Carlos Bousoño – À distância

Passa a juventude, e passa a vida,
passa o amor, a morte também passa,
o vento, a amargura que trespassa
a pátria espessa, hirta e adormecida.

Adormecida, em sonho eterno, olvida.
Mortos e vivos na mesma argamassa
dormem igual sina e alegria escassa.
Pátria, profundeza, pedra perdida.

Pedra perdida, imersa, vivos, mortos.
Toda Espanha dorme já sua história.
As campinas tristes e os céus hirtos.

Sobre a folha escrita está tua glória:
pretender edificar nos desertos;
ambicionar à luz mais ilusória.

Trad.: Nelson Santander

Desde lejos

Pasa la juventud, pasa la vida,
pasa el amor, la muerte también pasa,
el viento, la amargura que transpasa
la patria densa, inmóvil y dormida.

Dormida, en sueño para siempre, olvida.
Muertos y vivos en la misma masa
duermen común destino y dicha escasa.
Patria, profundidad, piedra perdida.

Piedra perdida, hundida, vivos, muertos.
España entera duerme ya su historia.
Los campos tristes y los cielos yertos.

Sobre el papel escrita está su gloria:
querer edificar en los desiertos;
aspirar a la luz más ilusoria.

Ian Hamilton – Vizinhos

Das janelas
Do decadente hotel do outro lado da rua
Misteriosos hóspedes noturnos emergem
Em suas varandas
Para aspirar o ar fresco da noite.

Nós os deixamos nos observar
Em nossas vidas pacatas.
Eles nos permitem imaginar
o que o destino lhes reservou.

Trad.: Nelson Santander

Neighbours

From the bay windows
Of the mouldering hotel across the road from us
Mysterious, one-night itinerants emerge
On to their balconies
To breathe the cool night air.

We let them stare
In at our quiet lives.
They let us wonder what’s become of them.

Joan Margarit – Por que fomos covardes

Não poderás esquecer meu corpo esguio e ágil.
Sempre farás amor com uma sombra
de olhos azuis, e estarás tão só
como em uma vingança.
Ao longe, as luzes de Roses cintilam
assim como a minha memória.
Há uma fúria triste, mas ninguém no final.
Perdemos o cavalo sem cavaleiro
que nunca passa uma segunda vez.

Trad.: Nelson Santander

Por si fuésemos cobardes

No podrás olvidar mi cuerpo esbelto y ágil.
Siempre harás el amor con una sombra
de ojos azules, y estarás tan solo
como en una venganza.
A lo lejos, las luces de Roses centellean
igual que mi memoria.
Hay una furia triste, pero nadie al final.
Perdimos el caballo sin jinete
que nunca pasa por segunda vez.

Idea Vilariño – Não mais

Não mais será
não mais
não viveremos juntos
não criarei teu filho
não coserei tua roupa
não te terei à noite
não te beijarei ao partir
nunca saberás quem fui
por que outros me amaram.
Não chegarei a saber
por que nem porque nunca
nem se era verdadeiro
o que disseste que era
nem quem foste
nem o que fui para ti
nem como teria sido
vivermos juntos
amarmo-nos
esperarmo-nos
estarmos juntos.
Agora não sou mais do que eu
para sempre e tu

não serás para mim
mais do que tu. Já não estás
em algum dia futuro
não saberei onde vives
com quem
nem se te lembras.
Não me abraçarás nunca
como naquela noite
nunca.
Não voltarei a tocar-te.
Não te verei morrer.

Trad.: Nelson Santander

Ya no

Ya no será
ya no
no viviremos juntos
no criaré a tu hijo
no coseré tu ropa
no te tendré de noche
no te besaré al irme
nunca sabrás quién fui
por qué me amaron otros.
No llegaré a saber
por qué ni cómo nunca
ni si era de verdad
lo que dijiste que era
ni quién fuiste
ni qué fui para ti
ni cómo hubiera sido
vivir juntos
querernos
esperarnos
estar.
Ya no soy más que yo
para siempre y tú
ya
no serás para mí
más que tú. Ya no estás
en un día futuro
no sabré dónde vives
con quién
ni si te acuerdas.
No me abrazarás nunca
como esa noche
nunca.
No volveré a tocarte.
No te veré morir.

