Jane Kenyon – A tigela azul

Como primitivos, enterramos o gato
com seu prato. Com as mãos nuas
raspamos areia e cascalho
de volta para o buraco.
               Caíram com um silvo
e um baque ao lado dele,
em seu longo pelo vermelho, o branco pelame
entre seus dedos, e seu
longo, para não dizer aquilino, nariz.

Nós nos levantamos e nos afastamos um do outro.
Existem dores mais agudas do que esta.

Em silêncio o resto do dia, nós trabalhamos,
comemos, contemplamos, e dormimos. Choveu forte
a noite toda; agora clareou, e um tordo
gorjeia de um arbusto gotejante
como um vizinho que tem boas intenções
mas sempre diz a coisa errada.

Trad.: Nelson Santander

The Blue Bowl

Like primitives we buried the cat
with his bowl. Bare-handed
we scraped sand and gravel
back into the hole.
               They fell with a hiss
and thud on his side,
on his long red fur, the white feathers
between his toes, and his
long, not to say aquiline, nose.

We stood and brushed each other off.
There are sorrows keener than these.

Silent the rest of the day, we worked,
ate, stared, and slept. It stormed
all night; now it clears, and a robin
burbles from a dripping bush
like the neighbor who means well
but always says the wrong thing.

Forrest Hamer – Lição

Foi no verão de 63 ou 64,
e meu pai estava transportando nossa família
de Ft. Hood para a Carolina do Norte em nosso Buick 56.
Tínhamos ouvido falar dos ataques da Klan, e sabíamos que

no Mississippi estava mais perigoso do que o habitual.
A escuridão pendurava-se às arvores como musgo,
e sempre que a luz gemia contra os vidros
naquela noite, meu pai saía da estrada para dormir.

Ruídos
que normalmente me faziam acordar com medo de monstros
também mantinham meu pai desperto naquela noite,
e eu permanecia em silêncio observando-o ouvir, aprendendo
que ele nem sempre poderia ser capaz de nos proteger

de tudo e, além disso, das criaturas;
talvez nem mesmo da fúria que subitamente
percorreu meu corpo por sua viagem do Texas
para nos instalar em casa antes de partir

para um lugar sem lugar no mundo
que ele chamou de Viet Nam. Um menino precisa de um pai
com ele, eu fiquei pensando, fixado naquele ruído
da escuridão.

Trad.: Nelson Santander

Lesson

It was 1963 or 4, summer,
and my father was driving our family
from Ft. Hood to North Carolina in our 56 Buick.
We’d been hearing about Klan attacks, and we knew

Mississippi to be more dangerous than usual.
Dark lay hanging from the trees the way moss did,
and when it moaned light against the windows
that night, my father pulled off the road to sleep.

Noises
that usually woke me from rest afraid of monsters
kept my father awake that night, too,
and I lay in the quiet noticing him listen, learning
that he might not be able always to protect us

from everything and the creatures besides;
perhaps not even from the fury suddenly loud
through my body about his trip from Texas
to settle us home before he would go away

to a place no place in the world
he named Viet Nam. A boy needs a father
with him, I kept thinking, fixed against noise
from the dark.

Brian Turner – Quão brilhante é abril

E o ar, seco,
Como as espáduas de um búfalo-d’água.

Gafanhotos arranham a terra,
roçam as asas com pernas finas,
irrompendo à frente dos soldados
em voos rasantes em arco, as asas um borrão.

Os soldados já não percebem,
veem apenas os escombros das ruas,
corpos cobertos por lençóis, e o sol,
quão brilhante é, quão duro e plano e branco.

Serão necessários muitos pregos dos fabricantes de caixões
para bloquear essa luz, que reflete em tudo:
nos pés calejados dos mortos, em suas mãos ossudas,
em suas pálidas frontes – tão frias, tão brilhantes ao sol.

Trad.: Nelson Santander

How Bright It Is April

And the air dry
As the shoulders of a water buffalo.

Grasshoppers scratch at the dirt,
rub their wings with thin legs
flaring out in front of the soldiers
in low arcing flights, wings a blur.

The soldiers don’t notice anymore,
seeing only the wreckage of the streets,
bodies draped with sheets, and the sun,
how bright it is, how hard and flat and white.

It will take many nails from the coffinmakers
to shut out this light, which reflects off everything:
the calloused feet of the dead, their bony hands,
their pale foreheads so cold, brilliant in the sun.

David Ignatow – Para a minha filha

Quando eu morrer, escolhe uma estrela
e dá-lhe o meu nome
para que saibas que
não te abandonei
nem te esqueci.
Foste para mim uma estrela,
guiando-me pelo teu nascimento
e infância, minha mão
na tua mão.

Quando eu morrer,
escolhe uma estrela e dá-lhe
o meu nome para que eu possa brilhar
sobre ti, até que te juntes a mim
na escuridão e no silêncio
juntos.

Trad.: Nelson Santander

For My Daughter

When I die choose a star
and name it after me
that you may know
I have not abandoned
or forgotten you.
You were such a star to me,
following you through birth
and childhood, my hand
in your hand.

When I die
choose a star and name it
after me so that I may shine
down on you, until you join
me in darkness and silence
together.

