Mary Oliver – Primavera

Em algum lugar,
uma ursa-negra
acaba de despertar
e lança seu olhar

para baixo na montanha.
A noite toda,
na inquietude vivaz e superficial
do início da primavera,

eu penso nela,
suas quatro patas pretas
esparramando o cascalho,
sua língua

como uma chama rubra
tocando a relva,
a água fria.
Só há uma questão:

como amar este mundo?
Eu penso nela
erguendo-se
como um rochedo negro e musgoso

para afiar suas garras contra
o silêncio
das árvores.
O que quer que seja

a minha vida
com seus poemas
e sua música
e suas cidades,

ela é também este ofuscante negror
descendo
a montanha,
respirando e saboreando;

o dia todo eu penso nela –
em suas presas brancas,
sua ausência de palavras,
seu amor perfeito.

Trad.: Nelson Santander

Spring

Somewhere
a black bear
has just risen from sleep
and is staring

down the mountain.
All night
in the brisk and shallow restlessness
of early spring

I think of her,
her four black fists
flicking the gravel,
her tongue

like a red fire
touching the grass,
the cold water.
There is only one question:

how to love this world.
I think of her
rising
like a black and leafy ledge

to sharpen her claws against
the silence
of the trees.
Whatever else

my life is
with its poems
and its music
and its cities,

it is also this dazzling darkness
coming
down the mountain,
breathing and tasting;

all day I think of her –
her white teeth,
her wordlessness,
her perfect love.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – As flores do mall

As jovens deusas, noturnas
aparições (roupas escuras,
prata queimando seus umbigos)
na cadência da pista,
começam a desbotar
com a premência dos anos,
os problemas, talvez os filhos
que ainda não têm. Olham
agora para os teus olhos com claro
desprezo (já tens quarenta)
e pensas em certas palavras
de Baudelaire que lhes darias
como se fossem teus frutos
(se ao menos se aproximassem), se
soubessem quem foi o poeta.
Mas elas dançam, te rodeiam
sem importar-lhes o que calas.
Envelhecendo sós, saltam
sobre teus textos (tão perpétuos
e frágeis), novas deidades,
elas, que dançam retiradas
de teu vaso de Lladró.

Trad.: Nelson Santander

* N. do T.: o título do poema faz, evidentemente, um trocadilho com o título da obra mais aclamada de Charles Baudelaire (mencionado no poema), Les Fleurs du mal, traduzido no Brasil literalmente como “As Flores do Mal”. Em países da língua espanhola, a palavra inglesa Mall foi devidamente assimilada, o que não ocorreu no Brasil, em que Mall virou Shopping Center – ou apenas Shopping -, Centro Comercial, etc.. Tratando-se de um trocadilho, s.m.j., irrecuperável em português, optei por manter o substantivo em inglês, justamente para não perder o efeito acridoce que a sua utilização empresta ao título.

Las flores del Mall

Las jóvenes diosas, nocturnas
apariciones (ropa oscura,
plata quemando sus ombligos)
en la cadencia de la pista,
comenzarán a despintarse
con la premura de los años,
los problemas, quizá los hijos
que no tienen aún. Ahora
miran tus ojos con un claro
desprecio (ya tienes cuarenta)
y piensas en ciertas palabras
de Baudelaire que les darías
como si fueran frutas tuyas
(si al menos se acercaran), si
supieran quién es el poeta.
Pero ellas danzan, te rodean
sin importarles lo que callas.
Envejeciendo solas, brincan
sobre tus textos (tan perpetuas
y frágiles), deidades nuevas,
ellas, que bailan retiradas
de tu florero de Lladró.

Charles Simic – Medo

O medo passa de homem para homem
Inconscientemente,
Como uma folha passa o seu estremecimento
Para outra.

De repente, a árvore toda está tremendo,
E não há nenhum sinal do vento.

Trad.: Nelson Santander

Fear

Fear passes from man to man
Unknowing,
As one leaf passes its shudder
To another.

All at once the whole tree is trembling,
And there is no sign of the wind.

Linda Pastan – As Íris de Monet

Estas flores
se sonharam
de volta à cor pura –
os verdes
da água indivisa,
os verdes
informes do prado
assim como Deus disse:
Que haja
Íris.

