Óssip Mandelstam – O ar foi todo bebido e o pão, corrompido…

O ar foi todo bebido e o pão, corrompido.
Cicatrizar as feridas é tão custoso!
O jovem José, ao Egito vendido,
Não poderia estar mais desgostoso!

Os beduínos, sob a abóboda estrelada,
A cavalo, e de olhos semicerrados,
Concebem sagas improvisadas
Sobre seu dia vagamente vivenciado.

De quase nada precisam que lhes dê alento:
Um perdeu sua aljava no arenoso chão;
Outro trocou de cavalo – os eventos
Se dissipam como a cerração;

E se alguém canta uma canção
Com verdade, de peito aberto,
Tudo desaparece – nada resta senão
As estrelas, o espaço e o bardo!

Trad.: Nelson Santander

Отравлен хлеб, и воздух выпит...

Отравлен хлеб, и воздух выпит.
Как трудно раны врачевать!
Иосиф, проданный в Египет,
Не мог сильнее тосковать!

Под звездным небом бедуины,
Закрыв глаза и на коне,
Слагают вольные былины
О смутно пережитом дне.

Немного нужно для наитий:
Кто потерял в песке колчан,
Кто выменял коня — событий
Рассеивается туман.

И, если подлинно поется,
И полной грудью, наконец,
Все исчезает — остается
Пространство, звезды и певец!

Heather McHugh – O que ele pensou

O que ele pensou
para Fabio Doplicher

Teríamos que fazer um trabalho na Itália
e, repletos dos nossos sentimentos por
nós mesmos (nossa sensação de sermos
Poetas da América) fomos
de Roma a Fano, conhecemos
o prefeito, refletimos
sobre alguns assuntos (o que é
uma piriguete, eles nos perguntaram; o que é
cerveja sem colarinho). Entre os literatos italianos

conseguíamos reconhecer nossos homólogos:
o acadêmico, o apologista,
o arrogante, o apaixonado,
o ousado e o frívolo — e havia um

administrador (o conservador), em um terno
cinza regular, que como um bom guia turístico,
em ritmo comedido e tom não flexionado, descrevia
as paisagens e histórias através das quais a van alugada nos conduzia.
De todos, ele era o mais político e o menos poético,
assim parecia. Nos nossos últimos dias em Roma
(quando todos já haviam decolado, exceto três dos Bardos do Novo Mundo),
encontrei um livro de poemas que o
desinteressante havia escrito: estava ali
no quarto da pensione (um quarto que ele havia recomendado)
no qual provavelmente fora abandonado
pelo visitante alemão (havia um ônibus deles?)
para quem ele o havia autografado e datado um mês antes.
Eu também não sabia ler italiano, então coloquei o livro
de volta no escuro do guarda-roupas. Nós, os últimos americanos,

deveríamos partir no dia seguinte. Para nossa noite de despedida então
nosso anfitrião optou por algo em um restaurante familiar, e lá
nós nos sentamos e conversamos, nos sentamos e mastigamos,
até que, sentindo que aquela era a nossa última
grande chance de sermos poéticos, e de deixarmos
nossa marca, um de nós perguntou
                                             “O que é poesia?
São as frutas e vegetais e
o mercado do Campo dei Fiori, ou
a estátua que tem lá?” Porque eu era

a frívola, identifiquei a resposta
instantaneamente, sequer precisei pensar — “Na verdade
são ambas, são as duas coisas”, deixei escapar. Mas aquilo
foi fácil. Aquilo foi o mais fácil de se dizer. O que se seguiu
ensinou-me algo sobre dificuldade,
pois nosso subestimado anfitrião começou a falar,
de repente, com paixão crescente, e disse:

A estátua representa Giordano Bruno,
trazido para ser queimado em praça pública
por ofender a
autoridade, ou seja,
a Igreja. Seu crime foi crer que
o universo não gira em torno
do ser humano: Deus não é
um ponto fixo ou o poder central, e sim
vertido em ondas sobre todas as coisas. Tudo se
move. “Se Deus não é a própria alma, Ele é
a alma da alma do mundo.” Tal foi a
sua heresia. No dia em que o trouxeram
para morrer, eles temiam que ele pudesse
incitar a multidão (o homem era famoso
por sua eloquência). E assim seus captores
colocaram sobre o seu rosto
uma máscara de ferro, sob a qual

ele não podia falar. Foi
assim que o queimaram. Foi assim que
ele morreu: sem uma palavra, na frente
de todos.
                     E a poesia —
                                        (todos nós
já tínhamos pousado nossos garfos para ouvir
o homem de cinza; ele continuou
suavemente) —
                  poesia é o que

ele pensou, mas não disse.

