Ellen Bryant Voigt – A cúspide

Tão poucos pássaros — os que passam o inverno
e os gansos migrando pelos campos vazios,
atravessando as hastes retorcidas de milho cortado:
ao nosso redor, tudo o que é verde é suprimido,
e na melancólica floresta, as árvores nuas,
despidas de folhas ou quase sem elas,
formam uma morada sombria entre nuvens baixas
que têm o aspecto de neve obstinada.

Em um exercício puramente científico —
digamos que você veio da lua, ou, como
Lázaro, retornou piscando da caverna —
você não saberia se o inverno já passou ou se está apenas começando.
A margem se eleva, a margem desce em direção à vala.
Seria útil se eu dissesse que o luto tem um fim?
Faria diferença se eu dissesse que estamos na primavera?

Trad.: Nelson Santander

The Cusp

So few birds—the ones that winter through
and the geese migrating through the empty fields,
fording the cropped, knuckled stalks of corn:
all around us, all that’s green’s suppressed,
and in the brooding wood, the bare trees,
shorn of leaves or else just shy of leaves,
make a dark estate between low clouds
that have the look of stubborn snow.

In a purely scientific exercise—
say you came from the moon, or returned
like Lazarus, blinking from the cave—
you wouldn’t know if winter’s passed or now beginning.
The bank slopes up, the bank slopes down to the ditch.
Would it help if I said grieving has an end?
Would it matter if I told you this is spring?

José Mateos – Canção 1

Ainda quase um menino
sentaste a esperar à
margem do grande silêncio.

Pensavas que estando só
com tua voz talvez pudesses
roubar ao mar seu segredo.

Foi-se a tua juventude.
Mudos passaram os anos
e agora estás vazio por dentro.

Serias capaz, caso soasse
o acorde do grande silêncio,
de reproduzir o seu eco?

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 26/11/2018

José Mateos – Canción 1

Todavía casi un niño
y te sentaste a esperar
a orillas del gran silencio.

Pensabas que estando a solas
con tu voz quizás pudieras
robarle al mar su secreto.

Se te fue la juventud.
Mudos pasaron los anos
y ahora estás hueco por dentro.

¿Podrías, si al fin sonara
del gran silencio el acorde,
llegar a cantar su eco?

Jeffrey McDaniel – O mundo silencioso

Na tentativa de fazer as pessoas olharem
mais nos olhos umas das outras,
e também para apaziguar os mudos,
o governo decidiu atribuir
a cada pessoa exatamente cento
e sessenta e sete palavras por dia.

Quando o telefone toca, coloco-o no ouvido
sem dizer alô. No restaurante,
aponto para a sopa de macarrão com frango.
Estou me adaptando bem ao novo jeito.

Tarde da noite, ligo para a minha amada distante,
e com orgulho digo: Só usei cinquenta e nove hoje.
Guardei as demais para você
.

Quando ela não responde,
eu sei que ela já usou todas as suas palavras,
então sussurro lentamente eu te amo
trinta e duas vezes e mais um terço.
Depois disso, apenas ficamos na linha
ouvindo a respiração um do outro.

Trad.: Nelson Santander

The Quiet World

In an effort to get people to look
into each other’s eyes more,
and also to appease the mutes,
the government has decided
to allot each person exactly one hundred
and sixty-seven words, per day.

When the phone rings, I put it to my ear
without saying hello. In the restaurant
I point at chicken noodle soup.
I am adjusting well to the new way.

Late at night, I call my long distance lover,
proudly say I only used fifty-nine today.
I saved the rest for you.

When she doesn’t respond,
I know she’s used up all her words,
so I slowly whisper I love you
thirty-two and a third times.
After that, we just sit on the line
and listen to each other breathe.

Alison Luterman – Eu admito

Eu a segui
no mercado; sua coroa
de tranças de neve presa por um grande grampo de prata,
seu porte ereto, irradiando ternura,
a maneira como ela colocava iogurte e abacates em sua cesta,
irradiando paz como a Estrela Polar.
Eu desejei perguntar: “Em que prateleira você encontrou
sua serenidade? Você sabe
como manter um casamento de cinquenta anos, ou como viver sozinha,
desculpe-me por interromper, mas você parece possuir
algum conhecimento que faz a terra girar em seu eixo e queimar”.
Mas hoje em dia não fazemos tais perguntas
a estranhos. Então eu disse: “Eu amo o seu cabelo”.