Trad.: Nelson Santander

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Monet’s Irises

These flowers
have dreamed themselves
back into pure color—
the greens
of undivided water,
the formless
greens of meadow
just as God said:
Let there be
Irises.

Danusha Laméris – Vestindo-se para o enterro

Ninguém fala sobre a hilaridade após a morte —
a forma como na semana em que o meu irmão se matou
a esposa dele e eu caímos na cama gargalhando
porque ela não conseguia decidir sobre o que vestir para o grande dia,
e me perguntou, “Eu quero ser sexy ou Amish?” Eu respondi: sexy.
E nós rolamos sobre o colchão que eles haviam compartilhado
por dezoito anos, nossas barrigas até doendo.
Enquanto isso, ele repousava em uma estreita gaveta refrigerada,
cachos castanhos macios brotando de seu couro cabeludo,
emoldurando seu bonito rosto. Isso foi quando
ele ainda tinha um rosto, e íamos vê-lo.
“Mostre-me a saia preta de novo,” eu disse. E ela, “Qual delas?”
E então ela falou, “Você está tão Máfia Chic,” e eu disse, “Obrigada,”
e isso continuou até que nós duas nos cansamos e nossos costelas doeram e agora
eu nem me lembro o que acabamos vestindo. Lembro apenas que estávamos fabulosas
chorando por causa daquele buraco aberto no chão.

Trad.: Nelson Santander

Dressing for the Burial

No one wants to talk about the hilarity after death —
the way the week my brother shot himself,
his wife and I fell on the bed laughing
because she couldn’t decide what to wear for the big day,
and asked me, “Do I go for sexy or Amish?” I told her sexy.
And we rolled around on the mattress they’d shared
for eighteen years, clutching our sides.
Meanwhile, he lay in a narrow refrigerated drawer,
soft brown curls springing from his scalp,
framing his handsome face. This was back when
he still had a face, and we were going to see it.
“Hold up the black skirt again,” I said. She said, “Which one?”
And then she said, “You look so Mafia Chic,” and I said, “Thank you,”
and it went on until we both got tired and our ribs hurt and now
I don’t even remember what we wore. Only that we both looked fabulous
weeping over that open hole in the ground.

Kenneth Rexroth – Delia Rexroth

A Califórnia entra num
Verão modorrento, e o ar
Está repleto da agridoce
Fumaça de relva queimando
Nas colinas de São Francisco.
A carne arde assim, as pirâmides
Idem, assim como as estrelas em combustão.
Cansado esta noite, em uma cidade
De arrivistas, no desumano
Oeste, no mais sangrento dos anos,
Peguei um livro de poemas
De que você costumava gostar, com
Aquela música que você costumava cantar
E que eu nunca mais encontrei em nenhum outro lugar —
Um livro de Michael Fields, Long Ago.
De fato, já foi há muito tempo —
Seus cabelos castanhos e seu corpo esbelto.
Creio que você foi uma amante ardorosa,
Uma esposa selvagem, uma mãe
Sensual. E agora a vida já me custou
Mais anos, embora menos dor,
Do que você teve que pagar por ela.
E eu comprei de volta, para e de
Mim mesmo, esses poemas e pinturas,
Esculpidos de ossos queixosos,
As inestimáveis consequências
De sua vida louca e despedaçada.

Trad.: Nelson Santander

Delia Rexroth

California rolls into
Sleepy summer, and the air
Is full of the bitter sweet
Smoke of the grass fires burning
On the San Francisco hills.
Flesh burns so, and the pyramids
Likewise, and the burning stars.
Tired tonight, in a city
Of parvenus, in the inhuman
West, in the most blood drenched year,
I took down a book of poems
That you used to like, that you
Used to sing to music I
Never found anywhere again—
Michael Fields book, Long Ago.
Indeed its long ago now—
Your bronze hair and svelte body.
I guess you were a fierce lover,
A wild wife, an animal
Mother. And now life has cost
Me more years, though much less pain,
Than you had to pay for it.
And I have bought back, for and from
Myself, these poems and paintings,
Carved from the protesting bone,
The precious consequences
Of your torn and distraught life.

