As jovens deusas, noturnas aparições (roupas escuras, prata queimando seus umbigos) na cadência da pista, começam a desbotar com a premência dos anos, os problemas, talvez os filhos que ainda não têm. Olham agora para os teus olhos com claro desprezo (já tens quarenta) e pensas em certas palavras de Baudelaire que lhes darias como se fossem teus frutos (se ao menos se aproximassem), se soubessem quem foi o poeta. Mas elas dançam, te rodeiam sem importar-lhes o que calas. Envelhecendo sós, saltam sobre teus textos (tão perpétuos e frágeis), novas deidades, elas, que dançam retiradas de teu vaso de Lladró.
Trad.: Nelson Santander
* N. do T.: o título do poema faz, evidentemente, um trocadilho com o título da obra mais aclamada de Charles Baudelaire (mencionado no poema), Les Fleurs du mal, traduzido no Brasil literalmente como “As Flores do Mal”. Em países da língua espanhola, a palavra inglesa Mall foi devidamente assimilada, o que não ocorreu no Brasil, em que Mall virou Shopping Center – ou apenas Shopping -, Centro Comercial, etc.. Tratando-se de um trocadilho, s.m.j., irrecuperável em português, optei por manter o substantivo em inglês, justamente para não perder o efeito acridoce que a sua utilização empresta ao título.
Las flores del Mall
Las jóvenes diosas, nocturnas apariciones (ropa oscura, plata quemando sus ombligos) en la cadencia de la pista, comenzarán a despintarse con la premura de los años, los problemas, quizá los hijos que no tienen aún. Ahora miran tus ojos con un claro desprecio (ya tienes cuarenta) y piensas en ciertas palabras de Baudelaire que les darías como si fueran frutas tuyas (si al menos se acercaran), si supieran quién es el poeta. Pero ellas danzan, te rodean sin importarles lo que callas. Envejeciendo solas, brincan sobre tus textos (tan perpetuas y frágiles), deidades nuevas, ellas, que bailan retiradas de tu florero de Lladró.
These flowers have dreamed themselves back into pure color— the greens of undivided water, the formless greens of meadow just as God said: Let there be Irises.
Ninguém fala sobre a hilaridade após a morte — a forma como na semana em que o meu irmão se matou a esposa dele e eu caímos na cama gargalhando porque ela não conseguia decidir sobre o que vestir para o grande dia, e me perguntou, “Eu quero ser sexy ou Amish?” Eu respondi: sexy. E nós rolamos sobre o colchão que eles haviam compartilhado por dezoito anos, nossas barrigas até doendo. Enquanto isso, ele repousava em uma estreita gaveta refrigerada, cachos castanhos macios brotando de seu couro cabeludo, emoldurando seu bonito rosto. Isso foi quando ele ainda tinha um rosto, e íamos vê-lo. “Mostre-me a saia preta de novo,” eu disse. E ela, “Qual delas?” E então ela falou, “Você está tão Máfia Chic,” e eu disse, “Obrigada,” e isso continuou até que nós duas nos cansamos e nossos costelas doeram e agora eu nem me lembro o que acabamos vestindo. Lembro apenas que estávamos fabulosas chorando por causa daquele buraco aberto no chão.
Trad.: Nelson Santander
Dressing for the Burial
No one wants to talk about the hilarity after death — the way the week my brother shot himself, his wife and I fell on the bed laughing because she couldn’t decide what to wear for the big day, and asked me, “Do I go for sexy or Amish?” I told her sexy. And we rolled around on the mattress they’d shared for eighteen years, clutching our sides. Meanwhile, he lay in a narrow refrigerated drawer, soft brown curls springing from his scalp, framing his handsome face. This was back when he still had a face, and we were going to see it. “Hold up the black skirt again,” I said. She said, “Which one?” And then she said, “You look so Mafia Chic,” and I said, “Thank you,” and it went on until we both got tired and our ribs hurt and now I don’t even remember what we wore. Only that we both looked fabulous weeping over that open hole in the ground.
A Califórnia entra num Verão modorrento, e o ar Está repleto da agridoce Fumaça de relva queimando Nas colinas de São Francisco. A carne arde assim, as pirâmides Idem, assim como as estrelas em combustão. Cansado esta noite, em uma cidade De arrivistas, no desumano Oeste, no mais sangrento dos anos, Peguei um livro de poemas De que você costumava gostar, com Aquela música que você costumava cantar E que eu nunca mais encontrei em nenhum outro lugar — Um livro de Michael Fields, Long Ago. De fato, já foi há muito tempo — Seus cabelos castanhos e seu corpo esbelto. Creio que você foi uma amante ardorosa, Uma esposa selvagem, uma mãe Sensual. E agora a vida já me custou Mais anos, embora menos dor, Do que você teve que pagar por ela. E eu comprei de volta, para e de Mim mesmo, esses poemas e pinturas, Esculpidos de ossos queixosos, As inestimáveis consequências De sua vida louca e despedaçada.