Trad.: Nelson Santander

I Confess

I stalked her
in the grocery store; her crown
of snowy braids held in place by a great silver clip
her erect bearing, radiating tenderness,
the way she placed yogurt and avocadoes in her basket,
beaming peace like the North Star.
I wanted to ask, “What aisle did you find
your serenity, do you know
how to be married for fifty years, or how to live alone,
excuse me for interrupting, but you seem to possess
some knowledge that makes the earth burn and turn on its axis.”
But we don’t request such things from strangers
nowadays. So I said, “I love your hair.”

Francisco Brines – O Triunfo do Amor

Eu te amei em Queroneia. Vivos éramos.
Em meio à tristeza derruída,
um sopro mortal: éramos vivos.
Séculos se passaram, e outros olhos
contemplam as ruínas, ainda intactas.
Quem percorreu este lugar? Apenas o vazio
foi o tecido do tempo nesta planície.

Eu te amei em Queroneia. Impalpável
era o calor das cinzas humanas,
e na manhã solitária jazem
sombras de colunas tombadas, corpos
ardentes sob sua sombra. Quantas
mortes teriam que ocorrer? Apagou-se
tua bela juventude, ventou na minha,
aqui nada perdurou, onde buscamos
que o coração se acelere, como
se fosse o único sinal de vida.

Na manhã solitária, amados,
acelerai o coração, como
se fosse o único sinal de vida.
Apenas o vazio é duradouro.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 19/11/2018

El Triunfo Del Amor

Yo te amé en Queronea. Vivos éramos.
Entre la pesadumbre derruida
Un hálito mortal: éramos vivos.
Los siglos han pasado, y otros ojos
Contemplan las ruinas, aún intactas.
¿Quién aquí transcurrió? Sólo el vacío
fue el tejido del tiempo en este llano.

Yo te amé en Queronea. Impalpable
era el calor de la ceniza humana,
y en la mañana solitaria yacen
sombras de fustes derribados, cuerpos
ardientes fuimos en su sombra. Cuánta
muerte tendría que llegar, borró
tu hermosa juventud, sopló en la mía,
nada perduró aquí, donde buscamos
que el corazón se acelere, como
si fuese el solo signo de la vida.

En la mañana solitaria, amaros,
acelerad el corazón, como
si fuese el solo signo de la vida.
Perdurable tan sólo es el vacío.

Charles Simic – O ausente

Alguém está chegando tarde em casa.
A lâmpada deixada para ele na janela
Arde à medida que o dia amanhece,
E arderá ainda por muitos meses.

Nossa pequena rua é escura à noite.
As gaiolas são cobertas cedo.
Os peixinhos dourados mal se mexem em seus aquários.
Até mesmo as luzes da varanda estão apagadas,

Deixando apenas a janela acesa
Para as mariposas prestarem suas homenagens
Até que o tempo esfrie
E os telhados fiquem cobertos de neve.

Trad.: Nelson Santander

The Absent One

Someone’s late coming home.
The lamp left for him in the window
Burns as the day breaks,
And will burn for months after.

Our small street is dark at night.
The birdcages are covered early.
The goldfish barely stir in their jars.
Even the porch lights are off,

Leaving only his window lit
For moths to pay their respects
Until the weather turns cold
And the roofs are white with snow.

