Forrest Hamer – Lição

Foi no verão de 63 ou 64,
e meu pai estava transportando nossa família
de Ft. Hood para a Carolina do Norte em nosso Buick 56.
Tínhamos ouvido falar dos ataques da Klan, e sabíamos que

no Mississippi estava mais perigoso do que o habitual.
A escuridão pendurava-se às arvores como musgo,
e sempre que a luz gemia contra os vidros
naquela noite, meu pai saía da estrada para dormir.

Ruídos
que normalmente me faziam acordar com medo de monstros
também mantinham meu pai desperto naquela noite,
e eu permanecia em silêncio observando-o ouvir, aprendendo
que ele nem sempre poderia ser capaz de nos proteger

de tudo e, além disso, das criaturas;
talvez nem mesmo da fúria que subitamente
percorreu meu corpo por sua viagem do Texas
para nos instalar em casa antes de partir

para um lugar sem lugar no mundo
que ele chamou de Viet Nam. Um menino precisa de um pai
com ele, eu fiquei pensando, fixado naquele ruído
da escuridão.

Trad.: Nelson Santander

Lesson

It was 1963 or 4, summer,
and my father was driving our family
from Ft. Hood to North Carolina in our 56 Buick.
We’d been hearing about Klan attacks, and we knew

Mississippi to be more dangerous than usual.
Dark lay hanging from the trees the way moss did,
and when it moaned light against the windows
that night, my father pulled off the road to sleep.

Noises
that usually woke me from rest afraid of monsters
kept my father awake that night, too,
and I lay in the quiet noticing him listen, learning
that he might not be able always to protect us

from everything and the creatures besides;
perhaps not even from the fury suddenly loud
through my body about his trip from Texas
to settle us home before he would go away

to a place no place in the world
he named Viet Nam. A boy needs a father
with him, I kept thinking, fixed against noise
from the dark.

Brian Turner – Quão brilhante é abril

E o ar, seco,
Como as espáduas de um búfalo-d’água.

Gafanhotos arranham a terra,
roçam as asas com pernas finas,
irrompendo à frente dos soldados
em voos rasantes em arco, as asas um borrão.

Os soldados já não percebem,
veem apenas os escombros das ruas,
corpos cobertos por lençóis, e o sol,
quão brilhante é, quão duro e plano e branco.

Serão necessários muitos pregos dos fabricantes de caixões
para bloquear essa luz, que reflete em tudo:
nos pés calejados dos mortos, em suas mãos ossudas,
em suas pálidas frontes – tão frias, tão brilhantes ao sol.

Trad.: Nelson Santander

How Bright It Is April

And the air dry
As the shoulders of a water buffalo.

Grasshoppers scratch at the dirt,
rub their wings with thin legs
flaring out in front of the soldiers
in low arcing flights, wings a blur.

The soldiers don’t notice anymore,
seeing only the wreckage of the streets,
bodies draped with sheets, and the sun,
how bright it is, how hard and flat and white.

It will take many nails from the coffinmakers
to shut out this light, which reflects off everything:
the calloused feet of the dead, their bony hands,
their pale foreheads so cold, brilliant in the sun.

David Ignatow – Para a minha filha

Quando eu morrer, escolhe uma estrela
e dá-lhe o meu nome
para que saibas que
não te abandonei
nem te esqueci.
Foste para mim uma estrela,
guiando-me pelo teu nascimento
e infância, minha mão
na tua mão.

Quando eu morrer,
escolhe uma estrela e dá-lhe
o meu nome para que eu possa brilhar
sobre ti, até que te juntes a mim
na escuridão e no silêncio
juntos.

Trad.: Nelson Santander

For My Daughter

When I die choose a star
and name it after me
that you may know
I have not abandoned
or forgotten you.
You were such a star to me,
following you through birth
and childhood, my hand
in your hand.

When I die
choose a star and name it
after me so that I may shine
down on you, until you join
me in darkness and silence
together.

Robinson Jeffers – Falcão ferido

Falcão Ferido

I

O pilar quebrado da asa se projeta da espádua coagulada,
A asa arrasta-se como um estandarte no fracasso,
Não mais para usar o céu, apenas para viver com fome
E dor por uns poucos dias: nem gato nem coiote
Abreviarão a semana de espera pela morte: há caça sem garras.
Ele permanece sob o carvalho e espera
Os pés capengas da salvação; à noite, lembra-se da liberdade
E voa em sonho – que a aurora arruína.
Ele é forte e a dor e a impotência são piores para os fortes.
Os cães vadios do dia vêm atormentá-lo
À distância; ninguém além da morte redentora humilhará aquela cabeça,
A prontidão intrépida, os olhos terríveis.
O Deus selvagem do mundo às vezes é clemente com os
Que pedem clemência – raramente com os arrogantes.
Vocês não O conhecem, povo comunal, ou já se esqueceram Dele;
Intemperante e feroz, o falcão se lembra;
Belos e selvagens, os falcões – e os moribundos – se lembram.

