Ada Limón – O fim da poesia

Chega de ósseos e pássaro e girassol
e calçados de neve, bordo e brotos, sâmara e sementes,
chega de chiaroscuro, chega de portanto e profecia
e estoicos estancieiros e fé e pai nosso e acima
de todos, chega de parças e peito*, tez e deus
que não esquece e corpos estelares e pássaros congelados,
chega de vontade de prosseguir e de vontade de desistir ou de como
uma certa luz faz a coisa certa, chega
de ajoelhar e de levantar e de olhar
para dentro e para cima, chega de armas,
drama e suicídio de conhecido, a carta há muito
perdida na cômoda, chega do desejo e
do ego e da obliteração do ego, chega
de mãe e filho e pai e filho
e chega de apontar para o mundo, exausta
e desesperada, chega de brutalidade e de fronteiras,
chega de você pode me ver?, você pode me ouvir? chega
de eu sou humana, chega de eu estou sozinha e desesperada,
chega de animal me salvar, chega de faça
chuva**, chega de sofrimento, chega do ar e seu alívio,
estou pedindo que você me toque.

Trad.: Nelson Santander

* N. do T.: A expressão “tis of thee” foi retirada da tradicional canção patriótica americana “America (My Country, Tis of Thee)” (algo como “América (O meu país é o teu)”), composta em 1831. Logo na sequência temos o verso “enough of bosom and bud”. Em inglês, “bosom of buddy” significa, literalmente, “amigo do peito”. A alusão a uma canção patriótica seguida de duas palavras que, juntas, formam a expressão “amigo do peito” em um (anti)poema que versa sobre a negativa catártica, em tempos pandêmicos, de tudo o que é exagerado, obtuso, anti-poético e também poético, mas também inalcançável – inclusive a própria linguagem poética, não me pareceu um acaso. Assim, uma das interpretações possíveis desses versos é a de que o poema faz uma menção crítica ao suposto relacionamento secreto e promíscuo entre Trump e Putin. Aqui cabe uma observação. Segundo Gabriel Perissé, “o artista nos educa sem se preocupar com resultados pedagógicos ou técnicas didáticas. O resultado que ele procurava era, fundamentalmente, produzir a obra, levar ao fim o seu plano, por mais vago que estivesse em sua cabeça. Concluída a obra, nada mais poderá fazer. Ainda que deseje, não poderá prever ou alterar as consequências do trabalho pronto e entregue à sensibilidade… ou à falta de sensibilidade dos seus semelhantes. A obra de arte não pertence mais ao artista, no sentido de que será livremente acolhida e interpretada por outras pessoas. O leitor será coautor. (…) Vencendo passividades e inércias, quem se aproxima da obra de arte, torna-se autor de sua interpretação e, de certo modo, recriador da obra (…)”.

Assim, ainda que não seja aquela a melhor interpretação deste trecho do poema, a deixa é convidativa demais para que eu não a aproveite. Assim, optei por traduzir (não sem uma ponta de satisfação) “and tis of thee” por “acima de todos”. Minha versão obviamente faz referência ao conhecido slogan do governo Jair Bolsonaro (“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”). Se de fato o poema, nesse trecho, quis fazer uma crítica à promiscuidade entre religião e política que marca o governo conservador de Donald Trump, minha versão faz o mesmo, só que ao governo Bolsonaro que, para além da hipocrisia carola que é uma de suas características mais marcantes, tem o apoio incondicional da chamada Bancada da Bíblia. Tendo optado por tal caminho, não fica difícil intuir porque traduzi o verso seguinte (“enough of bosom and bud”) por “chega de parças e peito”: além de, como ocorre no verso original, tentar emprestar um sentido poético a uma gíria (“bosom of buddy”, em inglês e “parça”, em português), é um fato incontestável que Bolsonaro se julga um grande amigo de Donald Trump (a quem, certa feita, chegou a dirigir um discreto “i love you”). Não sei se a recíproca é verdadeira, mas para Bolsonaro, ele e Trump seriam verdadeiros “parças”, amigões mesmo do peito.

