W. H. Auden – Aquele que Ama Mais

Contemplando as estrelas, logo eu discirno
Que, por elas, eu posso ir para o inferno,
Porém, na terra, a indiferença é o que menos
Temos a temer, de animais e humanos

Como seria se os astros de paixão
Por nós ardessem e disséssemos não?
Se os afetos nunca podem ser iguais
Pois que seja eu aquele que ama mais.

Por mais admirador que eu julgue ser
De estrelas que de mim não querem saber
Não posso dizer, agora que as contemplo,
Que lhes tive saudade em algum momento.

Se sumissem ou morressem todas elas
Me habituaria a um céu sem estrelas
E a sentir como sublime a treva total
Embora isso levasse um tempo, afinal.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 28/08/2017

The More Loving One

Looking up at the stars, I know quite well
That, for all they care, I can go to hell,
But on earth indifference is the least
We have to dread from man or beast.

How should we like it were stars to burn
With a passion for us we could not return?
If equal affection cannot be,
Let the more loving one be me.

Admirer as I think I am
Of stars that do not give a damn,
I cannot, now I see them, say
I missed one terribly all day.

Were all stars to disappear or die,
I should learn to look at an empty sky
And feel its total dark sublime,
Though this might take me a little time.

John Murillo – Variações sobre um tema de Elizabeth Bishop

Comece com a perda. Perca tudo. Então perca tudo outra vez.
Perca uma boa mulher em um dia ruim. Encontre uma mulher melhor,
e depois perca cinco amigos correndo atrás dela. Aprenda a perder como se
sua vida dependesse disso. Aprenda que sua vida depende disso.
Aprenda como se aprende caratê, ou a andar de bicicleta. Aprenda-o, domine-o.
Perca dinheiro, perca tempo, perca sua mente natural.
Seja abandonado e depois aprenda a abandonar. Perca e
perca novamente. Mensure o caixão de um pai em comparação com as
células T de um primo. Beije sua irmã através do vidro de uma cela.
Saiba por que sua mulher não está atendendo suas ligações.
Perca o sono. Perca a religião. Perca sua carteira em El Segundo1.
Abra sua janela. Ouça: as últimas notas lentas
de uma canção de Donny Hathaway2. Uma criança chorando. Ouça:
um bêbado pragueja contra a lua. Ele soa como
seu tio morto que, antes de partir, perdeu uma perna
para o açúcar. Uma vergonha. Aprenda que o que é dado pode ser tomado;
e o que pode ser tomado, o será. Pode apostar nisso sem
perder. Claro como o anoitecer e uma cama vazia. Perca
e perca de novo. Perca até que isso seja a sua segunda natureza. Perca
mais, e perca mais rápido3. Incline-se pela janela aberta, ouça:
a criança está rindo agora. Não, é o bêbado de novo
na rua, perdendo sua voz, sofrendo por estrelas invisíveis.

Trad.: Nelson Santander

Nota:

  1. Cidade americana do Estado da Califórnia.
  2. Cantor e compositor norte-americano de soul, gospel e jazz que se suicidou em 1979, aos 33 anos de idade.
  3. Primeiro verso da terceira estrofe de “One Art”, de Elizabeth Bishop, ao qual o presente poema faz referência expressa. Para ajudar na compreensão da presente tradução, colo aqui a tradução magnífica que Paulo Henriques Britto fez do poema de Bishop e, na sequência, o original:

A Arte de Perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

— Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

Trad.: Paulo Henriques Britto

One Art

The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

– Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like a disaster.

Variation on a Theme by Elizabeth Bishop

Start with loss. Lose everything. Then lose it all again.
Lose a good woman on a bad day. Find a better woman,
then lose five friends chasing her. Learn to lose as if
your life depended on it. Learn that your life depends on it.
Learn it like karate, like riding a bike. Learn it, master it.
Lose money, lose time, lose your natural mind.
Get left behind, then learn to leave others. Lose and
lose again. Measure a father’s coffin against a cousin’s
crashing T-cells. Kiss your sister through prison glass.
Know why your woman’s not answering her phone.
Lose sleep. Lose religion. Lose your wallet in El Segundo.
Open your window. Listen: the last slow notes
of a Donny Hathaway song. A child crying. Listen:
a drunk man is cussing out the moon. He sounds like
your dead uncle, who, before he left, lost a leg
to sugar. Shame. Learn what’s given can be taken;
what can be taken, will. This you can bet on without
losing. Sure as nightfall and an empty bed. Lose
and lose again. Lose until it’s second nature. Losing
farther, losing faster. Lean out your open window, listen:
the child is laughing now. No, it’s the drunk man again
in the street, losing his voice, suffering each invisible star.