Robinson Jeffers – Falcão ferido

Falcão Ferido

I

O pilar quebrado da asa se projeta da espádua coagulada,
A asa arrasta-se como um estandarte no fracasso,
Não mais para usar o céu, apenas para viver com fome
E dor por uns poucos dias: nem gato nem coiote
Abreviarão a semana de espera pela morte: há caça sem garras.
Ele permanece sob o carvalho e espera
Os pés capengas da salvação; à noite, lembra-se da liberdade
E voa em sonho – que a aurora arruína.
Ele é forte e a dor e a impotência são piores para os fortes.
Os cães vadios do dia vêm atormentá-lo
À distância; ninguém além da morte redentora humilhará aquela cabeça,
A prontidão intrépida, os olhos terríveis.
O Deus selvagem do mundo às vezes é clemente com os
Que pedem clemência – raramente com os arrogantes.
Vocês não O conhecem, povo comunal, ou já se esqueceram Dele;
Intemperante e feroz, o falcão se lembra;
Belos e selvagens, os falcões – e os moribundos – se lembram.

II

Não fosse a punição, eu preferiria matar um homem a um falcão; mas o grande cauda-vermelha
Nada mais tinha além da miséria impotente
De ossos estilhaçados para além da cura, a asa que se arrastava sob suas garras
Quando ele se movia.
Nós o alimentamos por seis semanas, eu lhe dei liberdade,
Ele vagueou sobre o promontório da colina e voltou ao entardecer, pedindo a morte,
Não como um mendigo – nos olhos ainda a velha
E implacável arrogância. Ao crepúsculo, dei-lhe a dádiva de chumbo almejada. O que caiu estava relaxado,
Macio como coruja, suaves penas femininas. Mas o que

Alçou voo: o ímpeto feroz: as garças-reais junto ao rio alagado gritaram de medo ao vê-lo erguer-se
Antes mesmo de estar completamente desembainhado da realidade.

Trad.: Nelson Santander

Hurt Hawks

I

The broken pillar of the wing jags from the clotted shoulder,
The wing trails like a banner in defeat,
No more to use the sky forever but live with famine
And pain a few days: cat nor coyote
Will shorten the week of waiting for death, there is game without talons.
He stands under the oak-bush and waits
The lame feet of salvation; at night he remembers freedom
And flies in a dream, the dawns ruin it.
He is strong and pain is worse to the strong, incapacity is worse.
The curs of the day come and torment him
At distance, no one but death the redeemer will humble that head,
The intrepid readiness, the terrible eyes.
The wild God of the world is sometimes merciful to those
That ask mercy, not often to the arrogant.
You do not know him, you communal people, or you have forgotten him;
Intemperate and savage, the hawk remembers him;
Beautiful and wild, the hawks, and men that are dying, remember him.

II

I’d sooner, except the penalties, kill a man than a hawk; but the great redtail
Had nothing left but unable misery
From the bones too shattered for mending, the wing that trailed under his talons when he moved.
We had fed him six weeks, I gave him freedom,
He wandered over the foreland hill and returned in the evening, asking for death,
Not like a beggar, still eyed with the old
Implacable arrogance. I gave him the lead gift in the twilight. What fell was relaxed,
Owl-downy, soft feminine feathers; but what
Soared: the fierce rush: the night-herons by the flooded river cried fear at its rising
Before it was quite unsheathed from reality.

Jacques Prévert – Bárbara

Lembra-te Bárbara
Chovia em Brest
sem cessar naquele dia
Caminhavas à chuva
sorridente
radiosa encantadora deslumbrante
Lembra-te Bárbara
chovia em Brest
sem cessar
e eu passei por ti
na Rua do Sião.
Sorrias
e eu sorria
Lembra-te Bárbara
tu a quem não conhecia
tu que não me conhecias
Lembra-te
Lembra-te mesmo assim
daquele dia
Não te esqueças
Sob um pórtico
abrigava-se um homem
que gritou o teu nome
Bárbara
Correste para ele
à chuva
deslumbrante encantadora
radiosa
lançaste-te nos seus braços
Lembra-te Bárbara
E não me queiras mal
se te trato por tu
trato assim todos os que amo
mesmo se os vi só uma vez
trato assim todos os que se amam
mesmo até se os não conheço
Lembra-te Bárbara
Não te esqueças
essa chuva sábia e feliz
nesse teu rosto feliz
nessa cidade feliz
essa chuva sobre o mar
sobre o arsenal
sobre o barco para Ouessant
Ó Bárbara
que estupidez é a guerra
o que é feito de ti
agora
sob esta chuva de ferro
de fogo de aço de sangue
e daquele que te apertava nos braços
amorosamente
Morreu desapareceu
está vivo ainda
Ó Bárbara
Chove em Brest sem cessar
como chovia então
mas já nada é o mesmo
e tudo se estragou
É uma chuva de luto
de terrível desalento
Já não é sequer
o temporal
de ferro de aço de sangue
não passa agora de nuvens
que rebentam como cães
os cães que desaparecem
nessas torrentes de Brest
e apodrecerão lá longe
longe bem longe de Brest
onde já não resta nada.