II

Não fosse a punição, eu preferiria matar um homem a um falcão; mas o grande cauda-vermelha
Nada mais tinha além da miséria impotente
De ossos estilhaçados para além da cura, a asa que se arrastava sob suas garras
Quando ele se movia.
Nós o alimentamos por seis semanas, eu lhe dei liberdade,
Ele vagueou sobre o promontório da colina e voltou ao entardecer, pedindo a morte,
Não como um mendigo – nos olhos ainda a velha
E implacável arrogância. Ao crepúsculo, dei-lhe a dádiva de chumbo almejada. O que caiu estava relaxado,
Macio como coruja, suaves penas femininas. Mas o que

Alçou voo: o ímpeto feroz: as garças-reais junto ao rio alagado gritaram de medo ao vê-lo erguer-se
Antes mesmo de estar completamente desembainhado da realidade.

Trad.: Nelson Santander

Hurt Hawks

I

The broken pillar of the wing jags from the clotted shoulder,
The wing trails like a banner in defeat,
No more to use the sky forever but live with famine
And pain a few days: cat nor coyote
Will shorten the week of waiting for death, there is game without talons.
He stands under the oak-bush and waits
The lame feet of salvation; at night he remembers freedom
And flies in a dream, the dawns ruin it.
He is strong and pain is worse to the strong, incapacity is worse.
The curs of the day come and torment him
At distance, no one but death the redeemer will humble that head,
The intrepid readiness, the terrible eyes.
The wild God of the world is sometimes merciful to those
That ask mercy, not often to the arrogant.
You do not know him, you communal people, or you have forgotten him;
Intemperate and savage, the hawk remembers him;
Beautiful and wild, the hawks, and men that are dying, remember him.

II

I’d sooner, except the penalties, kill a man than a hawk; but the great redtail
Had nothing left but unable misery
From the bones too shattered for mending, the wing that trailed under his talons when he moved.
We had fed him six weeks, I gave him freedom,
He wandered over the foreland hill and returned in the evening, asking for death,
Not like a beggar, still eyed with the old
Implacable arrogance. I gave him the lead gift in the twilight. What fell was relaxed,
Owl-downy, soft feminine feathers; but what
Soared: the fierce rush: the night-herons by the flooded river cried fear at its rising
Before it was quite unsheathed from reality.

Joan Margarit – A senha

Sozinho entre dois infernos
— o da liberdade e o da idade —,
já não consigo abrir nosso cofre.
A porta com seus dígitos giratórios
é a roleta na qual já não aposto.
Desde o primeiro suspiro conservei
a blindada clareza
daquela rosa.
Agora, nu em nosso quarto,
a janela aberta e a luz apagada,
ouço o rumor urbano da noite,
enquanto a leve brisa me acaricia.
Aquela garota e aquele garoto
permanecem tão perto, estão dentro de mim:
um cheiro familiar, uma canção,
podem fazê-los voltar, mas se tento lhes falar,
já desapareceram. Vivemos à mercê
do que ignorávamos sobre nós mesmos.
É como se, entre todos os direitos
que a vida pudesse ter,
houvesse um misterioso direito à ignorância.
O ninho metálico custodia nossos sonhos.
Estou chorando: a senha
era a data de tua morte.

Trad.: Nelson Santander

La combinación

Sola entre dos infiernos
—el de la libertad y el de la edad—,
ya no puedo abrir nuestra caja fuerte.
La puerta con sus cifras giratorias
es la ruleta en la que ya no apuesto.
Desde el primer suspiro conservé,
la acorazada claridad
de aquella rosa.
Ahora, desnuda en nuestro dormitorio,
con la ventana abierta y la luz apagada,
oigo el rumor urbano de la noche
mientras la leve brisa me acaricia.
Aquella chica y aquel chico
permanecen muy cerca, están dentro de mí:
un olor familiar, una canción,
pueden hacer que vuelvan, pero si quiero hablarles
ya han desaparecido. Vivimos a merced
de lo que de nosotros ignorábamos
Es como si entre todos los derechos
que tuviese la vida,
hubiera un misterioso derecho a no saber.
El metálico nido custodia nuestros sueños.
Estoy llorando: la combinación
era la fecha de tu muerte.

