Jane Hirschfield – Meu esqueleto

Meu esqueleto,
que um dia doeu
com o próprio crescimento,

está agora,
a cada ano
imperceptivelmente menor,
mais leve,
absorvido por sua própria
concentração.

Quando eu dancei,
você dançou.
Quando você quebrou,
eu.

E assim foi, deitando,
caminhando,
subindo os fatigantes degraus.
Seus maxilares. Meu pão.

Algum dia você,
o que resta de você,
será extirpado deste casamento.

Artrite dos ossos do pulso,
harpa trincada da caixa torácica,
ponta partida do calcanhar,
exposta cavidade do crânio,
pratos gêmeos da pélvis –
cada pedaço seu me deixará para trás,
afinal serena.

O que sabia eu de seus dias,
suas noites,
eu que o segurei por toda minha vida
em minhas mãos
e pensei que elas estivessem vazias?

Você que me segurou a vida toda
em suas mãos
como uma mãe recente
segura seu próprio filho indefeso,
sem pensar em nada.

Trad.: Nelson Santander

My skeleton

My skeleton,
who once ached
with your own growing larger,

are now,
each year
imperceptibly smaller,
lighter,
absorbed by your own
concentration.

When I danced,
you danced.
When you broke,
I.

And so it was lying down,
walking,
climbing the tiring stairs.
Your jaws. My bread.

Someday you,
what is left of you,
will be flensed of this marriage.

Angular wristbone’s arthritis,
cracked harp of rib cage,
blunt of heel,
opened bowl of the skull,
twin platters of pelvis—
each of you will leave me behind,
at last serene.

What did I know of your days,
your nights,
I who held you all my life
inside my hands
and thought they were empty?

You who held me all your life
in your hands
as a new mother holds
her own unblanketed child,
not thinking at all.

Louise Glück – Nostos

Havia uma macieira no quintal –
isso teria sido há
quarenta anos – nos fundos,
apenas prados. Excesso
de crocus na relva úmida
Eu estava naquela janela:
fim de abril. Flores
da primavera no quintal do vizinho.
Quantas vezes, realmente, a árvore
floresceu no meu aniversário,
no dia exato, nem antes
nem depois? Substituição
do imutável
por transformação, por evolução.
Substituição da imagem
pela terra implacável. O que
sei eu deste lugar,
o papel que foi da árvore por décadas
desempenhado por um bonsai, vozes
subindo das quadras de tênis –
Campos. Cheiro de grama alta, recém
cortada.
Como se espera de um poeta lírico.
Nós enxergamos o mundo uma única vez, na infância.
O resto é memória.

Trad.: Nelson Santander

Nostos

There was an apple tree in the yard —
this would have been
forty years ago — behind,
only meadows. Drifts
of crocus in the damp grass.
I stood at that window:
late April. Spring
flowers in the neighbor’s yard.
How many times, really, did the tree
flower on my birthday,
the exact day, not
before, not after? Substitution
of the immutable
for the shifting, the evolving.
Substitution of the image
for relentless earth. What
do I know of this place,
the role of the tree for decades
taken by a bonsai, voices
rising from the tennis courts —
Fields. Smell of the tall grass, new cut.
As one expects of a lyric poet.
We look at the world once, in childhood.
The rest is memory.

Denise Levertov – Naquele dia

Do outro lado de um lago na Suíça, cinquenta anos atrás,
a luz duelava com uma longa lança, esgrimindo com sabres
de um lado para o outro entre picos nublados e colinas.
Observávamos de um pequeno pavilhão, minha mãe e eu,
fascinadas.
E então, eis que um feixe, uma coluna,
um corpo definido, não de luz mas de chuva prateada,
se formou e partiu da costa distante, deixou para trás
as fintas e investidas silenciosas, e avançou
firmemente, a um ritmo constante,
em nossa direção.
Eu conhecia aquilo! Eu já vira aquilo! Não a sensação
de déjà vu: era a visão de Blake em aquarela,
‘O Espírito de Deus Movendo-se sobre a Face das Águas’!
A coluna avançava firmemente
através do lago em nossa direção; em ambos os lados
não havia chuva. Levantamo-nos, sem fôlego –
e então ela nos atingiu, apanhou-nos
em seu véu de prata, envolveu-nos
na melhor trama molhada
e rimos de alegria, maravilhadas.

Trad.: Nelson Santander

That day

Across a lake in Switzerland, fifty years ago,
light was jousting with long lances, fencing with broadswords
back and forth among cloudy peaks and foothills.
We watched from a small pavilion, my mother and I,
enthralled.
And then, behold, a shaft, a column,
a defined body, not of light but of silver rain,
formed and set out from the distant shore, leaving behind
the silent feints and thrusts, and advanced
unswervingly, at a steady pace,
toward us.
I knew this! I’d seen it! Not the sensation
of déjà vu: it was Blake’s inkwash vision,
‘The Spirit of God Moving Upon the Face of the Waters’!
The column steadily came on
across the lake toward us; on each side of it,
there was no rain. We rose to our feet, breathless —
and then it reached us, took us
into its veil of silver, wrapped us
in finest weave of wet,
and we laughed for joy, astonished.

