Juan Vicente Piqueras – Lázaro se recusa a ressuscitar

Um dia ouvi vozes que vinham de fora.
Finalmente!, vozes de fora, pensei – vozes de outros
que levam a luz dentro de si e a revelam,
que vem até mim do ar, e não de mim.

Vozes que ao se aproximarem, viraram sussurros.
Passos que pararam diante da minha porta.
Alguém disse: Aqui jaz, como se lesse.
Os demais ficaram em silêncio.
Uma voz me chamou: Lázaro, disse,
levanta-te e anda.
Eu a reconheci, mas fingi não ouvi-la.
Lembrei-me de Jonas. Fiquei em silêncio.
Pensei: Preferiria
não fazê-lo
, nunca sair daqui.

Conheço bem demais o mundo.
Lá fora, eu sei, espreita o mau amor,
seu mel amargo, seu engano, sua ameaça.

Levanta-te de ti. Sai de tua tumba.
Mas eu detestava os milagres.
E, além disso, tinha
demasiado apreço pela minha vida de morto.

Deixei passarem os anos. Agora espero
uma voz que me chame, que me diga
o que devo fazer, o que desejo.

Trad.: Nelson Santander

Lázaro se niega a resucitar

Un día oí unas voces que venían de afuera.
Por fin voces de afuera, pensé, voces de otros
que llevan la luz dentro y que la dicen,
que me llegan del aire y no de mí.

Voces que al acercarse eran susurros.
Pasos que se pararon delante de mi puerta.
Alguien dijo: Aquí yace, como si lo leyese.
Callaron los demás.
Una voz me llamó: Lázaro, dijo,
levántate y anda.
Yo la reconocí pero fingí no oírla.
Me acordé de Jonás. Me quedé quieto.
Pensé: preferiría
no hacerlo
, no salir nunca de aquí.

Conozco demasiado bien el mundo.
Allá afuera, lo sé, acecha el mal amor,
su amarga miel, su engaño, su amenaza.

Levántate de ti. Sal de tu tumba.
Pero yo detestaba los milagros.
Y además le tenía
demasiado cariño a mi vida de muerto.

Dejé pasar los años. Ahora espero
una voz que me llame, que me diga
lo que tengo que hacer, lo que deseo.

Joan Margarit – Último trem

Último trem
Crematório de Collserola

Se visses a chuva que enverniza
o verde escuro e espesso do jardim.
Teu vagão solitário está chegando
à sala espaçosa, sem adornos,
mobiliário, ou luminárias,
da Estación de Francia da morte.
Só se escuta o murmúrio do motor
que arrasta o peso
da infância e da juventude
– de teu anônimo tempo, já perdido,
que nunca mais será reclamado –,
rumo à fornalha e sua boca incandescente
refletida na vidraça molhada de chuva.
As lágrimas adornam esse lugar,
feio como um subúrbio, e, ainda assim,
recupero-te em um inverno longínquo,
numa manhã azul sob os plátanos:
imóvel, com as mãos atrás das costas,
observas a multidão entre os quiosques
como um sobrevivente que se esforça
para reconhecer, em seu redor,
os destroços do naufrágio.

Trad.: Nelson Santander

Último tren
Crematorio de Collserola

Si tú vieras la lluvia que barniza
el verde oscuro y denso del jardín.
Tu vagón solitario está llegando
a la sala espaciosa, sin adornos,
ni mobiliario, ni ninguna lámpara
de la Estación de Francia de la muerte.
Sólo se oye el murmullo del motor
que va arrastrando el peso
de infancia y juventud
—de tu anónimo tiempo ya perdido
que no reclamará nunca más nadie—,
hacia el horno y su boca incandescente
que se refleja en el cristal de lluvia.
Las lágrimas adornan el lugar,
feo como un suburbio, y aún así,
te recupero en un lejano invierno,
una mañana azul bajo los plátanos:
inmóvil, con las manos a la espalda,
miras la multitud entre los quioscos
como un superviviente que se esfuerza
por identificar en torno suyo
los restos del naufragio.

Paulo Henriques Britto – de “Vers de circonstance”

I. Imunidade de Rebanho

A estupidez é sua própria recompensa.
Graças a ela, o mundo faz sentido,
um só, que é fácil de identificar.
E só o fácil satisfaz a quem não pensa.