A tradução, portanto, promove o deslocamento do sentido original do poema (sempre na pressuposição de que foi essa a intenção da poeta), que faz referência à parceria Trump-Putin, substituindo o presidente russo pelo brasileiro. Os contextos geopolíticos e a dinâmica desses relacionamentos são evidentemente distintas. Trump parece nutrir por Putin uma admiração que não dispensa ao presidente brasileiro. O relacionamento Trump/Putin é marcado pela simetria e equilíbrio de forças, algo muito distante da sabujice e subserviência de Bolsonaro em relação ao presidente americano. Todavia, a mudança de foco não altera o sentido geral do poema e, com vantagem para o seu entendimento em terras tupiniquins, adapta-o para a nossa realidade. Assim, o mesmo grito de “chega” que o poema parece dirigir a Donald Trump é despejado, em português, em Jair Bolsonaro. Chega mesmo.

** No contexto do poema, a frase “enough of the high water” parece se referir ao ditado americano que diz: “Come Hell Or High Water”. Em português, esse ditado pode ser traduzido por “aconteça o que acontecer” ou pelo popular “faça chuva ou faça sol”, do qual aproveitei a primeira sentença.

The end of poetry

Enough of osseous and chickadee and sunflower
and snowshoes, maple and seeds, samara and shoot,
enough chiaroscuro, enough of thus and prophecy
and the stoic farmer and faith and our father and tis
of thee, enough of bosom and bud, skin and god
not forgetting and star bodies and frozen birds,
enough of the will to go on and not go on or how
a certain light does a certain thing, enough
of the kneeling and the rising and the looking
inward and the looking up, enough of the gun,
the drama, and the acquaintance’s suicide, the long-lost
letter on the dresser, enough of the longing and
the ego and the obliteration of ego, enough
of the mother and the child and the father and the child
and enough of the pointing to the world, weary
and desperate, enough of the brutal and the border,
enough of can you see me, can you hear me, enough
I am human, enough I am alone and I am desperate,
enough of the animal saving me, enough of the high
water, enough sorrow, enough of the air and its ease,
I am asking you to touch me.

Louise Glück – Encruzilhada

Corpo meu, agora que não viajaremos juntos por muito mais tempo,
começo a sentir uma nova ternura por ti, muito crua e pouco familiar,
como a lembrança que tenho do amor quando eu era jovem —

amor que foi tantas vezes tolo em seus objetivos
mas nunca em suas escolhas, suas intensidades
Muito exigido com antecedência para muito que não podia ser prometido —

Minha alma tem sido tão temerosa, tão violenta;
perdoa sua brutalidade.
Como se fosse essa alma, minha mão se move cautelosamente sobre ti,

não querendo ofender
mas ansiosa, definitivamente, por alcançar expressão como substância:

não é da terra que sentirei falta,
é de ti que sentirei falta.

Trad.: Nelson Santander

Crossroads

My body, now that we will not be traveling together much longer
I begin to feel a new tenderness toward you, very raw and unfamiliar,
like what I remember of love when I was young —

love that was so often foolish in its objectives
but never in its choices, its intensities
Too much demanded in advance, too much that could not be promised —

My soul has been so fearful, so violent;
forgive its brutality.
As though it were that soul, my hand moves over you cautiously,

not wishing to give offense
but eager, finally, to achieve expression as substance:

it is not the earth I will miss,
it is you I will miss.

Neil Gaiman – As coletoras de cogumelos

The Mushroom Hunters, by Neil Gaiman

Como você sabe, meu pequeno, a ciência é o estudo
da natureza e do comportamento do universo.
Ela se baseia na observação, na experimentação e na medição,
e na formulação de leis para descrever os fatos revelados.

Nos velhos tempos, dizem, os homens já vinham equipados com cérebros
projetados para seguir cárneas-feras em uma corrida,
para se lançarem cegamente no desconhecido,
e depois encontrarem o caminho de volta para casa mesmo quando perdidos
e tendo que carregar um antílope morto entre eles.
Ou, em dias ruins de caça, nada.