Joan Margarit – Aventura Doméstica

Sozinho em casa, vasculhando os armários.
Encontro um antigo mapa rodoviário,
contratos vencidos, canetas-tinteiro
que já não escreverão mais cartas,
calculadoras com pilhas descarregadas
e relógios que o tempo derrotou.
Nas profundezas das gavetas, como um rato triste,
aninha-se o passado. Vazios, os vestidos
pendem como velhos personagens
que nos interpretaram.
De repente, encontro também tua lingerie,
cor de areia, da noite, com pequenos bordados.
Calcinhas, sutiãs, meias que desdobro
e que me fazem voltar à brilhante
– e ao mesmo tempo misteriosa –
essência do amor e do sexo:
o que verdadeiramente dá vida às casas,
assim como se lhe dá aos portos distantes
a luz de seus cafés e de seus barcos

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 17/11/2018

Joan Margarit – Aventura Doméstica

Solo en casa y mirando en los armarios.
Encuentro algún antiguo mapa de carreteras,
contratos que han vencido, estilográficas
que ya no escribirán ninguna carta,
calculadoras con las pilas secas
y relojes que el tiempo ha derrotado.
En los cajones suele, como una rata triste,
anidar el pasado. Vacíos, los vestidos
cuelgan igual que viejos personajes
que nos interpretaron.
Pero encuentro también tu lencería,
color arena, o noche, con pequños bordados.
Bragas, sostenes, medias que despliego
y que me hacen volver hasta el brillante
– y a la vez misterioso – fondo de amor y sexo:
lo que da, de verdad, vida a las casas,
igual que se la da a los puertos lejanos
la luz de sus cafés y de sus barcos.

Kamala Das – O espelho

Ganhar o amor de um homem é fácil
Basta ser honesta sobre o que você deseja como
Mulher. Fique nua diante do espelho na presença dele
Para que ele se veja como o mais forte,
Acredite nisso, e a veja muito mais
Suave, mais jovem, mais encantadora. Demonstre sua
Admiração. Observe a perfeição
Dos membros dele, os olhos avermelhados debaixo
Do chuveiro, o andar vacilante sobre o piso do banheiro,
Deixando cair a toalha, o modo espasmódico dele
Urinar. Todos os detalhes afetuosos que fazem
Dele um homem e o tornam seu único homem. Dê-lhe tudo,
Presenteie-o com tudo o que faz de você uma mulher: o cheiro de
Cabelos compridos, o almíscar de suor entre os seios,
O intenso odor do sangue menstrual, e todos os seus
Infinitos desejos femininos. Sim, ganhar
o amor de um homem é fácil, mas viver
Sem ele depois pode ser algo que precise ser
Enfrentado. Uma vida sem vida quando se
Caminha encontrando estranhos, com olhos que
Já desistiram de procurar, com ouvidos que ouvem apenas
A voz dele chamando seu nome pela última vez, e seu
Corpo que costumava brilhar com o toque dele,
como bronze polido, agora opaco e sem vida.

Trad.: Nelson Santander

The Looking Glass

Getting a man to love you is easy
Only be honest about your wants as
Woman. Stand nude before the glass with him
So that he sees himself the stronger one
And believes it so, and you so much more
Softer, younger, lovelier. Admit your
Admiration. Notice the perfection
Of his limbs, his eyes reddening under
The shower, the shy walk across the bathroom floor,
Dropping towels, and the jerky way he
Urinates. All the fond details that make
Him male and your only man. Gift him all,
Gift him what makes you woman, the scent of
Long hair, the musk of sweat between the breasts,
The warm shock of menstrual blood, and all your
Endless female hungers. Oh yes, getting
A man to love is easy, but living
Without him afterwards may have to be
Faced. A living without life when you move
Around, meeting strangers, with your eyes that
Gave up their search, with ears that hear only
His last voice calling out your name and your
Body which once under his touch had gleamed
Like burnished brass, now drab and destitute

Philip Larkin – Continuar a viver

Continuar a viver – isto é, repetir
Um hábito formado para obter o necessário –
Quase sempre significa perder, ou passar sem.
  É variável.

Essa perda de interesse, cabelos e ambição –
Ah, se o fosse pôquer, sim,
Você poderia descartá-los, fazer um full house!
  Mas é xadrez.

E uma vez que tenha percorrido toda a extensão da mente,
O que você comanda é claro como uma lista de carga.
Nada mais deve, para você, ser considerado
  Como existente.

E qual é o lucro? Apenas que, com o tempo,
Meio que identificamos a marca cega
Que todos os nossos comportamentos carregam, podemos rastreá-la.
  Mas confessar,

Naquele serena tarde em que nossa morte começa,
O que foi, não é totalmente satisfatório,
Já que se aplicou apenas a um homem uma vez,
  E a um agonizante.

