Inês Dias – Lei Sálica

As mulheres da família sempre
tiveram um jeito quase póstumo
de existir: guardar o lume
em silêncio, comer depois de
servir os outros, morrer primeiro.

Saíam à hora de ponta do destino
para lerem os caminhos perdidos
e coleccionavam a abdicação
em caixinhas de folha, entre bilhetes
caducados ou dentes de infâncias alheias.

Esperavam a vida toda por uma vida
próxima, de alma presa a alfinetes
no vestido preferido para o enterro,
os passos medidos nas suas varandas
a dar para o fim do mundo.

Retomo-lhes às vezes os gestos
neste meu exílio inventado,
mas acaba aqui: vou encher de corpo
a sombra, mesmo que nem tempo
me reste já para a pesar.

Republicação: poema publicado no blog originalmente em 13/05/2018

José Infante – [A morte é definitivamente o fim]

A morte é definitivamente o fim, por mais
que nos tentem enganar com cânticos,
com hinos, com orações e salmos.
A morte é o fim e é justo
que seja assim. Que não haja
recompensas nem punições. Somente
que nos deixem perdermo-nos no nada,
de onde viemos sem ter sido
previamente convidados.

Trad.: Nelson Santander

[La muerte sí es el final]

La muerte sí es el final por mucho
que intenten engañarnos con canciones,
con himnos, con plegarias y salmos.
Es la muerte el final y es justo
que así sea. Que no existan
ni premios ni castigos. Solamente
que nos dejen perdernos en la nada,
desde donde vinimos sin haber sido
previamente invitados.

Manuel António Pina – Relatório

É um mundo pequeno,
habitado por animais pequenos
– a dúvida, a possibilidade da morte –
e iluminado pela luz hesitante de

pequenos astros – o rumor dos livros,
os teus passos subindo as escadas,
o gato brincando na sala
com o último raio de sol da tarde.

Dir-se-ia antes uma casa,
um pouco mais alta que um império
e um pouco mais indecifrável
que a palavra “casa”; não fulge.

Em certas noites, porém,
sai de si e de mim
e fica suspensa lá fora
entre a memória e o remorso de outra vida.

Então, com as luzes apagadas,
ouço vozes chamando,
palavras mortas nunca pronunciadas
e a agonia interminável das coisas acabadas.

Republicação: poema publicado no blog originalmente em 09/05/2018

Danusha Laméris – Nada quer sofrer

Nada quer sofrer

após LInda Hogan

Nada quer sofrer. Nem o vento
que arranha contra a encosta. Nem o penhasco

sendo devorado, lentamente, pelo mar. A terra não quer
sofrer o pisoteio bruto de quem a ignora.

As árvores não querem sofrer o machado, nem ver
suas irmãs derrubadas pela podridão, pelo mofo e oxidação de suas raízes. 

O coiote em seu covil. O puma perseguindo sua presa.
Estes também desejam tranquilidade e um tenro animal na boca

para aliviar a fome. Uma oferenda, espera-se, 
preparada rapidamente, e sem muito sofrimento.

A cadeira lamenta um ocupante irritado. A lâmpada, uma mariposa queimada.
Uma mesa, o peso de anos de discussões.

Sabemos disso, embora o esqueçamos.

Não o tubarão, nem o tigre, tão cheios de presas.
Nem o verme, satisfeito em seu mundo sem janela feito

de poeira e pedra. Nem a pedra, repousando em seu leito de rio.
O leito de rio, observando as estrelas.

E nem mesmo as estrelas, envoltas em seu dossel,
olhando lá de cima para todos nós — seus descendentes —

espalhados além do seu alcance.

Trad.: Nelson Santander

Nothing wants to suffer

after LInda Hogan

Nothing wants to suffer. Not the wind
as it scrapes itself against the cliff. Not the cliff

being eaten, slowly, by the sea. The earth does not want
to suffer the rough tread of those who do not notice it.

The trees do not want to suffer the axe, nor see
their sisters felled by root rot, mildew, rust. 

The coyote in its den. The puma stalking its prey.
These, too, want ease and a tender animal in the mouth

to take their hunger. An offering, one hopes, 
made quickly, and without much suffering.

The chair mourns an angry sitter. The lamp, a scalded moth.
A table, the weight of years of argument.

We know this, though we forget.

Not the shark nor the tiger, fanged as they are.
Nor the worm, content in its windowless world

of soil and stone. Not the stone, resting in its riverbed.
The riverbed, gazing up at the stars.

Least of all, the stars, ensconced in their canopy,
looking down at all of us— their offspring—

scattered so far beyond reach.

Vitor Nogueira – Sementes

É claro que me lembro. Havia dois atalhos
pelo meio do pinhal, direcções espantosamente
precisas, animais que não voltei a ver.

Enquanto as colheitas amadureciam nos campos,
havia talismãs pendurados nas árvores e mercúrio
para tratar certas lesões, uma peça vital
do equipamento. Havia girassóis à volta da casa
e as palavras imortais dos espantalhos, uma forma
de evitar que endoidecêssemos. E havia um muro
que era preciso saltar, a manhã gloriosa
da escalada, a ciência das grandes migrações.

Mas não vale a pena entrar em mais detalhes.
Este é o meu corpo. Esta é a minha mente.
Conhecem-se desde a infância e cumpriram pena juntos.