Trad.: Nelson Santander
Delia Rexroth
California rolls into Sleepy summer, and the air Is full of the bitter sweet Smoke of the grass fires burning On the San Francisco hills. Flesh burns so, and the pyramids Likewise, and the burning stars. Tired tonight, in a city Of parvenus, in the inhuman West, in the most blood drenched year, I took down a book of poems That you used to like, that you Used to sing to music I Never found anywhere again— Michael Fields book, Long Ago. Indeed its long ago now— Your bronze hair and svelte body. I guess you were a fierce lover, A wild wife, an animal Mother. And now life has cost Me more years, though much less pain, Than you had to pay for it. And I have bought back, for and from Myself, these poems and paintings, Carved from the protesting bone, The precious consequences Of your torn and distraught life.
O ar está congelando. Até o rouxinol mantém-se em silêncio. Com a testa apoiada na vidraça peço perdão às minhas filhas mortas, porque já quase nunca penso nelas. O tempo passou, deixando sobre a cicatriz sua argila empoeirada, e ocorre que, mesmo quando se ama alguém, sobrevém o esquecimento. A luz tem a mesma aspereza das gotas que vão, com o degelo, caindo dos ciprestes. Ponho uma tora, removo as cinzas, ressurge a chama entre as brasas. Começo a fazer café e vossa mãe, do quarto, sorri com sua voz: Que cheiro bom. Acordaste muito cedo esta manhã.
Trad.: Nelson Santander
Joana e Joan, em 2000. Foto: arquivo da família Margarit Ribalta
JOANA FOI ESCRITO DE 10 DE OUTUBRO DE 2000 A 1 DE SETEMBRO DE 2001
What will survive of us is love. PHILIP LARKIN
Nota a JOANA
Este livro foi escrito violando todos os conselhos que os poetas nos damos sobre a distância obrigatória entre os fatos e o poema. Uma vez que precisava escreve-lo assim, e, ademais, já começo a ter idade suficiente para ignorar os conselhos, usei como garantia a vigilância poética — pela qual ora agradeço — de meus amigos Pere Rovira, Paco Díaz de Castro, Ramón Andrés, Enrique Badosa, Luis García Montero, Antonio Jiménez Millán, Miguel Ángel e Ana del Arco, Isidor Cònsul, Maite Merodio e Jesús Munárriz, Àlex Susanna e Sam Abrams. E de Almudena del Olmo, que, diante das minhas dúvidas, me disse: Não penses mais nisso e dá-lhe o título do que é realmente a tua obsessão: Nunca mais. Foi assim que este livro começou a ser intitulado, mas no final ganhou o nome simples da protagonista, em relação à qual, ao fim e ao cabo, o título sugerido não passava de uma afirmação filosófica. Como me recordou Sam Abrams, o mesmo corvo de Poe diz Nevermore, e o nosso Nunca mais é Never again.
AL FONDO DE LA NOCHE
Está helando en el aire. Guarda silencio hasta el ruiseñor. Con la frente apoyada en el cristal pido perdón a mis dos hijas muertas, porque ya casi nunca pienso en ellas. El tiempo ha ido dejando sobre la cicatriz su polvorienta arcilla, y es que, incluso cuando uno ama a alguien, sobreviene el olvido. La luz tiene la misma dureza de las gotas que van, con el deshielo, cayendo del ciprés. Pongo un leño, remuevo las cenizas, vuelve a surgir la llama entre las brasas. Empiezo a hacer café y vuestra madre, desde el dormitorio, sonríe con su voz: Qué buen aroma. Has madrugado mucho esta mañana.