Richard Eberhart – A marmota

Em junho, entre os campos dourados,
Avistei uma marmota morta.
Morta ela estava; meu juízo se abalou,
E a mente projetou a nossa fragilidade nua.
Lá embaixo, humilde no vigoroso verão,
Sua forma iniciou sua mudança sem sentido,
E fez oscilar meus sentidos para o sombrio
Vendo a natureza feroz que nela havia.
Inspecionando de perto o poder de seus vermes
E o caldeirão fervilhante do seu ser,
Meio com nojo, meio possuído por um estranho amor,
Mexi nela com um enérgico bastão.
A febre irrompeu, tornou-se uma chama
E o vigor circunscreveu os céus,
Imensa energia ao sol,
E, através de minha moldura, um tremor sem sol.
O pau que usei não fez nem bem nem mal.
Permaneci então em silêncio durante o dia
Observando o objeto, como antes;
E mantive minha reverência pela experiência,
Tentando manter o controle, ficar quieto,
Para apaziguar a paixão do sangue;
Até que me pus de joelhos
Orando por alegria perante a decadência.
Fui então embora; e retornei
No outono, de olhar severo, para ver
A seiva esvaída da marmota,
Embora a magra carcaça informe remanescesse.
O ano, porém, tinha perdido seu significado,
E em correntes intelectuais
Eu perdera a atração e a aversão em igual medida,
Encarcerado entre os muros da sensatez.
Outro verão tomou os campos novamente,
Massivo e abrasador, cheio de vida,
Mas quando por acaso encontrei o local
Nele havia apenas um pouco de pelo,
E ossos branqueando ao sol,
Belos como uma arquitetura.
Observei-os como um geômetra,
E de uma bétula fiz um bastão.
Já se passaram três anos agora.
Não há nenhum sinal da marmota.
Fiquei parado ali, no turbulento verão,
Minha mão cobrindo um coração ressequido,
E pensei na China e na Grécia,
Em Alexandre e sua tenda,
Em Montaigne em sua torre,
Em Santa Tereza em seu lamento selvagem.

Trad.: Nelson Santander

The Groundhog

In June, amid the golden fields,
I saw a groundhog lying dead.
Dead lay he; my senses shook,
And mind outshot our naked frailty.
There lowly in the vigorous summer
His form began its senseless change,
And made my senses waver dim
Seeing nature ferocious in him.
Inspecting close his maggots’ might
And seething cauldron of his being,
Half with loathing, half with a strange love,
I poked him with an angry stick.
The fever arose, became a flame
And Vigour circumscribed the skies,
Immense energy in the sun,
And through my frame a sunless trembling.
My stick had done nor good nor harm.
Then stood I silent in the day
Watching the object, as before;
And kept my reverence for knowledge
Trying for control, to be still,
To quell the passion of the blood;
Until I had bent down on my knees
Praying for joy in the sight of decay.
And so I left; and I returned
In Autumn strict of eye, to see
The sap gone out of the groundhog,
But the bony sodden hulk remained.
But the year had lost its meaning,
And in intellectual chains
I lost both love and loathing,
Mured up in the wall of wisdom.
Another summer took the fields again
Massive and burning, full of life,
But when I chanced upon the spot
There was only a little hair left,
And bones bleaching in the sunlight
Beautiful as architecture;
I watched them like a geometer,
And cut a walking stick from a brich.
It has been three years, now.
There is no sign of the groundhog.
I stood there in the whirling summer,
My hand capped a withered heart,
And thought of China and of Greece,
Of Alexander in his tent;
Of Montaigne in his tower,
Of Saint Theresa in her wild lament.

Jane Hirshfield – Dentro desta árvore

Dentro desta árvore
outra árvore
habita o mesmo tronco;
dentro desta pedra
outra pedra descansa,
com muitos tons de cinza
iguais,
com superfície
e peso idênticos.
E dentro do meu corpo,
outro corpo,
cuja história, à espera,
canta; não há outro corpo,
ela canta,
não há outro mundo.

Trad.: Nelson Santander

Within this tree

Within this tree
another tree
inhabits the same body;
within this stone
another stone rests,
its many shades of grey
the same,
its identical
surface and weight.
And within my body,
another body,
whose history, waiting,
sings; there is no other body,
it sings,
there is no other world.