Mary Oliver – O dia de verão

Quem criou o mundo?
Quem fez o cisne e o urso-negro?
Quem fez o gafanhoto?
Digo, aquele gafanhoto –
aquele que saltou da grama,
aquele que agora come açúcar na minha mão,
aquele que move as mandíbulas para frente e para trás, não de cima para baixo –
aquele que olha ao redor com seus olhos enormes e complexos.
Agora ele ergue os pálidos antebraços e lava a cara com cuidado.
Agora ele abre as asas e levanta voo.
Eu não sei ao certo o que é uma oração.
Eu sei como prestar atenção, como me prostrar
no chão, ajoelhar-me na grama,
como ser ociosa e abençoada, como caminhar pelos campos,
que é o que tenho feito o dia todo.
Diga-me, o que mais eu deveria ter feito?
No fim, tudo não morre – e muito cedo?
Diga-me, o que você planeja fazer
Com sua única selvagem e preciosa vida?

Trad.: Nelson Santander

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The Summer Day

Who made the world?
Who made the swan, and the black bear?
Who made the grasshopper?
This grasshopper, I mean –
the one who has flung herself out of the grass,
the one who is eating sugar out of my hand,
who is moving her jaws back and forth instead of up and down –
who is gazing around with her enormous and complicated eyes.
Now she lifts her pale forearms and thoroughly washes her face.
Now she snaps her wings open, and floats away.
I don’t know exactly what a prayer is.
I do know how to pay attention, how to fall down
into the grass, how to kneel in the grass,
how to be idle and blessed, how to stroll through the fields
which is what I have been doing all day.
Tell me, what else should I have done?
Doesn’t everything die at last, and too soon?
Tell me, what is it you plan to do
With your one wild and precious life?

Raúl Ferruz – Com os olhos bem abertos

Quando meu avô sorria depois de cada gole de água,
isso significava. Não sabes o que é beber o próprio mijo.
Quando desenhava uma parábola no ar que só ele via,
isso significava. Fogo cruzado.
Quando tapava o rosto para que não o víssemos chorar,
isso significava. Os alemães nos infligiram horrores.
Quando fechava a porta do banheiro para que não o víssemos mijar,
isso também significava. Os alemães nos infligiram horrores.
Um dia, estendeu os braços para mim, e isso significou. Estou morrendo.
Depois disso caiu no chão. E
morreu com os olhos bem abertos.
Encarando o céu inimigo.
Duas guerras depois.

Trad.: Nelson Santander

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Con los ojos muy abiertos

Cuando mi abuelo sonreía después de cada sorbo de agua,
eso significaba. No sabes lo que es beber tu propia meada.
Cuando dibujaba una parábola en el aire que sólo él veía,
eso significaba. Fuego cruzado.
Cuando se tapaba la cara para que no pudiésemos verle llorar,
eso significaba. Los alemanes nos hicieron cosas horribles.
Cuando cerraba la puerta del baño para que no pudiésemos verle mear,
eso también significaba. Los alemanes nos hicieron cosas horribles.
Un día, me tendió los brazos, y eso significó. Me estoy muriendo.
Después de eso, se desplomó sobre el suelo. Y
murió con los ojos muy abiertos.
Mirando el cielo enemigo.
Dos guerras después.

Anne Sexton – A noite estrelada

A noite estrelada

Isso não me impede de ter uma terrível necessidade de — devo dizer a palavra — religião. Então, saio à noite para pintar as estrelas.

– Vincent Van Gogh, em uma carta ao seu irmão

A cidade não existe,
exceto onde uma árvore de cabelos negros desliza
como uma mulher afogada no ar abrasador.
A cidade está em silêncio. A noite fervilha com onze estrelas.
Ó, noite estrelada! É assim que
quero morrer.

Elas se movem. Todas estão vivas.
Até a lua incha em seus ferros laranja
para, como um deus, afastar as crianças de seu olho.
A antiga serpente invisível engole as estrelas.
Ó, noite estrelada! É assim que
quero morrer:

naquela fera veloz da noite,
sugada por aquele grande dragão, para me separar
de minha vida sem bandeira,
sem ventre,
sem grito.

Trad.: Nelson Santander

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The starry night

That does not keep me from having a terrible need of — shall I say the word — religion. Then I go out at night to paint the stars.

