Charles Simic – Na Biblioteca

                  Para Octavio

Há um livro chamado
“Um Dicionário dos Anjos”.
Não foi aberto por ninguém em cinquenta anos,
Eu sei, porque quando o fiz
As capas rangeram, as páginas
desintegraram-se. Nele descobri
Que os anjos já foram tão abundantes
Quanto moscas. O céu ao entardecer
Costumava ficar repleto deles.
Você precisava agitar ambos os braços
Apenas para mante-los afastados.
Agora o sol está brilhando
Através de altas janelas.
A biblioteca é um lugar tranquilo.
Anjos e deuses amontoados
em sombrios tomos fechados.
O grande segredo está
Em alguma estante pela qual
Miss Jones passa em sua ronda diária.
Ela é muito alta, então mantém
Sua cabeça inclinada como se estivesse escutando.
Os livros estão sussurrando.
Eu não ouço nada, mas ela sim.

Trad.: Nelson Santander

Charles Simic – In Library

There’s a book called
“A Dictionary of Angels.”
No one has opened it in fifty years,
I know, because when I did,
The covers creaked, the pages
Crumbled. There I discovered
The angels were once as plentiful
As species of flies. The sky at dusk
Used to be thick with them.
You had to wave both arms
Just to keep them away.
Now the sun is shining
Through the tall windows.
The library is a quiet place.
Angels and gods huddled
In dark unopened books.
The great secret lies
On some shelf Miss Jones
Passes every day on her rounds.
She’s very tall, so she keeps
Her head tipped as if listening.
The books are whispering.
I hear nothing, but she does.

Jorge Luis Borges – Sobre nós

Amamos o que não conhecemos, o já perdido.
O bairro que foi periferia.
Os antigos, que já não podem nos decepcionar
porque são mito e esplendor.
Os seis volumes de Schopenhauer,
que não acabaremos de ler.
A lembrança, não a leitura, da segunda parte do Quixote.
O Oriente que, sem dúvida, não existe para o afegão,
o persa ou o tártaro.
Os mais velhos, com os quais não conseguiríamos conversar
durante um quarto de hora.
As mutáveis formas da memória,
que é feita de esquecimento.
As línguas que mal deciframos.
Algum verso latino ou saxão, que não é mais do que um hábito.
Os amigos que não podem nos faltar
porque já morreram.
O ilimitado nome de Shakespeare.
A mulher que está ao nosso lado e que é tão diversa.
O xadrez e a álgebra, que não compreendo.

Trad.: Nelson Santander

Jorge Luis Borges – Lo nuestro

Amamos lo que no conocemos, lo ya perdido.
El barrio que fue las orillas.
Los antiguos, que ya no pueden defraudarnos,
porque son mito y esplendor.
Los seis volúmenes de Schopenhauer,
que no acabaremos de leer.
El recuerdo, no la lectura, de la segunda parte del Quijote.
El Oriente, que sin duda no existe para el afgano,
el persa o el tártaro.
Nuestros mayores, con los que no podríamos conversar
durante un cuarto de hora.
Las cambiantes formas de la memoria,
que está hecha de olvido.
Los idiomas que apenas desciframos.
Algún verso latino o sajón, que no es otra cosa que un hábito.
Los amigos que no pueden faltarnos,
porque se han muerto.
El ilimitado nombre de Shakespeare.
La mujer que está a nuestro lado y que es tan distinta.
El ajedrez y el álgebra, que no sé.

José Alcaraz – Volta para Casa

Atravessa as ruas
absorto nos ecos das pessoas,
distante inclusive de seus pensamentos.
Não chove, não abre seu guarda-chuva,
no entanto, como sempre, molham-se
não só seus sapatos
como a vida também, porque às vezes
não recorda que o mundo o reclama.
Caminha como quem não sabe para onde,
a cada passo crê estar só
e mais longe das outras pessoas,
por isso demora a encontrar as palavras,
e quando as pronuncia já não há ninguém
esperando. Depois
novamente o caminho de volta,
as ruas, a tristeza. E nada mais,
salvo sua casa, e ele,
diante de um espelho,
olhando-me nos olhos.

