Categoria: Poema
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Maria Teresa Horta – Poema sobre a Recusa

Como é possível perder-te sem nunca te ter achado nem na polpa dos meus dedos se ter formado o afago Sem termos sido a cidade nem termos rasgado pedras sem descobrirmos a cor nem o interior da erva Como é possível perder-te sem nunca te ter achado minha raiva de ternura meu ódio de conhecer-te…
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César Cantoni – O Tempo Irreparável

Quem, então, poderia imaginar? O certo é que meu pai está morto como se nunca houvesse estado vivo. Um dia gelaram suas mãos e os pés, e a casa se encheu de parentes, e minha mãe chorou, de joelhos, junto ao leito. Ainda lembro. Meu pai está morto ou já não existe, e não é…
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Mário Cesariny – Lembra-te

Lembra-te que todos os momentos que nos coroaram todas as estradas radiosas que abrimos irão achando sem fim seu ansioso lugar seu botão de florir o horizonte e que dessa procura extenuante e precisa não teremos sinal senão o de saber que irá por onde fomos um para o outro vividos
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Gonçalo M. Tavares – Os Mortos

Não há mortos que morram tanto como os nossos. Se um daqueles que nos pertence morre sete ou setenta vezes no coração, de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data, e os que sempre viveram longe morrem-nos metade ou um oitavo. E metade de uma morte é quase nada, são casas decimais…
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Charles Bukowski – Foda

foda ela tirou o vestido por sobre a cabeça e eu vi a calcinha um tanto enterrada em suas carnes. é simplesmente humano. agora teremos que fazê-lo. eu terei que fazê-lo depois de todo esse logro. é como uma festa – dois idiotas numa cilada. debaixo dos lençóis depois que apaguei as luzes suas calcinhas…
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Isabel Bono – O futuro acabará por chegar

desperdiçávamos o tempoorganizando num álbum as fotos do verãopara um dia olhá-las com nostalgia acumulávamos bolinhas de gude pedraslivros cartas poemas adiávamos assim a felicidade, a vida ainda não sei por quêainda não sei para quando Trad.: Nelson Santander El Futuro Acabará por Llegar malgastábamos el tiempo ordenando en un álbum las fotos del verano…
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Mário Dionísio – Elegia ao Companheiro Morto

Meu companheiro morreu às cinco da manhã Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã Ah antes fosse noite noite apenas noite sem a promessa da manhã Ah antes fosse noite noite noite apenas noite e não houvesse em tudo a promessa da manhã Deitado para sempre às cinco da…
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Alberto Caeiro – Poema XLIII (“Antes o voo da ave”)

Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto, Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão. A ave passa e esquece, e assim deve ser. O animal, onde já não está e por isso de nada serve, Mostra que já esteve, o que não serve para nada. A recordação é…
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Bruna Kalil – Paleativa

Você é rebelde só da cintura para baixo 1984, George Orwell busco prazer sendo profana para que o físico compense o descompasso do meu interior tão triste e tão mole. fujo dos sentimentos justamente por ter a plena consciência de que sou sentimental dem- ais. tenho medo, pavor, fobia de apaixonar-me outra vez, dói…