Felipe Benítez Reyes – Uma Forma de Eternidade

Então o medo era isto?
Não os ameaçadores
fantasmas do pensamento e da consciência.
Não os longos corredores de hospitais
com lâmpadas fluorescentes dia e noite.
Nem sequer o tremor de irrealidade
que permanece na alma se te recordas.

O medo, aparentemente, é calmo:

Chega quando fechas a janela
e compreendes que tudo quanto vês
é o mesmo que ontem, e será
igual amanhã e para sempre.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com pequenas alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 25/06/2018

Felipe Benítez Reyes – Una Forma de Eternidad

Pero ¿el miedo era esto?
No los amenazantes
fantasmas del pensamiento y la conciencia.
No los largos pasillos de hospitales
con tubos fluorescentes día y noche.
Ni siquiera el temblor de irrealidad
que se queda en el alma si recuerdas.

El miedo, al parecer, es sosegado:

te llega cuando cierras la ventana
y comprendes que todo cuanto miras
es lo mismo que ayer, y que lo mismo
volverá a ser mañana y para siempre.

Cheryl Pearson – Contando estrelas

O cheiro de gelo nos pinheiros. Frio e verde,
como uma lufada de hortelã. Suas omoplatas como asas de anjo
cortando a grama. Moisés dividiu as águas assim mesmo.
Não foi tão milagroso quanto isto. Nós. Sua pele, a brancura dela brilhando
através do algodão. Você faz um círculo com o polegar e o indicador,
uma lente telescópica. E diz: Vamos tentar contar as estrelas, e eu observo
enquanto você vasculha o universo de ponta a ponta para mim, toda aquela velha e variada luz
numerada, definida, caindo pelo aro ósseo como um punhado de sal.
Agora eu sei. Como as galáxias colapsam.
Como mundos inteiros podem nascer de uma garganta.

Trad.: Nelson Santander

Counting Stars

The smell of ice in the pines. Cold and green,
like lungfuls of mint. Your shoulderblades like angelwings
cleaving the grass. Moses parted water like that.
It wasn’t as miraculous as this. Us. Your skin, the white of it shining
through cotton. You make a circle of thumb and finger,
a telescopic lens. You say, Let’s try and count the stars, and I watch
as you sift the universe through to me, all that old assorted light
numbered, defined, falling through the bone ring like so much salt.
I know it now. How galaxies collapse.
How whole worlds can be born in a throat.

Joan Margarit – Shostakovich. Sinfonia ‘Leningrado’

Lembras-te? Joana1 havia morrido.
Íamos para o norte, tu e eu, de carro,
para o apartamento junto ao mar,
e ouvíamos esta sinfonia.
Iniciamos a viagem em uma manhã
luminosa e, dentro da música,
o dia era de muros cobertos pelo gelo,
sombras com sacos meio cheios
e, no lago, trenós com cadáveres.
Como uma pista de aeroporto ao sol,
fugia a estrada, e por trás dos sons se estendia
uma névoa de obuses ocultando
os rastros dos tanques na neve.
Foi em julho, em uma manhã azul dourada
que brilhava no cristal do mar.
Os metais e cordas ressoavam
gloriosamente – no passado, como sempre;
rejeitando a vida, como sempre.

À noite não se ouvia nenhum outro rumor
que o das ondas sob o terraço.
Por outro lado, dentro de nós,
como ocorria dentro da música,
rugia a tempestade de neve e ferro
que desata a história ao virar a página.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: 1. Joana foi uma das filhas do poeta, falecida em 2001, aos 30 anos de idade, em decorrência de um câncer. Portadora de uma doença genética rara, sua presença permeia toda a obra de Joan Margarit. Em sua homenagem, o autor escreveu a coleção de poemas Joana, inteiramente dedicada à filha, e considerada sua obra-prima. Em 2021, tive o prazer de traduzir o livro na íntegra para o blog (aqui).

