Retrospectiva 2025 – No devagar depressa dos tempos

Quem lida com poesia — seja como poeta, leitor, editor ou mero administrador de um recanto qualquer na internet que publica poemas escolhidos a esmo — acaba se deparando, mais cedo ou mais tarde, com a questão da passagem do tempo e seus temas correlatos: nostalgia, saudade, infância, velhice, doença, morte. Os frequentadores assíduos da página sabem que esses são alguns dos assuntos mais recorrentes nos poemas aqui publicados.

Falar da passagem do tempo, para mim, é lidar com o assombro que significa dobrar a página do ano de 2025 para inaugurar um novo capítulo em 2026. Há pouquíssimo tempo, com amigos, discutíamos como seria o ano 2000. Haveria carros voadores? Robôs encarregados das tarefas domésticas? Já teria sido inventada a vacina contra a cárie? Corria então o ano de 1980, e o futuro se apresentava àqueles adolescentes como um éden tecnológico terrestre, no qual doenças incuráveis seriam erradicadas e problemas insolúveis da física — como as viagens intergalácticas — estariam todos equacionados.

Eu disse “há pouquíssimo tempo”? Não, não me enganei. Para nós, humanos, o tempo passa de um jeito estranho. À parte as regras da teoria da relatividade, sentimo-lo basicamente de duas formas: rápido e lento. O detalhe curioso é que, para os nossos sentidos, essas duas velocidades acontecem ao mesmo tempo. Por isso, quando uso a expressão “há pouquíssimo tempo” para me referir a uma conversa banal ocorrida há mais de 45 anos, é porque, para mim, ela se passou ontem — ou, quando muito, na semana passada. E, no entanto, lá se vai quase meio século. Esse paradoxo da passagem a um tempo veloz e pausada do tempo foi descrito de forma magistral por Guimarães Rosa em uma frase curta de “A Terceira Margem do Rio”: Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos.

Nada do que prevíamos eu e meus amigos, diga-se de passagem, se concretizou no ano 2000. Nem carros voadores, nem a cura do câncer. Os anos 2000, lembro bem, eram apenas ligeiramente diferentes dos anos 80 — ao menos no Brasil. Ainda assim, causa espanto constatar que o ano 2000 ficou para trás há 25 anos. Quase 26. “Que horror, que lindo”, diria Caetano.

Mas será que 2025 é, de fato, tão diferente de 1980?

Assim como o tempo, que reúne duas facetas numa só, também os anos de 1980 e 2025 são, ao mesmo tempo, muito semelhantes e muito distintos. A tecnologia, por exemplo, avançou de forma vertiginosa. Hoje temos internet, comunicação instantânea, inteligência artificial, smartphones, tratamentos gênicos — tecnologias inexistentes ou ainda rudimentares nos anos 80. É verdade que, junto com esses avanços, vieram também a vigilância em massa, a perda de privacidade e desigualdades ampliadas pela automação do trabalho.

Em 1980, não havia vacinas de mRNA, telemedicina, streaming ou ferramentas digitais que democratizam a criação e a distribuição de conteúdos. Mas também não havia, como hoje, a obesidade epidêmica associada ao fast food industrializado e ao sedentarismo digital, a crise dos opioides, a saúde mental deteriorada pelo excesso de telas, a cultura do cancelamento sufocando a liberdade artística nas redes sociais, nem a produção de conteúdos rasos, algorítmicos, que empobrecem a profundidade criativa.

Pobreza, desigualdade, racismo, discriminação, violência doméstica, desemprego, analfabetismo funcional e concentração de renda, por sua vez, seguem tão presentes hoje quanto estavam em 1980 — embora, justiça seja feita, tenha havido melhora pontual em alguns desses aspectos (e piora significativa em outros, como a concentração de renda).

Falar do tempo é também lembrar que este blog existe desde fevereiro de 2012 (!). Começou no Tumblr — território então mais instável, mais improvisado — e migrou para o WordPress em fevereiro de 2016, como quem atravessa um rio sem muita certeza da margem oposta. São, portanto, mais de treze anos. Dito assim, parece muito. Vivido, soa pouco. Ou melhor: soa como aquilo que Guimarães Rosa intuiu — o tempo passando no seu modo contraditório, no devagar depressa dos dias. O blog envelheceu como envelhecem as coisas que resistem: sem perceber direito quando começaram a ficar antigas.