Trad.: Anthero Monteiro

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Barbara

Rappelle-toi Barbara
Il pleuvait sans cesse sur Brest ce jour-là
Et tu marchais souriante
Épanouie ravie ruisselante
Sous la pluie
Rappelle-toi Barbara
Il pleuvait sans cesse sur Brest
Et je t’ai croisée rue de Siam
Tu souriais
Et moi je souriais de même
Rappelle-toi Barbara
Toi que je ne connaissais pas
Toi qui ne me connaissais pas
Rappelle-toi
Rappelle-toi quand même ce jour-là
N’oublie pas
Un homme sous un porche s’abritait
Et il a crié ton nom
Barbara
Et tu as couru vers lui sous la pluie
Ruisselante ravie épanouie
Et tu t’es jetée dans ses bras
Rappelles-toi cela Barbara
Et ne m’en veux pas si je te tutoie
Je dis tu à tous ceux que j’aime
Même si je ne les ai vus qu’une seule fois
Je dis tu à tous ceux qui s’aiment
Même si je ne les connais pas
Rappelle-toi Barbara
N’oublie pas
Cette pluie sage et heureuse
Sur ton visage heureux
Sur cette ville heureuse
Cette pluie sur la mer
Sur l’arsenal
Sur le bateau d’Ouessant
Oh Barbara
Quelle connerie la guerre
Qu’es-tu devenue maintenant
Sous cette pluie de fer
De feu d’acier de sang
Et celui qui te serrait dans ses bras
Amoureusement
Est-il mort disparu ou bien encore vivant
Oh Barbara
Il pleut sans cesse sur Brest
Comme il pleuvait avant
Mais ce n’est plus pareil et tout est abîmé
C’est une pluie de deuil terrible et désolée
Ce n’est même plus l’orage
De fer d’acier de sang
Tout simplement des nuages
Qui crèvent comme des chiens
Des chiens qui disparaissent
Au fil de l’eau sur Brest
Et vont pourrir au loin
Au loin très loin de Brest
Dont il ne reste rien

Joan Margarit – A senha

Sozinho entre dois infernos
— o da liberdade e o da idade —,
já não consigo abrir nosso cofre.
A porta com seus dígitos giratórios
é a roleta na qual já não aposto.
Desde o primeiro suspiro conservei
a blindada clareza
daquela rosa.
Agora, nu em nosso quarto,
a janela aberta e a luz apagada,
ouço o rumor urbano da noite,
enquanto a leve brisa me acaricia.
Aquela garota e aquele garoto
permanecem tão perto, estão dentro de mim:
um cheiro familiar, uma canção,
podem fazê-los voltar, mas se tento lhes falar,
já desapareceram. Vivemos à mercê
do que ignorávamos sobre nós mesmos.
É como se, entre todos os direitos
que a vida pudesse ter,
houvesse um misterioso direito à ignorância.
O ninho metálico custodia nossos sonhos.
Estou chorando: a senha
era a data de tua morte.

Trad.: Nelson Santander

La combinación

Sola entre dos infiernos
—el de la libertad y el de la edad—,
ya no puedo abrir nuestra caja fuerte.
La puerta con sus cifras giratorias
es la ruleta en la que ya no apuesto.
Desde el primer suspiro conservé,
la acorazada claridad
de aquella rosa.
Ahora, desnuda en nuestro dormitorio,
con la ventana abierta y la luz apagada,
oigo el rumor urbano de la noche
mientras la leve brisa me acaricia.
Aquella chica y aquel chico
permanecen muy cerca, están dentro de mí:
un olor familiar, una canción,
pueden hacer que vuelvan, pero si quiero hablarles
ya han desaparecido. Vivimos a merced
de lo que de nosotros ignorábamos
Es como si entre todos los derechos
que tuviese la vida,
hubiera un misterioso derecho a no saber.
El metálico nido custodia nuestros sueños.
Estoy llorando: la combinación
era la fecha de tu muerte.

Rainer Maria Rilke – Elegias de Duíno – Décima Elegia

Que um dia, ao emergir da terrível intuição, ascenda
meu canto de júbilo e glória até os Anjos aprovadores!
Que nenhum claro golpe dos malhos do coração
desentoe sobre cordas frouxas, vacilantes ou
desgarradas! Que meu rosto se ilumine sob o pranto!
Que a obscura lágrima floresça! Oh, como então vos amaria,
noites de aflição! Por que não me ajoelhei mais contrito,
inconsoláveis irmãs, para vos acolher,
para me perder em vossos cabelos desfeitos
com mais abandono? Nós, dissipadores da dor.
Como buscamos longe, na triste duração, seu fim
desejado! Ela é, porém, nossa folhagem de inverno,
nossa pervinca sombria, uma das estações
do ano secreto – não somente estação, mas
espaço, residência, campo, solo, morada.

Estranhas ruas da Cidade-Aflição, onde,
no aparente silêncio feito de estrépito
irrompe violento, gerado no molde do vazio,
o ruído do ouro, o monumento trepidante.
Oh, como, sem deixar vestígios, um Anjo andaria
em seu mercado de consolo que a igreja limita,
a igreja comprada feita: limpa, fechada e tristonha
como o correio aos domingos… Fora, está sempre
a feira de encapelado contorno. Balanças de liberdade!
Mergulhadores e charlatães do zelo! E o simbólico
tiro à felicidade ataviada: os berloques
se agitam e há ruídos de estanho quando um atirador
mais destro alcança a meta. Ao capricho dos acasos
ele prossegue, vacilante, pois há uma tenda apregoando
ruidosa para cada anseio. Especial para adultos: veja-se
como o dinheiro se reproduz, anatomicamente,
não como simples diversão. O órgão genital do dinheiro,
tudo acessível, à vista! É instrutivo e favorece
a procriação…
… Oh, e um pouco além, atrás do último
tabique, ostentando os cartazes dos “Libertos da Morte”
– cerveja amarga que aos bebedores tão doce parece
quando a bebem mastigando frescas distrações… –,
atrás do tabique, logo atrás está o real.
As crianças brincam, os amantes se ignoram, graves,
sobre a erva rala, e os cães seguem a natureza.
Para mais longe sente-se o jovem atraído; ama talvez uma jovem
Lamentação… Seguindo-a, caminha através dos campos. Ela diz:
longe, vivemos muito longe…
            Onde? E o jovem continua.
Sua atitude o fascina: os ombros, o colo – talvez é ela
de nobre origem. Mas a abandona, se aparta e
de longe acena… Para quê? Ela é uma Lamentação.