As mulheres, que não precisavam correr até a presa,
tinham cérebros que detectavam marcos e traçavam caminhos entre eles
a partir do espinheiro e através dos cascalhos
e olhavam embaixo do tronco de uma árvore meio caída,
porque às vezes havia cogumelos.

Antes do tacape, ou do cutelo de sílex,
a primeira de todas as ferramentas foi a tipoia de bebê para
manter nossas mãos livres
e algo onde colocar os frutos silvestres e os cogumelos,
as raízes e as folhas boas, as sementes e as lagartas.
Depois, um pilão de pedra para rachar, esmagar, moer ou triturar.

E às vezes os homens caçavam as feras
nas florestas profundas,
e nunca mais voltavam.

Alguns cogumelos irão matá-lo
enquanto outros revelarão deuses para você
e alguns alimentarão a fome em nossas barrigas. Identifique.
Outros nos matarão se os comermos crus,
e ainda nos matarão se os cozinharmos apenas uma vez,
mas se os fervermos em água de nascente, e despejarmos a água,
e fervermos novamente, e despejarmos a água,
só então poderemos come-los com segurança. Observe.

Observe o parto, meça o inchaço das barrigas e o formato dos seios,
e através da experiência descubra como trazer bebês ao mundo com segurança.

Observe tudo.

Como as coletoras de cogumelos percorreram os seus caminhos
e observaram o mundo, e compreenderam o que observaram.
E como algumas delas prosperaram e lamberam os lábios,
enquanto outras apertaram seus estômagos e sucumbiram.
Assim foram elaboradas e transmitidas as leis sobre o que é seguro. Formule.

As ferramentas que fabricamos para edificar nossas vidas:
nossas roupas, nossa comida, nosso caminho para casa…
tudo isso se baseou na observação,
na experimentação, na medição, na verdade.

E a ciência, você se lembra, é o estudo
da natureza e do comportamento do universo,
baseado na observação, no experimento, e medição,
e na formulação de leis para descrever esses fatos.

A corrida continua. Um dos primeiros cientistas
desenhou feras nas paredes das cavernas
para mostrar aos seus filhos, agora todos gordos de cogumelos
e frutos silvestres, o que seria seguro caçar.

Os homens continuam correndo atrás de feras.

As cientistas caminham mais lentamente até o topo da colina,
descem até a beira da água e passam pelo lugar onde corre a argila vermelha.
Elas carregam seus bebês nas tipoias que teceram,
liberando suas mãos para colher os cogumelos.

Trad.: Nelson Santander

The mushroom hunters

Science, as you know, my little one, is the study
of the nature and behaviour of the universe.
It’s based on observation, on experiment, and measurement,
and the formulation of laws to describe the facts revealed.

In the old times, they say, the men came already fitted with brains
designed to follow flesh-beasts at a run,
to hurdle blindly into the unknown,
and then to find their way back home when lost
with a slain antelope to carry between them.
Or, on bad hunting days, nothing.

The women, who did not need to run down prey,
had brains that spotted landmarks and made paths between them
left at the thorn bush and across the scree
and look down in the bole of the half-fallen tree,
because sometimes there are mushrooms.

Before the flint club, or flint butcher’s tools,
The first tool of all was a sling for the baby
to keep our hands free
and something to put the berries and the mushrooms in,
the roots and the good leaves, the seeds and the crawlers.
Then a flint pestle to smash, to crush, to grind or break.

And sometimes men chased the beasts
into the deep woods,
and never came back.

Some mushrooms will kill you,
while some will show you gods
and some will feed the hunger in our bellies. Identify.
Others will kill us if we eat them raw,
and kill us again if we cook them once,
but if we boil them up in spring water, and pour the water away,
and then boil them once more, and pour the water away,
only then can we eat them safely. Observe.

Observe childbirth, measure the swell of bellies and the shape of breasts,
and through experience discover how to bring babies safely into the world.

Observe everything.

And the mushroom hunters walk the ways they walk
and watch the world, and see what they observe.
And some of them would thrive and lick their lips,
While others clutched their stomachs and expired.
So laws are made and handed down on what is safe. Formulate.