Trad.: Nelson Santander

Philip Larkin – Continuing to live

Continuing to live — that is, repeat
A habit formed to get necessaries —
Is nearly always losing, or going without.
It varies.

This loss of interest, hair, and enterprise —
Ah, if the game were poker, yes,
You might discard them, draw a full house!
But it’s chess.

And once you have walked the length of your mind, what
You command is clear as a lading-list.
Anything else must not, for you, be thought
To exist.

And what’s the profit? Only that, in time,
We half-identify the blind impress
All our behavings bear, may trace it home.
But to confess,

On that green evening when our death begins,
Just what it was, is hardly satisfying,
Since it applied only to one man once,
And that one dying.

Dennis Trudell – Conto de Feriado

Uma mulher nunca contou ao marido
ou a qualquer pessoa sobre o bilhete de amor
que recebera há trinta anos. Não havia
assinatura, e depois de tentar adivinhar inúmeras
vezes quem na cidade o enviara, ela
há muito aceitara que nunca o saberia.
O bilhete era breve, com apenas quatro frases: “Eu
a amo profundamente e espero sempre ama-la.
Você tem uma família e por isso vou me manter
afastado. Todo 4 de julho, às 10 da manhã,
eu ligarei e desligarei após um toque,
para que você saiba que isso ainda continua. Se estiver
ocupado, ligarei às 11 e assim por diante.” Estava
datilografado, assim como o nome e o endereço dela,
e fora postado nos arredores. Ela e a família
estiveram fora da cidade algumas vezes naquele
feriado ao longo dos anos, mas nos outros
ela esperou por aquele único
toque, e ele sempre veio. Eles se mudaram após o nascimento
do terceiro filho — o telefone ainda
tocou no 4 de julho seguinte, fazendo-a perceber
o quanto dependia daquilo, sem querer
nada mais dele. Seus filhos
saíram de casa e tiveram seus próprios
filhos. Agora ela tem cinquenta e seis anos
e acordou neste 4 de julho pensando
em um homem, sem dúvida tão velho quanto ela –
ela tem certeza de que é um homem. Ela pode
ter passado por ele novamente esta semana,
tê-lo cumprimentado ou não. Ela não tem certeza
se o telefone tocará; ele pode ter morrido
no ano passado. Ou estar morrendo agora.
Contudo, às 10 da manhã, ela houve o som
e não se preocupa em atender. Sorri
para aquilo que decidiu há anos ser
um presente. Sentirá um leve arrepio
pelo resto do dia. Esta noite, na cama,
ela ficará acordada por mais tempo do que o habitual,
ao lado do marido. E, como sempre,
murmurará “Obrigada” uma única vez.

Trad.: Nelson Santander

Holiday Tale

A woman has never told her husband
nor anyone else about the love note
she received thirty years ago. It was
unsigned, and after guessing often,
often about who in town sent it, she has
long accepted that she’ll never know.
The note was short, four sentences: “I
love you deeply and expect I always will.
You have a family and so I’ll keep my
distance. Each 4th of July I’ll phone
at 10 a.m. and hang up after one ring,
to let you know it’s still true. If it’s
busy, I’ll ring at 11 & so on.” This
was typed, as was her name and address,
postmarked locally. She and family
were out of town a few times on that
holiday over the years, but on the rest
of them she’d waited for that single
ring, and it came. They moved after a
third child was born—the phone still
rang the next 4th, making her realize
how much she counted on that, wanting
nothing more from him. Their children
left home and had children of their
own. Now she is fifty-six years old
and woke on this 4th of July thinking
about a man no doubt at least that old:
she feels certain it’s a man. She may
have walked past him again this week,
greeted him or not. She isn’t positive
the ring will occur; he could have died
in the past year. Or be dying now.
Yet at 10 a.m. she hears the sound
and doesn’t bother to answer. Smiles
at what she’s decided years ago is
a gift. It will tingle faintly inside
for the rest of the day. Tonight in bed
she will lie awake beside her husband
longer than usual. And will murmur
as always, “Thank you” just once.