Somente os que morreram jovens, os iniciados
na indiferença alheia ao tempo do desacostumar-se,
a seguem por amor. Às jovens ela aguarda
e dá sua amizade. Mostra-lhes com doçura seus
adornos: pérolas de dor e os tênues
véus do assentimento. – Com os jovens,
caminha em silêncio.

Longe, onde vivem, uma velha Lamentação
fala ao jovem curioso: – Nós fomos, diz ela,
uma grande raça, outrora. Nossos pais exploravam
as minas, além, nas grandes montanhas; entre os homens
encontram-se às vezes fragmentos polidos da dor original
ou, expulsas de um velho vulcão, escórias de cólera
petrificada. Sim, isto veio de lá. Outrora fomos ricos.
E ela o conduz através da ampla paisagem das Lamentações,
mostra-lhe as colunas do templo e as ruínas
de antiquíssimos castelos: lá viviam os sábios príncipes
que dominavam outrora. Mostra-lhe árvores esguias
de lágrimas e campos de nostalgia em flor
(os que vivem não conhecem senão a sua doce folhagem);
mostra-lhe, pascendo, o rebanho da tristeza – às vezes
um pássaro assustado, cruzando o espaço, desenha
a imagem de seu grito solitário. –
Ao crepúsculo ela o conduz ao sepulcro dos antepassados
das Lamentações: as Sibilas e os Profetas.

A noite se aproxima e então caminham mais tranquilos;
já se levanta, banhada pela lua, a pedra funerária
que vela sobre o mundo, irmã da sublime Esfinge
do Nilo: face
da câmara secreta.
E eles contemplam, atônitos, a cabeça real
que, para sempre calada, pôs a face dos homens
na balança das estrelas.

O olhar do jovem, que a morte recente
enche de vertigem, não a pode conter. Mas
ela, que espreita, afugenta o mocho
de trás do pschent. E aquele,
roçando num leve contato
a curva madura da Face, desenha
de leve no ouvido do morto, sobre uma dupla
folha aberta, o contorno inefável.
E mais alto, as estrelas. Recém-nascidas. Estrelas
do país da Dor. A Lamentação revela seus nomes:
“Aqui, veja: o Cavaleiro, o Bordão, e a esse denso grupo
de estrelas chamamos Coroa de Frutos. Além,
perto do polo: Berço, Caminho, O Livro Ardente, Boneca, Janela.
E no céu do sul, puro como a palma de uma sagrada
mão, o fulgor límpido das Madres…”

Mas o morto deve prosseguir e, em silêncio, a Lamentação
mais velha o conduz à garganta do vale
onde, ao luar, cintila
a fonte da alegria. Com veneração
ela a indica: “Entre os homens,
eis a torrente portadora”.

Ao pé da montanha eles se detêm.
E ela o abraça, chorando.

Solitário, ele ascende à montanha da dor original.
E nem uma só vez seu passo ressoa no destino insonoro.

Mas se os infinitamente mortos despertassem um símbolo,
em nós, olhai, mostrariam talvez os engastes pendentes
das aveleiras vazias, ou a chuva que cai
sobre o reino obscuro da terra em primavera.

E nós que imaginamos a ventura em ascensão,
sentiríamos uma ternura imensa,
quase perturbadora,
quando uma coisa feliz cai…

Trad.: Dora Ferreira da Silva

Die zehnte Elegie

Daß ich dereinst, an dem Ausgang der grimmigen Einsicht,
Jubel und Ruhm aufsinge zustimmenden Engeln.
Daß von den klar geschlagenen Hämmern des Herzens
keiner versage an weichen, zweifelnden oder
reißenden Saiten. Daß mich mein strömendes Antlitz
glänzender mache; daß das unscheinbare Weinen
blühe. O wie werdet ihr dann, Nächte, mir lieb sein,
gehärmte. Daß ich euch knieender nicht, untröstliche Schwestern,
hinnahm, nicht in euer gelöstes
Haar mich gelöster ergab. Wir, Vergeuder der Schmerzen
Wie wir sie absehn voraus, in die traurige Dauer,
ob sie nicht enden vielleicht. Sie aber sind ja
unser winterwähriges Laub, unser dunkeles Sinngrün,
eine der Zeiten des heimlichen Jahres –, nicht nur