The tools we make to build our lives:
our clothes, our food, our path home…
all these things we base on observation,
on experiment, on measurement, on truth.

And science, you remember, is the study
of the nature and behaviour of the universe,
based on observation, experiment, and measurement,
and the formulation of laws to describe these facts.

The race continues. An early scientist
drew beasts upon the walls of caves
to show her children, now all fat on mushrooms
and on berries, what would be safe to hunt.

The men go running on after beasts.

The scientists walk more slowly, over to the brow of the hill
and down to the water’s edge and past the place where the red clay runs.
They are carrying their babies in the slings they made,
freeing their hands to pick the mushrooms.

Joan Margarit – Nada engrandece um velho

Nem essa violência com a qual desejo
ter sempre razão.
Nem tampouco crer que a felicidade
tem uma relação, sutil, com a mentira.
Nem chegar a ter
o coração tão sujo como o meu,
apesar de ter sido a guerra que o sujou.
Minha paz deve ser uma falsa paz.
Tampouco não abjurar a luxúria
e a vaidade.
Como podemos ser vaidosos, os velhos? Essa é a nossa derrota.
Um campo de batalha onde, ao anoitecer,
estou cercado pelos mortos enquanto ouço
vozes distantes de jovens
celebrando o que hoje,
para eles, é ainda a vitória.

Trad.: Nelson Santander

Nada enaltece a un viejo

Ni esa violencia con la que deseo
tener siempre razón.
Ni tampoco creer que la felicidad
tiene una relación, sutil, con la mentira.
Ni llegar a tener
tan sucio el corazón como los míos,
a pesar de que a ellos los ensució la guerra.
Mi paz debe ser una paz falsa.
Tampoco no abjurar de la lujuria
ni de la vanidad.
¿Cómo podemos ser vanidosos, los viejos? Esa es nuestra derrota.
Un campo de batalla donde, al oscurecer,
me rodean los muertos mientras oigo
lejanas voces de gente joven
celebrando lo que hoy,
para ellos, es aún la victoria.

Javier Salvago – Variações sobre um velho tema

Os violinos de Verlaine.
Os sonhados caminhos da tarde, de don Antonio.*
Um velho cheiro de campo.
Um velho cheiro de lápis e cadernos.
O céu cinzento.
O vento entre as árvores.
A carícia das primeiras chuvas.
A tristeza sem causa.
A solidão sonora.
A noite, cada vez mais escura e prolongada.
Um cigarro que, subitamente, tem o sabor do primeiro cigarro.
Uma velha canção que te devolve os teus quinze anos.
Toda tua vida em imagens, que surgem atropeladamente como
em um filme mal editado…

É chegado o outono.

Trad.: Nelson Santander

*N. do T.: o poeta se refere ao famoso poema “Chanson D’Automne”, de Verlaine (https://singularidadepoetica.art/2019/04/02/paul-verlaine-chanson-dautomne-em-seis-traducoes/ ) e ao  poema “Yo voy soñando caminos”, do poeta espanhol Antonio Machado (Sevilla, 26/07/1875 – Colliure, 22/02/1939), que pode ser acessado nesse link: https://albalearning.com/audiolibros/machado/yovoysonando.html 

Variaciones sobre un viejo tópico

Los violines de Verlaine.
Los soñados caminos de la tarde, de don Antonio.
Un viejo olor a campo.
Un viejo olor a lápices y a cuadernos.
El cielo gris.
El viento entre los árboles.
La caricia de las primeras lluvias.
La tristeza sin causa.
La soledad sonora.
La noche, cada vez más oscura y más larga.
Un cigarrillo que de pronto te sabe al primer cigarrillo.
Una antigua canción que te devuelve tus quince años.
Toda tu vida en imágenes, que acuden atropelladamente como
en una película mal montada…

Ha llegado el otoño.

Wendell Berry – Questionário

1. Quanto veneno você está disposto
a consumir para o sucesso do livre
mercado e do comércio internacional? Por favor,
indique seus venenos preferidos.

