Categoria: Poema
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Rui Pires Cabral – Cartas

Escreves-me cartas, sou o destinatário da tua solidão. E sempre compreendo tudo, mesmo o que não dizes, o que tinge as entrelinhas de um branco desespero que é tanto teu como meu: não tens quem te salve, envelheceste, trataste mal de um jardim que não chegou a vingar. Se nos cruzássemos nas ruas desta cidade…
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Jorge Luis Borges – A Chuva

A tarde subitamente clareou Porque já cai a chuva minuciosa. Ou caiu. A chuva é coisa curiosa Que acontece no tempo que passou. Quem a ouve cair já recobrou O tempo em que a fortuna venturosa Revelou-lhe uma flor chamada rosa E a encarnada cor com que se corou. Que esta chuva que já cega…
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César Cantoni – Álbum de Família

Morreu meu pai, morreram meus avós, morreram meus tios de sangue e por afinidade. Uma família inteira de ferreiros, marceneiros, curtidores, pedreiros, jaz agora sem forças embaixo da terra. E eu, o mais inútil de todos, o que não sabe fazer nada com as mãos, logrei sobreviver impunemente para chorar diante de uma foto o…
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Octavio Paz – Antes do Começo

Ruídos confusos, claridade incerta. Outro dia começa. Um quarto em penumbra e dois corpos estendidos. Em minha fronte me perco numa planície vazia. E as horas afiam suas navalhas. Mas a meu lado tu respiras; íntima e longínqua fluis e não te moves. Inacessível se te penso, com os olhos te apalpo, te vejo com…
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Hagar Peeters – Esta Noite Cruzei-me com meus Pais

Esta noite cruzei-me com os meus pais, duas sombras pálidas reciprocamente atraídas, à luz branca de um candeeiro. Tendo em conta a felicidade demonstrada, eu ainda não era nascida. Eram jovens e muito apaixonados. Uma grande tristeza anuviou-me porque eu sabia a continuação da história. Ela soltava gargalhadas por causa de algo que ele lhe…
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Fernando Sabino – Certeza

De tudo, ficaram três coisas: A certeza de que estamos sempre começando. A certeza de que precisamos continuar. A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar. Portanto devemos: Fazer da interrupção um caminho novo. Da queda um passo de dança. Do medo, uma escada. Do sonho, uma ponte. Da procura, um encontro.
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António Franco Alexandre – Quero dizer-te: não morras

quero dizer-te: não morras. Nem me digas quem és, quem foste, como sabes a língua que se fala sobre a terra. Ao lume lanço toda a vontade de viver, ser vivo, a cautela do ar, ardendo em torno. Passarei, terás passado em mim, só quero dizer-te: não morras nunca, agora, nunca mais.
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Carlos Edmundo de Ory – Dá-me

dá-me algo mais que silêncio ou doçura algo que tenhas e não saibas não quero dádivas raras dá-me uma pedra não fiques imóvel fitando-me como se quisesses dizer que há muitas coisas mudas ocultas no que se diz dá-me algo lento e fino como uma faca nas costas e se nada tens para dar-me dá-me…
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António Reis – Mudamos esta Noite

Mudamos esta noite E como tu eu penso no fogão a lenha e nos colchões onde levar as plantas e como disfarçar os móveis velhos Mudamos esta noite e não sabíamos que os mortos ainda aqui viviam e que os filhos dormem sempre nos quartos onde nascem Vai descendo tu Eu só quero ouvir os…