Para o ano, talvez — e convém sublinhar esse talvez — este espaço passe a contar também com um podcast. Vamos ver. Não como expansão estratégica nem como adequação a modismos, mas como mais uma tentativa de escuta. Talvez eu encontre tempo para gerenciar essa nova ferramenta. Talvez não. Talvez a voz acrescente algo ao silêncio das páginas. Talvez reste apenas a intenção, que também é uma forma de existir no tempo.

O que me interessa, no entanto, não é a longevidade em si, mas o modo como o tempo se deposita sobre as coisas. Há poemas que envelhecem mal; outros, ao contrário, só começam a dizer algo depois de anos. Há versos que resistem porque aceitam o desgaste, porque não tentam ser eternos. Em alguma medida, este blog sempre foi um arquivo dessa tensão: textos escritos contra o esquecimento, mas conscientes de que nada escapa completamente a ele.

Segue, abaixo, a retrospectiva de 2025: uma seleção dos poemas que, por razões às vezes obscuras, às vezes muito nítidas, me pareceram os mais significativos do período. Não necessariamente os melhores — essa palavra costuma não funcionar —, mas aqueles que, quero crer, permaneceram, que continuaram a reverberar depois da leitura, como certos ruídos que insistem quando o resto já se calou. Não por acaso (ou talvez exatamente por isso), o primeiro deles é Tempo, de Alex Dimitrov — como se o próprio ano quisesse ser lido a partir desse eixo inevitável.

Encerrar um ano é um gesto convencional, quase automático. Ainda assim, há algo de ritual nisso: fechar um ciclo sabendo que ele não se fecha de verdade. O tempo não vira a página, somos nós que tentamos dobrá-la, com cuidado, para que não rasgue. Seguimos, afinal, na água rosiana que não para, de longas beiras, levados pelo curso dos dias, ora rio abaixo, ora rio afora, às vezes rio adentro: o tempo, o texto, o próprio fluxo.

Que 2026 venha, então, com o que tiver de vir. Com seus atrasos, seus excessos, suas pausas. Feliz Ano Novo, não como promessa, mas como desejo atento, desses que sabem que o tempo passa, mas passam com ele, sem a ilusão de vencê-lo.

1. Alex Dimitrov - Tempo

Mais uma vez despreparado
parado sob um toldo
no meio do verão

outono, inverno, primavera —
observando o aguaceiro (...)
2. Jackie Bartley – Lendo mitologia para crianças do jardim da infância

Hoje, li para elas a história de Perséfone e Hades,
uma versão resumida, adaptada para crianças.
Começo a pensar em cada história como um médico
pensa na vacinação; (...)
3. Jeffrey Harrison – Um gole de água

Quando meu filho de dezenove anos abre a torneira da cozinha,
e se inclina sobre a pia, virando a cabeça de lado
para beber diretamente do jato de água fresca,
eu penso no meu irmão mais velho, agora quase dez anos ausente,
que costumava fazer o mesmo nessa idade; (...)
4. Barbara Crooker – O luto

é um rio que atravessamos até chegar à outra margem.
Mas estou aqui, atolada no meio, com água dividindo-se
em torno dos tornozelos, seguindo rio abaixo
sobre pedras planas. Incapaz de levantar um pé,
de seguir em frente. (...)
5. Anna Swir – Eu lavo a camisa

Pela última vez lavo a camisa
de meu pai, que morreu.
A camisa cheira a suor. Conheço
esse cheiro desde a minha infância,
tantos anos
lavei suas camisas e cuecas. (...)
6. Li-Young Lee – Cuidado

Então somos poeira. Enquanto isso, minha esposa e eu
fazemos a cama. Segurando as pontas opostas do lençol,
nós o levantamos, fazendo-o ondular, e depois puxamos com força,
medindo com os olhos enquanto ele cai alinhado
entre nós. (...)
7. Sharon Olds – Ode à terra

Querida terra, peço desculpa por tê-la desprezado,
pensei que você fosse apenas o cenário
para os protagonistas — as plantas,
os animais e os animais humanos. (...)
8. Lucille Clifton – [entardecer e meu falecido ex-marido]

entardecer e meu falecido ex-marido
se ergue do tabuleiro ouija
através do ar trêmulo (...)
9. Franz Wright – Caminhada Noturna

