W. S. Merwin – Um retrato

Já é quase o dia do seu aniversário e
enquanto me visto sozinho em casa
um botão se solta e assim que encontro
uma agulha com um buraco suficientemente grande
para eu passar a linha
e finalmente costurar o botão
abro uma velha foto sua
que sempre fazia essas coisas por mágica
uma fotografia encontrada após a sua morte
de você aos vinte anos
bonita de uma maneira
que eu nunca veria
pois isso foi nove anos
antes de eu nascer
mas a imagem
desbotou de repente
manchas a macularam
talvez já esteja além de reparo
eu possuo apenas o que me lembro

Trad.: Nelson Santander

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A Likeness

Almost to your birthday and as I
am getting dressed alone in the house
a button comes off and once I find
a needle with an eye big enough
for me to thread it
and at last have sewed the button on
I open an old picture of you
who always did such things by magic
one photograph found after you died
of you at twenty
beautiful in a way
I would never see
for that was nine years
before I was born
but the picture has
faded suddenly
spots have marred
maybe it is past repair
I have only what I remember

Ada Limón – A máquina do silêncio

Estou aprendendo muitas maneiras diferentes de ficar em silêncio. Há a forma como eu fico no gramado, essa é uma delas. Há também o jeito como permaneço no campo do outro lado da rua, que é diferente, porque estou mais distante das pessoas e, portanto, mais propensa a estar sozinha. Há a maneira como eu não atendo o telefone e como, às vezes, gosto de deitar no chão da cozinha e fingir que não estou em casa quando alguém bate à porta. Há o silêncio diurno, quando apenas observo, e o silêncio noturno, quando faço coisas. Há o silêncio do chuveiro, o silêncio do banho, o silêncio da Califórnia, o silêncio do Kentucky, o silêncio do carro e, então, há o silêncio que retorna, um milhão de vezes maior que eu, se insinua nos meus ossos e geme e geme e geme até que eu não possa mais ficar em silêncio. É assim que essa máquina funciona.

Trad.: Nelson Santander

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The Quiet Machine

I’m learning so many different ways to be quiet. There’s how I stand in the lawn, that’s one way. There’s also how I stand in the field across from the street, that’s another way because I’m farther from people and therefore more likely to be alone. There’s how I don’t answer the phone, and how I sometimes like to lie down on the floor in the kitchen and pretend I’m not home when people knock. There’s daytime silent when I stare, and a nighttime silent when I do things. There’s shower silent and bath silent and California silent and Kentucky silent and car silent and then there’s the silence that comes back, a million times bigger than me, sneaks into my bones and wails and wails and wails until I can’t be quiet anymore. That’s how this machine works.

Faith Shearin – O que eu gosto

Não da festa em si — um turbilhão de momentos desconfortáveis e risos
que, na verdade, querem dizer outra coisa. Não do momento logo após o fim
da festa, quando nos jogamos no sofá, pratos espalhados por toda parte,
bitucas de cigarro flutuando no refrigerante, um único pedaço intocado de torta

sobre a mesa de centro. O que eu gosto é do dia seguinte à festa: os vestígios
dos convidados quase apagados, os balões amarrados na despensa, mas voando
um pouco mais baixo. A comida restante mumificada na geladeira. Gosto
de lembrar que a sala estava cheia sem estar em uma sala cheia.
O silêncio flui como água e eu nado sozinha: um peixe em um aquário vazio.

Trad.: Nelson Santander

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What I Like

Not the party itself—a flurry of uncomfortable moments—and laughter
that really means something else. Not the moment just after the party
is over when we fall onto the sofa, dishes scattered everywhere,
cigarette butts floating in soda, a single untouched piece of pie

on the coffee table. What I like is the day after the party: the signs
of guests mostly erased, balloons tied to the pantry but flying
a little lower. The leftover food mummified in the fridge. I like
remembering that the room was full without standing in a full room.
Silence pours in like water and I swim alone: a fish in an empty aquarium.

Vicente Gaos – A vida

Os ardorosos signos da vida
pulsam na atmosfera do verão.
O mar respira tal como um varão,
como uma criatura enfurecida.

Oh gozo e amor, sangue furioso,
cósmica vibração de um mundo arcano.
Mundo que sinto ao tatear teu crânio
frágil quando nele minha mão pouso.

Te amo, sim, te amo, sonho forte,
Fecho os olhos e te sinto inteira
– Oh luz formosa e cega da morte.
A agitação final da primavera -.
Fecho meus olhos porque quero ver-te.
Oh Deus! Que a vida não vire poeira!