Ian Hamilton – Última Valsa

De onde estamos quase que podemos identificar
Os rostos destas pessoas que não conhecemos:
Um semi-círculo sombreado
Ao redor do enorme aparelho de TV doado
Que domina nossa ala.

A ‘Última Valsa’ espalha-se sobre eles
Iluminando
Amistosos, exaustos sorrisos. E nós,
Como se nos importássemos, também sorrimos.

Para cada alma perdida, nesta hora tardia
Um sedado espasmo de felicidade.

Trad.: Nelson Santander

Last Waltz

From where we sit, we can just about identify
The faces of these people we don’t know:
A shadowed semi-circle
Ranged around the huge, donated television set
That dominates the ward.

The ‘Last Waltz’ floods over them
Illuminating
Fond, exhausted smiles. And we,
As if we cared, are smiling too.

To each lost soul, at this late hour
A medicated pang of happiness.

Jaime Gil de Biedma – Depois da morte de Jaime Gil de Biedma

No jardim, lendo,
a sombra da casa tolda as páginas
e o frio repentino do final de agosto
faz-me pensar em ti.

O jardim e a casa vizinha
onde piam os pássaros nas trepadeiras,
uma tarde de agosto, quando começa a anoitecer
e tem-se ainda o livro nas mãos,
eram, lembro-me, teu símbolo da morte.
Oxalá no inferno
de teus últimos dias te desse esta visão
um pouco de doçura, embora não acredite nisso.

Finalmente em paz comigo mesmo,
posso já recordar-te
não nas horas horríveis, mas sim aqui,
no verão do ano passado
quando, de um só golpe,
– tantos meses apagadas –
regressam as imagens felizes
trazidas por tua imagem da morte…
Agosto no jardim, em plena luz do dia.

Taças de vinho branco
deixadas na grama, perto da piscina,
calor sob as árvores. E vozes
que gritam nomes.
          Ángel,
Juan, María Rosa, Marcelino, Joaquina
– Joaquina dos peitinhos de maçã.
Tu retornavas rindo do telefone
anunciando mais pessoas que viriam:
recordo-te correndo,
a abafada explosão de teu corpo na água.

E as noites também de liberdade completa
na casa espaçosa, inteira para nós
como um convento abandonado,
e a nostalgia de portas secretas,
aquele correr pelos quartos,
olhar nos armários
e divertir-se na alternância
entre estar nu e vestido, tirando o pó
de batinas, botas de cano alto e calções,
arbitrárias cenas,
velhos sonhos eróticos de nossa adolescência,
rapaz solitário.
          Lembras-te de Carmina,
da gorda Carmina subindo as escadas
com o rabo para cima
e levando na mão um candelabro?

Foi um verão feliz.
          … O último verão
de nossa juventude
, disseste a Juan
em Barcelona ao regressar,
nostálgicos,
e tinhas razão. Depois veio o inverno,
o inferno de meses
e meses de agonia
e a última noite de pílulas e álcool
e vômito na alfombra.
          Eu me salvei escrevendo
depois da morte de Jaime Gil de Biedma.

Dos dois, eras tu quem melhor escrevia.
Agora sei até que ponto eram teus
o desejo de perfeição e a ironia,
a surdina romântica que palpita em meus poemas
preferidos, por exemplo, em Pandêmia… *
Às vezes me pergunto
como minha poesia ficará sem ti?

Embora talvez tenha sido eu quem te ensinou.
Quem te ensinou a vingar-te de meus sonhos,
por covardia, corrompendo-os.

Trad.: Nelson Santander

* O poeta se refere ao poema “Pandêmia e Celeste”, também traduzido por mim e que pode ser lido aqui:

https://wordpress.com/post/nsantand.wordpress.com/6119

Después de la muerte de Jaime Gil de Biedma

En el jardín, leyendo,
la sombra de la casa me oscurece las páginas
y el frío repentino de final de agosto
hace que piense en ti.

El jardín y la casa cercana
donde pían los pájaros en las enredaderas,
una tarde de agosto, cuando va a oscurecer
y se tiene aún el libro en la mano,
eran, me acuerdo, símbolo tuyo de la muerte.
Ojalá en el infierno
de tus últimos días te diera esta visión
un poco de dulzura, aunque no lo creo.

En paz al fin conmigo,
puedo ya recordarte
no en las horas horribles, sino aquí
en el verano del año pasado,
cuando agolpadamente
-tantos meses borradas-
regresan las imágenes felices
traídas por tu imagen de la muerte…
Agosto en el jardín, a pleno día.