Zeit –, sind Stelle, Siedelung, Lager, Boden, Wohnort.
Freilich, wehe, wie fremd sind die Gassen der Leid-Stadt,
wo in der falschen, aus Übertönung gemachten
Stille, stark, aus der Gußform des Leeren der Ausguß
prahlt: der vergoldete Lärm, das platzende Denkmal.
O, wie spurlos zerträte ein Engel ihnen den Trostmarkt,
den die Kirche begrenzt, ihre fertig gekaufte:
reinlich und zu und enttäuscht wie ein Postamt am Sonntag.
Draußen aber kräuseln sich immer die Ränder von Jahrmarkt.
Schaukeln der Freiheit! Taucher und Gaukler des Eifers!
Und des behübschten Glücks figürliche Schießstatt,
wo es zappelt von Ziel und sich blechern benimmt,
wenn ein Geschickterer trifft. Von Beifall zu Zufall
taumelt er weiter; denn Buden jeglicher Neugier
werben, trommeln und plärrn. Für Erwachsene aber
ist noch besonders zu sehn, wie das Geld sich vermehrt, anatomisch,
nicht zur Belustigung nur: der Geschlechtsteil des Gelds,
alles, das Ganze, der Vorgang –, das unterrichtet und macht
fruchtbar…
…Oh aber gleich darüber hinaus,
hinter der letzten Planke, beklebt mit Plakaten des “Todlos”,
jenes bitteren Biers, das den Trinkenden süß scheint,
wenn sie immer dazu frische Zerstreuungen kaun…,
gleich im Rücken der Planke, gleich dahinter, ists wirklich.
Kinder spielen, und Liebende halten einander, – abseits,
ernst, im ärmlichen Gras, und Hunde haben Natur.

Weiter noch zieht es den Jüngling; vielleicht, daß er eine junge
Klage liebt… Hinter ihr her kommt er in Wiesen. Sie sagt:
– Weit. Wir wohnen dort draußen…
            Wo? Und der Jüngling
folgt. Ihn rührt ihre Haltung. Die Schulter, der Hals –, vielleicht
ist sie von herrlicher Herkunft. Aber er läßt sie, kehrt um,
wendet sich, winkt… Was solls? Sie ist eine Klage.

Nur die jungen Toten, im ersten Zustand
zeitlosen Gleichmuts, dem der Entwöhnung,
folgen ihr liebend. Mädchen
wartet sie ab und befreundet sie. Zeigt ihnen leise,
was sie an sich hat. Perlen des Leids und die feinen
Schleier der Duldung. – Mit Jünglingen geht sie
schweigend.

Aber dort, wo sie wohnen, im Tal, der Älteren eine, der Klagen,
nimmt sich des Jünglinges an, wenn er fragt: – Wir waren,
sagt sie, ein Großes Geschlecht, einmal, wir Klagen. Die Väter
trieben den Bergbau dort in dem großen Gebirg; bei Menschen
findest du manchmal ein Stück geschliffenes Ur-Leid
oder, aus altem Vulkan, schlackig versteinerten Zorn.
Ja, das stammte von dort. Einst waren wir reich. –
Und sie leitet ihn leicht durch die weite Landschaft der Klagen,
zeigt ihm die Säulen der Tempel oder die Trümmer
jener Burgen, von wo Klage-Fürsten das Land
einstens weise beherrscht. Zeigt ihm die hohen
Tränenbäume und Felder blühender Wehmut,
(Lebendige kennen sie nur als sanftes Blattwerk);
zeigt ihm die Tiere der Trauer, weidend, – und manchmal
schreckt ein Vogel und zieht, flach ihnen fliegend durchs Aufschaun,
weithin das schriftliche Bild seines vereinsamten Schreis. –
Abends führt sie ihn hin zu den Gräbern der Alten
aus dem Klage-Geschlecht, den Sibyllen und Warn-Herrn.
Naht aber Nacht, so wandeln sie leiser, und bald
mondets empor, das über Alles
wachende Grab-Mal. Brüderlich jenem am Nil,
der erhabene Sphinx –: der verschwiegenen Kammer
Antlitz.
Und sie staunen dem krönlichen Haupt, das für immer,
schweigend, der Menschen Gesicht
auf die Waage der Sterne gelegt.

Nicht erfaßt es sein Blick, im Frühtod
schwindelnd. Aber ihr Schaun,
hinter dem Pschent-Rand hervor, scheucht es die Eule. Und sie,
streifend im langsamen Abstrich die Wange entlang,
jene der reifesten Rundung,
zeichnet weich in das neue
Totengehör, über ein doppelt
aufgeschlagenes Blatt, den unbeschreiblichen Umriß.
Und höher, die Sterne. Neue. Die Sterne des Leidlands.
Langsam nennt sie die Klage: – Hier,
siehe: den Reiter, den Stab, und das vollere Sternbild
nennen sie: Fruchtkranz. Dann, weiter, dem Pol zu:
Wiege; Weg; Das Brennende Buch; Puppe; Fenster.
Aber im südlichen Himmel, rein wie im Innern
einer gesegneten Hand, das klar erglänzende M,
das die Mütter bedeutet… –

Doch der Tote muß fort, und schweigend bringt ihn die ältere
Klage bis an die Talschlucht,
wo es schimmert im Mondschein:
die Quelle der Freude. In Ehrfurcht
nennt sie sie, sagt: – Bei den Menschen
ist sie ein tragender Strom. –

Stehn am Fuß des Gebirgs.
Und da umarmt sie ihn, weinend.

Einsam steigt er dahin, in die Berge des Ur-Leids.
Und nicht einmal sein Schritt klingt aus dem tonlosen Los.

Aber erweckten sie uns, die unendlich Toten, ein Gleichnis,
siehe, sie zeigten vielleicht auf die Kätzchen der leeren
Hasel, die hängenden, oder
meinten den Regen, der fällt auf dunkles Erdreich im Frühjahr.

Und wir, die an steigendes Glück
denken, empfänden die Rührung,
die uns beinah bestürzt,
wenn ein Glückliches fällt.

