Juan Vicente Piqueras – Taças de sede

Se duvidas de tua sede, se não te atreves
a questiona-la ou a dar-lhe um nome,
se só sabes que buscas uma água
que a sacie e não achas senão poços,
e neles ecos que te chamam, bebe.

Se ao beber a sede desaparece
é que era só sede. Segue buscando.

Mas se cresce em ti quando a sacias,
se não queres parar de ter sede
mas seguir bebendo dia e noite
taças de sede, não há dúvida:
podes chama-la amor, seguir sofrendo,
e saber que não há ninguém que te guia.

Trad.: Nelson Santander

Vasos de Sed

Si dudas de tu sed, si no te atreves
a preguntarle o a ponerle un nombre,
si sólo sabes que buscas un agua
que la sacie y no hallas sino pozos,
y en ellos ecos que te llaman, bebe.

Si la sed al beber desaparece
es que era sólo sed. Sigue buscando.

Pero si crece en ti cuando la sacias,
si quieres no dejar de tener sed
sino seguir bebiendo día y noche
vasos de sed, no hay duda:
puedes llamarla amor, seguir sufriendo,
y saber que no existe quien te guía.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Canção de fevereiro

Canção de fevereiro

no peito do céu, palpitando
Jaime Gil de Biedma

Leve e triste, a tarde se retira
contigo até o crepúsculo e as horas
começam a doer nas dobras distantes
do lençol. Subitamente
a noite regressou e é difícil
não pensar em teus efêmeros lábios
ou nas altas regiões do teu corpo
glorificando em telas de algodão.
Agora que não estás, olho para trás
para o raio que divide tuas pestanas
e o arrepio de tuas costas
moldando-me os braços, o sorriso
do teu sexo na vertigem dos lábios,
o instante fluvial de tua alegria.
Ao longe respira o mar, eleva
a superfície suave seu encerramento
sob um relento de líquidos cristais.
A noite sem tua pele cresce mais profundamente
pelas ruas onde asperges a chuva.
Em silêncio te recordo, garota,
com as últimas brasas que se apagam
contra o peito do céu, palpitando.

Trad.: Nelson Santander

Canción de febrero

sobre el pecho del cielo, palpitando
Jaime Gil de Biedma

Leve y triste la tarde se retira
contigo hacia el crepúsculo y las horas
empiezan a doler en los distantes
repliegues de la sábana. De pronto
la noche ha regresado y es difícil
no pensar en tu boca momentánea
o en las altas comarcas de tu cuerpo
en lienzos de algodón en alabanza.
Ahora que no estás, vuelvo a mirar
el rayo que dividen tus pestañas
y el estremecimiento de tu espalda
moldeándome los brazos, la sonrisa
de tu sexo en los vértigos del labio,
el instante fluvial de tu alegría.
A lo lejos respira el mar, asciende
la blanda superficie su clausura
bajo un raso de líquidos cristales.
La noche sin tu piel crece más honda
por las calles donde asperjas la lluvia.
En silencio te recuerdo, muchacha,
con las últimas brasas que se apagan
contra el pecho del cielo, palpitando.

Juan Vicente Piqueras – Lençóis herdados

A ferida mais íntima é herdada.

O onde, o como, o quando,
a morte, o nascimento,
língua, família, deus, tempo, amor:
o decisivo do que nos acontece,
e quem somos,
não é algo desejado nem escolhido.

E passamos a vida, a despeito disso, ou por isso,
crendo que o desejo é nosso deus,
e não uma rosa rara que em nós cultiva
o acaso
que nos guia, nos cega e nos ignora.

Ninguém escolheu o mundo em que nasceu.
Nem sequer seu nome, sua memória.

O importante se impõe, não se escolhe.

E no entanto somos seres livres
para escolher entre dar e destruir
o que temos, deseja-lo, ama-lo
mais do que o que não há, lutar sem mundo,
aceitar o que ocorre e trabalhar
duro para que ocorra
o que de todo modo vai ocorrer.

Não há mais sabedoria ou remédio
que amar a vida mais que o seu sentido
e deixar-se levar pelas águas indomáveis
de estar aqui e, assim, com sede de partir,
de escolher o que há e, ai de nós,
ser quem somos, pródigos, saber
que não temos mais que o que damos.

Chamamos liberdade a esta tarefa
minuciosa e secreta de bordar,
manchar, romper, lavar, estender, dobrar,
guardar no armário, entre folhas de marmelo,
lençóis herdados da avó
que por sua vez herdou da sua, um estranho enxoval
para essa solidão que me desposou.