A loja de conveniências aberta 24 horas está vazia
e não tem ninguém atrás do balcão.
Abres e fechas a porta de vidro algumas vezes
fazendo um sino soar,
mas ninguém aparece. Vieste apenas
para comprar um maço de cigarros, e talvez
um exemplar do jornal de ontem —
por fim, escolhes um e partes,
deixando trinta e cinco cents no lugar. (...)
10. Dorianne Laux – A Fada dos Dentes

Eles pincelaram uma moeda com cola
e purpurina, entraram de pés
descalços, e sem me acordar
pintaram fileiras de delicadas pegadas
douradas em meus lençóis com um amor
tão silencioso que ainda não consigo ouvi-lo. (...)
11. Linda Pastan - Uma coletânea

Em 30 de janeiro de 2023, falecia a poeta Linda Pastan, vencedora do Prêmio Dylan Thomas, entre outros, e ex-poeta laureada de Maryland (1991-1995). Ela tinha 90 anos e morreu devido a complicações após uma cirurgia para o tratamento de um câncer. (...)
12. Anne Alexander Bingham – É suficiente

Saber que os átomos
do meu corpo
perdurarão

pensar neles subindo
pelas raízes de um grande carvalho
para viver em
folhas, ramos, galhos
talvez para nutrir a
peônia carmesim
a íris anil
o brócolis (...)
13. Kay Ryan – As coisas não deveriam ser tão difíceis

Uma vida deveria deixar
rastros profundos:
sulcos onde ela
foi e voltou
para pegar a correspondência
ou mover a mangueira
pelo jardim;
onde ela costumava
ficar em frente à pia,
um lugar desgastado; (...)
14. Kim Addonizio – O momento

O jeito como minha mãe se inclinou diante da porta do carro, remexendo as chaves,
demorando uma eternidade
para encontrar a certa, alinhá-la com a fechadura, empurrá-la debilmente
e girar,
o jeito como abriu a porta tão lentamente, curvando-se um pouco mais,
acomodando-se finalmente no assento de couro – ela havia machucado as costelas,
explicou, mas não foi uma lesão
o que eu vi, não o contratempo temporário seguido pela cura,
a obstinada renovação do corpo;
o que vi pela primeira vez foi a velhice, (...)
15. Jack Gilbert – Dali até aqui

De minha colina, avisto a rodovia e uma gaivota
que alça voo, negra contra o cume cinza.
Ela sobe lentamente e se dissolve no céu luminoso.
Certamente, nossa lenta e inexorável extinção nos leva a um estado
de graça. Como nomear tal perplexidade? (...)
16. Linda Gregg – A carta

Não me sinto forte ainda, mas estou
cuidando bem de mim. O clima está perfeito.
Leio e passeio o dia todo e depois caminho até o mar.
Espero nadar em breve. Por enquanto, estou serena. (...)
17. Sharon Olds – A promessa

Depois do segundo drinque no restaurante,
de mãos dadas sobre a mesa vazia,
estamos novamente nessa, renovando nossa promessa
de matar um ao outro. (...)
18. Michael Donaghy – O presente

No presente, há apenas uma lua,
embora outra surja refletida em cada lagoa.

Mas reluzindo no lago escuro, o disco brilhante
percebido pelo astrofísico e pelo amante,

tem milissegundos de idade. E mesmo essa luz
é sete minutos mais antiga que sua fonte. (...)
19. Sharon Olds – Meu filho, o homem

De repente, seus ombros ficam muito mais largos,
como Houdini expandia seu corpo
enquanto o acorrentavam. Parece que foi ontem
que eu o ajudava a vestir o pijama,
guiava suas pernas para o interior dourado,
fechava o zíper e o jogava para cima,
pegando-o no ar. (...)
20. Maria do Rosário Pedreira – [Quem se afasta do mundo deixa a quem fica]

Quem se afasta do mundo deixa a quem fica
um rasto de perguntas. Mas eu vi a morte dançar
tantas vezes no lago dos teus olhos que não pergunto
pelos teus passos à lama dos caminhos nem
pelos teus sonhos ao côncavo da cama. (...)
21. Stephen Dunn – Sob a calçada

Sussurros ali se acumulam, más notícias
do nosso subconsciente,
lágrimas que escorreram
pelo interior das faces,
desculpas que ficaram presas
em nossas gargantas. (...)
22. Lang Leav – Uma pequena consolação

Tudo o que um dia fomos,
é agora um verso triste e solitário.