Vasos de vino blanco
dejados en la hierba, cerca de la piscina,
calor bajo los árboles. Y voces
que gritan nombres.
          Ángel,
Juan, María Rosa, Marcelino, Joaquina
-Joaquina de pechitos de manzana.
Tú volvías riendo del teléfono
anunciando más gente que venía:
te recuerdo correr,
la apagada explosión de tu cuerpo en el agua.

Y las noches también de libertad completa
en la casa espaciosa, toda para nosotros
lo mismo que un convento abandonado,
y la nostalgia de puertas secretas,
aquel correr por las habitaciones,
buscar en los armarios
y divertirse en la alternancia
de desnudo y disfraz, desempolvando
batines, botas altas y calzones,
arbitrarias escenas,
viejos sueños eróticos de nuestra adolescencia,
muchacho solitario.
          Te acuerdas de Carmina,
de la gorda Carmina subiendo la escalera
con el culo en pompa
y llevando en la mano un candelabro?

Fue un verano feliz.
          …El último verano
de nuestra juventud
, dijiste a Juan
en Barcelona al regresar
nostálgicos,
y tenías razón. Luego vino el invierno,
el infierno de meses
y meses de agonía
y la noche final de pastillas y alcohol
y vómito en la alfombra.
          Yo me salvé escribiendo
después de la muerte de Jaime Gil de Biedma.

De los dos, eras tú quien mejor escribía.
Ahora sé hasta qué punto tuyos eran
el deseo de ensueño y la ironía,
la sordina romántica que late en los poemas
míos que yo prefiero, por ejemplo en Pandémica…
A veces me pregunto
cómo será sin ti mi poesía.

Aunque acaso fui yo quien te enseñó.
Quien te enseñó a vengarte de mis sueños,
por cobardía, corrompiéndolos.

Vicente Gaos – Homem Total

     Homenagem a Lope de Vega

          I

Olhos verdes de Marta de Nevares
Olhos – negros talvez? – de Dorotea.
Olhos azuis, límpida luz febea
de Camila Lucinda. Que avatares

de amor sem contenção! Gozos, pesares,
gozos… Isto é amor. Quem não me crê,
mire-se no olhar que se pode ver
nos olhos de uma mulher. (Cantares:

Estes olhos que vemos não são olhos
porque também os vemos, eles são
olhos porque nos vêem.
) Mas a cegueira

de Marta, e o esquecimento, os restolhos
de tanto fogo extinto… Tua canção
se eleva enfim até a luz primeira.

          II

Não sabe o que é o amor quem não te ama.
Não sabe o que é o amor quem não te espia.
Arrancaste à tu’alma e poesia
O som mais doce, a mais ferina chama.

O que restou do amor por tanta dama?
Apenas cinzas da imensa pira.
Anuvia-se o olhar, o corpo expira,
e a alma quer se unir à alta rama

de Deus, que com seus silvos amorosos
te encanta na aguda paz do verão.
Madrid, mil, seiscentos e trinta e cinco.

Já se foram os anos venturosos
e os amargos. Tudo passou em vão.
E a Deus te entregas com mortal afinco.

Trad.: Nelson Santander

Hombre total

Homenaje a Lope de Vega

I

Ojos verdes de Marta de Nevares.
Ojos -¿negros tal vez?- de Dorotea.
Ojos azules, clara luz febea
de Camila Lucinda. ¡Qué avatares

de amor sin contención! Gozos, pesares,
gozos… Esto es amor. Quien no lo crea,
mírese en unos ojos, que se vea
en unos ojos de mujer. (Cantares:

Esos ojos que vemos no son ojos
porque nosotros los veamos, son
ojos porque nos ven.) Mas la ceguera

de Marta, y el olvido, los despojos
de tanta lumbre extinta… Tu canción
se eleva al fin hacia la luz primera.

II

No sabe qué es amor quien no te ama.
No sabe qué es amor quien no te mira.
Tú arrancaste a su alma y a su lira
el son más dulce, la más fiera llama.

¿Qué fue de tanto amor por tanta dama?
Sólo cenizas de la inmensa pira.
Se nubla la mirada, el cuerpo expira,
y el alma quiere asirse a la alta rama

de Dios, que con sus silbos amorosos
te hechiza en la honda calma del verano.
Madrid, a mil seiscientos treinta y cinco.