Trad.: Nelson Santander

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Sábanas Heredadas

La más íntima herida es heredada.

El dónde, el cómo, el cuándo,
la muerte, el nacimiento,
lengua, familia, dios, época, amor:
lo decisivo de lo que nos pasa,
y los que somos,
no es algo deseado ni elegido.

Y pasamos la vida, sin embargo o por eso,
creyendo que el deseo es nuestro dios
y no una rosa rara que en nosotros cultiva
el azar
que nos guía, nos ciega y nos ignora.

Nadie ha elegido el mundo en que ha nacido.
Ni siquiera su nombre, su memoria.

Lo importante se impone, no se elige.

Y sin embargo somos seres libres
de escoger entre dar y destruir
lo que tenemos, desearlo, amarlo
más que a lo que no hay, luchar sin mundo,
aceptar lo que ocurre y trabajar
duro para que ocurra
lo que de todos modos va a ocurrir.

No hay más sabiduría ni remedio
que amar la vida más que su sentido
y dejarse llevar por las aguas salvajes
de estar aquí y así, con sed de irse,
de elegir lo que hay y, ay de nosotros,
ser quienes somos, pródigos, saber
que no tenemos más que lo que damos.

Llamamos libertad a esta tarea
minuciosa y secreta de bordar,
manchar, romper, lavar, tender, plegar,
guardar en el armario entre membrillos
sábanas heredadas de la abuela
que a su vez heredó de la suya, extraño ajuar
para esta soledad que me ha esposado.

Czeslaw Milosz – Sobre anjos

Tudo foi tirado de vocês: túnica branca,
asas, até mesmo a existência.
Contudo, ainda acredito em vocês,
mensageiros.

Aqui, onde o mundo está virado do avesso,
uma trama maciça bordada com astros e bestas,
vocês passeiam, inspecionando as suturas confiáveis.

Curta é sua estadia neste lugar:
às vezes na hora matinal, se o céu está claro,
na melodia repetida por um pássaro,
ou no cheiro das maçãs no fim do dia
quando as luzes fazem dos pomares lugares mágicos.

Dizem que alguém os concebeu,
mas para mim isso não parece convincente,
pois os humanos também foram concebidos.

A voz – sem dúvida é uma prova válida,
pois só pode pertencer a criaturas radiantes,
sem peso e aladas (afinal, por que não?),
cingidas pelo raio.

Eu ouvi aquela voz várias vezes quando dormia
e, o que é estranho, percebi mais ou menos
uma ordem ou um apelo em uma língua sobrenatural:

o dia se aproxima
mais um
faça o que puder.

Trad.: Nelson Santander

On angels

All was taken away from you: white dresses,
wings, even existence.
Yet I believe in you,
messengers.

There, where the world is turned inside out,
a heavy fabric embroidered with stars and beasts,
you stroll, inspecting the trustworthy seams.

Short is your stay here:
now and then at a matinal hour, if the sky is clear,
in a melody repeated by a bird,
or in the smell of apples at close of day
when the light makes the orchards magic.

They say somebody has invented you
but to me this does not sound convincing
for the humans invented themselves as well.

The voice — no doubt it is a valid proof,
as it can belong only to radiant creatures,
weightless and winged (after all, why not?),
girdled with the lightening.

I have heard that voice many a time when asleep
and, what is strange, I understood more or less
an order or an appeal in an unearthly tongue:

day draw near
another one
do what you can.

Joan Margarit – Ela me disse

Procuremos uma casa para morrer.
Por exemplo, aquele apartamento
onde começamos a nossa história:
arquitetura vulgar dos anos sessenta,
mas arejado e com flores.

Um bom lugar – e alegre – para nele morrer:
Talvez na sala, sempre com música
e a luz que chegava do mar.
Ou na cozinha, em que recebia
as ordens de avante, a todo vapor,
que emitia o nosso amor.
Morrer talvez no quarto das meninas,
o medo entre os pôsteres e a luz.
Também nas sombras onde chorei
enquanto sentia tua respiração
de madrugada, planejando deixar-me.
Morrer no lugar mais silencioso:
nosso quarto, ali
onde eu te traí e tu me traíste.

Tudo isso ela me disse.
Se eu tivesse conseguido comove-la,
onde estaríamos agora?
Onde estaria o nosso amor,
quanto teria durado, quem sabe se algumas horas?
Quem nos dirá é a última estrela,
a estrela da morte naquele céu
sobre uma praia escura onde ainda te digo:
teus olhos me lembram as noites de verão

Trad.: Nelson Santander

 

https://www.cancioneros.com/nc/18757/0/tus-ojos-me-recuerdan-antonio-machado-paco-ibanez

 

Ella me dice

Busquemos una casa en que morir.
Por ejemplo, aquel ático
en el que comenzamos nuestra historia:
vulgar arquitectura de los años sesenta,
pero con aire y flores.