Pensar é coisa trabalhosa. A ignorância
é o sumo bem dos cidadãos de bem,
é a verdadeira marca dos eleitos.
Ter sucesso é não ter que saber. Saber cansa,

e o objetivo central de qualquer existência
só pode ser não se cansar. Olhai
as vacas do campo: não lhes faz falta a ciência,

pastam em plena bem-aventurança,
sem que nenhuma antevisão do matadouro
perturbe a santa paz da ruminança.

Wendell Berry – De “Sabbaths” (2001)

[…]

III

Peça ao mundo que revele sua quietude —
não o silêncio das máquinas quando cessam,
mas a verdadeira quietude onde os cantos das aves,
as árvores, os sinos-das-sombras, os caracóis, as nuvens, as tempestades
se tornam o que são – e nada além disso.

[…]

V

O vento do outono chegou.
Está por toda parte. Move
cada folha de cada
árvore. É o único movimento
do rio. As folhas verdes
se cansam de sua cor.
Agora também o entardecer paira no ar.
Os falcões vívidos do dia
se recolhem. As corujas despertam.
Pequenas criaturas morrem porque
criaturas maiores têm fome.
Quão superior a esta
humana confusão de ganância
e fé cega, sangue e fogo.

VI

A pergunta diante de mim, agora que
estou velho, não é como estar morto,
– disso já sei o suficiente, por prática –
mas como estar vivo, como estas gastas
colinas ainda contam, e certas telas
de Cézanne, e esta humilde
curruíra cantante, que crê estar viva
para sempre, neste instante – e talvez esteja.

Trad.: Nelson Santander

From “Sabbaths” (2001)

[…]

III

Ask the world to reveal its quietude —
not the silence of machines when they are still,
but the true quiet by which birdsongs,
trees, bellworts, snails, clouds, storms
become what they are, and are nothing else.

[…]

V

The wind of the fall is here.
It is everywhere. It moves
every leaf of every
tree. It is the only motion
of the river. Green leaves
grow weary of their color.
Now evening too is in the air.
The bright hawks of the day
subside. The owls waken.
Small creatures die because
larger creatures are hungry.
How superior to this
human confusion of greed
and creed, blood and fire.

VI

The question before me, now that I
am old, is not how to be dead,
which I know from enough practice,
but how to be alive, as these worn
hills still tell, and some paintings
of Paul Cézanne, and this mere
singing wren, who thinks he’s alive
forever, this instant, and may be.

Eamon Grennan – Uma manhã

Procurando pedras raras, dei com a lontra morta
apodrecendo na linha da maré, e carreguei pelo resto do dia o odor desta brutal
despedida. Aquele som lancinante e agudo do ostraceiro
ecoava pela enseada rochosa
onde um cormorão se alimentava e submergia na baía
e de onde uma garça-real alçou voo de um rochedo onde estivera invisível,
pairou um tempo, e pousou outra vez – um hieróglifo
ou apenas a longevidade refletindo sobre si mesma
entre o céu se encobrindo e o mar levemente encapelado.

Foi na manhã seguinte ao seu sonho de morrer, de ser acolhido
e ouvir que não importava. Uma borboleta ziguezagueou sobre
as pedras acetinadas pelas ondas, e ao me virar
para subir de volta a estrada, um casal numa van azul estava
apreciando seus cigarros após o café da manhã (aroma
azul de fumaça, o denso aroma escuro de café fresco),
conversando em vozes baixas, um respondendo ao outro,
com o rádio dando as notícias do dia atrás deles. Fazia calor.
Tudo parecia em paz. Eu podia sentir o sol emergindo da água.

Trad.: Nelson Santander

One Morning

Looking for distinctive stones, I found the dead otter
rotting by the tideline, and carried all day the scent of this savage
valediction. That headlong high sound the oystercatcher makes
came echoing through the rocky cove
where a cormorant was feeding and submarining in the bay
and a heron rose off a boulder where he’d been invisible,
drifted a little, stood again – a hieroglyph
or just longevity reflecting on itself
between the sky clouding over and the lightly ruffled water.

This was the morning after your dream of dying, of being held
and told it didn’t matter. A butterfly went jinking over
the wave-silky stones, and where I turned
to go up the road again, a couple in a blue camper sat
smoking their cigarettes over their breakfast coffee (blue
scent of smoke, the thick dark smell of fresh coffee)
and talking in quiet voices, first one then the other answering,
their radio telling the daily news behind them. It was warm.
All seemed at peace. I could feel the sun coming off the water.