Rainer Maria Rilke – Elegias de Duíno – Nona Elegia

Por que, sendo possível o prazo da existência
levar como o loureiro, de um verde mais sombrio que todos
os outros verdes, com leves ondulações no contorno
das folhas (como um sorriso do vento) – por que
então, escravos do humano, anelar pelo destino
fugindo ao destino?…
            Oh, não porque a felicidade exista,
essa prematura dádiva de uma perda iminente.
Não por curiosidade ou exercício do coração
que lá poderia estar, no loureiro…

Mas porque estar-aqui é excessivo e todas as coisas
parecem precisar de nós, essas efêmeras que estranhamente
nos solicitam. A nós, os mais efêmeros. Uma vez
cada uma, somente uma vez. Uma vez e nunca mais.
E nós também, uma vez, jamais outra. Porém este
ter sido uma vez, ainda que apenas uma vez,
ter sido terrestre, não parece revocável.

E assim, urgidos, queremos cumpri-lo,
contê-lo em nossas simples mãos,
no transbordante olhar, no coração emudecido.
Tentamos nele nos transformar. A quem dá-lo?
Melhor tudo guardar para sempre… Na outra relação,
ai de nós, o que poderíamos transpor? Não o contemplar,
aqui vagarosamente apreendido, não o aqui consumado:
mas a angústia e acima de tudo o mais árduo,
a longa experiência do amor – o puro
indizível. Mais tarde, porém, o que dizer
entre as estrelas, tão mais, tão mais indizíveis?
Traga pois o viandante da encosta do monte para o vale,
não apenas um punhado de terra do indizível,
mas a palavra colhida pura, a genciana amarela
e azul. Estamos aqui talvez para dizer: casa,
ponte, árvore, porta, cântaro, fonte, janela –
e ainda: coluna, torre… Mas para dizer, compreende,
para dizer as coisas como elas mesmas jamais
pensaram ser intimamente. Não é o mais secreto ardil
da terra silenciosa, ao impelir os amantes, fazer
com que tudo se rejubile no seu sentimento?
Umbral: o que significa para dois amantes
que eles também desgastem o velho umbral
da porta, eles também, depois de tantos outros,
e antes dos que virão ainda… inevitavelmente?

Eis aqui o tempo do dizível, eis aqui sua pátria.
Fala e proclama. Cada vez mais
dissipam-se as coisas que ao nosso lado viviam
e em seu lugar se instala um Fazer sem Imagem.
Fazer, que tenta destruir a crosta limitante,
quando a ação se desenvolve e toma novos contornos.
Entre malhos subsiste
nosso coração, como a língua
entre os dentes, e que, no entanto,
permanece a exaltadora.

Canta ao Anjo o louvor do mundo, não o indizível; diante
dele não podes vangloriar-te da tua esplêndida intuição;
no universo em que ele, o mais intuitivo, intui, não és mais
do que um noviço. Mostra-lhe o simples, o que através das
gerações configurado vive como o nosso no olhar e ao alcance
da mão. Dize-lhe as coisas. Nele acordarás o que em ti despertou
o cordoeiro de Roma e o ceramista do Nilo.
Mostra-lhe como pode
ser feliz uma coisa, inocente e nossa; como até a lamentosa dor
se resolve puramente em forma e serve, humilde
como uma coisa ou morre numa coisa – e como se evade
o violino para a bem-aventurança. E estas coisas
que vivem o fugaz, compreendem que teces o seu louvor;
efêmeras, adivinham salvadores em nós, os mais efêmeros.
Que em nossos corações invisíveis se cumpra a sua
metamorfose – infinitamente –, quem quer que sejamos!
Terra, não é este o teu desejo: renascer invisível
em nós? – Não é teu sonho tornar-te
invisível algum dia? – Terra! Invisível!
Não é a metamorfose tua desesperada missão?
Terra, ó minha amada, assim o quero! Crê-me,
não preciso mais que as tuas primaveras me atraiam:
uma, ai, uma só já é excessiva para o meu sangue.
De obscuras distâncias consagrei-me todo a ti…
Sempre tiveste razão e a tua inspiração sagrada
é a morte íntima.

Vivo. De quê? Infância ou futuro
não decrescem… Uma caudalosa existência
transborda em meu coração.

Trad.: Dora Ferreira da Silva

Die neunte Elegie

Warum, wenn es angeht, also die Frist des Daseins
hinzubringen, als Lorbeer, ein wenig dunkler als alles
andere Grün, mit kleinen Wellen an jedem
Blattrand (wie eines Windes Lächeln) –: warum dann
Menschliches müssen – und, Schicksal vermeidend,
sich sehnen nach Schicksal?…
            Oh, nicht, weil Glück ist,
dieser voreilige Vorteil eines nahen Verlusts.
Nicht aus Neugier, oder zur Übung des Herzens,
das auch im Lorbeer wäre

Aber weil Hiersein viel ist, und weil uns scheinbar
alles das Hiesige braucht, dieses Schwindende, das
seltsam uns angeht. Uns, die Schwindendsten. Ein Mal
jedes, nur ein Mal. Ein Mal und nicht mehr. Und wir auch
ein Mal. Nie wieder. Aber dieses
ein Mal gewesen zu sein, wenn auch nur ein Mal:
irdisch gewesen zu sein, scheint nicht widerrufbar.

