Categoria: Nelson Santander – Traduções
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Roo Borson – Livrai-nos

Livrai-nos da noite,das infindáveis e sombriasrodovias, e dos oásisnéon dos postos de gasolina,do ronco dos motoresimortais após a meia-noite,quando o tempo perde o sentido,dos cafés da madrugada,suas tortas macabras,e do babado alaranjado noavental da garçonete,das cadeiras de plástico combinando,do laranja e do marrom e detodos os tons sobrenaturais,banindo-os de volta ao tubo de ensaio,livrai-nos deles,daqueles…
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Adam Zagajewski – Tente louvar o mundo mutilado

Tente louvar o mundo mutilado.Lembre-se dos longos dias de junho,dos morangos silvestres e das gotas de vinho rosé.Das urtigas que metódicas invademas propriedades abandonadas dos exilados.Você deve louvar o mundo mutilado.Você observou os elegantes iates e navios;um deles tinha uma longa jornada pela frente,enquanto o salino esquecimento aguardava os demais.Você viu os refugiados indo a…
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Ada Limón – Antes

Descalça, com um capacetevermelho reluzente, eu iana garupa da Harley do meu paiaos sete anos de idade.Antes do divórcio.Antes do novo apartamento.Antes do novo casamento.Antes da macieira.Antes das cerâmicas na lixeira.Antes da corrente do cachorro.Antes que todas as carpas fossem comidaspela grou. Antes da estradaentre nós, havia a estradaembaixo de nós, e eu era grande…
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Ian Hamilton – Fantasmas

O caixão lustroso e suntuosamente adornadoDesliza como um novo navio para as profundezas em chamas.Na terra firme,A congregação se ajoelha em murmúrios. Do meu banco no cantoTenho uma visão livre e desimpedidade sua partida.Se você estivesse deitada de ladoTalvez pudesse captar seu olhar insuspeito. No pátio, ao anoitecer,Os tributos florais. Eu poderia jurarTê-la vistoAspirando o…
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Joan Margarit – Banheiro

Cuido para que não caias ao banhar-te,e ao secar-te as costas sigo suavementea grande cicatriz da espinha.O futuro está sempre na janela.Tua vida é este pequeno espaçode tua cama e tua música, este céude umas poucas pessoas e uma casa.E pela primeira veznão estarei mais contigo.Não virei mesmo que me chames.Ficarei te olhandonas fotografias dos…
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Rachel McKibbens — Sem título

Às minhas filhas, preciso dizer: Fiquem com quem as ama biblicamente.Aquele cujo amor ergue a cabeça para vocêsapesar do pescoço partido. Cujo corpo explodeem dezesseis braços elétricos para carrega-las, gentisdo modo como o luto antigo é gentil. Amem o amor caótico em tudo que tem de excessivo,o corpo que cavalga melhor o seu corpo, cuja…
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Joseph Stroud – Lázaro em Varanasi

De uma pira no flamejante ghat,um cadáver se ergue lentamente entre as chamas. Como se lembrasse de algo importante.Como se quisesse olhar ao redor uma última vez.Como se finalmente tivesse algo a dizer.Como se houvesse uma saída para isso. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 24/06/2019 Mais do que uma leitura,…
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Patrick Philips – Matinê

Após a biópsia,após a cintilografia óssea,após a consulta e o choro, por algumas horas ninguém conseguia encontrá-los,nem mesmo minha irmã,porque acontece que eles tinham ido ao cinema.Passava uma tragédia,um épico, mas no fim eles foram de comédia,com suas cocase pipocas, a velha mulher sussurrando tudo duas vezes,o velho maridocobrindo o ouvido com a mão, enquanto…
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Vladimir Holan – A Neve

A neve começou a cair à meia-noite. E não há dúvidade que o melhor mesmo é ficar sentado na cozinha,ainda que seja a cozinha da insônia.Ali faz calor, você prepara alguma coisa, bebe vinhoe olha pela janela a eternidade familiar.Por que se atormentar querendo saber se nascimento e morte são apenas dois pontos,sabendo que a…
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Tung-Hui Hu – Como cuidar?

Naquele mês, eu me perguntava onde eles se reuniam,antes dos hospitais, antes da ala oncológica, dos cuidados intensivos, das urgências. Naquele tempo, tudo era urgente, amarrarmãos e pés, imobilizar o corpoantes que pudesse se transformar em cadáver. Agoraé mais fácil, olhar fotografias em vez disso, uma dele em sua camisa de trabalho, colarinho desgastado,esticada sobre…