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado originalmente na página em 18/03/2019

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La vida

Los ardorosos signos de la vida
palpitan en el aire del verano.
El mar alienta como un ser humano,
como una criatura enardecida.

¡Oh gozo, gozo, amor, sangre enardecida,
cósmica vibración de un mundo arcano,
Mundo que siento en ti, al tocar mi mano
Tu delicada sien estremecida.

Te quiero, sí, te quiero, sueño fuerte,
Cierro los ojos y te siento entera
– Oh luz hermosa y ciega de la muerte.
Última fiebre de la primavera -.
Cierro los ojos porque quiero verte.
¡Oh Dios! Haz que la vida nunca muera!

Thomas Lux – Irreconciliabilidade

Não importa o que você faça,
não é possível retê-lo por muito tempo,
nem trazê-lo de volta.

O céu, o céu vazio,
quase azul, as casas modestas do sono,
cobertas de musgo, irão chamá-lo.

Não importa o quanto você ame,
este amor vai passar, vai passar,
seus amigos imortalizados,

partiram, se perderam. Incandescem os verãos
e os anos, e tudo o que você conhece
desaparece, ferido pela escuridão.

Não importam filhos, esposa,
ou arte. O rio serpenteia
e serpenteia novamente rumo ao mar.

O suave estalar de lábios de vermes,
os pés de uma aranha sobre
uma folha; você vê, você ouve.

Não importam bênçãos, raiva,
ou repouso: os mortos permanecem mortos.
Você caminha, espinha firme, você se ajoelha,

encosta o ouvido no
chão. Deus vive ali?
Deus vive em algum lugar?

Trad.: Nelson Santander

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Irreconcilabilia

No matter what you do
you cannot hold it long
or take it back again.

The sky, the barely blue
blank sky, the tight moss-bound
houses of sleep, will call.

No matter how hard you love,
that love will pass, will pass,
your friends imparadised,

gone, lost. The summers blaze,
the years, and what you know
grows dim, hurt by the dark.

No matter child, or wife,
or art. The river bends
and bends again seaward.

The soft lip-click of worms,
a spider’s feet across
a leaf; you see, you hear.

No matter blessings, rage,
or rest: the dead stay dead.
You walk, spine alive, you kneel,

you lay your ear down on
the ground. Does God live there?
Does God live anywhere?

Kwame Dawes – Solidão

Tenho voltado a conversar com árvores
em pleno inverno; não com as das bordas,
aquelas seguras, contemplando a rodovia;

mergulho fundo, onde a neve
é em pó, cristalina sob a luz.

Dialogamos, os ramos roçam uns nos outros
como insetos sibilantes

o frio acalma até meu coração inquieto;
aqui, o silêncio é absoluto.

A cada passo, sou surpreendido pelo eco
oco do couro sobre a neve frágil.

Trad.: Nelson Santander

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Loneliness

I have taken to talking to trees
in midwinter; never those at the edges
the safe ones gazing at the highway;

I go deep inside where the snow
is powdery, crystal under light.

We talk, the branches rub together
like insects hissing

the cold calms even my jittery heart;
the silence is absolute here.

Each step I am startled by the hollow
echo of leather on brittle snow.

Carmen Conde – [Declaro que morreu e que seu túmulo]

Declaro que morreu e que seu túmulo
está dentro de mim; sou seu sudário.
A ninguém se enterrou porque seu trânsito
no tempo foi de loucas esperanças.

Circundam o contorno desta cova
– quente é a vinha que escala as paredes –
os pâmpanos mais tenros e suculentos
que arrancam do silêncio seu tumulto.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 14/03/2019

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Declaro que se ha muerto y que su tumba

Declaro que se ha muerto y que su tumba
está dentro de mí; soy su mortaja.
A nadie se enteró porque su tránsito
descanso fue de locas esperanzas.

Rodean el contorno de esta fosa
— caliente está la vid que escala muros —
los pámpanos más tiernos y jugosos
que arrancan del silencio su tumulto.