Trad.: Nelson Santander

What He Thought
for Fabio Doplicher

We were supposed to do a job in Italy
and, full of our feeling for
ourselves (our sense of being
Poets from America) we went
from Rome to Fano, met
the mayor, mulled
a couple matters over (what’s
a cheap date, they asked us; what’s
flat drink). Among Italian literati

we could recognize our counterparts:
the academic, the apologist,
the arrogant, the amorous,
the brazen and the glib—and there was one

administrator (the conservative), in suit
of regulation gray, who like a good tour guide
with measured pace and uninflected tone narrated
sights and histories the hired van hauled us past.
Of all, he was the most politic and least poetic,
so it seemed. Our last few days in Rome
(when all but three of the New World Bards had flown)
I found a book of poems this
unprepossessing one had written: it was there
in the pensione room (a room he’d recommended)
where it must have been abandoned by
the German visitor (was there a bus of them?)
to whom he had inscribed and dated it a month before.
I couldn’t read Italian, either, so I put the book
back into the wardrobe’s dark. We last Americans

were due to leave tomorrow. For our parting evening then
our host chose something in a family restaurant, and there
we sat and chatted, sat and chewed,
till, sensible it was our last
big chance to be poetic, make
our mark, one of us asked
“What’s poetry?”
Is it the fruits and vegetables and
marketplace of Campo dei Fiori, or
the statue there?” Because I was

the glib one, I identified the answer
instantly, I didn’t have to think—”The truth
is both, it’s both,” I blurted out. But that
was easy. That was easiest to say. What followed
taught me something about difficulty,
for our underestimated host spoke out,
all of a sudden, with a rising passion, and he said:

The statue represents Giordano Bruno,
brought to be burned in the public square
because of his offense against
authority, which is to say
the Church. His crime was his belief
the universe does not revolve around
the human being: God is no
fixed point or central government, but rather is
poured in waves through all things. All things
move. “If God is not the soul itself, He is
the soul of the soul of the world.” Such was
his heresy. The day they brought him
forth to die, they feared he might
incite the crowd (the man was famous
for his eloquence). And so his captors
placed upon his face
an iron mask, in which

he could not speak. That’s
how they burned him. That is how
he died: without a word, in front
of everyone.
And poetry—
(we’d all
put down our forks by now, to listen to
the man in gray; he went on
softly)—
poetry is what

he thought, but did not say.

Agi Mishol – A mártir

“A noite fica cega, e você tem apenas vinte anos.”
– Nathan Alterman, “Late Afternoon in the Market”

Você tem apenas vinte anos
e sua primeira gravidez é uma bomba.
Sob sua folgada saia você está grávida de dinamite
e fragmentos de metal. É assim que você entra no mercado
tiquetaqueando entre as pessoas, você, Andalleb Takatka.

Alguém soltou os parafusos de sua cabeça
e lançou-lhe em direção à cidade;
embora tenha vindo de Belém,
a Casa do Pão, você escolheu uma padaria.
E ali puxou o pino de segurança para fora de si mesma,
e junto com o pão do Sabbat,
sementes de sésamo e gergelim,
você se atirou em direção ao céu.

Juntamente com Rebecca Fink você voou
com Yelena Konre’ev do Cáucaso
e Nissim Cohen do Afeganistão
e Suhila Houshy do Irã
e dois chineses que você também arrastou
para a morte.

Desde então, outros assunto
têm obscurecido a sua história,
sobre a qual eu falo o tempo todo
sem ter nada a dizer.

Trad.: Nelson Santander

 WOMAN MARTYR

“The evening goes blind, and you are only twenty.”
– Nathan Alterman, “Late Afternoon in the Market”

You are only twenty
and your first pregnancy is a bomb.
Under your broad skirt you are pregnant with dynamite
and metal shavings. This is how you walk in the market,
ticking among the people, you, Andaleeb Takatka.

