas estivessem vazias?

Você que me segurou a vida toda
em suas mãos
como uma mãe recente
segura seu próprio filho indefeso,
sem pensar em nada.

Trad.: Nelson Santander

My skeleton

My skeleton,
who once ached
with your own growing larger,

are now,
each year
imperceptibly smaller,
lighter,
absorbed by your own
concentration.

When I danced,
you danced.
When you broke,
I.

And so it was lying down,
walking,
climbing the tiring stairs.
Your jaws. My bread.

Someday you,
what is left of you,
will be flensed of this marriage.

Angular wristbone’s arthritis,
cracked harp of rib cage,
blunt of heel,
opened bowl of the skull,
twin platters of pelvis—
each of you will leave me behind,
at last serene.

What did I know of your days,
your nights,
I who held you all my life
inside my hands
and thought they were empty?

You who held me all your life
in your hands
as a new mother holds
her own unblanketed child,
not thinking at all.

Louise Glück – Nostos

Havia uma macieira no quintal –
isso teria sido há
quarenta anos – nos fundos,
apenas prados. Excesso
de crocus na relva úmida
Eu estava naquela janela:
fim de abril. Flores
da primavera no quintal do vizinho.
Quantas vezes, realmente, a árvore
floresceu no meu aniversário,
no dia exato, nem antes
nem depois? Substituição
do imutável
por transformação, por evolução.
Substituição da imagem
pela terra implacável. O que
sei eu deste lugar,
o papel que foi da árvore por décadas
desempenhado por um bonsai, vozes
subindo das quadras de tênis –
Campos. Cheiro de grama alta, recém
cortada.
Como se espera de um poeta lírico.
Nós enxergamos o mundo uma única vez, na infância.
O resto é memória.

Trad.: Nelson Santander

Nostos

There was an apple tree in the yard —
this would have been
forty years ago — behind,
only meadows. Drifts
of crocus in the damp grass.
I stood at that window:
late April. Spring
flowers in the neighbor’s yard.
How many times, really, did the tree
flower on my birthday,
the exact day, not
before, not after? Substitution
of the immutable
for the shifting, the evolving.
Substitution of the image
for relentless earth. What
do I know of this place,
the role of the tree for decades
taken by a bonsai, voices
rising from the tennis courts —
Fields. Smell of the tall grass, new cut.
As one expects of a lyric poet.
We look at the world once, in childhood.
The rest is memory.