Un buen sitio — y alegre — para morir en él:
puede que en el salón, siempre con música
y la luz que llegaba desde el mar.
O en la cocina, donde recibía
las órdenes de avante a toda máquina
que daba nuestro amor.
Morir quizá en el cuarto de las niñas,
el miedo entre los pósters y la luz.
También la oscuridad donde lloré
mientras sentía su respiración
de madrugada, planeando irme.
Morir en el lugar más silencioso:
nuestro cuarto, allí
donde yo te engañé y tú me engañaste.

Todo esto me dice.
Si la hubiera logrado conmover,
¿dónde estaríamos ahora?
¿Dónde estaría nuestro amor,
lo que hubiese durado, quién sabe si unas horas?
La que nos lo dirá es la última estrella,
la estrella de la muerte en aquel cielo
sobre una playa a oscuras donde te digo aún:
tus ojos me recuerdan las noches de verano.

W. S. Merwin – A estrada

Parece grande demais para que apenas um homem
Caminhe sobre ela Como se ela e o dia vazio
Fossem tudo o que existisse. E um cachorrinho
Trotando no compasso das ondas de calor, perto
Do horizonte, parecendo nunca avançar.
O sol e todas as coisas
Estão empoçados nos mesmos lugares, e a vala
É sempre a mesma, repleta de todo tipo de
Osso, enquanto o ar vazio continua a zumbir
Aquele som memorizado das coisas que por ali
Passaram. E as placas com cabeças enormes e corpos
Desnutridos, ensaiando passos de dança no calor,
E outras, grandes como casas, todas prometem,
Mas sem nada dentro, apenas uma parede,
E falam de outros lugares onde você pode comer,
Beber, tomar um banho, deitar-se numa cama
Ouvindo música, e sentir-se seguro. Se você
Olhar ao redor, verá que, em sentido contrário,
voltando, é igual; e que agora está mais distante
De onde veio, provavelmente,
Do que dos lugares que poderia alcançar prosseguindo.

Trad.: Nelson Santander

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The Highway

It seems too enormous just for a man to be
Walking on. As if it and the empty day
Were all there is. And a little dog
Trotting in time with the heat waves, off
Near the horizon, seeming never to get
Any farther. The sun and everything
Are stuck in the same places, and the ditch
Is the same all the time, full of every kind
Of bone, while the empty air keeps humming
That sound it has memorized of things going
Past. And the signs with huge heads and starved
Bodies, doing dances in the heat,
And the others big as houses, all promise
But with nothing inside and only one wall,
Tell of other places where you can eat,
Drink, get a bath, lie on a bed
Listening to music, and be safe. If you
Look around you see it is just the same
The other way, going back; and farther
Now to where you came from, probably,
Than to places you can reach by going on.

Mary Oliver – Quando a morte chegar

Quando a morte chegar
como um urso faminto no outono;
Quando a morte chegar e tirar todas as moedas brilhantes de sua bolsa

para me comprar, e fechá-la com um estalo;
quando a morte chegar
como o sarampo-varíola

quando a morte chegar
como um iceberg entre as omoplatas,

quero atravessar o portal cheia de curiosidade, perguntando:
como será essa sombria cabana?

E por isso olho para tudo como uma irmandade,
e vejo o tempo como nada além de uma ideia,
e considero a eternidade como outra possibilidade,

e penso em cada vida como uma flor, tão comum
quanto uma margarida do campo, e ainda assim tão singular,

e em cada nome como uma confortável canção entre os lábios,
que, como toda canção, tende ao silêncio,

e em cada corpo como um leão de coragem, e algo
precioso para a terra.

Quando tudo terminar, quero dizer que por toda minha vida
fui uma noiva desposada pelo assombro.
Fui o noivo, tomando o mundo em meus braços.

Quando tudo terminar, não quero me perguntar
se fiz de minha vida algo especial e verdadeiro.
Não quero me encontrar suspirando e assustada,
ou cheia de argumentos.

Não quero terminar tendo apenas passado por este mundo.

Trad.: Nelson Santander

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When death comes

When death comes
like the hungry bear in autumn;
when death comes and takes all the bright coins from his purse

to buy me, and snaps the purse shut;
when death comes
like the measle-pox

when death comes
like an iceberg between the shoulder blades,

I want to step through the door full of curiosity, wondering:
what is it going to be like, that cottage of darkness?

