Denise Levertov – Naquele dia

Do outro lado de um lago na Suíça, cinquenta anos atrás,
a luz duelava com uma longa lança, esgrimindo com sabres
de um lado para o outro entre picos nublados e colinas.
Observávamos de um pequeno pavilhão, minha mãe e eu,
fascinadas.
E então, eis que um feixe, uma coluna,
um corpo definido, não de luz mas de chuva prateada,
se formou e partiu da costa distante, deixou para trás
as fintas e investidas silenciosas, e avançou
firmemente, a um ritmo constante,
em nossa direção.
Eu conhecia aquilo! Eu já vira aquilo! Não a sensação
de déjà vu: era a visão de Blake em aquarela,
‘O Espírito de Deus Movendo-se sobre a Face das Águas’!
A coluna avançava firmemente
através do lago em nossa direção; em ambos os lados
não havia chuva. Levantamo-nos, sem fôlego –
e então ela nos atingiu, apanhou-nos
em seu véu de prata, envolveu-nos
na melhor trama molhada
e rimos de alegria, maravilhadas.

Trad.: Nelson Santander

That day

Across a lake in Switzerland, fifty years ago,
light was jousting with long lances, fencing with broadswords
back and forth among cloudy peaks and foothills.
We watched from a small pavilion, my mother and I,
enthralled.
And then, behold, a shaft, a column,
a defined body, not of light but of silver rain,
formed and set out from the distant shore, leaving behind
the silent feints and thrusts, and advanced
unswervingly, at a steady pace,
toward us.
I knew this! I’d seen it! Not the sensation
of déjà vu: it was Blake’s inkwash vision,
‘The Spirit of God Moving Upon the Face of the Waters’!
The column steadily came on
across the lake toward us; on each side of it,
there was no rain. We rose to our feet, breathless —
and then it reached us, took us
into its veil of silver, wrapped us
in finest weave of wet,
and we laughed for joy, astonished.

Richard Eberhart – A marmota

Em junho, entre os campos dourados,
Avistei uma marmota morta.
Morta ela estava; meu juízo se abalou,
E a mente projetou a nossa fragilidade nua.
Lá embaixo, humilde no vigoroso verão,
Sua forma iniciou sua mudança sem sentido,
E fez oscilar meus sentidos para o sombrio
Vendo a natureza feroz que nela havia.
Inspecionando de perto o poder de seus vermes
E o caldeirão fervilhante do seu ser,
Meio com nojo, meio possuído por um estranho amor,
Mexi nela com um enérgico bastão.
A febre irrompeu, tornou-se uma chama
E o vigor circunscreveu os céus,
Imensa energia ao sol,
E, através de minha moldura, um tremor sem sol.
O pau que usei não fez nem bem nem mal.
Permaneci então em silêncio durante o dia
Observando o objeto, como antes;
E mantive minha reverência pela experiência,
Tentando manter o controle, ficar quieto,
Para apaziguar a paixão do sangue;
Até que me pus de joelhos
Orando por alegria perante a decadência.
Fui então embora; e retornei
No outono, de olhar severo, para ver
A seiva esvaída da marmota,
Embora a magra carcaça informe remanescesse.
O ano, porém, tinha perdido seu significado,
E em correntes intelectuais
Eu perdera a atração e a aversão em igual medida,
Encarcerado entre os muros da sensatez.
Outro verão tomou os campos novamente,
Massivo e abrasador, cheio de vida,
Mas quando por acaso encontrei o local
Nele havia apenas um pouco de pelo,
E ossos branqueando ao sol,
Belos como uma arquitetura.
Observei-os como um geômetra,
E de uma bétula fiz um bastão.
Já se passaram três anos agora.
Não há nenhum sinal da marmota.
Fiquei parado ali, no turbulento verão,
Minha mão cobrindo um coração ressequido,
E pensei na China e na Grécia,
Em Alexandre e sua tenda,
Em Montaigne em sua torre,
Em Santa Tereza em seu lamento selvagem.

