Categoria: Poema
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Ana Martins Marques – Religião

‘If I were called in to construct a religion I should make use of water’ – Philip Larkin Inaugurar uma religião: adorar os pontos em que se formam as estações do ano os gestos de desnudar-se o dia depois da chuva a distância: entre uma árvore e outra árvore, entre cidades com o mesmo nome…
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Inês Lourenço – As Coisa que Cessam

Tanto desprezo pelo que é transitório e finito. Não servirei senhor que possa morrer. Mas passamos a vida a amar todas as fragilidades das coisas que cessam. Há coisa mais breve do que um sorriso? Coisa mais curta que a alegria de um reencontro? Tudo o que amamos é passageiro e frágil ou as duas…
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Amalia Bautista – O Anjo Perplexo

Nunca houve deus, nem virgens, nem santos, nem ídolo que proteja, nem oração que console; nunca houve milagres ou maravilhas, nem a salvação da alma, nem a vida eterna; nem palavras mágicas, nenhum bálsamo eficaz contra a dor que não desaparece nunca; nem luz do outro lado das sombras, nem saída do túnel, nem esperança.…
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Mario Quintana – Envelhecer

Antes, todos os caminhos iam. Agora todos os caminhos vêm. A casa é acolhedora, os livros poucos. E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.
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Amalia Bautista – Agora

Agora que a estrada que devo percorreré um viaduto por sobre uma rodoviado qual dá medo de olhar, porque o abismoimplacável me chama.Agora que morreu a esperançacomo um pássaro jogado de seu ninhopor irmãos mais fortes.Agora que é noite todo dia,inverno todo anoe as semanas só têm segundas-feiras,para onde olhar, para onde voltar os olhos,que…
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Amalia Bautista – Os meus melhores desejos

Que a vida te pareça suportável.Que a culpa não afogue a esperança.Que não te rendas nunca.Que o caminho que sigas seja sempre escolhidoentre dois pelo menos.Que te interesse a vida tanto como tu a ela.Que não te apanhe o víciode prolongar as despedidas.E que o peso da terra seja levesobre os teus pobres ossos.Que a…
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Amalia Bautista – O que fazes aqui

Pensei que havia-te dito adeus,um adeus definitivo, ao deitar-mequando pude finalmente fechar meus olhose esquecer-me de ti e de tuas artimanhasde tua insistência, de tua baba ruim,da tua capacidade de anular-me.Pensei que havia-te dito adeuspara todo o sempre, e eu acordoe te encontro novamente junto a mim,dentro de mim, me envolvendo, ao meu lado,invadindo-me, sufocando-me,…
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Tomas Tranströmer – Minnena Ser Mig (em duas traduções)

Memórias que me Observam Manhã de Junho, cedo demais para acordar, tarde demais para adormecer. Tenho de sair – é densa a folhagem das memórias, perseguem-me com o seu olhar. Não se deixam ver, misturam-se todas com o fundo, verdadeiros camaleões. Tão perto estão que as ouço respirarem aqui onde o canto do pássaro ensurdece.…
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João Cabral de Melo Neto – Como a Morte se Infiltra

Certo dia, não se levanta porque quer demorar na cama. No outro dia ele diz por que: é porque lhe dói algum pé. No outro dia o que dói é a perna, E nem pode apoiar-se nela. Dia a dia lhe cresce um não, um enrodilhar-se de cão. Dia a dia ele aprende o jeito…