JOANA FUE ESCRITO DEL 10 DE OCTUBRE DE 2000 AL 1 DE SEPTIEMBRE DE 2001
What will survive of us is love. PHILIP LARKIN
Nota a JOANA
Este libro fue escrito vulnerando todos los consejos que los poetas damos sobre la obligada distancia entre los hechos y el poema. Puesto que necesitaba hacerlo así y, además, ya empiezo a tener la edad de saltarme los consejos, he utilizado como garantía la vigilancia poética —que aquí agradezco— de mis amigos Pere Rovira, Paco Díaz de Castro, Ramón Andrés, Enrique Badosa, Luis García Montero, Antonio Jiménez Millán, Miguel Ángel y Ana del Arco, Isidor Cònsul, Maite Merodio y Jesús Munárriz, Àlex Susanna y Sam Abrams.Y de Almudena del Olmo, que, ante mis dudas, me dijo: No le des más vueltas y ponle por título lo que realmente es tu obsesión: Nunca más. Así se empezó titulando este libro, pero al final ha ganado el sencillo nombre de la protagonista frente al que, al fin y al cabo, no era más que una afirmación filosófica. Como me ha recordado Sam Abrams, el mismo cuervo de Poe dice Nevermore, y nuestro Nunca más es Never again.
UM LUGAR PERDIDO In memoriam Marta Ribalta i Taltavull (17-VIII-1946, 11-V-1999) Joana Margarit i Ribalta (20-VIII-1970, 2-VI-2001)
Reluz o sol do conto de fadas que para Marta foi esta casa pequena e luminosa em frente aos campos. Ninguém tocou em um único tronco da lenha cortada e ordenada. Joana fez um desenho para ela onde lhe dizia: Que sejas muito feliz. Quando Joana tinha dois anos éramos tu e eu que lhe dizíamos: Que sejas muito feliz.
Não é difícil imaginar que as duas ainda estão aqui, sentir a brisa das conversas agitando o cortinado da porta. Mas não há nada além de nossos olhos. E os arranham velozes andorinhas que agora se lançam com seus chilreios entre as árvores frutíferas.
Trad.: Nelson Santander
UN LUGAR PERDIDO In memoriam Marta Ribalta i Taltavull (17-VIII-1946, 11-V-1999) Joana Margarit i Ribalta (20-VIII-1970, 2-VI-2001)
Reluce el sol del cuento de la infancia que para Marta fue esta luminosa, pequeña casa enfrente de los campos. Nadie ha tocado un solo tronco de la leña cortada y ordenada. Joana hizo un dibujo para ella en donde le decía: Que seas muy feliz. A los dos años éramos tú y yo los que a Joana le decíamos: Que seas muy feliz.
No es difícil pensar que, todavía, siguen aquí las dos, sentir la brisa de conversaciones agitando el visillo de la puerta. Pero no hay nada más que nuestros ojos. Y los rayan veloces golondrinas que ahora están lanzándose con sus chillidos entre los frutales.
Muitas coisas estão sentindo a tua falta. Cada dia é repleto de momentos que esperam aquelas pequenas mãos que seguraram as minhas tantas vezes. Teremos de nos habituar à tua ausência. Um verão já passou sem teus olhos e o mar também terá que se acostumar. Por muito tempo ainda, a rua esperará diante de nossa porta, pacientemente, pelos teus passos. Não se cansará nunca de esperar: ninguém sabe esperar como uma rua. E a mim me domina este desejo de que me toques e de que me olhes, de que me digas o que fazer com minha vida, enquanto os dias, com chuva ou céu azul, já organizam a solidão.
Trad.: Nelson Santander
LA ESPERA
Muchas cosas te están echando en falta. Cada día se llena de momentos que esperan esas pequeñas manos que cogieron las mías tantas veces. Tendremos que avezarnos a tu ausencia. Ya ha pasado un verano sin tus ojos y el mar también tendrá que acostumbrarse. Durante mucho tiempo todavía, la calle esperará ante nuestra puerta, con paciencia, tus pasos. No se cansará nunca de esperar: nada sabe esperar como una calle. Y a mí me colma esta voluntad de que me toques y de que me mires, de que me digas qué hago con mi vida, mientras los días van, con lluvia o cielo azul, organizando ya la soledad.
Nossa memória guarda vossos nomes em uma pequena praia que jamais figurará nos mapas dos navios. Quão próximas estais aqui, uma da outra, minhas filhas, depois de tanto tempo. Tão unidas agora, atrás de vossos nomes, que olham para o mar e que o sol lê a cada amanhecer.
Trad.: Nelson Santander
LÁPIDA ANNA, 1967; JOANA, 1970-2001
Nuestra memoria guarda vuestros nombres en una leve playa que jamás figurará en los mapas de los barcos. Qué cerca estáis aquí, la una de la otra, hijas mías, después de tanto tiempo. Tan juntas ya, detrás de vuestros nombres, que miran hacia el mar y que el sol lee cada amanecer.