Wislawa Szymborska – A Cada Cem Pessoas

A cada cem pessoas:

sabem de tudo e muito melhor do que os outros:
– cinquenta e duas.

ficam inseguras a cada passo:
– quase todas as outras.

estão prontas a ajudar
desde é claro que isso não lhes tome muito tempo:
– quarenta e nove, o que já não é mau.

são sempre boas porque incapazes de ser de outro modo:
– quatro… vá lá, talvez cinco.

estão prontas a admirar sem inveja:
– dezoito.

são induzidas ao erro
por uma juventude que passa tão depressa:
– umas sessenta.

com quem não se pode brincar:
– quarenta e quatro.

vivem angustiadas em relação a alguém ou a qualquer coisa:
– setenta e sete.

são dotadíssimas para a felicidade:
– no máximo vinte e tal.

inofensivas quando sozinhas
mas selvagens quando em multidão:
– isso, o melhor é não tentar saber nem aproximadamente.

não pedem nada da vida exceto coisas:
– trinta, mas preferia estar enganada.

encurvadas, sofridas,
sem uma lanterna que lhes ilumine as trevas:
– cedo ou tarde, oitenta e três.

justas:
– pelo menos trinta e cinco, e lamba os beiços.

mas se a isso juntarmos o esforço de compreender:
– três.

dignas de compaixão:
– noventa e nove.

mortais:
– cem entre cem,
número que, até momento, não é possível alterar.

Denise Levertov – O Segredo

Duas meninas descobrem
o segredo da vida
no inesperado verso
de um poema.

Eu, que não conheço o
segredo, escrevi
esse verso. Elas me
disseram

(por um terceiro)
que o tinham achado
mas não qual era ele
nem sequer

qual o verso. É claro que
agora, uma semana
depois, já esqueceram
o segredo,

o verso e o nome do
poema. Eu as amo
por terem encontrado
o que nunca encontrei,

e por me amarem, a mim
que escrevi o verso,
e por já o terem esquecido,
de modo que,

mil vezes, até que a morte
as alcance, elas podem
tornar a descobri-lo, em outros
versos,

em outros
fatos. E as amo por
desejarem conhecê-lo,
por

presumirem que existe
tal segredo, sim,
por isso
sobretudo.

Trad.: Carlito Azevedo (?)

Jaroslav Seifert – Vi Apenas uma Vez

Vi apenas uma vez
um sol tão ensanguentado.
            E nunca mais
Descia funesto sobre o horizonte
e parecia
que alguém havia escancarado as portas do inferno.
Perguntei pelo observatório astronômico
e hoje sei o porquê.

O inferno, conhecemos: está em toda parte
e caminha sobre duas pernas.
            E o paraíso?
Talvez o paraíso nada mais seja
além de um sorriso
           por muito tempo esperado
e lábios
           que murmuram o nosso nome.
E aquele frágil instante fabuloso
quando depressa podemos esquecer-nos
do inferno.

Trad.: Aleksandar Jovanovic

Adília Lopes – A Propósito das Estrelas

Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas 

Gary Snyder – Dezembro em Yase

Naquele Outubro
em que escolheu ser livre
na grama alta e seca junto ao pomar
você disse “quem sabe um dia, talvez daqui a dez anos”.

Terminada a universidade te vi
só mais uma vez. Você estava estranha.
E eu obcecado com um projeto.

Agora se passaram os tais dez anos
e até mais um pouco: eu sempre soube
onde você estava –

Devia ter ido te ver
movido pela esperança de recuperar seu amor.
Você continua solteira.
Mas não fiz nada disso.

Só em sonhos, como esta madrugada,
a intensidade terrível
de nosso amor de garotos
me ocupa de novo a mente, a carne.

Tivemos aquilo que todos
se esforçam tanto para ter;
e abandonamos tudo para trás aos dezenove anos.

Me sinto com mil anos, como se tivesse
vivido muitas vidas.

E talvez nunca descubra
se sou um idiota
ou fiz o que exigia
o meu karma.

Yehuda Amichai – O Corpo é a Causa do Amor

Primeiro o corpo é a causa do amor
depois a fortaleza que o protege
por fim seu cárcere.
E quando o corpo morre, o amor jorra
caudalosamente
como de um caça-níqueis clandestino quebrado
jorram de súbito
com estrondo
todas as moedas de gerações
e gerações entregues à própria sorte.

Nicanor Parra – O que ganha um velho ao fazer ginástica?

e o que ganha falando ao telefone?
e o que ganha ficando famoso?
e o que ganha um velho olhando-se no espelho?

Nada
afundar cada vez mais na lama

Já são três ou quatro da madrugada
– por que não trata de dormir?
mas não – tome ginástica
tome ligações de longa distância
tome Bach
Beethoven
Tchaikovsky
tome olhadas no espelho
tome obsessão de seguir respirando

lamentável – melhor seria apagar a luz

Velho ridículo lhe diz sua mãe
você é igualzinho ao seu pai
ele também não queria morrer
Deus lhe dê vida para andar de carro
Deus lhe dê vida para falar ao telefone
Deus lhe dê vida para respirar
Deus lhe dê vida para enterrar sua mãe

Fica aí dormindo velho ridículo!
mas o ancião não está dormindo
não confunda chorar com dormir

Wislawa Szymborska -Retornos

Voltou. Não disse nada.
Mas estava claro que teve algum desgosto.
Deitou-se vestido.
Cobriu a cabeça com o cobertor.
Encolheu as pernas.
Tem uns quarenta anos, mas não agora.
Existe – mas só como na barriga da mãe
na escuridão protetora, debaixo de sete peles.
Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase
na cosmonáutica metagaláctica.
Por ora dorme, todo enrodilhado.

Jorge Luis Borges – Os Justos

Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra exista música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que em um café do Sur jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.
O que afaga um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra exista Stevenson.
O que prefere que os outros estejam certos.
Essas pessoas, que se desconhecem, estão salvando o mundo.

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Antero de Quental – Nox

Noite, vão para ti meus pensamentos,
Quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
Tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos…

Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia…
O eterno Mal, que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece alguns momentos…

Oh! Antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o Mundo, te esquecesses,

E ele, o Mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!

QUENTAL, Antero de. “Nox”. In: VIEGAS, Francisco José (org.). Cem poemas para salvar a nossa vida. Lisboa: Quetzal, 2014.