Someone loosened the screws in your head
and launched you toward the city;
even though you come from Bethlehem,
the Home of Bread, you chose a bakery.
And there you pulled the trigger out of yourself,
and together with the Sabbath loaves,
sesame and poppy seed,
you flung yourself into the sky.

Together with Rebecca Fink you flew up
with Yelena Konre’ev from the Caucasus
and Nissim Cohen from Afghanistan
and Suhila Houshy from Iran
and two Chinese you swept along
to death.

Since then, other matters
have obscured your story,
about which I speak all the time
without having anything to say.

Traduzido do hebraico para o inglês por Lisa Katz

Jane Kenyon – Desmontando a árvore

“Deem-me um pouco de luz!” grita o tio
de Hamlet em meio ao assassinato
de Gonzaga. “Luz! Luz!” choram as cortesãs
em dispersão. Aqui, como na Dinamarca,
é escuro às quatro, e até a lua
brilha apenas com a metade de um coração.

Os enfeites vão para a caixa:
o spaniel prateado – com Meu amor
na coleira – da infância de mamãe
no Illinois; o polichinelo de madeira de balsa
pelo qual meu irmão e eu brigamos,
puxando membro por membro. Mamãe
remendou-o novamente com linha
enquanto eu observava, sentindo-me depravada
aos dez anos de idade.

Com algo mais do que cautela
eu os manuseio, e as luzes, com seus
espelhos refletores em forma de estrela, trazidas
de casa em casa, suas caixas de papelão
de brinquedo cada vez mais frágeis.
Tic, tic, fazem as secas agulhas ao cair.

Na hora do jantar, tudo o que resta é o cheiro
do pinheiro. Se é para termos
escuridão, que seja extravagante.

Trad.: Nelson Santander

Taking Down the Tree

“Give me some light!” cries Hamlet’s
uncle midway through the murder
of Gonzago. “Light! Light!” cry scattering
courtesans. Here, as in Denmark,
it’s dark at four, and even the moon
shines with only half a heart.

The ornaments go down into the box:
the silver spaniel, My Darling
on its collar, from Mother’s childhood
in Illinois; the balsa jumping jack
my brother and I fought over,
pulling limb from limb. Mother
drew it together again with thread
while I watched, feeling depraved
at the age of ten.

With something more than caution
I handle them, and the lights, with their
tin star-shaped reflectors, brought along
from house to house, their pasteboard
toy suitcases increasingly flimsy.
Tick, tick, the desiccated needles drop.

By suppertime all that remains is the scent
of balsam fir. If it’s darkness
we’re having, let it be extravagant.

Samuraitiger19 – Nos minutos finais de sua vida, Calvin teve uma última conversa com Haroldo…

“Calvin? Calvin, querido?”

No escuro, Calvin ouviu a voz de Susie, sua esposa de 53 anos. Calvin se esforçou para abrir os olhos. Deus, ele se sentia tão cansado e foi preciso muita força para conseguir. Lentamente a luz espantou as trevas, e ele enxergou novamente. Aos pés de sua cama estava sua esposa. Calvin molhou os lábios ressequidos e falou com voz rouca: “Você… o… encontrou?”

“Sim, querido”, disse Susie, com tristeza na voz. “Ele estava no sótão.”

Susie enfiou a mão dentro de sua grande bolsa e tirou para fora um velho e macio tigre cor de laranja. Calvin não pôde deixar de rir. Havia sido assim por muito tempo. Muito tempo.

“Eu o lavei para você”, disse Susie, sua voz falhando um pouco enquanto ela colocava o tigre de pelúcia ao lado de seu marido.

“Obrigado, Susie”, disse Calvin.

Por algum tempo, Calvin apenas permaneceu deitado em sua cama de hospital, a cabeça virada para o lado, olhando o velho brinquedo com nostalgia.

“Querida”, Calvin disse finalmente, “Você se importaria em me deixar sozinho com o Haroldo por um tempo? Eu gostaria de conversar com ele.”

“Tudo bem”, disse Susie. “Vou pegar algo para comer no restaurante. Volto daqui a pouco.”

Susie beijou seu marido na testa e virou-se para sair. Com força repentina, mas suavemente, Calvin a deteve. Carinhosamente, ele puxou sua esposa e lhe deu um beijo apaixonado nos lábios. “Eu te amo”, disse Susie.