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 21/06/2018

Joan Margarit – Shostakovich. Sinfonía “Leningrado”

¿Lo recuerdas? Joana había muerto.
Íbamos hacia el norte, tú y yo, en coche,
hasta el apartamento junto al mar,
y escuchábamos esta sinfonía.
Iniciamos el viaje una mañana
llena de luz y, dentro de la música,
el día era de muros cubiertos por el hielo,
sombras con sacos a medio llenar
y, en el lago, trineos con cadáveres.
Como una pista de aeropuerto al sol,
huía la autopista e trás de los sonidos se extendía
una niebla de obuses ocultando
las huellas de los tanques en la nieve.
Fue en julio, una mañana de oro azul
que destellaba en el cristal del mar.
Los metales y cuerdas resonaban
con la gloria, en pasado como siempre,
rechazando la vida, como siempre.

De noche no se oía más rumor
que el de las olas bajo la terraza.
En cambio, dentro de nosotros,
como ocurría dentro de la música,
rugía el temporal de nieve y hierro
que desata la historia al pasar página.

Ada Limón – O real motivo

Eu não tenho nenhuma tatuagem, elas não fazem parte da minha história, e sim da história
de minha mãe. Certa vez, caminhando pela Bedford Avenue quando tinha vinte e poucos anos,

liguei para ela como costumava fazer, como faço. E disse-lhe que queria uma
tatuagem na nuca. Algo discreto, mas permanente,

e como ela é uma artista, eu queria que ela fizesse a arte, um símbolo —
um peixe com o qual eu sonhava todas as noites. Um amuleto aquático, um presente

de mãe em meu corpo. Para ser honesta, pensei que ela ficaria honrada. Mas nós
realmente conhecemos uns aos outros completamente? Um silêncio como num quarto de hospital; ela

estava em lágrimas. Eu jurei que não faria uma. Que não permitiria que uma agulha
tocasse a minha pele, meu braço, meu torso. Eu permaneceria eu mesma, com a pele

com a qual ela me acolheu no mundo. Só mais tarde eu soube que
o problema não era tanto a tatuagem, mas a marca, a ideia

de cicatrizes. O que você não sabe (e é por isso que esta não é a minha história)
é que minha mãe tem cicatrizes de queimadura em grande parte do corpo.

A maioria de uma explosão, que levou o primeiro filho que ela carregava
na barriga; outras, dos enxertos de pele com a pele que eles levaram para cobrir

o que era necessário. Ela tinha vinte e poucos anos quando isso aconteceu.
Na frente do seu estúdio, no centro da cidade. Você tem que entender,

minha mãe é linda. Alta e elegante, magra e forte. Eu nunca a
conheci de outra maneira, sua pele que mapeei com meus dedos

juvenis, a estranha dureza em alguns lugares, os padrões como retalhos aqui,
leitos de rios ali. Ela é assombrosa, sobrenatural, sobreviveu ao fogo,

ao fim do filho por nascer. O calor e a chama e a morte, tudo isso a tornou
algo quase mágico, uma fênix. O que sei

agora é que ela queria outra coisa para mim. Para que eu acordasse todas
as manhãs e reconhecesse minha própria carne, para que essa coisa que ela fez —

eu — permanecesse como ela planejou, para que uma de nós
saísse ilesa.

Trad.: Nelson Santander

The Real Reason

I don’t have any tattoos is not my story to tell. It’s my
mother’s. Once, walking down Bedford Avenue in my twenties,

I called her as I did, as I do. I told her how I wanted a tattoo
on the back of my neck. Something minor, but permanent,

and she is an artist, I wanted her to create the design, a symbol,
a fish I dream of every night. An underwater talisman, a mother’s

gift on my body. To be clear, I thought she’d be honored. But do we
ever really know each other fully? A silence like a hospital room; she

was in tears. I swore that I wouldn’t get one. Wouldn’t let a needle
touch my skin, my arm, my torso. I’d stay me, my skin the skin

she welcomed me into the world with. It wasn’t until later that
I knew it wasn’t so much the tattoo, but the marking, the idea

of scars. What you don’t know (and this is why this is not my story)
is that my mother is scarred from burns over a great deal of her body.