Und so drängen wir uns und wollen es leisten,
wollens enthalten in unsern einfachen Händen,
im überfüllteren Blick und im sprachlosen Herzen.
Wollen es werden. – Wem es geben? Am liebsten
alles behalten für immer… Ach, in den andern Bezug,
wehe, was nimmt man hinüber? Nicht das Anschaun, das hier
langsam erlernte, und kein hier Ereignetes. Keins.
Also die Schmerzen. Also vor allem das Schwersein,
also der Liebe lange Erfahrung, – also
lauter Unsägliches. Aber später,
unter den Sternen, was solls: die sind besser unsäglich.
Bringt doch der Wanderer auch vom Hange des Bergrands
nicht eine Hand voll Erde ins Tal, die Allen unsägliche, sondern
ein erworbenes Wort, reines, den gelben und blaun
Enzian. Sind wir vielleicht hier, um zu sagen: Haus,
Brücke, Brunnen, Tor, Krug, Obstbaum, Fenster, –
höchstens: Säule, Turm… aber zu sagen, verstehs,
oh zu sagen so, wie selber die Dinge niemals
innig meinten zu sein. Ist nicht die heimliche List
dieser verschwiegenen Erde, wenn sie die Liebenden drängt,
daß sich in ihrem Gefühl jedes und jedes entzückt?
Schwelle: was ists für zwei
Liebende, daß sie die eigne ältere Schwelle der Tür
ein wenig verbrauchen, auch sie, nach den vielen vorher
und vor den Künftigen…, leicht.
Hier ist des Säglichen Zeit, hier seine Heimat.
Sprich und bekenn. Mehr als je
fallen die Dinge dahin, die erlebbaren, denn,
was sie verdrängend ersetzt, ist ein Tun ohne Bild.
Tun unter Krusten, die willig zerspringen, sobald
innen das Handeln entwächst und sich anders begrenzt.
Zwischen den Hämmern besteht
unser Herz, wie die Zunge
zwischen den Zähnen, die doch,
dennoch, die preisende bleibt.

Preise dem Engel die Welt, nicht die unsägliche, ihm
kannst du nicht großtun mit herrlich Erfühltem; im Weltall,
wo er fühlender fühlt, bist du ein Neuling. Drum zeig
ihm das Einfache, das, von Geschlecht zu Geschlechtern gestaltet,
als ein Unsriges lebt, neben der Hand und im Blick.
Sag ihm die Dinge. Er wird staunender stehn; wie du standest
bei dem Seiler in Rom, oder beim Töpfer am Nil.
Zeig ihm, wie glücklich ein Ding sein kann, wie schuldlos und unser,
wie selbst das klagende Leid rein zur Gestalt sich entschließt,
dient als ein Ding, oder stirbt in ein Ding –, und jenseits
selig der Geige entgeht. – Und diese, von Hingang
lebenden Dinge verstehn, daß du sie rühmst; vergänglich,
traun sie ein Rettendes uns, den Vergänglichsten, zu.
Wollen, wir sollen sie ganz im unsichtbarn Herzen verwandeln
in – o unendlich – in uns! Wer wir am Ende auch seien.
Erde, ist es nicht dies, was du willst: unsichtbar
in uns erstehn? – Ist es dein Traum nicht,
einmal unsichtbar zu sein? – Erde! unsichtbar!
Was, wenn Verwandlung nicht, ist dein drängender Auftrag?
Erde, du liebe, ich will. Oh glaub, es bedürfte
nicht deiner Frühlinge mehr, mich dir zu gewinnen –, einer,
ach, ein einziger ist schon dem Blute zu viel.
Namenlos bin ich zu dir entschlossen, von weit her.
Immer warst du im Recht, und dein heiliger Einfall
ist der vertrauliche Tod.

Siehe, ich lebe. Woraus? Weder Kindheit noch Zukunft
werden weniger… Überzähliges Dasei
entspringt mir im Herzen.

Rainer Maria Rilke – Elegias de Duíno – Oitava Elegia

Oitava elegia

          dedicada a Rudolf Kassner

Com todos os seus olhos, a criatura vê o Aberto.
Nosso olhar, porém, foi revertido e como armadilha
se oculta em torno do livre caminho.
O que está além, pressentimos apenas
na expressão do animal; pois desde a infância
desviamos o olhar para trás e o espaço livre perdemos,
ah, esse espaço profundo que há na face do animal.
Isento de morte. Nós só vemos
morte. O animal espontâneo ultrapassou seu fim;
diante de si tem apenas Deus e quando se move
é para a eternidade, como correm as fontes.
Ignoramos o que é contemplar um dia, somente
um dia o espaço puro, onde, sem cessar,
as flores desabrocham. Sempre o mundo,
jamais o em-parte-alguma, sem nada: o puro,
o inesperado que se respira, que se sabe
infinito, sem a avidez do desejo.
Uma criança aí se perde, às vezes,
em silêncio, mas é despertada. Ou alguém
que morre, nisso se transforma. Pois os
que da morte se aproximam não mais a podem ver,
fixando o infinito com o grande olhar do animal.
Os amantes – não estivesse o outro a ofuscar-lhe
a visão – sentem a obscura presença e se espantam…
Às vezes há um descerrar-se atrás do outro… Mas
o outro, como superá-lo? E o mundo já retorna.
Para a criação sempre voltados, nela
vemos apenas o reflexo da liberdade
que obscurecemos. Há no entanto
esses olhos calmos que o animal levanta,
atravessando-nos com seu mudo olhar.
A isto se chama destino: estar em face
do mundo, eternamente em face.

Tivesse, como nós, consciência o animal
tranquilo – em outro sentido nos arrastaria;
seu ritmo seria o nosso. Seu ser, porém,
é infinito, inapreensível e sem olhar.
E ele tudo vê, puro e inconsciente de si, onde
nós vemos futuro, em tudo se vê
e salvo para sempre.
Há, entretanto, no animal quente e vigilante,
a inquietude e a opressão de uma profunda nostalgia.
Ele conhece a angústia que tantas
vezes nos domina – a lembrança,
como se esse para onde tendemos
tivesse sido outrora mais fiel e
de contato mais doce.