Susie se virou e saiu. Calvin viu as lágrimas que escorriam em seu rosto enquanto ela passava pela porta.

Calvin então se virou para encarar seu mais antigo e querido amigo. “Oi, Haroldo. Já faz muito tempo, não é, velho amigo?”

Haroldo não era mais um boneco de pelúcia, mas o grande e velho tigre peludo de quem Calvin sempre se lembrava. “Muito tempo, Calvin”, disse Haroldo.

“Você… não mudou nem um pouco.” Calvin sorriu.

“Você mudou bastante”, disse Haroldo com tristeza.

Calvin sorriu. “Mesmo? Eu nem percebi.”

Houve uma longa pausa. O som de um relógio tiquetaqueando os segundos ecoou no estéril quarto de hospital.

“Então… Você se casou com a Susie Derkins”, disse Haroldo, finalmente sorrindo. “Eu sempre soube que você gostava dela.”

“Cale a boca!”, Calvin falou, com um imenso sorriso no rosto.

“Conte tudo o que eu perdi. Eu adoraria saber o que você tem feito!”, Haroldo falou, entusiasmado.

E assim Calvin disse-lhe tudo. Contou como ele e Susie se apaixonaram quando ainda estavam na escola e como haviam se casado logo depois de se formar; sobre seus três filhos e quatro netos; sobre como ele transformou o Astronauta Spiff em um dos mais populares romances de ficção científica da década, e assim por diante. Depois de contar tudo para Haroldo houve novamente uma longa pausa.

“Você sabe… Eu visitei você no sótão um monte de vezes.” Calvin disse.

“Eu sei.”

“Mas eu não conseguia vê-lo. Tudo o que eu enxergava era um bicho de pelúcia”. Sua voz estava embargada e lágrimas de arrependimento começaram a jorrar de seus olhos.

“Você cresceu, velho amigo”, disse Haroldo.

Calvin não resistiu mais e soluçou, abraçando seu melhor amigo. “Eu sinto muito! Eu sinto muito! Eu quebrei minha promessa! Eu havia prometido que não iria crescer e que nós ficaríamos juntos para sempre!”

Haroldo acariciou os cabelos de Calvin, ou o pouco que restava deles. “Mas você não a quebrou.”

“Como assim?”

“Estávamos sempre juntos… em nossos sonhos.”

“Estávamos?”

“Sim.”

“Haroldo?”

“Sim, velho amigo?”

“Estou tão feliz por ter visto você assim… uma última vez…”

“Eu também, Calvin. Eu também.”

“Querido?”, a voz de Susie soou atrás da porta.

“Sim, querida?”, respondeu Calvin.

“Posso entrar?”, Susie perguntou.

“Só um minuto.”

Calvin voltou-se para Haroldo pela última vez. “Adeus, Haroldo. Obrigado… por tudo…”

“Não. Eu que agradeço, Calvin”, Haroldo disse.

Calvin voltou-se para a porta e disse: “Pode entrar agora.”

Susie entrou e disse: “Olha quem veio visitá-lo.”

Os filhos e netos de Calvin seguiram Susie quarto adentro. O neto mais novo ultrapassou correndo todos os outros e deu um forte e entusiasmado abraço em Calvin. “Vovô!!”, gritou a criança, visivelmente feliz.

“Francis!”, ralhou a filha de Calvin, “Seja gentil com seu avô.”

A filha de Calvin voltou-se para ele. “Sinto muito, papai. Francis não tem se comportado muito bem nos últimos tempos. Ele só corre e faz bagunça e agora deu pra vir com umas histórias estranhas.”

Calvin sorriu e disse: “Olha só! O mesmo que diziam de mim quando eu tinha a idade dele.”

Calvin e sua família conversaram um pouco mais, até que uma enfermeira disse: “Desculpem, o horário de visitas está quase terminando.”

Os entes queridos de Calvin se despediram, prometendo voltar no dia seguinte. Enquanto eles se preparavam para sair, Calvin disse: “Francis. Venha aqui um pouco.”

Francis chegou perto do avô, “O que é isso, vovô?”