Maureen Seaton – Preparem-se para dias melhores

                                    Preparem-se para dias melhores 
— Virgilio, Eneida

Não vou me guardar para dias melhores.
Vou me consumir agora – e depois

vou me consumir novamente amanhã.
É por isso que mantenho os olhos abertos a noite toda

e meu coração se precipita em direção às estrelas.
Para ver quais decidem permanecer imóveis

e criar uma constelação ao meu redor

Trad.: Nelson Santander

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Save Yourself for Better Times

— Virgil, Aeneid

I will not save myself for better times.
I will use myself up now-and then

I will use myself up again tomorrow.
It’s why my eyes stay open all night

and my heart throws itself to the stars.
To see which ones decide to stand still

and grow a constellation around me

Mario Benedetti – Currículo

A história é muito simples
você nasce
contempla aturdido
o vermelho-azul do céu
o pássaro que emigra
o desajeitado besouro
que seu sapato esmagará
destemido

você sofre
reclama por comida
e por hábito
por obrigação
chora isento de culpas
exausto
até que o sonho o desqualifique

você ama
se transfigura e ama
por uma eternidade tão efêmera
que até o orgulho se torna terno
e o coração profético
se converte em escombros

você aprende
e usa o que aprendeu
para tornar-se lentamente sábio
para compreender que, afinal, o mundo é isso
em seu melhor momento, uma nostalgia
em seu pior momento, um desamparo
e sempre sempre
uma confusão

então
você morre.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 13/03/2019

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Currículum

El cuento es muy sencillo
usted nace
contempla atribulado
el rojo azul del cielo
el pájaro que emigra
el torpe escarabajo
que su zapato aplastará
valiente

usted sufre
reclama por comida
y por costumbre
por obligación
llora limpio de culpas
extenuado
hasta que el sueño lo descalifica

usted ama
se transfigura y ama
por una eternidad tan provisoria
que hasta el orgullo se le vuelve tierno
y el corazón profético
se convierte en escombros

usted aprende
y usa lo aprendido
para volverse lentamente sabio
para saber que al fin el mundo es esto
en su mejor momento una nostalgia
en su peor momento un desamparo
y siempre siempre
un lío

entonces
usted muere.

Li-Young Lee – O grande relógio

Quando o grande relógio da estação parou,
as folhas continuaram a cair,
os trens continuaram a circular,
o cabelo da minha mãe continuou a crescer, ainda mais negro,
e o corpo do meu pai continuou a encher-se de tempo.

Não consigo enxergar o ano no calendário da estação.
Dormimos sob os ponteiros parados do relógio
até a manhã, quando um homem entrou trazendo uma escada.
Ele subiu até o mostrador do relógio e o abriu com uma chave.
Ninguém, além dele, soube o que ele viu.

Abaixo dele, os rostos mortais seguiram passando,
rumo a todos os pontos cardeais.
As pessoas seguiram cruzando fronteiras,
comprando bilhetes em um fuso horário e pisando em outro.
Cruzando limiares: do sono para a vigília e vice-versa,
da sala de espera para o trem em movimento e vice-versa,
da zona de guerra para a zona segura vice-versa.

Cruzando entre perdas e ganhos:
aprendendo novas palavras para o mundo e suas coisas.
Esquecendo antigas palavras para o coração e suas coisas.
E colecionando palavras em um idioma diferente
para aquelas três cores primárias:
permanecer, partir e retornar.

E apenas o homem no topo da escada
entendeu o que viu por trás do mostrador
que não sorria nem franzia a testa.

E o corpo do meu pai continuou a encher-se de morte
até alcançar a marca mais alta
de seus olhos e transbordar para os meus.
E o cabelo de minha mãe continua a crescer,
sem nunca tocar a terra.

Trad.: Nelson Santander

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Big Clock

When the big clock at the train station stopped,
the leaves kept falling,
the trains kept running,
my mother’s hair kept growing longer and blacker,
and my father’s body kept filling up with time.

I can’t see the year on the station’s calendar.
We slept under the stopped hands of the clock
until morning, when a man entered carrying a ladder.
He climbed up to the clock’s face and opened it with a key.
No one but he knew what he saw.

Below him, the mortal faces went on passing
toward all compass points.
People went on crossing borders,
buying tickets in one time zone and setting foot in another.
Crossing thresholds: sleep to waking and back,
waiting room to moving train and back,
war zone to safe zone and back.

Crossing between gain and loss:
learning new words for the world and the things in it.
Forgetting old words for the heart and the things in it.
And collecting words in a different language
for those three primary colors:
staying, leaving, and returning.

And only the man at the top of the ladder
understood what he saw behind the face
which was neither smiling nor frowning.

And my father’s body went on filling up with death
until it reached the highest etched mark
of his eyes and spilled into mine.
And my mother’s hair goes on
never reaching the earth.