2. Em nome do bem, quanto
mal você está disposto a praticar?
Preencha os campos abaixo
com os nomes de suas maldades e
atos de ódio favoritos.

3. Que sacrifícios você está disposto
a fazer pela cultura e pela civilização?
Por favor, liste os monumentos, santuários
e obras de arte que você
destruiria de bom grado.

4. Em nome do patriotismo e de nossa
bandeira, quanto de nossa amada
terra você está disposto a profanar?
Liste nos espaços a seguir
as montanhas, rios, cidades e fazendas
sem as quais você poderia passar mais facilmente.

5. Descreva sucintamente as ideias, ideais ou esperanças,
as fontes de energia, as questões de segurança
pelas quais você mataria uma criança.
Indique, por favor, as crianças que
você estaria disposto a matar.

Trad.: Nelson Santander

Questionnaire

1. How much poison are you willing
to eat for the success of the free
market and global trade? Please
name your preferred poisons.

2. For the sake of goodness, how much
evil are you willing to do?
Fill in the following blanks
with the names of your favorite
evils and acts of hatred.

3. What sacrifices are you prepared
to make for culture and civilization?
Please list the monuments, shrines,
and works of art you would
most willingly destroy.

4. In the name of patriotism and
the flag, how much of our beloved
land are you willing to desecrate?
List in the following spaces
the mountains, rivers, towns, farms
you could most readily do without.

5. State briefly the ideas, ideals, or hopes,
the energy sources, the kinds of security,
for which you would kill a child.
Name, please, the children whom
you would be willing to kill.

Audre Lorde – As abelhas

Na rua, em frente a uma escola,
o que as crianças aprenderam
as possui.
Garotos gritam enquanto apedrejam um enxame de abelhas
que tenta se reunir
entre a janela do refeitório e uma grade de ferro.
Os garotos arremessam pedras furiosas
despedaçando as janelas.
As abelhas, zumbindo sua raiva,
demoram a atacar.
Então, um dos meninos é picado
em uma destruição mais rápida
e os inspetores escolares aparecem com
longas varas de madeira estendidas diante deles
eles avançam sobre a colmeia
destruindo os salões de cera quase concluídos
esmagando os novos túneis
enquanto o mel fresco escorre
pelos cabos de suas vassouras
e os pés dos moleques se tornam peritos
em destruição,
pisoteando as aturdidas abelhas restantes
na terra.

Curiosas e afastadas
quatro garotinhas assistem a tudo fascinadas
aprendendo uma secreta lição
e tentando entender elas mesmas a destruição.
Uma delas grita:
“Ei, as abelhas não estavam causando nenhum problema!”
e atravessa as ruínas que zumbem debilmente
para espreitar o vazio recanto raspado
“Nós poderíamos ter estudado a fabricação do mel!”

Trad.: Nelson Santander

The bees

In the street outside a school
what the children learn
possesses them.
Little boys yell as they stone a flock of bees
trying to swarm
between the lunchroom window and an iron grate.
The boys sling furious rocks
smashing the windows.
The bees, buzzing their anger,
are slow to attack.
Then one boy is stung
into quicker destruction
and the school guards come
long wooden sticks held out before them
they advance upon the hive
beating the almost finished rooms of wax apart
mashing the new tunnels in
while fresh honey drips
down their broomsticks
and the little boy feet becoming expert
in destruction
trample the remaining and bewildered bees
into the earth.

Curious and apart
four little girls look on in fascination
learning a secret lesson
and trying to understand their own destruction.
One girl cries out
“Hey, the bees weren’t making any trouble!”
and she steps across the feebly buzzing ruins
to peer up at the empty, grated nook
“We could have studied honey-making!”