Calvin pegou o tigre de pelúcia que estava em sua cabeceira e, com as mãos trêmulas, o estendeu para seu neto, que olhou para o tigre exatamente como ele fizera muitos anos atrás. “Este é o Haroldo. Ele era o meu melhor amigo quando eu tinha a sua idade. Eu quero que ele seja seu agora.”

“É apenas um tigre de pelúcia”, Francis disse, com as sobrancelhas levantadas.

Calvin sorriu: “Bem, deixe-me contar-lhe um segredo.”

Francis inclinou-se para Calvin. Calvin sussurrou: “Se você capturá-lo com uma armadilha para tigres usando um sanduíche de atum como isca ele se transformará em um tigre de verdade”.

Francis suspirou, com reverente admiração. Calvin continuou: “E não é só isso, ele será seu melhor amigo para sempre.”

“Uau! Obrigado, vovô!” Francis disse, abraçando seu avô com força novamente.

“Francis, precisamos ir agora.”, chamou a filha de Calvin.

“Ok!”, gritou Francis de volta.

“Cuide bem dele”, Calvin disse.

“Sim”, Francis disse, antes de sair correndo atrás dos outros membros da família.

Calvin se deitou de costas e olhou para o teto. A hora de partir estava chegando. Ele podia senti-lo na alma. Calvin tentou se lembrar de uma frase que ele leu em um livro uma vez. Ela dizia algo sobre a morte ser a próxima grande aventura ou algo parecido. Suas pálpebras ficaram pesadas e sua respiração tornou-se mais lenta. Enquanto mergulhava em seu sono final, ele ouviu a voz de Haroldo, como se o tigre estivesse ao seu lado. “Eu vou cuidar dele, Calvin…”

Calvin deu seu primeiro passo em direção a mais uma aventura e seu último suspiro com um sorriso no rosto.

NOTA: Conto publicado no Reddit, escrito por samuraitiger19, e livremente traduzido por mim. Embora se trate de uma história relativamente simples, escrita sem grande apuro literário, seu autor conseguiu – a se crer nos comentários dos leitores – a façanha de fazer chorar um número enorme de visitantes que leram a historieta. Por que será? Eu tenho um palpite. Quem teve a sorte de ter em mãos e ler as tirinhas com as histórias de Calvin e Haroldo, magistralmente escritas e desenhadas por Bill Watterson, ingressou em um universo que remete diretamente à infância que não é apenas a do personagem, mas também a do leitor. Esse talvez seja o segredo do sucesso das tirinhas que, embora tenham sido descontinuadas desde 1995, continuam ganhando fãs até hoje mundo afora: a capacidade de reviver em nós, leitores, nossa infância perdida. Então chega um aspirante a escritor e conta uma história em que são narrados os últimos minutos de vida do adorado personagem, valendo-se de alguns dos inúmeros elementos das tirinhas (o tigre que “ganha vida” aos olhos do personagem principal; a “armadilha para tigres”; a valorização de alguns aspectos da infância, como a imaginação e a amizade; Susie Derkins; o Astronauta Spiff), o que causa uma imediata sensação de identificação, como se o conto fosse mesmo a última história sobre Calvin. E pensamos: “Sim, esses poderiam ser realmente os últimos momentos do Calvin”. E no final, como era de se esperar, Calvin morre. Assim como morreu já há muito tempo nossa infância. E aqui está aquilo que julgo ser o maior mérito do conto: o de nos lembrar que tudo tem um fim e que nem mil tigres de pelúcia conseguiriam impedir a passagem do tempo e toda a transformação que ela provoca.
Tá bom, eu confesso: também chorei quando li a historinha…

Link para a o original:

In the final minutes of his life, Calvin has one last talk with Hobbes.

REPUBLICAÇÃO. Texto publicado originalmente no blog em 28/02/2016.

Henri Cole – Cerejeiras choronas

Em um platô, com pequenas montanhas,
um rio lamacento, perigoso quando a neve derretia,
um vale fértil, criadores de gado, e um conservatório musical,
um povo alto, belo, ágil, de negros cabelos lisos
e um espírito empreendedor, vivia pacificamente. Embora
nunca tenha havido ódio entre as raças,
após uma discussão sobre questões locais, massacres ocorreram.
Homens, mulheres & crianças pilhados & deportados — evacuação,
foi como eles chamaram. Cabeças empaladas em galhos. Montes
de cadáveres, como flores macabras atadas umas às outras.
Um navio que passava transportou alguns deles para um porto distante,
onde mamãe nasceu — embora agora ela também tenha desaparecido
para o universo — e o frio acobreou as cerejeiras choronas,
vermelho vivo mesclado com melancólico azul.