Joan Margarit – No final da noite

O ar está congelando.
Até o rouxinol mantém-se em silêncio.
Com a testa apoiada na vidraça
peço perdão às minhas filhas mortas,
porque já quase nunca penso nelas.
O tempo passou, deixando sobre a cicatriz
sua argila empoeirada, e ocorre que, mesmo
quando se ama alguém, sobrevém o esquecimento.
A luz tem a mesma aspereza das gotas
que vão, com o degelo, caindo dos ciprestes.
Ponho uma tora, removo as cinzas,
ressurge a chama entre as brasas.
Começo a fazer café
e vossa mãe, do quarto,
sorri com sua voz: Que cheiro bom.
Acordaste muito cedo esta manhã.

Trad.: Nelson Santander

Joana e Joan, em 2000. Foto: arquivo da família Margarit Ribalta

JOANA FOI ESCRITO DE 10 DE OUTUBRO DE 2000 A 1 DE SETEMBRO DE 2001

What will survive of us is love.
PHILIP LARKIN

Nota a JOANA


Este livro foi escrito violando todos os conselhos que os poetas nos damos sobre a distância obrigatória entre os fatos e o poema. Uma vez que precisava escreve-lo assim, e, ademais, já começo a ter idade suficiente para ignorar os conselhos, usei como garantia a vigilância poética — pela qual ora agradeço — de meus amigos Pere Rovira, Paco Díaz de Castro, Ramón Andrés, Enrique Badosa, Luis García Montero, Antonio Jiménez Millán, Miguel Ángel e Ana del Arco, Isidor Cònsul, Maite Merodio e Jesús Munárriz, Àlex Susanna e Sam Abrams. E de Almudena del Olmo, que, diante das minhas dúvidas, me disse: Não penses mais nisso e dá-lhe o título do que é realmente a tua obsessão: Nunca mais. Foi assim que este livro começou a ser intitulado, mas no final ganhou o nome simples da protagonista, em relação à qual, ao fim e ao cabo, o título sugerido não passava de uma afirmação filosófica. Como me recordou Sam Abrams, o mesmo corvo de Poe diz Nevermore, e o nosso Nunca mais é Never again.

AL FONDO DE LA NOCHE

Está helando en el aire.
Guarda silencio hasta el ruiseñor.
Con la frente apoyada en el cristal
pido perdón a mis dos hijas muertas,
porque ya casi nunca pienso en ellas.
El tiempo ha ido dejando sobre la cicatriz
su polvorienta arcilla, y es que, incluso
cuando uno ama a alguien, sobreviene el olvido.
La luz tiene la misma dureza de las gotas
que van, con el deshielo, cayendo del ciprés.
Pongo un leño, remuevo las cenizas,
vuelve a surgir la llama entre las brasas.
Empiezo a hacer café
y vuestra madre, desde el dormitorio,
sonríe con su voz: Qué buen aroma.
Has madrugado mucho esta mañana.

JOANA FUE ESCRITO DEL 10 DE OCTUBRE DE 2000 AL 1 DE SEPTIEMBRE DE 2001

What will survive of us is love.
PHILIP LARKIN

Nota a JOANA

Este libro fue escrito vulnerando todos los consejos que los poetas damos sobre la obligada distancia entre los hechos y el poema. Puesto que necesitaba hacerlo así y, además, ya empiezo a tener la edad de saltarme los consejos, he utilizado como garantía la vigilancia poética —que aquí agradezco— de mis amigos Pere Rovira, Paco Díaz de Castro, Ramón Andrés, Enrique Badosa, Luis García Montero, Antonio Jiménez Millán, Miguel Ángel y Ana del Arco, Isidor Cònsul, Maite Merodio y Jesús Munárriz, Àlex Susanna y Sam Abrams.Y de Almudena del Olmo, que, ante mis dudas, me dijo: No le des más vueltas y ponle por título lo que realmente es tu obsesión: Nunca más. Así se empezó titulando este libro, pero al final ha ganado el sencillo nombre de la protagonista frente al que, al fin y al cabo, no era más que una afirmación filosófica. Como me
ha recordado Sam Abrams, el mismo cuervo de Poe dice Nevermore, y nuestro Nunca más es Never again.