Timothy Liu – Os restos

Os restos

                                                  —Wuxi, China

Saindo do novo cemitério, meu pai
pegou a minha mão, tendo acabado de reenterrar os restos
mortais de seu próprio pai e suas duas esposas —
sua mãe morrera de tuberculose quando ele tinha dez anos.

Ele pegou a minha mão e disse: Agora posso morrer em paz
mesmo que não tenhamos os ossos verdadeiros
. Os bandidos da aldeia
contratados pelo meu tio se certificaram de que os túmulos
atrás da casa em que meu pai crescera não sentiriam

uma única lâmina de pá entrar enquanto eles estivessem ali
de sentinela com os braços cruzados. A esposa do meu tio
teve um sonho em que de uma fenda aberta da sepultura
demônios saíam apressados — fantasmas ancestrais que não queriam ser

perturbados. Em menos de uma década, tratores virão
botar abaixo a aldeia dos Liu. 
As cinzas da minha
avó, os ossos do meu avô, meu próprio pai
se afastando com dois punhados de terra e dizendo:

Isso terá que servir. Tantos outros morreram
sem ter deixado nada para trás. Eu nunca mais voltarei
a este lugar. 
Meu pai beijou a minha mão,
eu que atravessei doze fusos horários para estar aqui

ao seu lado em uma van emprestada, eu olhando pela
janela para um campo uma vez invadido por
soldados japoneses marchando para o oeste ao longo dos trilhos,
meu pai e seus irmãos escondidos em um depósito,

um cavalo morto encontrado no pátio da escola logo após
a partida dos soldados. Suas mãos são tão macias!, eu digo
ao meu pai. As suas também, ele responde. Lembra-se de
quando foi a última vez em que nos demos as mãos? 
Eu devia ser

uma criança, eu respondo, talvez com oito, ou dez? Você tinha seis
anos, meu pai diz. E ainda sou seu filho, eu digo,
apoiando-me no ombro dele, nossas mãos do mesmo tamanho.
E eu serei sempre seu pai, meu pai responde

antes que eu tenha a oportunidade de dizer outra palavra,
meu pai de oitenta anos já caindo no sono.

Trad.: Nelson Santander

The Remains

                                                  —Wuxi, China

Walking out of the new cemetery, my father
takes my hand, having just re-interred the remains
of his own father and his father’s two wives—
his mother dead from T.B. by the time he was ten.

He takes my hand and says, Now I can die in peace
even if we didn’t get the actual bones. Village thugs
hired by my uncle made sure the burial mounds
behind the house my father grew up in would not feel

a single shovel blade go in as they stood there
sentinel with arms crossed. My uncle’s wife
had a dream that out of the grave’s opened gash
demons rushed—ancestral ghosts not wanting to be

disturbed. In less than a decade, bulldozers will come
to take the Liu village down. My grandfather’s
ashes, my grandmother’s bones, my own father
walking away with two fistfuls of dirt and saying,

This will have to do. So many others have died
who’ve left nothing behind. I’ll never come back
to this place again. My father kisses my hand,
I who’ve flown across twelve time zones to be here

at his side in a borrowed van, me looking out
the window at a countryside once overrun
with Japs marching West along the railroad tracks,
my father and his siblings hiding in an outhouse,

a dead horse found in the schoolyard soon after
the soldiers had gone. Your hands are so soft! I say
to my father. So are yours, he says. Remember
when it was we last held hands? I must have been

a kid, I say, maybe eight, or ten? You were six,
my father says. And I’m still your son, I say,
leaning into his shoulder, our hands the same size.
And I’ll always be your father, my father says

before I have the chance to say another word,
my eighty-year-old father nodding off into sleep.