Gonçalo M. Tavares – Sobre o mundo

O telescópio não alcança sequer a tua alma;
Imprecisão exata de um instrumento instintivo.
Mas repara: não há instrumentos instintivos ou máquinas
espontâneas.
Dois terços do amor estão na mulher, qualquer
que seja o casal. As evidências abrem falência
em todas as áreas; com o machado homens robustos inventam
ciências viris. Indispensáveis, de facto:
ciências meigas já existem em número
excessivo. Monumentos que ocupam
quilômetros quadrados são explicados por uma equação de
dois centímetros. Repara: a engenharia é a invenção que engordou
as equações matemáticas. Atirou-as para o Mundo.
Vê as águas, a sabedoria discreta: ninguém
constrói uma torre de observação no centro
do mar. As águas não se bebem
por inteiro, e nem toda a água é doméstica. O mar não tem
diminutivos. Uma onda não o é.
Nem o peixe.
Ciências que estudem seriamente o riso
não existem; os cientistas
colocam fórmulas em tabelas: têm gráficos complexos
que explicam a simplicidade
do Mundo. Felizmente, fomos salvos
pelo coração.
Certos órgãos ficaram reféns dos profetas
antigos, e as noites passam-se melhor assim.
Indecisões desconcertantes permitem reinventar a
monotonia: Trago-te uma monotonia surpreendente, alguém diz.
Animais mitológicos bebem água no nada,
e mesmo assim crescem; têm células resistentes.
Outros animais mais longos e espessos, mamíferos
de grande porte por exemplo, evaporam a 36°, reaparecendo
não carnívora. O mundo muda,
Não pense que não. Nem os mamíferos são eternos.
No aeródromo, por exemplo, o poema atravanca o caminho
de descolagem
do avião de um
País pouco habituado a máquinas que subam mais
alto que um banco de cozinha. O mundo
não é injusto, mas também não é teu mordomo;
Avança e é só.

Alberto Szpunberg – De “Sol de noche”

XIV

Embora já saibas que nada volta, volta para casa,
aceita a pequena mentira como um lapso
antes que o inverno te surpreenda
sob uma árvore de ramos despojados:
aqui termina o bosque,
o que cresceu em teus sonhos
antes mesmo de tuas mãos roçarem os troncos:
a pradaria que se estende perante teus olhos
como um mar envolto em luminosa névoa
não tem por que ser o desamparo
que se abraça a teus ossos:
tudo não passou de uma brincadeira de criança,
em que as regras eram
inocentes trapaças consentidas.

Trad.: Nelson Santander

De “Sol de noche”

XIV

Aunque ya sabes que nunca se vuelve, vuelve a casa,
acepta la pequeña mentira como un guiño
antes de que el invierno te sorprenda
bajo un árbol de ramas despojadas:
acá se acaba el bosque,
el que creció en tus sueños
aun antes de que tus manos rozaran la corteza:
la llanura que se extiende ante tus ojos
como un mar envuelto en luminosa niebla
no tiene por qué ser el desamparo
que se abraza a tus huesos:
todo ha sido un juego de niños,
donde las reglas eran
inocentes trampas consentidas.

Ana Martins Marques – [Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano]

Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano
quantas cidades para chegarmos a esta cidade
e quantas mães, todas mortas, até tua mãe
quantas línguas até que a língua fosse esta
e quantos verões até precisamente este verão
este em que nos encontramos neste sítio
exato
à beira de um mar rigorosamente igual
a única coisa que não muda porque muda sempre
quantas tardes e praias vazias foram necessárias para chegarmos ao vazio
desta praia nesta tarde
quantas palavras até esta palavra, esta

Marie Howe – Meus amigos mortos

Comecei,
quando estou cansada e não consigo decidir a resposta que devo dar a uma pergunta desconcertante,

a pedir a opinião dos meus amigos mortos
e frequentemente a resposta é imediata e clara.

Devo aceitar o emprego? Mudar-me para a cidade? Devo tentar conceber um filho
em minha meia idade?

Em uníssono, eles balançam suas cabeças e sorriem – o que quer que conduza
à felicidade, eles sempre respondem,

a mais vida e menos preocupação. Eu olho para a urna onde estavam as cinzas de Billy –
é verde ali, uma urna verde,

e pergunto-lhe se devo retornar a complicada ligação, e ele diz: sim.
Billy já passou pelo apavorante portal,

o que quer que ele diga, eu farei.

Trad.: Nelson Santander

My Dead Friends

I have begun,
when I’m weary and can’t decide an answer to a bewildering question

to ask my dead friends for their opinion
and the answer is often immediate and clear.

Should I take the job? Move to the city? Should I try to conceive a child
in my middle age?

They stand in unison shaking their heads and smiling — whatever leads
to joy, they always answer,

to more life and less worry. I look into the vase where Billy’s ashes were –
it’s green in there, a green vase,

and I ask Billy if I should return the difficult phone call, and he says, yes.
Billy’s already gone through the frightening door,

whatever he says, I’ll do.

Emily Dickinson – Poema 1.222

O Enigma decifrado
Despreza-se com pressa —
A Surpresa de Ontem
Já não nos interessa —

Trad.: Augusto de Campos

Poem 1.222

The Riddle we can guess
We speedily despise —
Not anything is stale so long
As Yesterday’s surprise —