Most from an explosion that took her first child she was carrying
in her belly, others from the skin grafts where they took skin to cover

what needed it. She was in her late twenties when that happened.
Outside her studio in the center of town. You have to understand,

my mother is beautiful. Tall and elegant, thin and strong. I have not
known her any other way, her skin that I mapped with my young

fingers, its strange hardness in places, its patterns like quilts here,
riverbeds there. She’s wondrous, preternatural, survived fire,

the ending of an unborn child. Heat and flame and death, all made
her into something seemingly magical, a phoenixess. What I know

now is she wanted something else for me. For me to wake each
morning and recognize my own flesh, for this thing she made—

me—to remain how she intended, for one of us
to make it out unscathed.

Adrienne Rich – (Dedicatórias)

Eu sei que você está lendo este poema
tarde, antes de deixar o seu escritório
com uma intensa luz amarelada e uma janela fosca
na lassidão de um prédio silencioso e desbotado
muito depois da hora do rush. Eu sei que você está lendo este poema
em pé em uma livraria distante do oceano
em um dia cinzento do início da primavera, fracos flocos
impulsionados pelos vastos espaços das planícies ao seu redor.
Eu sei que você está lendo este poema
em um quarto onde coisas demais aconteceram com você,
onde as roupas de cama repousam em rolos estagnados sobre o colchão
e a mala aberta fala de fuga,
mas você não pode partir ainda. Eu sei que você está lendo este poema
enquanto o metrô reduz a velocidade e antes de subir correndo as escadas
para um novo tipo de amor
que a sua vida nunca permitiu.
Eu sei que você está lendo este poema à luz
da tela da televisão onde imagens sem som tremeluzem e se movimentam
enquanto você aguarda as notícias da intifada.
Eu sei que você está lendo este poema em uma sala de espera
de olhos que se encontram e se desencontram e de identificação com estranhos.
Eu sei que você está lendo este poema à luz fluorescente
do tédio e do cansaço de jovens que são subestimados,
e subestimam a si mesmos, em uma idade muito precoce. Eu sei
que você está lendo este poema através de sua visão fraca, as grossas
lentes ampliando estas letras além de todo significado, mas você segue lendo
porque mesmo o alfabeto é precioso.
Eu sei que você está lendo este poema enquanto caminha impaciente ao lado do fogão
onde o leite é aquecido, uma criança chorando em seu ombro, um livro em sua mão
porque a vida é curta e você também tem sede.
Eu sei que você está lendo este poema que não está em seu idioma,
adivinhando algumas palavras enquanto outras prendem a sua atenção
e eu quero saber que palavras são estas.
Eu sei que você está lendo este poema enquanto ouve algo, entre a amargura e a esperança,
e retornando à tarefa que você não pode recusar.
Eu sei que você está lendo este poema porque não há mais nada para ler
onde você desembarcou, despojado como está.

Trad.: Nelson Santander

(Dedications)

I know you are reading this poem
late, before leaving your office
of the one intense yellow lamp-spot and the darkening window
in the lassitude of a building faded to quiet
long after rush-hour. I know you are reading this poem
standing up in a bookstore far from the ocean
on a grey day of early spring, faint flakes driven
across the plains’ enormous spaces around you.
I know you are reading this poem
in a room where too much has happened for you to bear
where the bedclothes lie in stagnant coils on the bed
and the open valise speaks of flight
but you cannot leave yet. I know you are reading this poem
as the underground train loses momentum and before running up the stairs
toward a new kind of love
your life has never allowed.
I know you are reading this poem by the light
of the television screen where soundless images jerk and slide
while you wait for the newscast from the intifada.
I know you are reading this poem in a waiting-room
of eyes met and unmeeting, of identity with strangers.
I know you are reading this poem by fluorescent light
in the boredom and fatigue of the young who are counted out,
count themselves out, at too early an age. I know
you are reading this poem through your failing sight, the thick
lens enlarging these letters beyond all meaning yet you read on
because even the alphabet is precious.
I know you are reading this poem as you pace beside the stove
warming milk, a crying child on your shoulder, a book in your hand
because life is short and you too are thirsty.
I know you are reading this poem which is not in your language
guessing at some words while others keep you reading
and I want to know which words they are.
I know you are reading this poem listening for something, torn between bitterness and hope
turning back once again to the task you cannot refuse.
I know you are reading this poem because there is nothing else left to read
there where you have landed, stripped as you are.