Jean Sprackland – Perdendo o escuro

Novembro, quando o dia deveria terminar mais cedo
como um livro maçante. Mas naquela tarde
uma pequena nuvem em forma de ponto de interrogação
passou sobre o sol e se dissolveu.
Seis horas; oito; dez. E a luz do dia
ainda inundava a rua espantada.

Uma dádiva. Como uma daquelas noites de verão
em que nos sentamos, copo na mão,
sob a veloz rota de voo dos andorinhões.
Descerrou rostos, lojas, portas dos fundos.
O sono e os segredos eram como fetiches empoeirados;
caminhávamos à meia-noite, fazíamos amor em quartos ensolarados.
Até a sétima noite, sem sonhos
e nervosos, não tínhamos como prever:

estes empurrões e pontapés por porões
e subterrâneas estações, para longe do brilho intenso
que nos abria como uma faca. Como todas as aves,
que às vezes cantam até morrer.

Trad.: Nelson Santander

Losing the dark

November, when day should close early
like a dull book. But that afternoon
a small cloud in the shape of a question-mark
passed over the sun and dissolved.
Six o’clock; eight; ten. Daylight
still flooded the startled street.

Such a gift. Like one of those summer evenings
when you sit out, glass in hand,
under the darting flightpaths of swifts.
It opened faces, shops, back doors.
Sleep and secrets were like dusty fetishes;
we took midnight walks, made love in sunlit rooms.
Even on the seventh night, dreamless
and nervy, we couldn’t foresee it:

this shoving and kicking for basements
and underground stations, away from the glare
that opens you like a knife. How all the birds
might sing themselves to death.

W. S. Merwin — Um aniversário

Algo continua e     eu não sei como chamá-lo
embora o idioma esteja cheio de sugestões
em termos de linguagem
mas elas todas são anônimas
e é quase seu aniversário música junto aos meus ossos

nestas noites ouvimos os cavalos correndo na chuva
ao parar a lua aparece e nós ainda estamos aqui
as goteiras no telhado continuam pingando depois que a chuva passa
o cheiro das flores de gengibre se espalha pela casa escura
perto do mar o lento coração do farol pisca

o longo caminho até você ainda está atado a mim mas isso me trouxe até você
continuo querendo lhe dar o que já é seu
esta é a manhã das manhãs juntas
alento de verão oh meu achado
o sono na mesma corrente e cada despertar é para você

quando abro os meus olhos você é quem eu queria ver.

Trad.: Nelson Santander
A Birthday

Something continues and     I don't know what to call it
though the language is full of suggestions
in the way of language
                                     but they are all anonymous
and it's almost your birthday     music next to my bones

these nights we hear the horses     running in the rain
it stops and the moon comes out     and we are still here
the leaks in the roof go on dripping     after the rain has passed
smell of ginger flowers     slips through the dark house
down near the sea     the slow heart of the beacon flashes

the long way to you is still tied to me     but it brought me to you
I keep wanting to give you     what is already yours
it is the morning     of the mornings together
breath of summer     oh my found one
the sleep in the same current     and each waking to you

when I open my eyes     you are what I wanted to see.

Sara Teasdale – Eu não sou tua

Eu não sou tua, e não estou perdida em ti,
Não estou perdida embora deseje estar
Perdida como uma vela acesa ao meio-dia,
Perdida como um floco de neve no mar.

Tu me amas, e eu ainda te considero
Uma alma com brilho e beleza incontroversa,
Contudo, eu sou eu, que anseia por estar
Perdida como uma luz que na luz se dispersa.

Oh, mergulha-me profundamente no amor – susta
Meus sentidos, deixa-me surda e sem visão,
Varrida pela tempestade do teu amor,
Uma vela em um indomável furacão.

Trad.: Nelson Santander

I am not yours

I am not yours, not lost in you,
Not lost, although I long to be
Lost as a candle lit at noon,
Lost as a snowflake in the sea.

You love me, and I find you still
A spirit beautiful and bright,
Yet I am I, who long to be
Lost as a light is lost in light.

Oh plunge me deep in love — put out
My senses, leave me deaf and blind,
Swept by the tempest of your love,
A taper in a rushing wind.