– Vincent Van Gogh in a letter to his brother

The town does not exist
except where one black-haired tree slips
up like a drowned woman into the hot sky.
The town is silent. The night boils with eleven stars.
Oh starry starry night! This is how
I want to die.

It moves. They are all alive.
Even the moon bulges in its orange irons
to push children, like a god, from its eye.
The old unseen serpent swallows up the stars.
Oh starry starry night! This is how
I want to die:

into that rushing beast of the night,
sucked up by that great dragon, to split
from my life with no flag,
no belly,
no cry.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Cruzeiro do Sul

Ardem as folhas do outono
na umidade crepuscular
de Buenos Aires. Contra um parque
dividido por três colinas,
a opacidade de sua beleza
procura nas folhagens o olhar
que acompanhou a luz. As lâmpadas
douradas mantêm suas memórias
e acendem sombras no gramado.

Ao entardecer, se organizam
o horizonte de troncos
e o suave tato dos olhos
para construir-se outro cômodo
para os pássaros. Em silêncio
sobes as ruas e regressas
ao canto da noite. Permanece
em teus lábios o murmúrio
que, ao abandono, pronunciaste,
a sobra de palavras
deixadas na solidão
de um quarto acolhedor, já escuro.

Áspero em sua constelação,
o Cruzeiro do Sul abre suas pontas
enquanto aguardo tua chegada
porque não és tu quem voltaste
a resplandecer junto ao eco,
mas tuas pegadas fundas, tênues
fragmentos de um espelho em chamas
que te viu entrar cegamente
nas membranas do desejo.

Trad.: Nelson Santander

Cruz del sur

Arden las hojas del otoño
en la humedad crepuscular
de Buenos Aires. Contra un parque
dividido por tres colinas,
la opacidad de su belleza
busca en follajes la mirada
que acompañó la luz. Las lámparas
doradas guardan sus memorias
y encienden sombras en el césped.

Al atardecer se disponen
el horizonte de cortezas
y el suave tacto de los ojos
para construirse otra estancia
con los pájaros. En silencio
subes las calles y regresas
al canto de la noche. Queda
entre tus labios el murmullo
que al abandono pronunciaste,
la rozadura de palabras
dejadas en la soledad
de un cuarto cálido, ya oscuro.

Áspera en su constelación,
la Cruz del Sur abre sus puntas
mientras aguardo tu llegada
porque no eres tú quien ha vuelto
a resplandecer junto al eco,
sino tus huellas hondas, tenues
fragmentos de un espejo en llamas
que te observó al entrar a ciegas
en las membranas del deseo.

James Elroy Flecker – A um poeta daqui a mil anos

Eu, que há mil anos concluí meu percurso,
E escrevi esta doce e arcaica canção,
Por arautos te envio este discurso
Por estradas que meus pés não trilharão.

Não me importa se os mares tu transpões,
Ou se galgas em segurança um céu mau,
Se eriges exímias fortificações
Feitas de alvenaria ou de metal.

Mas ainda tens canções e o hidromel,
E estátuas e amores de olhos brilhantes,
E tolas ideias sobre o bem e o mal
E as orações para seres arrogantes?

E como iremos triunfar? Como um vento
vespertino que nossos sonhos propala,
como o velho e cego Homero, agourento,
três mil anos antes já imaginara.

Ó amigo oculto, ignoto, não nascido,
da doce língua inglesa um estudante,
Lê à noite e sozinho o que eu digo:
Eu estava em meu auge, eu era um vate.

Como nunca poderei ver tua fronte,
E minha mão tu nunca apertarás,
Vai minh’alma além do tempo e do horizonte
Para cortejá-lo. Tu entenderás.

Trad.: Nelson Santander

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To a poet a thousand years hence

I who am dead a thousand years,
And wrote this sweet archaic song,
Send you my words for messengers
The way I shall not pass along.

I care not if you bridge the seas,
Or ride secure the cruel sky,
Or build consummate palaces
Of metal or of masonry.

But have you wine and music still,
And statues and a bright-eyed love,
And foolish thoughts of good and ill,
And prayers to them who sit above?

How shall we conquer? Like a wind
That falls at eve our fancies blow,
And old Maeonides the blind
Said it three thousand years ago.

O friend unseen, unborn, unknown,
Student of our sweet English tongue,
Read out my words at night, alone:
I was a poet, I was young.

Since I can never see your face,
And never shake you by the hand,
I send my soul through time and space
To greet you. You will understand.