Trad.: Nelson Santander

José Alcaraz – Vuelta a Casa

Atraviesa las calles
ensimismado en ecos de la gente,
distante incluso de sus pensamientos.
No llueve, no despliega su paraguas,
pero a él, como siempre, se le mojan
no solo los zapatos
sino también la vida porque a veces
no recuerda que el mundo lo reclama.
Camina como quien no sabe adónde,
a cada paso cree que está solo
y más lejos del resto de personas,
así que llega tarde a sus palabras
y cuando las pronuncia ya no hay nadie
esperando. Después
nuevamente el camino de regreso,
las calles, la tristeza. Y nada más,
salvo su casa, y él,
delante de un espejo,
mirándome a los ojos.

Hans Magnus Enzensberger – A Visita

Quando levantei os olhos da página em branco
havia um anjo no quarto.

Um anjo bastante comum
presumivelmente de menor hierarquia.

Você não pode imaginar, ele disse,
o tanto que você é dispensável.

Dos quinze mil tons de azul,
ele disse, cada um faz mais diferença

Do que tudo que você possa fazer
ou deixar de fazer.

Sem mencionar o feldspato
ou a Grande Nuvem de Magalhães.

Mesmo a banana-da-terra mais comum, com toda
sua modéstia, deixaria uma lacuna. Você não.

Eu poderia falar de seus olhos brilhantes –
Ele esperava por uma discussão, por uma longa disputa.

Eu não me mexi. Esperei em silêncio
até que ele partisse.

Trad.: Nelson Santander (a partir de tradução do alemão para o inglês feita por Michael Hamburger, David Constantine e Hans Magnus Enzensberger: https://www.bu.edu/european/files/2014/12/Chapter6_Layout-1.pdf )

Hans Magnus Enzensberger – The Visit

When I looked up from my blank page
there was an angel in the room.

A rather commonplace angel,
presumably of lower rank.

You cannot imagine, he said,
the degree to which you’re dispensable.

Of the fifteen thousand hues of blue,
he said, each one makes more of a difference

Than anything you may do
or refrain from doing,

Not to mention the feldspar
or the Great Magellanic Cloud.

Even the most common Plantain, unassuming
as it is, would leave a gap. Not you.

I could tell from his bright eyes –
he hoped for an argument, for a long fight.

I did not move.I waited in silence
until he had gone away.

Hans Magnus Enzensberger – Discurso pós-jantar em um noivado

Este eu, um invólucro que,
contanto que ninguém o abra,
parece compacto, regular
como um Kinder ovo,
quase apetitoso. Só por dentro
é escuro. Quem sabe
o que estará esperando por você lá.
Obsessões, sem dúvida,
hábitos enferrujados,
medos incompreensíveis,
truques de segunda mão,
desejos infantis.
Que você deseje tê-la,
esta caixa de presente,
beira o milagre.

Trad.: Nelson Santander (a partir de tradução do alemão para o inglês feita por Martin Chalmers e Esther Kinsky, in A History of Clouds. 99 Meditations by Hans Magnus Enzensberger)

After-Dinner Speech at an Engagement

This self, a container, which,
as long as no one opens it,
appears compact, smooth
as a Kinder egg,
almost appetizing. Only inside,
there it’s dark. Who knows
what’s waiting for you there.
Obsession no doubt,
rusty habits,
incomprehensible fears,
second-hand tricks,
childish desires.
That you want to have it,
this gift box,
borders on a miracle.

Juan Vicente Piqueras – Véspera de Permanecer

Tudo está preparado: a mala,
as camisas, os mapas, a tola esperança.

Estou tirando o pó das pálpebras.
Já pus na lapela
a rosa dos ventos.

Tudo está pronto: o mar, o ar, o atlas.

Só me falta o quando,
o onde, um diário de bordo,
cartas de navegação, ventos propícios,
coragem e alguém que saiba
amar-me como nem eu mesmo me amo.

O barco inexistente, o olhar,
os perigos, as mãos do assombro,
o cordão umbilical do horizonte
que sublinha esses versos elípticos…

tudo está preparado: a sério, em vão.

Trad.: Nelson Santander

Juan Vicente Piqueras – Víspera de Quedarse

Todo está preparado: la maleta,
las camisas, los mapas, la fatua esperanza.

Me estoy quitando el polvo de los párpados.
Me he puesto en la solapa
la rosa de los vientos.

Todo está a punto: el mar, el aire, el atlas.

Sólo me falta el cuándo,
el adónde, un cuaderno de bitácora,
cartas de marear, vientos propicios,
valor y alguien que sepa
quererme como no me quiero yo.

El barco que no existe, la mirada,
los peligros, las manos del asombro,

todo está preparado: en serio, en vano.