David Mourão-Ferreira – Soneto do cativo

Se é sem dúvida Amor esta explosão
De tantas sensações contraditórias;
A sórdida mistura das memórias,
Tão longe da verdade e da invenção;

O espelho deformante; a profusão
De frases insensatas, incensórias;
A cúmplice partilha nas histórias
Do que os outros dirão ou não dirão;

Se é sem dúvida Amor a cobardia
De buscar nos lençóis a mais sombria
Razão de encantamento e de desprezo;

Não há dúvida, Amor, que te não fujo
E que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
Tenho vivido eternamente preso!

William Butler Yeats – Leda e o cisne

Súbito, um baque: as grandes asas brancas
Pousam sobre a jovem, e a agarram com jeito,
As patas negras lhe afagam as ancas
E a estreitam, impotente, contra o peito.

Com dedos trêmulos, como afastar
Das coxas fracas o esplendor plumado?
E como não sentir a palpitar
O estranho coração, desabalado?

Um espasmo ― e eis que se gera um novo ser,
O muro rompido, a torre incendiadas
E Agamêmnon morto.
        Ali, fremente,
Pelo poder brutal aprisionada,
Terá ela apreendido o seu saber
Antes que a solte o bico indiferente?

Trad.: Paulo Henriques Britto

Leda and the swan

A sudden blow: the great wings beating still
Above the staggering girl, her thighs caressed
By the dark webs, her nape caught in his bill,
He holds her helpless breast upon his breast.

How can those terrified vague fingers push
The feathered glory from her loosening thighs?
And how can body, laid in that white rush,
But feel the strange heart beating where it lies?

A shudder in the loins engenders there
The broken wall, the burning roof and tower
And Agamemnon dead.
        Being so caught up,
So mastered by the brute blood of the air,
Did she put on his knowledge with his power
Before the indifferent beak could let her drop?

1923

Ted Kooser – Depois de anos

Hoje, de longe, eu a vi
se afastando, e, sem nenhum som,
a fronte brilhante de um glaciar
deslizou para o mar. Um antigo carvalho
tombou na Cumberlands, mantendo apenas
um punhado de folhas, e uma idosa
espalhando milho para suas galinhas olhou para cima
por um instante. No outro lado
da galáxia, uma estrela trinta e cinco vezes
maior do que o nosso próprio sol explodiu
e desapareceu, deixando um pequeno ponto verde
na retina do astrônomo
que estava na grande abóboda aberta
do meu coração sem ninguém a quem contar.

Trad.: Nelson Santander

After Years

Today, from a distance, I saw you
walking away, and without a sound
the glittering face of a glacier
slid into the sea. An ancient oak
fell in the Cumberlands, holding only
a handful of leaves, and an old woman
scattering corn to her chickens looked up
for an instant. At the other side
of the galaxy, a star thirty-five times
the size of our own sun exploded
and vanished, leaving a small green spot
on the astronomer’s retina
as he stood on the great open dome
of my heart with no one to tell.

Dorianne Laux – Interstício

Nós montamos o quebra-cabeça peça
por peça, apreciando como um entalhe
curvo se insere tão suavemente no outro.
Uma mancha amarela se transforma
na palha de uma vassoura, e duas peças azuis
completam o último pedaço do céu.
Juntos, remendamos as cadeiras de balanço e as árvores
do outono, combinando ouro com ouro. Temos
nas palmas das mãos os olhos do cervo, e um par
de sapatos marrons. Fazemos isso enquanto a criança
circula pelo seu quarto, impaciente
em seu desabrochar, cansada
da casa limpa, da cama feita,
do prato farto. Deixamos que ela medite
enquanto remexemos as peças,
colocando cada uma em seu lugar com requintes
de satisfação, nossas costas viradas por algumas horas
para um mundo se desmantelando, um céu
que está desabando, as peças
para as quais seremos obrigados a retornar.

Trad.: Nelson Santander

Break

We put the puzzle together piece
by piece, loving how one curved
notch fits so sweetly with another.
A yellow smudge becomes
the brush of a broom, and two blue arms
fill in the last of the sky.
We patch together porch swings and autumn
trees, matching gold to gold. We hold
the eyes of deer in our palms, a pair
of brown shoes. We do this as the child
circles her room, impatient
with her blossoming, tired
of the neat house, the made bed,
the good food. We let her brood
as we shuffle through the pieces,
setting each one into place with a satisfied
tap, our backs turned for a few hours
to a world that is crumbling, a sky
that is falling, the pieces
we are required to return to.

Fenando Pessoa – [Tenho tanto sentimento]

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.