Barbara Ras – Você não pode ter tudo

Mas você pode ter a figueira e suas folhas fartas como mãos de palhaço
enluvadas de verde. Você pode ter o toque de um único dedo de onze anos de idade
em seu rosto, acordando-a à uma da madrugada para dizer que o hamster reapareceu.
Você pode ter o ronronar do gato e o olhar comovente
do cachorro preto, o olhar que diz: se eu pudesse morderia
toda dor até que ela a abandonasse, e quando fosse agosto
você poderia tê-la em agosto e em abundância. Você pode ter amor,
embora frequentemente ele seja misterioso como a espuma branca
que borbulha no topo da panela sobre o feijão vermelho
até que você perceba que o gêmeo da espuma é o sangue.
Você pode ter a pele no centro entre as pernas de um homem,
tão sólida, tão parecido com um boneco. Você pode ter uma vida intelectual,
brilhando ocasionalmente em vestes sacerdotais, nunca admitindo a mesquinhez,
jamais se rebaixando para subornar o guarda taciturno que lhe avisará sobre
todas as estreitas estradas da fronteira.
Você pode, às vezes, falar uma língua estrangeira,
o que pode significar algo. Você pode visitar a lápide
onde seu pai chorou abertamente. Você não pode trazer os mortos de volta,
mas pode ter as palavras perdoar e esquecer de mãos dadas
como se fossem passar a vida toda juntas. E você pode ser grata
pela maquiagem, pelo jeito que ela beija seu rosto, parte tempero, parte amnésia, grata
por Mozart, suas muitas notas correndo umas com as outras em direção à alegria, pelas toalhas
absorvendo as gotas em sua pele limpa, e pela sede mais profunda,
pelo maracujá, pela saliva. Você pode ter o sonho,
o sonho do Egito, os cavalos do Egito e você cavalgando na areia escaldante.
Você pode ter o seu avô sentado ao lado da sua cama,
pelo menos por algum tempo, você pode ter nuvens e cartas, o salto
de distâncias, e comida indiana com um molho amarelo como o nascer do sol.
Você não pode contar com a graça de ser a escolhida no meio da multidão
mas eis aqui sua amiga para ensinar-lhe salto em altura,
sobre como se lançar sobre o sarrafo, de costas,
até que você aprenda sobre o amor, sobre a doce rendição,
e aqui estão os caramujos, ônibus que se ajoelham, fazendas na mente
tão reais como a África. E quando a maturidade a desapontar,
você ainda pode invocar a lembrança do cisne negro na lagoa
de sua infância, do pão de centeio com manteiga de amendoim e bananas
que sua avó lhe dava enquanto o resto da família dormia.
Há a voz que você ainda pode invocar à vontade, como a de sua mãe,
ela sempre irá sussurrar, você não pode ter tudo,
mas tem isso.

Trad.: Nelson Santander

You can’t have it all

But you can have the fig tree and its fat leaves like clown hands
gloved with green. You can have the touch of a single eleven-year-old finger
on your cheek, waking you at one a.m. to say the hamster is back.
You can have the purr of the cat and the soulful look
of the black dog, the look that says, If I could I would bite
every sorrow until it fled, and when it is August,
you can have it August and abundantly so. You can have love,
though often it will be mysterious, like the white foam
that bubbles up at the top of the bean pot over the red kidneys
until you realize foam’s twin is blood.
You can have the skin at the center between a man’s legs,
so solid, so doll-like. You can have the life of the mind,
glowing occasionally in priestly vestments, never admitting pettiness,
never stooping to bribe the sullen guard who’ll tell you
all roads narrow at the border.
You can speak a foreign language, sometimes,
and it can mean something. You can visit the marker on the grave
where your father wept openly. You can’t bring back the dead,
but you can have the words forgive and forget hold hands
as if they meant to spend a lifetime together. And you can be grateful
for makeup, the way it kisses your face, half spice, half amnesia, grateful
for Mozart, his many notes racing one another towards joy, for towels
sucking up the drops on your clean skin, and for deeper thirsts,
for passion fruit, for saliva. You can have the dream,
the dream of Egypt, the horses of Egypt and you riding in the hot sand.
You can have your grandfather sitting on the side of your bed,
at least for a while, you can have clouds and letters, the leaping
of distances, and Indian food with yellow sauce like sunrise.
You can’t count on grace to pick you out of a crowd
but here is your friend to teach you how to high jump,
how to throw yourself over the bar, backwards,
until you learn about love, about sweet surrender,
and here are periwinkles, buses that kneel, farms in the mind
as real as Africa. And when adulthood fails you,
you can still summon the memory of the black swan on the pond
of your childhood, the rye bread with peanut butter and bananas
your grandmother gave you while the rest of the family slept.
There is the voice you can still summon at will, like your mother’s,
it will always whisper, you can’t have it all,
but there is this.