Trad.: Nelson Santander

The Groundhog

In June, amid the golden fields,
I saw a groundhog lying dead.
Dead lay he; my senses shook,
And mind outshot our naked frailty.
There lowly in the vigorous summer
His form began its senseless change,
And made my senses waver dim
Seeing nature ferocious in him.
Inspecting close his maggots’ might
And seething cauldron of his being,
Half with loathing, half with a strange love,
I poked him with an angry stick.
The fever arose, became a flame
And Vigour circumscribed the skies,
Immense energy in the sun,
And through my frame a sunless trembling.
My stick had done nor good nor harm.
Then stood I silent in the day
Watching the object, as before;
And kept my reverence for knowledge
Trying for control, to be still,
To quell the passion of the blood;
Until I had bent down on my knees
Praying for joy in the sight of decay.
And so I left; and I returned
In Autumn strict of eye, to see
The sap gone out of the groundhog,
But the bony sodden hulk remained.
But the year had lost its meaning,
And in intellectual chains
I lost both love and loathing,
Mured up in the wall of wisdom.
Another summer took the fields again
Massive and burning, full of life,
But when I chanced upon the spot
There was only a little hair left,
And bones bleaching in the sunlight
Beautiful as architecture;
I watched them like a geometer,
And cut a walking stick from a brich.
It has been three years, now.
There is no sign of the groundhog.
I stood there in the whirling summer,
My hand capped a withered heart,
And thought of China and of Greece,
Of Alexander in his tent;
Of Montaigne in his tower,
Of Saint Theresa in her wild lament.

Jane Hirshfield – Dentro desta árvore

Dentro desta árvore
outra árvore
habita o mesmo tronco;
dentro desta pedra
outra pedra descansa,
com muitos tons de cinza
iguais,
com superfície
e peso idênticos.
E dentro do meu corpo,
outro corpo,
cuja história, à espera,
canta; não há outro corpo,
ela canta,
não há outro mundo.

Trad.: Nelson Santander

Within this tree

Within this tree
another tree
inhabits the same body;
within this stone
another stone rests,
its many shades of grey
the same,
its identical
surface and weight.
And within my body,
another body,
whose history, waiting,
sings; there is no other body,
it sings,
there is no other world.

Alberto Szpunberg – De “Sol de noche”

XIV

Embora já saibas que nada volta, volta para casa,
aceita a pequena mentira como um lapso
antes que o inverno te surpreenda
sob uma árvore de ramos despojados:
aqui termina o bosque,
o que cresceu em teus sonhos
antes mesmo de tuas mãos roçarem os troncos:
a pradaria que se estende perante teus olhos
como um mar envolto em luminosa névoa
não tem por que ser o desamparo
que se abraça a teus ossos:
tudo não passou de uma brincadeira de criança,
em que as regras eram
inocentes trapaças consentidas.

Trad.: Nelson Santander

De “Sol de noche”

XIV

Aunque ya sabes que nunca se vuelve, vuelve a casa,
acepta la pequeña mentira como un guiño
antes de que el invierno te sorprenda
bajo un árbol de ramas despojadas:
acá se acaba el bosque,
el que creció en tus sueños
aun antes de que tus manos rozaran la corteza:
la llanura que se extiende ante tus ojos
como un mar envuelto en luminosa niebla
no tiene por qué ser el desamparo
que se abraza a tus huesos:
todo ha sido un juego de niños,
donde las reglas eran
inocentes trampas consentidas.

Marie Howe – Meus amigos mortos

Comecei,
quando estou cansada e não consigo decidir a resposta que devo dar a uma pergunta desconcertante,

a pedir a opinião dos meus amigos mortos
e frequentemente a resposta é imediata e clara.

Devo aceitar o emprego? Mudar-me para a cidade? Devo tentar conceber um filho
em minha meia idade?

Em uníssono, eles balançam suas cabeças e sorriem – o que quer que conduza
à felicidade, eles sempre respondem,

a mais vida e menos preocupação. Eu olho para a urna onde estavam as cinzas de Billy –
é verde ali, uma urna verde,

e pergunto-lhe se devo retornar a complicada ligação, e ele diz: sim.
Billy já passou pelo apavorante portal,

o que quer que ele diga, eu farei.

Trad.: Nelson Santander

My Dead Friends

I have begun,
when I’m weary and can’t decide an answer to a bewildering question

to ask my dead friends for their opinion
and the answer is often immediate and clear.

Should I take the job? Move to the city? Should I try to conceive a child
in my middle age?

They stand in unison shaking their heads and smiling — whatever leads
to joy, they always answer,

to more life and less worry. I look into the vase where Billy’s ashes were –
it’s green in there, a green vase,

and I ask Billy if I should return the difficult phone call, and he says, yes.
Billy’s already gone through the frightening door,

whatever he says, I’ll do.