Linda Pastan – Chegamos ao silêncio

Chegamos ao silêncio lentamente. Tragados para o mundo
em uma onda de som
dele saímos mais tarde com as bocas fechadas,
nossas línguas tornadas pesadas
como pedras para nos ancorar
na terra. Agora ouvimos
o vento nas folhas farfalhantes,
um burburinho de água
sobre as pedras,
a batalha musical
dos pássaros.
Considere a orelha
em forma de clave de fá,
mas vazia.
Considere os espaços entre as estrelas,
solilóquios de luz.
É quase hora
de aquietar as crianças,
silenciar os cães.
Mesmo nossas palavras se tornam abafadas
em meu cabelo, logo
será apenas pelo toque
que o reconhecerei.
Estes são os corredores
do silêncio; entre
na ponta dos pés.
Aqui Orfeu repousa,
sua harpa desencordoada.
Aqui os sons que
uma folha produz
ao cair no chão
podem nos ensurdecer.

Trad.: Nelson Santander

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We come to silence

We come to silence slowly. Washed into the world
on a wave of sound
we leave it later with closed mouths,
our tongues grown heavy
as stones to anchor us
in earth. Now we hear
wind in the noisy leaves,
a hubbub of water
over the rocks,
the musical warfare
of the birds.
Consider the ear
shaped like the bass clef
but empty.
Consider the spaces between stars,
soliloquies of light.
It is almost time
to hush the children,
to quiet the dogs.
Even our words grow muffled
in my hair, soon
it will be only touch
I know you by.
These are the corridors
of silence; enter
on tiptoe.
Here Orpheus sleeps,
his harp unstrung.
Here the sounds
a leaf makes
falling to ground
may deafen us.

Faith Shearin – Cinzas, cinzas

O inverno é a morte pela qual todos temos esperado.
Mesmo nas Festas, em que o ano novo é louvado,
os galhos se quebram sob o peso da neve.
Conhecemos esta estação como reconheceremos o fim
de nossas vidas quando a vida estiver na metade.
Os anos seguem o caminho dos dentes da infância: premidos tão
esperançosamente sob travesseiros limpos. Pele morta.
As unhas que crescem sem pulsação.
Uma terra que engole bebês
devolve um erupção de margaridas de olhos brancos.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: pelo contexto do poema, o seu título pode ser a) a derivação de um dos grandes temas bíblicos (“Ashes to ashes, dust to dust” – em tradução livre, “Do pó viemos, ao pó retornaremos”), b) uma alusão ao título de uma canção de David Bowie (“Ashes to Ashes”) ou talvez c) remeta à uma interpretação corrente da antiga cantiga de roda – muito famosa no Reino Unido – chamada “Ring Around the Rosie” e seus famosos versos: Ring around the rosie / pocket full of posies / ashes, ashes / we all fall down! Segundo essa interpretação, a cantiga referir-se-ia na verdade, à peste bubônica que atingiu Londres no Século XVII. Assim, o título “Ring Around the Rosie” seria uma menção à erupção cutânea em torno da ferida de uma pessoa contaminada pela peste; “pocket full of posies“, as pétalas de flores que os médicos derramavam sobre seus pacientes mortos para afastar o cheiro da doença e da decomposição; ashes, ashes, o que sobrou dos defuntos após a cremação necessária para diminuir a transmissão da doença; e we all fall down! a constatação de que todos mais cedo ou mais tarde cairemos. Em um sentido mais amplo, “Ashes to ashes” é frequentemente utilizado para se referir à transitoriedade da vida e de tudo que nos cerca e à futilidade das realizações humanas.

Ashes, Ashes

Winter is the death we have all been waiting for.
Even at parties where the new year is praised
branches are breaking beneath the weight of snow.
We know this season like we will know the end
of our lives when the living is halfway through.
Years go the way of childhood teeth: pressed so
hopefully beneath clean pillows. Dead skin.
The fingernails that grow without a pulse.
An earth that swallows babies
gives back a rash of white-eyed daisies.

Juan Vicente Piqueras – O barbeiro

Nos últimos meses, olhava-se no espelho
e via um intruso. Irritava-se com ele.

