Categoria: Nelson Santander – Traduções
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Aracelis Girmay – Sobre a bondade

Sobre a Bondade a partir de Nazim Hikmet para & a partir de Rassan No Aeroporto Metropolitano de Detroitcom horas-tartaruga de sobraentre agora & meu voo, existeuma coisa como a bondadeda esteira rolante que me emprestaseu lento, estranho pé de moluscoenquanto permaneço quieta, exausta, já há diassozinha em minha cama, dormindoem hotéis, já há meses,…
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Felipe Benítez Reyes – O desenho na água

Bem sabes que estes anos passarão,que tudo terminará em literatura:a imagem das noites, as lendasda triunfante juventude e as cidadesvividas como corpos. Que estes anospassarão tu já sabes, pois são teuscomo se possuísses a neve e a neblina,como é do mar a bruma, ou do ara cor da tarde fugidia:pertences de ninguém e do nadasurgidos,…
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Mark Strand – Meu nome

Certa noite, quando a relva estava verde-douradae as árvores marmorizadas pelo luar se erguiam como novos memoriaisno ar perfumado, e toda a paisagem pulsavacom o zumbido e o murmúrio dos insetos, eu estava deitado na grama,sentindo imensas distâncias se abrirem acima de mim, e me pergunteio que eu me tornaria — e onde encontraria a…
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John Updike – A morte da cachorra

Ela deve ter sido chutada ou atingida por um carro sem que ninguém visse.Muito nova para saber muito, ela começava a aprenderA usar os jornais espalhados pelo chão da cozinhaE a ganhar, quando os molhava, as palavras “Boa garota! Boa garota!” Pensamos que seu discreto mal-estar fosse uma reação à vacina.A autopsia revelou uma ruptura…
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Juan Luis Panero – Palavras e presságios

Voltar a alguns versos de Kaváfis, de Eliot,como quem regressa a uma casa que foi nossa anos atrás.Repetir as sílabas, iluminar os símboloscomo cerradas salas, janelas empoeiradasque ocultam um jardim perdido, árvores da morte.Melancolia do regresso e medo do vazio,rangidos de madeira, agitar de sombras,e, de repente, em um quarto, perdidacomo um velho copo ou…
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Mary Oliver – Quebra

Eu desço até a beira-mar.Como tudo cintila na luz matutina!A cúspide da concha,o búzio quebrado do caracol,os mexilhões azuis abertos,lesmas-do-mar rosa-pálidas marcadas por cracas —e nada totalmente inteiro ou fechado, mas esfarrapado, partido,abandonado pelas gaivotas sobre as rochas cinzentas com toda umidade exaurida.É como uma escolade palavras miúdas,milhares de palavras.Primeiro, compreendemos o significado de cada…
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Sharon Olds — Cemitério de Leningrado, Inverno de 1941

Naquele inverno, os mortos não puderam ser enterrados.O solo estava congelado, os coveiros fracos de fome, a madeira dos caixões era usada como combustível. Por isso, eles foram cobertos com algoe levados em um trenó de criança para o cemitério,no ar abaixo de zero. Eles jaziam no solo,alguns envoltos em um pano escuroamarrado com corda…
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Ian Hamilton – A Tempestade

Longe, uma tempestade irrompe. Ela avança em ondas até o nosso quarto.Olhas para a luz, de modo que ela ilumina um ladoDo teu rosto, tua boca contraída, teu assustado olhar.Voltas-te para mim e quando chamo, tu vensE ajoelhas-te ao meu lado, desejando que eu tomeTua cabeça entre minhas mãos, como se fosseUma delicada tigela que…
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Faith Shearin – Lição de Piano

Meus olhos se abrem antes que o sol derrame sua gema no céu;uma garota no andar de cima pratica escalas. Imagino o arcode sua mão, a sua saia que paira acima do joelho. Na rua, ouço um indigente, um copo de papel, um homem que discutefísica com um pombo; um par de meninas sopra bolas…
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Francisco Brines – Aquele verão da minha juventude

E o que restou daquele velho verãonas costas da Grécia?O que resta em mim do único verão da minha vida?Se pudesse escolher, de tudo o que vivi,algum lugar, e o tempo que o ata,sua milagrosa companhia me arrasta até lá,onde ser feliz era a razão natural de estar vivo. Perdura a experiência, como um quarto…