Robert Bly – Pessoas como nós

Pessoas como nós

     para James Wright

Há mais como nós. Em toda parte
Há pessoas confusas, que não conseguem lembrar
O nome do próprio cão quando acordam, e pessoas
Que amam a Deus mas não se lembram onde

Ele estava quando foram dormir. Não
Tem problema. O mundo se purifica desta forma.
Um número errado lhe ocorre no meio
Da noite, você o disca, e ele toca bem a tempo

De salvar uma casa. E o cara do segundo andar
Vai a um endereço errado, onde mora o insone,
E ele está solitário, e eles conversam, e o ladrão
Volta para a faculdade. Mesmo na pós-graduação,

Você pode entrar na sala errada,
E ouvir grandes poemas afetuosamente declamados
Pelo professor errado. E você encontra sua alma,
E a grandiosidade tem um defensor, e mesmo na morte
               [você está seguro.

People Like Us

     for James Wright

There are more like us. All over the world
There are confused people, who can’t remember
The name of their dog when they wake up, and people
Who love God but can’t remember where

He was when they went to sleep. It’s
All right. The world cleanses itself this way.
A wrong number occurs to you in the middle
Of the night, you dial it, it rings just in time

To save the house. And the second-story man
Gets the wrong address, where the insomniac lives,
And he’s lonely, and they talk, and the thief
Goes back to college. Even in graduate school,

You can wander into the wrong classroom,
And hear great poems lovingly spoken
By the wrong professor. And you find your soul,
And greatness has a defender, and even in death you’re safe.

Juan Vicente Piqueras – Taças de sede

Se duvidas de tua sede, se não te atreves
a questiona-la ou a dar-lhe um nome,
se só sabes que buscas uma água
que a sacie e não achas senão poços,
e neles ecos que te chamam, bebe.

Se ao beber a sede desaparece
é que era só sede. Segue buscando.

Mas se cresce em ti quando a sacias,
se não queres parar de ter sede
mas seguir bebendo dia e noite
taças de sede, não há dúvida:
podes chama-la amor, seguir sofrendo,
e saber que não há ninguém que te guia.

Trad.: Nelson Santander

Vasos de Sed

Si dudas de tu sed, si no te atreves
a preguntarle o a ponerle un nombre,
si sólo sabes que buscas un agua
que la sacie y no hallas sino pozos,
y en ellos ecos que te llaman, bebe.

Si la sed al beber desaparece
es que era sólo sed. Sigue buscando.

Pero si crece en ti cuando la sacias,
si quieres no dejar de tener sed
sino seguir bebiendo día y noche
vasos de sed, no hay duda:
puedes llamarla amor, seguir sufriendo,
y saber que no existe quien te guía.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Canção de fevereiro

Canção de fevereiro

no peito do céu, palpitando
Jaime Gil de Biedma

Leve e triste, a tarde se retira
contigo até o crepúsculo e as horas
começam a doer nas dobras distantes
do lençol. Subitamente
a noite regressou e é difícil
não pensar em teus efêmeros lábios
ou nas altas regiões do teu corpo
glorificando em telas de algodão.
Agora que não estás, olho para trás
para o raio que divide tuas pestanas
e o arrepio de tuas costas
moldando-me os braços, o sorriso
do teu sexo na vertigem dos lábios,
o instante fluvial de tua alegria.
Ao longe respira o mar, eleva
a superfície suave seu encerramento
sob um relento de líquidos cristais.
A noite sem tua pele cresce mais profundamente
pelas ruas onde asperges a chuva.
Em silêncio te recordo, garota,
com as últimas brasas que se apagam
contra o peito do céu, palpitando.

Trad.: Nelson Santander

Canción de febrero

sobre el pecho del cielo, palpitando
Jaime Gil de Biedma

Leve y triste la tarde se retira
contigo hacia el crepúsculo y las horas
empiezan a doler en los distantes
repliegues de la sábana. De pronto
la noche ha regresado y es difícil
no pensar en tu boca momentánea
o en las altas comarcas de tu cuerpo
en lienzos de algodón en alabanza.
Ahora que no estás, vuelvo a mirar
el rayo que dividen tus pestañas
y el estremecimiento de tu espalda
moldeándome los brazos, la sonrisa
de tu sexo en los vértigos del labio,
el instante fluvial de tu alegría.
A lo lejos respira el mar, asciende
la blanda superficie su clausura
bajo un raso de líquidos cristales.
La noche sin tu piel crece más honda
por las calles donde asperjas la lluvia.
En silencio te recuerdo, muchacha,
con las últimas brasas que se apagan
contra el pecho del cielo, palpitando.

Juan Vicente Piqueras – Lençóis herdados

A ferida mais íntima é herdada.

O onde, o como, o quando,
a morte, o nascimento,
língua, família, deus, tempo, amor:
o decisivo do que nos acontece,
e quem somos,
não é algo desejado nem escolhido.