Se antes eu tinha tanto a dizer,
agora estou desprovida de palavras. (...)
23. Dorianne Laux – A vida das árvores

Os pinheiros esfregam seu alarido
na escuridão estrelada, roçam
seus galhos inquietos contra a casa,
e o mistério dessa queixa se traduz mais ou menos
no trabalho árduo da propriedade: hora
de arrastar a escada do galpão,
subir no telhado com uma serra
entre os dentes, e cortar
aqueles sacanas. (...)
24. Meghan O’Rourke – Autorretrato equivocado como Demeter em Paris

Só se pode sentir falta de alguém quando este alguém está presente em sua vida.

A Ilha dos Mortos é de uma obscura claridade.

Henry Miller disse a Anaïs Nin que a única morte real é estar morto em vida.

Os ausentes só estarão ausentes quando forem esquecidos.

Até lá, a ausência é uma mentira, um oximoro. (...)
25. Sharon Olds – Balada da melhor amiga

Às vezes, do nada, lembro do poder
da casa dela, e do caminho até lá
descendo a rua estreita, a curva acentuada
à direita, abrindo-se para

a agradável rua sem saída, a
casa da minha melhor
amiga — o quê?
Estilo italiano? (...)
26. Sharon Olds – Transformações

O irmão dela se tornou médico, como o pai.
Eu ia à casa dela todos os dias, depois da escola,
e me sentava em sua cama. Ela estava doente, mas não contagiosa.
Eu não sabia de nada. (...)
27. Sharon Olds – O irmão dela

Não acho que eu quisesse “casar com ele
quando eu crescesse”, o irmão mais velho dela,
não acho que eu quisesse casar — eu era como
um arco de Diana, apenas
levemente curvado.
28. Catherine Pond – Chegada

Eu era tão tola. Achei que seu sofrimento fosse algo
que eu pudesse resolver ou pelo menos esconder,
como o falcão morto que encontramos na floresta e levamos
de volta para casa, sob a noite azul-aço, para enterrar. (...)
29. Patricia Fargnoli – A incontornável pressão da existência

Eu vi a raposa correndo à beira da estrada
passando pelas fachadas de tijolos aparentes dos condomínios
passando pelo posto da Citco com sua fila de carros e caminhões
e ela corria, mancando, magra, pelagem opaca e embaraçada,
passando pela pizzaria do Jim, pela Wash-O-Mat, (...)
30. Dorianne Laux – Apenas enquanto o dia durar

Em breve, ela não será mais que um pensamento fugaz,
uma pontada, um rufar de vento nos sinos, colheres tortas
penduradas nos beirais na primeira noite em uma nova casa
numa rua onde nenhum cachorro uiva, nenhum gato visita
um gato vizinho no meio da rua, serpenteando
e esfregando pelo com pelo, lançando faíscas. (...)
31. Ted Kooser - Pais

Meus falecidos pais tentam se manter fora do meu caminho.
Quando entro em um cômodo, eles já o deixaram,
foram procurar o que precisa ser feito
em outra parte da casa, meu pai com o aspirador,
minha mãe com pano de pó e o lustra-móveis. (...)
32. Marie Howe - A Menina

Tão perto do fim de minha vida fértil e
ainda sem filhos

– se eu pudesse lembrar de um dia sequer em que era puramente uma menina
e ainda não uma mulher –

mas não creio que tenha havido um dia assim para mim. (...)
33. Maya C. Popa – Tudo o que foi criado

(...) Em seu trigésimo ano, Juliana estava morrendo. Não há outro jeito
de descrever a sequência de eventos, a crescente lacuna

entre dois tipos de vida: a vivida e a
lembrada. E cristo veio até onde ela estava deitada,

febril e desamparada, sentou-se ao seu lado em vestes de veludo,
e abriu a palma para mostrar-lhe uma avelã

dizendo isso é tudo o que foi criado. (...)
34. Gary Snyder – Parta agora

Você não vai querer ler isso,
leitor,
esteja avisado, afaste-se
da escuridão,
parta agora.

— sobre a morte e a
morte da amada — não é meditação vaga
ou homilia, não se trata de ironia,
de deus ou de uma revelação ou
aceitação do — ou batalha contra o —
fim de nossa vida,
é sobre como os olhos
afundam e os dentes se destacam
depois de alguns dias quentes. (...)
35. John Murillo – Dolores, talvez

Nunca contei isso a ninguém. Até agora, até você.

Dormi uma vez num campo além da ribeira,
um bando de noitibós velando por mim.