Ursula K. Le Guin – Hino ao tempo

O Tempo diz “Que haja”
e instantaneamente, a todo instante,
existe espaço e o esplendor
de cada galáxia brilhante.

E olhos contemplando o céu cintilante.
E a dança dos mosquitos, tremulante.
E a extensão do mar.
E a morte, e o azar.

O tempo deixa espaço
para ir e voltar para casa
e no ventre do tempo
tudo começa e acaba.

Tempo é ser e ser é tempo
é tudo o mesmo elemento,
o brilho, a visão,
a abundante escuridão.

Trad.: Nelson Santander

Hymn to time

Time says “Let there be”
every moment and instantly
there is space and the radiance
of each bright galaxy.

And eyes beholding radiance.
And the gnats’ flickering dance.
And the seas’ expanse.
And death, and chance.

Time makes room
for going and coming home
and in time’s womb
begins all ending.

Time is being and being
time, it is all one thing,
the shining, the seeing,
the dark abounding.

Jane Hirshfield – Encantamento para se recitar contra o ódio

Até que cada respiração repudie eles, aqueles, outros.
Até que a Dramatis Personae da primeira página do livro diga: “Cada um deles é você.”
Até que a esperança se dobre à sua desesperança apenas quando um ser se dobrar para outro.
Até que a crueldade se dobre às suas ações e subitamente perceba: eu.
Até que a raiva e a injúria se reconheçam como pernas incineráveis de uma mesa imprestável.
Até que se dobrem espontaneamente os indiferentes joelhos.
Até que o medo se curve para o seu objeto como a sombra de um pássaro se curva para o seu pássaro.
Até que a dor da solidão penetre as mãos, as costelas, os tornozelos.
Até que o som que o rato faz penetre a boca do gato.
Até que os inaudíveis ácidos banhem o coral.
Ate que se sinta que o que ninguém está pesando já não é mais sem peso.
Até que se sinta que o que ninguém está ganhando já não é mais subtraído.
Até que a dor, a pena, a confusão, o riso, a saudade se reconheçam nos espelhos.
Até que por nós nós queiramos dizer eu, eles, você, o rato almiscarado, o tigre, a fome.
Até que por eu nós queiramos dizer como late um cachorro, soando e sumindo, soando e sumindo completamente.
Até que por até nós queiramos dizer eu, nós, você, eles, o rato almiscarado, o tigre, a fome,
o solitário latido do cão antes de obter uma resposta.

Trad.: Nelson Santander

Spell to be said against hatred

Until each breath refuses they, those, them.
Until the Dramatis Personae of the book’s first page says “Each one is you.”
Until hope bows to its hopelessness only as one self bows to another.
Until cruelty bends to its work and sees suddenly: I.
Until anger and insult know themselves burnable legs of a useless table.
Until the unsurprised unbidden knees find themselves bending.
Until fear bows to its object as a bird’s shadow bows to its bird.
Until the ache of the solitude inside the hands, the ribs, the ankles.
Until the sound the mouse makes inside the mouth of the cat.
Until the inaudible acids bathing the coral.
Until what feels no one’s weighing is no longer weightless.
Until what feels no one’s earning is no longer taken.
Until grief, pity, confusion, laughter, longing know themselves mirrors.
Until by we we mean I, them, you, the muskrat, the tiger, the hunger.
Until by I we mean as a dog barks, sounding and vanishing and sounding and
vanishing completely.
Until by until we mean I, we, you, them, the muskrat, the tiger, the hunger,
the lonely barking of the dog before it is answered.