Joan Margarit – Um lugar perdido

UM LUGAR PERDIDO
In memoriam
Marta Ribalta i Taltavull (17-VIII-1946, 11-V-1999)
Joana Margarit i Ribalta (20-VIII-1970, 2-VI-2001)

Reluz o sol do conto de fadas
que para Marta foi esta casa
pequena e luminosa em frente aos campos.
Ninguém tocou em um único tronco
da lenha cortada e ordenada.
Joana fez um desenho para ela
onde lhe dizia: Que sejas muito feliz.
Quando Joana tinha dois anos éramos
tu e eu que lhe dizíamos:
Que sejas muito feliz.

Não é difícil imaginar que as duas
ainda estão aqui,
sentir a brisa das conversas
agitando o cortinado da porta.
Mas não há nada além de nossos olhos.
E os arranham velozes andorinhas
que agora se lançam
com seus chilreios entre as árvores frutíferas.

Trad.: Nelson Santander

UN LUGAR PERDIDO
In memoriam
Marta Ribalta i Taltavull (17-VIII-1946, 11-V-1999)
Joana Margarit i Ribalta (20-VIII-1970, 2-VI-2001)

Reluce el sol del cuento de la infancia
que para Marta fue esta luminosa,
pequeña casa enfrente de los campos.
Nadie ha tocado un solo tronco
de la leña cortada y ordenada.
Joana hizo un dibujo para ella
en donde le decía: Que seas muy feliz.
A los dos años éramos tú y yo
los que a Joana le decíamos:
Que seas muy feliz.

No es difícil pensar que, todavía,
siguen aquí las dos,
sentir la brisa de conversaciones
agitando el visillo de la puerta.
Pero no hay nada más que nuestros ojos.
Y los rayan veloces golondrinas
que ahora están lanzándose
con sus chillidos entre los frutales.

Joan Margarit – A espera

Muitas coisas estão sentindo a tua falta.
Cada dia é repleto de momentos que esperam
aquelas pequenas mãos
que seguraram as minhas tantas vezes.
Teremos de nos habituar à tua ausência.
Um verão já passou sem teus olhos
e o mar também terá que se acostumar.
Por muito tempo ainda,
a rua esperará diante de nossa porta,
pacientemente, pelos teus passos.
Não se cansará nunca de esperar:
ninguém sabe esperar como uma rua.
E a mim me domina este desejo
de que me toques e de que me olhes,
de que me digas o que fazer com minha vida,
enquanto os dias, com chuva ou céu azul,
já organizam a solidão.

Trad.: Nelson Santander

LA ESPERA

Muchas cosas te están echando en falta.
Cada día se llena de momentos que esperan
esas pequeñas manos
que cogieron las mías tantas veces.
Tendremos que avezarnos a tu ausencia.
Ya ha pasado un verano sin tus ojos
y el mar también tendrá que acostumbrarse.
Durante mucho tiempo todavía,
la calle esperará ante nuestra puerta,
con paciencia, tus pasos.
No se cansará nunca de esperar:
nada sabe esperar como una calle.
Y a mí me colma esta voluntad
de que me toques y de que me mires,
de que me digas qué hago con mi vida,
mientras los días van, con lluvia o cielo azul,
organizando ya la soledad.

Joan Margarit – Lápide

LÁPIDE
ANNA, 1967; JOANA, 1970-2001

Nossa memória guarda vossos nomes
em uma pequena praia que jamais
figurará nos mapas dos navios.
Quão próximas estais aqui, uma da outra,
minhas filhas, depois de tanto tempo.
Tão unidas agora, atrás de vossos nomes,
que olham para o mar
e que o sol lê a cada amanhecer.

Trad.: Nelson Santander

LÁPIDA
ANNA, 1967; JOANA, 1970-2001

Nuestra memoria guarda vuestros nombres
en una leve playa que jamás
figurará en los mapas de los barcos.
Qué cerca estáis aquí, la una de la otra,
hijas mías, después de tanto tiempo.
Tan juntas ya, detrás de vuestros nombres,
que miran hacia el mar
y que el sol lee cada amanecer.