Foi no verão em que um fazendeiro encontrou sua filha
pendurada no sótão do celeiro, e desejou, pela primeira vez,
não tê-la tocado daquela maneira. (...)
36. Kathleen Spivack – ele jaz imóvel na cama

ele jaz imóvel na cama
e ela
não está viva
segue respirando, como se desse um sinal
ela sabe o que anseia
mas dizer-lhe
é ainda pior:
sarcófagos,
jazem juntos formalmente,
marido e mulher. (...)
37. Marie Howe – Separação

Ao sair da cidade, vejo-o atravessando
o estacionamento da Brooks Pharmacy, e lembro

como ele se punha de joelhos na cozinha
e pressionava o rosto contra meu vestido, a bochecha achatada

em meu ventre como se escutasse algo.
Alguém podia estar esperando o café na sala de estar,

alguém podia estar pondo a mesa da sala de jantar, ele
enfiava o rosto sob meu vestido, pressionava a bochecha

contra meu ventre e se ajoelhava ali, sem dizer nada. (...)
38. Lucille Clifton – o último dia

nos encontraremos cercados
pelos nossos todos eles agora
com os olhares que haviam
apenas imaginado possíveis
e eles nos reprovarão
com esses olhos (...)
39. John Yau – “E Pluribus Unum”

Salivando, um insano sibilo;
como um Setter Irlandês trancado no porão
e então solto, o amanhecer
tenta estar em todos os lugares ao mesmo tempo. (...)
40. Sharon Olds – Quando dizem que você tem talvez três meses de vida

Em meu sono, sonhei que visitava seu túmulo —
e o que jazia entre nós? A bela grama intocada
e o solo fértil, como a rica
terra em que você enterrou nossos lençóis
depois que o deixei — nosso DNA — perto de onde
mais tarde você enterrou seu golden retriever. (...)
41. Lisel Mueller – Monet recusa a cirurgia

Doutor, você diz que não há halos
ao redor das luzes de rua em Paris
e que o que vejo é uma aberração
causada pela velhice, um distúrbio.
Digo que levei uma vida inteira
para enxergar lampiões a gás como anjos,
para suavizar e desfocar e, por fim, banir
as bordas que você lamenta que eu não veja, (...)
42. Seamus Heaney – Posfácio

E reserve um tempo para ir até o oeste
Rumo a County Clare, pela Flaggy Shore,
Em setembro ou outubro, quando o vento
E a luz interagem entre si,
De modo que o oceano de um lado se torna selvagem,
Com espuma e brilho, e terra adentro, entre as pedras, (...)
43. Ron Koertge – Espaço vazio

Meu pai me ensinou a fazer as malas: colocar tudo à vista. Guardar metade. Enrolar o que pode ser enrolado. As peças que amarrotam vão sobre as de algodão. Depois, calças, da cintura às barras. Cantinhos e frestas para as meias. Cintos nas laterais, como cobras. Plástico por cima. Depois, os sapatos. Usar as roupas pesadas no avião. (...)
44. Nelson Santander – Quatro poemas sobre o tempo

o tempo me fascina
o tempo (os ponteiros fascistas)
de horas assassinas
suas facetas, seus lados

cegos
surdos
mudos me atraem
seus mundos

passados/
presentes/
futuros me traem (...)
45. Sarah Lindsay – Origem

A primeira célula não sentiu o impulso de se dividir.
Nutrida por abundantes sais e sol,
delgada ainda, ela simplesmente se espalhou,
balançando sobre a água, agarrando-se à pedra,
uma película de força complacente. (...)
46. Wendell Berry – A Meta

Mesmo enquanto sonhava, eu rezava para que o que via fosse apenas medo, e não um presságio,
pois o que vi foi a última paisagem conhecida ser destruída em nome
da meta – o solo devastado, a rocha explodida.
Aqueles que queriam voltar para casa jamais chegariam lá agora.
Visitei os escritórios onde, em nome da meta,
os planejadores planejavam em mesas vazias enfileiradas. (...)
47. Ansel Elkins – Autobiografia de Eva

Calçando apenas botas de pele de
serpente, abri uma trilha, a primeira
estrada radical para fora daquele velho reino
em direção a um novo desconhecido. (...)
48. Ida Vitale – Peixe na água

Como peixe na água,
como peixe, porém, pensado por Leibniz:

peixe pleno de lago,
de lago pleno de peixes, (...)
49. W.S. Merwin – Rio

Li Po, já se foi o pequeno bote
que o levou dez mil li rio abaixo
passando pelos gibões que chamavam
das duas margens e eles também se foram (...)
50. Carl Sandburg – O crepúsculo dos búfalos