Do futuro nada sei. Apenas que vem aí.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 08/05/2018

Brad Aaron Modlin – O que você perdeu no dia em que não foi à aula

A Sra. Nelson explicou como ficar imóvel e ouvir
o vento, como encontrar sentido em encher o tanque,

como descascar batatas pode ser uma forma de oração. Ela respondeu
a perguntas sobre como não se sentir perdido no escuro.

Depois do recreio, ela distribuiu folhas de exercícios
que abordavam maneiras de como lembrar as vozes de nossos

avôs. Em seguida, a turma discutiu sobre adormecer
sem sentir que você esqueceu de fazer mais alguma coisa —

algo importante — e como se convencer de que
a casa em que você despertou é seu lar. Isso levou

a Sra. Nelson a desenhar um diagrama na lousa, explicando
como entoar os Salmos durante os intervalos para fumar,

e como não se contorcer por um som quando seus próprios pensamentos
são tudo o que você ouve; e também que você se basta.

Na aula de gramática aprendemos que eu sou
é uma sentença completa.

E pouco antes do sinal da tarde, ela fez a equação matemática
parecer fácil. O que prova que centenas de perguntas,

e sentir frio, e todas aquelas noites procurando
o que quer que você tenha perdido, e uma pessoa

resultam em algo.

Trad.: Nelson Santander

What You Missed That Day You Were Absent From Fourth Grade

Mrs. Nelson explained how to stand still and listen
to the wind, how to find meaning in pumping gas,

how peeling potatoes can be a form of prayer. She took
questions on how not to feel lost in the dark.

After lunch she distributed worksheets
that covered ways to remember your grandfather’s

voice. Then the class discussed falling asleep
without feeling you had forgotten to do something else—

something important—and how to believe
the house you wake in is your home. This prompted

Mrs. Nelson to draw a chalkboard diagram detailing
how to chant the Psalms during cigarette breaks,

and how not to squirm for sound when your own thoughts
are all you hear; also, that you have enough.

The English lesson was that I am
is a complete sentence.

And just before the afternoon bell, she made the math equation
look easy. The one that proves that hundreds of questions,

and feeling cold, and all those nights spent looking
for whatever it was you lost, and one person

add up to something.

Ana Martins Marques – de “Três Postais”

São Paulo

Depois de um tempo
todas as coisas ficam marcadas
como se estivessem
impregnadas de veneno

Há um tempo em que os lugares
são limpos e novos
abertos como clareiras
mas já não é este o tempo

Sobre cada lugar se sobrepõe
a experiência do lugar
como um selo
num cartão postal

Por exemplo
hoje sempre que sobrevoo
São Paulo
penso que em algum apartamento
desta cidade interminável
você
fumando
de óculos
exerce seu direito
inalienável
de não mais pensar
em mim

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 06/05/2018

Wendy Cope – Em um trem

O livro que estou lendo
repousa em meu joelho. Você dorme.

Lá fora é tão bonito —
campos, pequenos lagos e árvores de inverno
sob o sol de fevereiro,
cada estacionamento um brilhante mosaico.

Longos e radiantes minutos,
sua mão na minha mão,
ainda quente, ainda quente.

Trad.: Nelson Santander

On a Train

The book I’ve been reading
rests on my knee. You sleep.

It’s beautiful out there-
fields, little lakes and winter trees
in February sunlight,
every car park a shining mosaic.

Long radiant minutes,
your hand in my hand,
still warm, still warm.

José Alcaraz – Volta para Casa

Atravessa as ruas
absorto nos ecos das pessoas,
distante até de seus pensamentos.
Não chove, não abre o seu guarda-chuva,
no entanto, como sempre, molham-se
não só seus sapatos
como a vida também, porque às vezes
esquece que o mundo o reclama.
Caminha como quem não sabe para onde,
em cada passo crê estar sozinho,
mais distante das outras pessoas,
por isso demora a encontrar as palavras,
e quando as pronuncia já não há ninguém
esperando. Depois,
novamente, o caminho de volta,
as ruas, a tristeza. E nada mais,
além de sua casa, e ele,
diante de um espelho,
olhando-me nos olhos.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO (com alterações na tradução): poema publicado no blog originalmente em 04/05/2018

Vuelta a Casa

Atraviesa las calles
ensimismado en ecos de la gente,
distante incluso de sus pensamientos.
No llueve, no despliega su paraguas,
pero a él, como siempre, se le mojan
no solo los zapatos
sino también la vida porque a veces
no recuerda que el mundo lo reclama.
Camina como quien no sabe adónde,
a cada paso cree que está solo
y más lejos del resto de personas,
así que llega tarde a sus palabras
y cuando las pronuncia ya no hay nadie
esperando. Después
nuevamente el camino de regreso,
las calles, la tristeza. Y nada más,
salvo su casa, y él,
delante de un espejo,
mirándome a los ojos.

Ferreira Gullar – Poema

Se morro
o universo se apaga como se apagam
as coisas deste quarto
                                se apago a lâmpada:
os sapatos–da–ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó–
dos–andes,
               bilhões de quatrilhões de seres
e de sóis
               morrem comigo.

Ou não:
               o sol voltará a marcar
               este mesmo ponto do assoalho
               onde esteve meu pé;
                                         deste quarto
               ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
                       uma nova cidade
                       surgirá de dentro desta
                       como a árvore da árvore.

Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio, comovido.