And therefore I look upon everything
as a brotherhood and a sisterhood,
and I look upon time as no more than an idea,
and I consider eternity as another possibility,

and I think of each life as a flower, as common
as a field daisy, and as singular,

and each name a comfortable music in the mouth,
tending, as all music does, toward silence,

and each body a lion of courage, and something
precious to the earth.

When it’s over, I want to say all my life
I was a bride married to amazement.
I was the bridegroom, taking the world into my arms.

When it’s over, I don’t want to wonder
if I have made of my life something particular, and real.
I don’t want to find myself sighing and frightened,
or full of argument.

I don’t want to end up simply having visited this world.

Robert Graves – Através do pesadelo

Jamais se desencante daquele
Lugar no qual algumas vezes você sonha estar,
Deitada muito além de todo sonho,
Ou daqueles que você lá encontra, embora raramente
se sente na companhia deles.

O indomável, o vivo, o gentil.
Você não os conhece? Quem? Eles transportam
O tempo circular como um sábio-rio ao redor de suas casas
E não há como, pelas veredas da história,
Nomeá-los ou numera-los.

Em seus olhos dormentes eu leio a jornada
A que você, incoerentemente, se refere; o que desperta
Minha admiração amorosa, de que você deve viajar,
Através do pesadelo, para uma terra perdida e isolada,
Tímida por natureza.

Trad.: Nelson Santander

Through Nightmare

Never be disenchanted of
That place you sometimes dream yourself into,
Lying at large remove beyond all dream,
Or those you find there, though but seldom
In their company seated –

The untameable, the live, the gentle.
Have you not known them? Whom? They carry
Time looped so river-wise about their house
There’s no way in by history’s road
To name or number them.

In your sleepy eyes I read the journey
Of which disjointedly you tell; which stirs
My loving admiration, that you should travel
Through nightmare to a lost and moated land
Who are timorous by nature.

Jane Hirshfield – O emissário

Um dia, naquele quarto, um pequeno rato.
Dois dias depois, uma cobra.
Que, vendo-me entrar,
serpenteou a longa listra de seu
corpo para baixo da cama,
e depois se enrolou como um dócil animal doméstico.
Não sei como veio ou saiu.
Mais tarde, a lanterna nada encontrou.
Por um ano, eu observei
como alguma coisa – terror? felicidade? dor? –
entrou e, em seguida, saiu do meu corpo.
Sem saber como entrou,
sem saber como saiu.
Pendurou-se onde as palavras não podiam alcança-la.
Dormiu onde a luz não podia ir.
Seu cheiro não era de cobra nem de rato,
nem sensualista nem ascético.
Existem desvãos em nossas vidas
sobre os quais nada sabemos.
Através deles
o rebanho marcado desloca-se quando quer,
pernas longas e sedento,
coberto por uma poeira estranha.

Trad.: Nelson Santander

The envoy

One day in that room, a small rat.
Two days later, a snake.
Who, seeing me enter,
whipped the long stripe of his
body under the bed,
then curled like a docile house-pet.
I don’t know how either came or left.
Later, the flashlight found nothing.
For a year I watched
as something – terror? happiness? grief? –
entered and then left my body.
Not knowing how it came in,
Not knowing how it went out.
It hung where words could not reach it.
It slept where light could not go.
Its scent was neither snake nor rat,
neither sensualist nor ascetic.
There are openings in our lives
of which we know nothing.
Through them
the belled herds travel at will,
long-legged and thirsty, covered with foreign dust.

May Swenson – Indagações

Corpo minha casa
meu cavalo meu cão de caça
o que farei
quando você ruir?

Onde vou dormir
Como vou montar
O que vou caçar?

Onde posso ir
sem minha montaria
rápida e impaciente?
Como saberei
se na mata à frente
há perigos ou tesouros
quando o corpo, meu cão
bom e fiel, estiver morto

Como será
jazer no céu
sem teto ou porta
e vento por visão?

Com a nuvem como manto
como vou me esconder?

Trad.: Nelson Santander

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Question

Body my house
my horse my hound
what will I do
when you are fallen

Where will I sleep
How will I ride
What will I hunt

Where can I go
without my mount
all eager and quick
How will I know
in thicket ahead
is danger or treasure
when Body my good
bright dog is dead

How will it be
to lie in the sky
without roof or door
and wind for an eye

With cloud for shift
how will I hide?