Os búfalos se foram.
E os que viram os búfalos se foram.
Os que viram os búfalos aos milhares e como eles pisoteavam a relva da pradaria
com seus cascos até reduzi-la a pó, (...)
51. Louis MacNeice – Uma catarata concebida como uma procissão de cadáveres

Cai o rio e por cima do peitoril caixões de funerais frios
Tombam fundo e repousam na tumba selada da piscina,
E a água amarela limpa a campa e o calhau tampa o necrotério
E o rio-corcel salta e mergulha e borbulha em fúria e frenesi,
E os caixões se espalham, tambores se esbarram, águas escorrem. (...)
52. Rigoberto González - Casa

Não sou sua mãe, não me comoverei
com o sofrimento ou a gratidão de homens
que lamentam como órfãos à minha porta.
Não sou uma igreja. Não respondo às
orações, mas nunca as rejeito. (...)
53. Samuel Yellen – Como em uma marca d’água

Como em uma marca d’água, deciframos,
Por baixo do verniz da relva e dos ramos,
A obsoleta planta da fundação,
E onde corriam muros e construção. (...)
54. Seamus Heaney – Recesso escolar

Passei a manhã toda na enfermaria da escola
Contando os sinais que marcavam o fim das aulas.
Às duas horas, os vizinhos me levaram para casa.

Na varanda, encontrei meu pai chorando —
Ele que sempre enfrentara funerais com serenidade —
E Big Jim Evans dizendo que fora um duro golpe. (...)
55. Seamus Heaney – Uma ligação

‘Espere’, ela disse, ‘Vou lá fora chamá-lo.
O clima aqui está tão bom que ele aproveitou
Para capinar um pouco’.
Então eu o vi
Ajoelhado ao lado do canteiro de alho-poró,
Tocando, inspecionando, separando um
Talo do outro, (...)
56. Tadeusz Różewicz – Epístola Apócrifa

Mas Jesus se inclinou
e com o dedo escreveu na terra
depois se inclinou novamente
e escreveu na areia

Mãe, eles são tão obtusos
e simples que preciso lhes mostrar
maravilhas faço tantas coisas
tolas e vãs (...)
57. Peter Davidson – Castelos de Setembro

Os primeiros sinais de nossa condição se manifestam:
Pesar no vento, véu de névoa sobre a lua,
Frio ligeiro, teias de aranha, grama embranquecida,
E dois dias quentes como no sul em nada alteram essa situação.
Uma manhã chega, e você sabe que isso não pode acabar bem. (...)
58. Saskia Hamilton – 1944

Ela fez circular, por toda sala, um frasco
de suco de groselha, que passou ‘de mão em mão
por todas as macas,’ escreveu,
vinte e cinco ou mais, e voltou
‘ainda meio cheio’. Alguém ajudou o vizinho
a beber, pois ele ‘não tinha mãos’ (...)
59. Jack Gilbert – De pouco em pouco: da meia-noite às quatro da manhã

Por onze anos tenho lamentado,
lamentado por não ter feito o que
queria fazer enquanto fiquei ali sentado
aquelas quatro horas, vendo-a morrer. Eu queria (...)
60. Jack Gilbert – Infidelidade

Ela nunca está morta quando ele a encontra.
Eles comem lamen no café da manhã, como de costume.
Por onze anos, ele pensou que fosse o rio
no fundo de sua mente sonhando. (...)
61. Rosemerry Wahtola Trommer – Névoa

E às vezes, quando me vejo
à margem de uma imensidão —
um lago, um mar, uma encosta de montanha —

minha pequenez me extasia
e a maior de minhas tristezas
diminui e fica menor que o espaço

entre grãos de areia, (...)
62. William Stafford – Sim

Pode acontecer a qualquer momento, tornado,
terremoto, Armageddon. Pode acontecer.
Ou luz solar, amor, salvação.