Já estás aqui outra vez? Será possível?
Sai daqui agora mesmo.
Para a rua, vagabundo,
dizia-lhe.

Era-lhe doloroso, era-nos doloroso,
toda vez que ele tinha que ir ao banheiro.
Tínhamos que conduzi-lo pelo braço, convence-lo
do porquê.

Ele se tornou o dono desse lugar, dizia,
quem lhe deu as chaves?

Pouco a pouco o do espelho tornou-se mais um em casa.
Chamava-lhe o barbeiro.

Em vão, diziam-lhe que aquele homem era ele.
Eu nunca tentei porque sabia
que aquele homem era outra pessoa,
que em seu delírio ele tinha razão.

Pouco a pouco fomo-nos resignando
à invasão do barbeiro.

Uma noite, ao sair do banheiro, deixou a luz acesa.
Quando minha mãe lhe disse: Deixaste a luz acesa, ele respondeu:
Deixa-o, ele está lá dentro, o que podemos fazer?

Meu pai compreendeu que o barbeiro, o intruso,
tinha vindo busca-lo.

Agora o está barbeando naquela barbearia
que há sempre do outro lado do espelho.

E de lá me olham, sorriem para mim,
me esperam.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: este poema pode ser lido em conjunto com Nomes apagados, o primeiro de Juan Vicente Piqueras que traduzi para o blog.

El Barbero

En los últimos meses se miraba al espejo
y veía a un intruso. Se enfadaba con él.

¿Ya estás aquí otra vez? ¿Será posible?
Largo de aquí ahora mismo.
A la calle, granuja,
 le decía.

Le costaba un disgusto, nos costaba,
cada vez que tenía que entrar en el cuarto de aseo.
Había que sacarlo del brazo, convencerlo,
de qué.

Se ha hecho el amo, decía,
¿quíen le habrá dao las llaves?

Poco a poco el del espejo fue uno más en la casa.
Le llamava el barbero.

En vano le decían que ese hombre era él.
Yo nunca lo intenté porque sabía
que ese hombre era otro,
que en su delirio tenía razón.

Poco a poco nos fuimos resignando
a la invasión del barbero.

Una noche al salir del aseo dejó la luz encendida.
Cuando mi madre le dijo: Que te dejas la luz, él replicó:
Déjalo, está él ahí dentro, qué le vamos a hacer.

Mi padre comprendió que el barbero, el intruso,
había venido a llevárselo.

Ahora lo está afeitando en esa barbería
que hay siempre al otro lado del espejo.

Y desde alli me miran, me sonríen,
me esperam.

Suzanne Buffam – Basta

Estou usando óculos escuros dentro de casa
Para combinar com meu baixo astral.

Eu deixei todo o açúcar de fora da torta.
Minha raiva é uma espécie de raiva doméstica.

Aprendi com minha mãe
Que aprendeu com a mãe dela antes dela

E assim por diante.
Certamente os gregos tinham uma palavra para isso.

E hoje com certeza os alemães a têm.
Quanto mais palavras uma pessoa conhece

Para descrever suas dores privadas
Mais vagamente ela consegue compreende-las.

Repito os nomes de todas as cidades que conheci
E observo uma formiga arrastar sua sombra distorcida para casa.

O que significa amar a vida que nos foi dada?
Representar bem o papel para o qual fomos escalados?

Vento. Luz. Fogo. Tempo.
Um trem apita através das colinas distantes.

Um dia eu pretendo galgá-lo.

Trad.: Nelson Santander

Enough

I am wearing dark glasses inside the house
To match my dark mood.

I have left all the sugar out of the pie.
My rage is a kind of domestic rage.

I learned it from my mother
Who learned it from her mother before her

And so on.
Surely the Greeks had a word for this.

Now surely the Germans do.
The more words a person knows

To describe her private sufferings
The more distantly she can perceive them.

I repeat the names of all the cities I’ve known
And watch an ant drag its crooked shadow home.

What does it mean to love the life we’ve been given?
To act well the part that’s been cast for us?

Wind. Light. Fire. Time.
A train whistles through the far hills.

One day I plan to be riding it.