Trad: Nelson Santander

Weeping cherry

On a plateau, with little volcanic mountains,
a muddy river, dangerous when the snow melts,
a fertile valley, cattle breeders, and a music academy,
a tall, handsome, agile people, with straight black hair
and an enterprising spirit, lived peaceably. Though
there had never been hatred between the races,
after a quarrel over local matters, massacres came.
Men, women, & children robbed & deported—an evacuation,
they called it. Heads impaled on branches. Mounds
of corpses, like grim flowers knotted together.
A passing ship transported a few to a distant port,
where Mother was born, though now she, too,
has vanished into the universe, and the cold browns
the weeping cherry, vivid red mixed with blue.

Robyn Sarah – Ao fechar o apartamento dos meus avós de abençoada memória

E então eu me vi naquela sala pela vez final.
Mantive-me firme, com a chave em minha mão,
e ouvi o silêncio que era como um som,
e percebi como o longo sol da tarde invernal
baixava de maneira oblíqua ao chão
fazendo florir os veios do assoalho. (Tudo o que eles um dia
possuíram estava guardado aqui.) Na janela gemia
um estilhaço de vento. Em breve eu partiria.

Em breve eu partiria; mas primeiro eu permaneci,
ouvindo a passagem dos anos naquela área desabitada
em que a plenitude ecoava. Em que o conhecido cheiro,
de uma vida tranquila, vivida com simplicidade, se agarrava ali
como uma graça duradoura, um sentimento, uma melodia há muito amada.
Então eu fechei tudo e toquei a campainha do porteiro.

/Trad.: Nelson Santander

On Closing the Apartment of my Grandparents of Blessed Memory

And then I stood for the last time in that room.
The key was in my hand. I held my ground,
and listened to the quiet that was like a sound,
and saw how the long sun of winter afternoon
fell slantwise on the floorboards, making bloom
the grain in the blond wood. (All that they owned
was once contained here.) At the window moaned
a splinter of wind. I would be going soon.

I would be going soon; but first I stood,
hearing the years turn in that emptied place
whose fullness echoed. Whose familiar smell,
of a tranquil life, lived simply, clung like a mood
or a long-loved melody there. A lingering grace.
Then I locked up, and rang the janitor’s bell.

William Ernest Henley – Invictus

No meio da noite que me abraça,
Negra como um Poço em sua inteireza,
Agradeço a cada Deus pela graça
De minha invencível natureza.

Nas terríveis garras das circunstâncias
Não recuei nem alteei meu pranto.
Debaixo dos golpes das contingências
Minha fronte sangra – altiva, no entanto.

Além deste lugar de desenganos,
Somente o Horror das sombras desponta,
E entretanto a ameaça dos anos
Deve me encontrar sem medo, e encontra.

Não importa se o portão é mofino,
Se a Lei é repleta de punição
Eu sou o condutor do meu destino
Eu sou de minha alma o capitão

Trad.: Nelson Santander

Invictus

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

Republicação

Lisel Mueller – De passagem

A rapidez com que o mel filtrado
da luz da tarde
flui para a escuridão

e o fechado broto livra-se
de seu singular mistério
a fim de desabrochar:

como se o que existe, exista
para poder perder-se
e tornar-se precioso.

Trad.: Nelson Santander

In Passing

How swiftly the strained honey
of afternoon light
flows into darkness

and the closed bud shrugs off
its special mystery
in order to break into blossom:

as if what exists, exists
so that it can be lost
and become precious.

Jane Hirshfield – Um dia é vasto

Um dia é vasto.
Até o meio-dia.
Depois acaba.

A água da lagoa de ontem, entrelaçada,
ainda está molhada em meus cabelos.

Eu não sei o que é o tempo.

Você nunca pode encontra-lo.
Mas você pode perde-lo.
Trad.: Nelson Santander
A Day Is Vast

A day is vast.
Until noon.
Then it’s over.

Yesterday’s pondwater
braided still wet in my hair.

I don’t know what time is.

You can’t ever find it.
But you can lose it.