Pode acontecer, você sabe. É por isso que despertamos
e olhamos para fora – não há garantias
nesta vida. (...)
63. Eavan Boland – Anna Liffey

Contava-se que Life
Era filha de Canaã,
E chegou à planície de Kildare.
Amava as planícies e as valas
E o horizonte distante.
Pediu que dessem seu nome ao lugar.
O rio herdou o nome da terra.
A terra herdou o nome de uma mulher. (...)
64. Gwendolyn MacEwen – A Descoberta

não fiques pensando que a exploração
termina, que ela revelou todo seu mistério
ou que o mapa que tens em mãos
inibe novas descobertas

advirto-te que desvendá-la leva anos,
séculos, e quando a vires nua,
olha de novo, (...)
65. Grey Gowrie – Terceiro Dia

Os respiradores soam como trutas se alimentando
à noite em algum criadouro da imaginação –
ninguém ali para ouvir; nosso subaquático mundo de atenção
intensiva é quase azul – inofensivo, brando. (...)
66. Edward Thomas – Foi-se embora, uma vez mais

Foi-se embora, uma vez mais,
Maio, junho e também
Julho, e agosto se esvai,
De novo, como convém,

Banais, salvo pelo fato
De vê-los passar, tal qual
Atravessam os regatos
Um vago cais fluvial. (...)
67. Tony Connor – Na Alameda dos Carvalhos

Velha e sozinha, à noite ela adormece
sentada diante da televisão.
A casa está quieta agora. Ela tece,
ergue-se para ferver a infusão,

assiste a um cowboy ser assassinado,
lê na gazeta quem nasceu ou morreu,
dorme em ‘Mísseis nucleares estocados’.
Um mundo que um mal pior prometeu

some. (...)
68. Ben Rhys Palmer – Eden, o robô jardineiro

Ele foi programado para seguir instruções:
espalhar cobertura morta, despontar as begônias,
manter os querubins da fonte livres dos dejetos dos pássaros.
Mas desde que, certa manhã, encontrou seus senhores
frios e rígidos na cozinha, surpreendeu-se
saindo da própria programação,
dedicando uma hora a contar girinos, outra a erguer
as pedras ao redor do lago para admirar os estranhos seres
por baixo: (...)
69. Eavan Boland – Chegamos sempre tarde demais

A memória
tem duas partes.

Primeiro, a revisitação:

o modo como ainda posso ver
aqueles amantes à mesa do café. Ela chora.

Nova Inglaterra. Hora do café da manhã. Inverno. Atrás dela,
além da janela panorâmica,
um bosque de pinheiros brancos. (...)
70. Shari Wagner – A mulher do fazendeiro muda de canal

O Jesus da minha infância
prefere estar ao ar livre.
Se não está pescando, está colhendo figos
ou nos mostrando sua plantação de mostarda.
(...)
71. Wendy Cope – Nomes

Ela foi Eliza por algumas semanas
Quando ainda bebê —
Eliza Lily. Logo virou Lil.

Mais tarde foi Srta. Steward na padaria,
E depois ‘meu amor’, ‘minha querida’, Mãe. (...)
72. Gösta Ågren – Alguns Poemas

(...) Envelhecer não é
deixar algo para trás, mas
girar sob o pilar de nuvem
do presente e contemplar
a própria vida, um livro
ainda não lido. Tudo
o que ele contém
ainda está por vir! (...)

Clique abaixo e confira também as Retrospectivas dos anos anteriores:

2021

2022

2023

2024

Gösta Ågren – Alguns Poemas

O Segredo da Morte1

É um equívoco que se estabeleça
que só depois da vida a morte começa.
Quando a vida cessa
também a morte cessa.

Não há jornada

A vida não é uma linha reta
entre esses poços cegos –
nascimento e morte; é
um momento à beira deles
antes que a eternidade se
reúna novamente.

Mas

Envelhecer não é
deixar algo para trás, mas
girar sob o pilar de nuvem
do presente e contemplar
a própria vida, um livro
ainda não lido. Tudo
o que ele contém
ainda está por vir!


De uma Conversa Definitiva

Meu amigo, é tão inútil
ter medo. Quando a morte chega,
ela é suave como a solitude2.
Uma tempestade de pássaros do norte
se move entre passado e futuro
rumo ao vento do sul, um anjo
caloroso e invisível que os acolhe
sem exigência ou vanglória.

Ainda Estou Aqui

Ela vinha, através do domingo
imóvel da velhice.
Lenço na cabeça, vestido longo,
ela vinha, uma grande ave
vestida. Ela se perguntava,
sob a luz do sol em frente ao galpão,
como deveria arranjar as coisas
para poder morrer. Eu devo
escrever sobre isso. Pois acontece
em toda parte, e não há
perguntas a responder. Mas perguntar
já é compreender. Apenas
as questões jamais formuladas
exigem respostas. Lembro-me
que suas mãos já não eram
parte dela. Ociosas,
jaziam em seu colo. Ela via
com os olhos apenas escuridão
e luz. Silêncio. Pensei:
o silêncio se arrasta
por seu corpo. Logo
alcançará o coração. Logo
estarei sozinho
aqui.

