Ferreira Gullar – Poema

Ferreira Gullar – Poema
Se morro
o universo se apaga como se apagam
as coisas deste quarto
                                se apago a lâmpada:
os sapatos–da–ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó–
dos–andes,
               bilhões de quatrilhões de seres
e de sóis
               morrem comigo.

Ou não:
               o sol voltará a marcar
               este mesmo ponto do assoalho
               onde esteve meu pé;
                                         deste quarto
               ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
                       uma nova cidade
                       surgirá de dentro desta
                       como a árvore da árvore.

Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio, comovido.
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