E passamos a vida, a despeito disso, ou por isso,
crendo que o desejo é nosso deus,
e não uma rosa rara que em nós cultiva
o acaso
que nos guia, nos cega e nos ignora.

Ninguém escolheu o mundo em que nasceu.
Nem sequer seu nome, sua memória.

O importante se impõe, não se escolhe.

E no entanto somos seres livres
para escolher entre dar e destruir
o que temos, deseja-lo, ama-lo
mais do que o que não há, lutar sem mundo,
aceitar o que ocorre e trabalhar
duro para que ocorra
o que de todo modo vai ocorrer.

Não há mais sabedoria ou remédio
que amar a vida mais que o seu sentido
e deixar-se levar pelas águas indomáveis
de estar aqui e, assim, com sede de partir,
de escolher o que há e, ai de nós,
ser quem somos, pródigos, saber
que não temos mais que o que damos.

Chamamos liberdade a esta tarefa
minuciosa e secreta de bordar,
manchar, romper, lavar, estender, dobrar,
guardar no armário, entre folhas de marmelo,
lençóis herdados da avó
que por sua vez herdou da sua, um estranho enxoval
para essa solidão que me desposou.

Trad.: Nelson Santander

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Sábanas Heredadas

La más íntima herida es heredada.

El dónde, el cómo, el cuándo,
la muerte, el nacimiento,
lengua, familia, dios, época, amor:
lo decisivo de lo que nos pasa,
y los que somos,
no es algo deseado ni elegido.

Y pasamos la vida, sin embargo o por eso,
creyendo que el deseo es nuestro dios
y no una rosa rara que en nosotros cultiva
el azar
que nos guía, nos ciega y nos ignora.

Nadie ha elegido el mundo en que ha nacido.
Ni siquiera su nombre, su memoria.

Lo importante se impone, no se elige.

Y sin embargo somos seres libres
de escoger entre dar y destruir
lo que tenemos, desearlo, amarlo
más que a lo que no hay, luchar sin mundo,
aceptar lo que ocurre y trabajar
duro para que ocurra
lo que de todos modos va a ocurrir.

No hay más sabiduría ni remedio
que amar la vida más que su sentido
y dejarse llevar por las aguas salvajes
de estar aquí y así, con sed de irse,
de elegir lo que hay y, ay de nosotros,
ser quienes somos, pródigos, saber
que no tenemos más que lo que damos.

Llamamos libertad a esta tarea
minuciosa y secreta de bordar,
manchar, romper, lavar, tender, plegar,
guardar en el armario entre membrillos
sábanas heredadas de la abuela
que a su vez heredó de la suya, extraño ajuar
para esta soledad que me ha esposado.

Czeslaw Milosz – Sobre anjos

Tudo foi tirado de vocês: túnica branca,
asas, até mesmo a existência.
Contudo, ainda acredito em vocês,
mensageiros.

Aqui, onde o mundo está virado do avesso,
uma trama maciça bordada com astros e bestas,
vocês passeiam, inspecionando as suturas confiáveis.

Curta é sua estadia neste lugar:
às vezes na hora matinal, se o céu está claro,
na melodia repetida por um pássaro,
ou no cheiro das maçãs no fim do dia
quando as luzes fazem dos pomares lugares mágicos.

Dizem que alguém os concebeu,
mas para mim isso não parece convincente,
pois os humanos também foram concebidos.

A voz – sem dúvida é uma prova válida,
pois só pode pertencer a criaturas radiantes,
sem peso e aladas (afinal, por que não?),
cingidas pelo raio.

Eu ouvi aquela voz várias vezes quando dormia
e, o que é estranho, percebi mais ou menos
uma ordem ou um apelo em uma língua sobrenatural:

o dia se aproxima
mais um
faça o que puder.

Trad.: Nelson Santander

On angels

All was taken away from you: white dresses,
wings, even existence.
Yet I believe in you,
messengers.

There, where the world is turned inside out,
a heavy fabric embroidered with stars and beasts,
you stroll, inspecting the trustworthy seams.

Short is your stay here:
now and then at a matinal hour, if the sky is clear,
in a melody repeated by a bird,
or in the smell of apples at close of day
when the light makes the orchards magic.

They say somebody has invented you
but to me this does not sound convincing
for the humans invented themselves as well.

The voice — no doubt it is a valid proof,
as it can belong only to radiant creatures,
weightless and winged (after all, why not?),
girdled with the lightening.

I have heard that voice many a time when asleep
and, what is strange, I understood more or less
an order or an appeal in an unearthly tongue:

day draw near
another one
do what you can.