Hayden Carruth – Ensaio

Tantos poemas sobre mortes de animais.
O sapo de Wilbur, o ouriço de Kinnell, o esquilo de Eberhart,
e aquele poema de alguém – Hecht? Merrill? –
sobre cremar uma marmota. Mas sobretudo
eu me lembro do número ultrajante deles,
como se todo poeta, inclusive eu, tivesse escrito ao menos
uma elegia animal; como resultado, hoje,
quando cheguei a um poema suficientemente bom de Edwin Brock
sobre encontrar uma raposa morta na beira do mar
eu fiquei sem resposta; como se o choque permanente
houvesse me anestesiado. E então, depois de um momento,
comecei a ceder à tristeza (analisando-me sem
emoção enquanto isso), não apenas porque
parte do meu ser havia sido violada e anulada,
mas pelo fato de todos estes muitos poemas ao longo dos anos
terem sido necessários – apropriados e corretos. Esta
tem sido a era de acabar com os animais.
Eles estão partindo – seus pelos e seus olhos selvagens,
suas vozes. Cervos saltam e saltam na frente
de estridentes snowmobiles até saltarem para
fora da existência. Falcões circulam uma ou duas vezes
acima de seus ninhos destruídos e depois sobem
até as estrelas. Eu tenho vivido com eles por cinquenta anos,
nós temos vivido com eles por cinquenta milhões de anos,
e agora eles estão indo, quase se foram. Não sei
se os animais são capazes de reprovação.
Mas claramente eles não se dão ao trabalho de se despedir.

Trad.: Nelson Santander

Essay

So many poems about the deaths of animals.
Wilbur’s toad, Kinnell’s porcupine, Eberhart’s squirrel,
and that poem by someone – Hecht? Merrill? –
about cremating a woodchuck. But mostly
I remember the outrageous number of them,
as if every poet, I too, had written at least
one animal elegy; with the result that today
when I came to a good enough poem by Edwin Brock
about finding a dead fox at the edge of the sea
I could not respond; as if permanent shock
had deadened me. And then after a moment
I began to give way to sorrow (watching myself
sorrowlessly the while), not merely because
part of my being had been violated and annulled,
but because all these many poems over the years
have been necessary – suitable and correct. This
has been the time of the finishing off of the animals.
They are going away – their fur and their wild eyes,
their voices. Deer leap and leap in front
of the screaming snowmobiles until they leap
out of existence. Hawks circle once or twice
above their shattered nests and then they climb
to the stars. I have lived with them fifty years,
we have lived with them fifty million years,
and now they are going, almost gone. I don’t know
if the animals are capable of reproach.
But clearly they do not bother to say good-bye.

W. S. Merwin – Para o aniversário da minha morte

Todo ano, sem perceber, passo pelo dia
Em que as últimas chamas acenarão para mim
E o silêncio colocar-se-á a caminho
Infatigável viajante
Como os feixes de uma estrela sem luz

Então, não me encontrarei
Na vida como em um estranho traje
Surpreso com a terra
E o amor de uma mulher
E a desfaçatez dos homens
Como hoje escrevendo após três dias de chuva
Ouvindo a curruíra cantar e o cessar da precipitação
E reverenciando sem saber a quê

Trad.: Nelson Santander

For the Anniversary of My Death

Every year without knowing it I have passed the day
When the last fires will wave to me
And the silence will set out
Tireless traveler
Like the beam of a lightless star

Then I will no longer
Find myself in life as in a strange garment
Surprised at the earth
And the love of one woman
And the shamelessness of men
As today writing after three days of rain
Hearing the wren sing and the falling cease
And bowing not knowing to what