Pasaron ya los años venturosos
y los amargos. Todo pasó en vano.
Y a Dios te entregas con mortal ahínco.

Joan Margarit – Monumentos

O vazio que sentes, cada vez com mais força,
é o dos traidores.
Também os monumentos, por dentro, são vazios,
com as entranhas cheias de ferrugem e de morte:
escuros e corroídos pela história,
é tão sinistro seu interior
como arrogante o gesto que no ar
desenha a personagem.
À medida que os amigos nos traem
– e a morte é também uma traição –
nos vamos convertendo em monumentos.
Por fora, ainda resta um resquício de eloquência,
sobretudo ao falar com alguém jovem,
mas a voz ressoa no vazio,
perdida entre os vergalhões de uma oculta estrutura
que se desgasta em finas camadas de ferrugem.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – Monumentos

El vacío que sientes cada vez con más fuerza
es el de los traidores.
También los monumentos, por dentro, están vacíos,
con las entrañas llenas de óxido y de muerte:
oscuros y podridos por la historia,
es tan siniestro su interior
como arrogante el gesto que en el aire
dibuja el personaje.
Según van traicionando los amigos
—y la muerte es también una traición—
nos vamos convirtiendo en monumentos.
Por fuera queda un resto de elocuencia,
sobre todo al hablar con alguien joven,
pero la voz resuena en el vacío,
perdida entre los hierros de un oculto entramado
que se deshoja en leves capas de óxido.

Ian Hamilton – Lamento

Fiz o que pude. Meus garotos correm soltos agora.
Eles buscam oportunidades enquanto a mãe deles apodrece aqui.
E rua acima, o homem,
Meu único homem, que me tocou em todos os lugares,
Desmancha-se sob a terra.

Sou triste, obtusa, velha e alienada.
À noite, sinto minhas mãos vagando sobre mim,
Sondando meus seios, meus joelhos,
As dobras do meu ventre,
Vez ou outra pressionando e às vezes,
Em sua fome, dilacerando-me.
Vivo só.

Meus garotos correm, deixando a mãe deles como se fosse um calhau
Rolando no recreio depois que tocou o sinal.
Acumulo poeira e quase desejo a sepultura.
Ter bichinhos habitando em mim já seria algo.
Mas aqui, aos oito novamente, observo os brotos desabrochando
Além deste quintal.
Eu sei como me comportar.

Trad.: Nelson Santander

Complaint

I’ve done what i could. My boys run wild now.
They seek their chances while their mother rots here.
And up the road, the man,
My one man, who touched me everywhere,
Falls to bits under the ground.

I am dumpy, obtuse, old and out of it.
At night, i can feel my hands prowl over me,
Lightly probing at my breasts, my knees,
The folds of my belly,
Now and then pressing and sometimes,
In their hunger, tearing me.
I live alone.

My boys run, leaving their mother as they would a stone
That rolls on in the playground after the bell has gone.
I gather dust and i could almost love the grave.
To have small beasts room in me would be something.
But here, at eight again, i watch the blossoms break
Beyond this gravel yard.
I know how to behave.

Joan Margarit – Ela

É tempo de não esperar por ninguém.
Passa o amor, fugaz e silencioso,
como, na distância, um trem noturno.
Não resta ninguém. É hora de voltar
ao desolado reino do absurdo,
ao sentimento de culpa, ao medo vulgar
de perder o que estava, já, perdido.
Ao inútil e sórdido tempo moral.
É hora já de dar-se por vencido
no trabalho solitário, outro inverno.
Quantos restam ainda, e qual o sentido
desta vida onde te procurei,
se já chegou a hora tão temida
de comprovar que nunca exististe?

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – Ella

Llega el tiempo de no esperar a nadie.
Pasa el amor, fugaz y silencioso
como en la lejanía un tren nocturno.
No queda nadie. Es hora de volver
al desolado reino del absurdo,
a sentirse culpable, al vulgar miedo
de perder lo que estaba, ya, perdido.
Al inútil y sórdido tiempo moral.
Es hora ya de darse por vencido
en el trabajo a solas, otro invierno.
¿Cuántos quedan aún, y qué sentido
tiene esta vida donde te he buscado,
si ya llegó la hora tan temida
de comprobar que nunca has existido?