Tudo aqui é distância – lá
era alento. Depois da primeira
pátria, como parece a segunda
incerta e sem abrigo! Bem-aventurada
a pequena criatura que sempre permanece
no seio que a criou; ó tu, mosca feliz,
que saltas interiormente ainda mesmo
nas núpcias: o ventre é tudo.
Olhai a quase certeza do pássaro, que por sua
origem pertence aos dois domínios, como se
fosse a alma liberta de um etrusco
que o espaço acolheu, mas com a imagem repousando
a recobri-lo. E olhai a indecisão do que deve
voar, expulso do seio. Espantado consigo mesmo
fende o ar, taça partida. Assim risca o morcego,
no seu voo, a porcelana da tarde.

E nós: espectadores em tudo e sempre,
voltados para tudo, nunca de fora.
Saciados, ordenamos. Mas tudo se desfaz.
Novamente insistimos e nós mesmos passamos.

Quem nos desviou assim, para que tivéssemos
um ar de despedida em tudo que fazemos? Como aquele
que partindo se detém na última colina para contemplar
o vale na distância – e ainda uma vez se volta,
hesitante, e aguarda – assim vivemos nós,
numa incessante despedida.

Trad.: Dora Ferreira da Silva

 

Die achte Elegie

          Rudolf Kassner zugeeignet

Mit allen Augen sieht die Kreatur
das Offene. Nur unsre Augen sind
wie umgekehrt und ganz um sie gestellt
als Fallen, rings um ihren freien Ausgang.
Was draußen ist, wir wissens aus des Tiers
Antlitz allein; denn schon das frühe Kind
wenden wir um und zwingens, daß es rückwärts
Gestaltung sehe, nicht das Offne, das
im Tiergesicht so tief ist. Frei von Tod.
Ihn sehen wir allein; das freie Tier
hat seinen Untergang stets hinter sich
und vor sich Gott, und wenn es geht, so gehts
in Ewigkeit, so wie die Brunnen gehen.
Wir haben nie, nicht einen einzigen Tag,
den reinen Raum vor uns, in den die Blumen
unendlich aufgehn. Immer ist es Welt
und niemals Nirgends ohne Nicht: das Reine,
Unüberwachte, das man atmet und
unendlich weiß und nicht begehrt. Als Kind
verliert sich eins im Stilln an dies und wird
gerüttelt. Oder jener stirbt und ists.
Denn nah am Tod sieht man den Tod nicht mehr
und starrt hinaus, vielleicht mit großem Tierblick.
Liebende, wäre nicht der andre, der
die Sicht verstellt, sind nah daran und staunen…
Wie aus Versehn ist ihnen aufgetan
hinter dem andern… Aber über ihn
kommt keiner fort, und wieder wird ihm Welt.
Der Schöpfung immer zugewendet, sehn
wir nur auf ihr die Spiegelung des Frein,
von uns verdunkelt. Oder daß ein Tier,
ein stummes, aufschaut, ruhig durch uns durch.
Dieses heißt Schicksal: gegenüber sein
und nichts als das und immer gegenüber.

Wäre Bewußtheit unsrer Art in dem
sicheren Tier, das uns entgegenzieht
in anderer Richtung –, riß es uns herum
mit seinem Wandel. Doch sein Sein ist ihm
unendlich, ungefaßt und ohne Blick
auf seinen Zustand, rein, so wie sein Ausblick.
Und wo wir Zukunft sehn, dort sieht es Alles
und sich in Allem und geheilt für immer.
Und doch ist in dem wachsam warmen Tier
Gewicht und Sorge einer großen Schwermut.
Denn ihm auch haftet immer an, was uns
oft überwältigt, – die Erinnerung,
als sei schon einmal das, wonach man drängt,
näher gewesen, treuer und sein Anschluß
unendlich zärtlich.Hier ist alles Abstand,
und dort wars Atem. Nach der ersten Heimat
ist ihm die zweite zwitterig und windig.
O Seligkeit der kleinen Kreatur,
die immer bleibt im Schooße, der sie austrug;
o Glück der Mücke, die noch innen hüpft,
selbst wenn sie Hochzeit hat: denn Schooß ist Alles.
Und sieh die halbe Sicherheit des Vogels,
der beinah beides weiß aus seinem Ursprung,
als wär er eine Seele der Etrusker,
aus einem Toten, den ein Raum empfing,
doch mit der ruhenden Figur als Deckel.
Und wie bestürzt ist eins, das fliegen muß
und stammt aus einem Schooß. Wie vor sich selbst
erschreckt, durchzuckts die Luft, wie wenn ein Sprung
durch eine Tasse geht. So reißt die Spur
der Fledermaus durchs Porzellan des Abends.

Und wir: Zuschauer, immer, überall,
dem allen zugewandt und nie hinaus!

Uns überfüllts. Wir ordnens. Es zerfällt.
Wir ordnens wieder und zerfallen selbst.

Wer hat uns also umgedreht, daß wir,
was wir auch tun, in jener Haltung sind
von einem, welcher fortgeht? Wie er auf
dem letzten Hügel, der ihm ganz sein Tal
noch einmal zeigt, sich wendet, anhält, weilt –,
so leben wir und nehmen immer Abschied.