Gwen Harwood – No parque

Ela se senta no parque. São antiquados os seus trajes.
Duas crianças choram e brigam, puxam-lhe o babado.
Uma outra traça padrões ao acaso no gramado
Alguém que há muito tempo ela amou passa – tarde

demais para fingir desdém ao aceno casual.
“Que prazer” blá blá blá. “O tempo sempre nos surpreende.”
Da cabeça perfeita dele claramente ascende
um pequeno balão…”por pouco fui eu que me dei mal…”

Eles ficam sob a luz bruxuleante, exercitando
os nomes e aniversários das crianças. “É tão
bom ouvir suas conversas, vê-los crescer, vicejar”,
diz ela ao sorriso de adeus dele. Depois, aleitando
a caçula, senta-se e os pés dela seus olhos fitam.
“Elas estão me comendo viva”, diz ela ao ar.

Trad.: Nelson Santander

In the park

She sits in the park. Her clothes are out of date.
Two children whine and bicker, tug her skirt.
A third draws aimless patterns in the dirt
Someone she loved once passed by – too late

to feign indifference to that casual nod.
“How nice” et cetera. “Time holds great surprises.”
From his neat head unquestionably rises
a small balloon…”but for the grace of God…”

They stand a while in flickering light, rehearsing
the children’s names and birthdays. “It’s so sweet
to hear their chatter, watch them grow and thrive, ”
she says to his departing smile. Then, nursing
the youngest child, sits staring at her feet.
To the wind she says, “They have eaten me alive.”

Mary Oliver – Não hesite

Se você, súbita e inesperadamente, sentir alegria,
não hesite. Entregue-se a ela. Há muitas
vidas e cidades inteiras destruídas ou prestes a serem.
Não somos sábios e raramente somos amáveis.
E muito nunca poderá ser redimido.
Ainda assim, a vida ainda tem alguma possibilidade.
Talvez essa seja sua forma de resistir, de mostrar que às vezes
algo melhor do que todas as riquezas ou poderes
do mundo pode acontecer. Pode ser qualquer coisa,
mas é provável que você o perceba no instante
em que o amor começa. De toda forma, frequentemente
é este o caso. De toda forma, seja como for, não tema
a fartura. A alegria não foi feita para ser migalha.

Trad.: Nelson Santander

Don’t Hesitate

If you suddenly and unexpectedly feel joy,
don’t hesitate. Give in to it. There are plenty
of lives and whole towns destroyed or about
to be. We are not wise, and not very often
kind. And much can never be redeemed.
Still, life has some possibility left. Perhaps this
is its way of fighting back, that sometimes
something happens better than all the riches
or power in the world. It could be anything,
but very likely you notice it in the instant
when love begins. Anyway, that’s often the
case. Anyway, whatever it is, don’t be afraid
of its plenty. Joy is not made to be a crumb.

Joan Margarit – Não estava distante, não era difícil

Chegou um tempo
em que a vida que se perde já não causa dor,
em que a luxúria é apenas
uma lâmpada inútil, e a inveja é esquecida.
É um tempo de perdas prudentes, necessárias,
e não é um tempo de chegar
mas de partir. O amor, agora,
por fim se une à inteligência.
Não estava distante,
não era difícil. É um tempo
que não me deixa mais que o horizonte
como medida da solidão.
Um tempo de tristeza protetora.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 12/06/2018

Joan Margarit – No estaba lejos, no era difícil

Ha llegado este tiempo
cuando ya no hace daño la vida que se pierde,
cuando ya la lujuria es tan sólo
una lámpara inútil, y la envidia se olvida.
Es un tiempo de pérdidas prudentes, necesarias,
y no es un tiempo de llegar
sino de irse. El amor, ahora,
por fin coincide con la inteligencia.
No estaba lejos,
no era difícil. Es un tiempo
que no me deja más que el horizonte
como medida de la soledad.
Un tiempo de tristeza protectora.