Felipe Benítez Reyes – Aniversário

Outro ano que se vai. Os muitos que se foram
deixaram-nos um verbo repetido
com significados diferentes
e o mapa de um tesouro que não está em nenhum mapa,
conversas amenas e o silêncio,
e luzes que se apagam e sombras que se acendem
e o penar de alma em luto pela alma
do que não soubemos expressar.
Outro ano, minha vida. E nós em busca
da chave que nos feche a porta do passado
para estarmos no tempo,
que nunca é ontem, mas enigma,
que nunca é regressar, mas perder-se.

Trad.: Nelson Santander

Felipe Benítez Reyes – Cumpleaños

Otro año que se va. Los tantos que se fueron
nos dejaron un verbo repetido
con significados diferentes
y el mapa de un tesoro que no está en ningún mapa,
conversaciones lentas y el silencio,
y luces que se apagan y sombras que se encienden,
y el vagar de alma en pena por el alma
de lo que no supimos expresar.
Otro año, mi vida. Y nosotros buscando
la llave que nos cierre la puerta del pasado
para estar en el tiempo,
que nunca es el ayer sino el enigma,
que nunca es regresar sino perderse.

Jaime Gil de Biedma – Lembre-se

Bela vida que se foi e parece
já não passar
       Desde então, afundo
sonhos na memória: estremece
a eternidade do tempo lá no fundo.
E de repente um redemoinho cresce
e me arrasta sugado para um profundo
abismo, para onde vai, despenhado,
para sempre dissipando-se o passado.

Trad.: Nelson Santander

Jaime Gil Biedma – Recuerda

Hermosa vida que pasó y parece
ya no pasar…
       Desde este instante, ahondo
sueños en la memoria: se estremece
la eternidad del tiempo allá en el fondo.
Y de repente un remolino crece
que me arrastra sorbido hacia un trasfondo
de sima, donde va, precipitado,
para siempre sumiéndose el pasado.

Rocío Wittib – Outra vez olhas o mundo…

outra vez olhas o mundo como se fosse tarde demais
te perguntas se o tempo é uma resposta
e aceitas a dúvida do talvez como consolo
aprendeste a renunciar sempre de algo
mas sobretudo a desistir de ti mesmo
por isso foges do desejo como um animal ferido
te refugias na certeza fiel de alguma rotina
e tentas olvidar que em breve a noite cairá novamente
outro dia ir-se-á, embora prefiras não ver como se apaga o sol
também a isso aprendeste a renunciar
porque sabes que lá onde a luz é difusa
é exato o sentimento

Trad.: Nelson Santander

Rocío Wittib – Otra vez miras el mundo…

otra vez miras el mundo como si fuera demasiado tarde
te preguntas si el tiempo es una respuesta
y aceptas la duda del tal vez como consuelo
has aprendido a renunciar siempre a algo
pero sobre todo a renunciar a ti mismo
por eso huyes del deseo como un animal herido
te refugias en la certeza fiel de alguna rutina
y procuras olvidar que pronto volverá a caer la noche
otro día se irá aunque prefieras no ver cómo se apaga el sol
también a eso aprendiste a renunciar
porque sabes que ahí donde es difusa la luz
es exacto el sentimiento

Eira Stenberg – Falar de Amor

Falar de amor,
do que não se pode falar –
desse beco sem saída que é o espelho
onde alguém pende de cabeça
em uma árvore invisível
com as pernas cingindo um ramo
como se lutasse contra a gravidade
e abrisse a boca
sem emitir som algum.

Ou falar
como se o amor fosse uma porta
e o pesar sua chave
e por detrás da porta uma árvore em chamas
agora visível,
um feto esticasse as pernas e emergisse
na superfície,
e te falasse, trovador
que joga tua cabeça de uma mão para a outra
como um dado,
e te entregasse uma folha fresca
encerrado o dilúvio.

Trad.: Nelson Santander

Eira Stenberg – Hablar de amor

Hablar de amor,
de lo que no se puede hablar –
de ese callejón sin salida que es el espejo
de donde alguien pende de cabeza
en un árbol invisible
con las piernas atenazando una rama
como si luchase contra la gravedad
y abriese la boca
sin emitir sonido alguno.

O hablar
como si el amor fuese una puerta
y el pesar su llave
y detrás de la puerta un árbol en llamas
ahora visible,
un feto estirase las piernas y emergiese
a la superficie,
y te hablase, juglar
que arrojas tu cabeza de una mano a la otra
como un dado,
y te tendiese una hoja fresca
acabado el diluvio.