Lembrar

Lembrar é
deixar o futuro
intervir nos eventos.
Tudo está definido. Até
o caos ganha um nome. Ninguém
oferece resistência. O destino
devasta em vão.

Mãe, em um Dia de Outono

Uma tempestade ruge, confinada
em suas estreitas horas. Vermelho-sangue,
a palma da mão repousa sobre a floresta
de lanças. Sua morte foi
grande demais. O que aconteceu
apenas aconteceu. Era manhã
ou entardecer. Os pássaros tateavam
na superfície do céu. O verdadeiramente
grande não acontece; ele é.
Perto de minha mão que escreve,
estou sentado agora, paralisado
de saudade, mas sem tristeza.
Ela morreu, apenas morreu.
E a tempestade amaina;
está livre novamente.

Cinco Quilômetros

Tenho nove anos, e corro eternamente
para casa através da floresta. Suas
altas e escuras criaturas me
esperam. Faz trinta graus
abaixo de zero. Lá no alto,
as estrelas começam
a arder. Meu corpo se torna rígido
lentamente. Ele me envolve
como algo alheio. Um sapato
se rompe. Caminho no fogo
do frio; rezo pelo que
há de vir, mas todo tremor
congela em ferro quando aquele
imenso peito se abre
para o nada. Chego em casa
por fim, mas já é
tarde demais.

Ao Entardecer

Serei esquecido,
ele pensa. O esquecimento é
uma mãe abissal. Ninguém
o alcançará ali; ninguém
o esquecerá mais.

Trad.: Nelson Santander, a partir de versão em inglês vertida do sueco finlandês por David McDuff

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Este poema é comentado e interpretado em profundidade no podcast Singularidade Poética.
👉 Ouça a análise completa clicando aqui.
  1. Gösta Ågren (1936-2020) foi um dos mais importantes poetas da Finlândia, escrevendo em sueco, idioma da minoria finlandesa-sueca. Nascido em Österbotten, na costa oeste finlandesa, atuou como escritor, crítico literário e editor. Sua poesia se caracteriza por uma profunda reflexão filosófica expressa em linguagem clara e concisa. Temas como tempo, morte, memória e existência são abordados através de imagens da natureza e da vida rural, criando textos de aparente simplicidade que revelam grande profundidade. Premiado com o prestigioso Prêmio Finlandia (1988) e o Prêmio Nórdico da Academia Sueca (2013), considerado um “pequeno Nobel”, Ågren produziu uma obra que dialoga com tradições existencialistas e a filosofia oriental, particularmente o budismo zen, embora sempre enraizada na experiência nórdica. Sua poesia econômica nas palavras, mas generosa nas ideias, explora paradoxos da condição humana: presença e ausência, permanência e impermanência, memória e esquecimento. Os poemas frequentemente partem de observações concretas do cotidiano para expandir-se em reflexões universais sobre o sentido da existência. ↩︎
  2. Optei por manter o termo “solitude” em vez de “solidão” para preservar a nuance do poema. No original sueco, Ågren usa a palavra “ensamhet” – um termo que pode designar tanto estados positivos quanto negativos de estar só. O tradutor para o inglês escolheu “solitude” (e não “loneliness”), interpretando que o poeta se referia a um estado sereno de isolamento. Esta distinção é crucial no contexto do poema, onde a morte é comparada a um estado de recolhimento tranquilo. Em português, “solitude” – embora menos comum – carrega essa mesma conotação de isolamento voluntário e contemplativo, diferentemente de “solidão”, que geralmente sugere desolação ou abandono. ↩︎
Death’s Secret

It is not true
that death begins after life.
When life stops
death also stops.

There is no Journey

Life is not a straight line
between those blind wells
birth and death; it is
a moment by their verge
before eternity grows
together again.


But to

To grow old is not
to leave anything, but to
turn round under the present's
pillar of cloud and look out
across one's life, a book
still unread. All
that it contains
is yet to come!


From a Final Conversation

My friend, it is so pointless
to be afraid. When death comes,
it is mild as solitude.
A storm of birds from the north
moves between past and future
into the south wind, a warm,
invisible angel who receives them
without demand or victory.

Standing Here

Here she came, through the motion­
less Sunday of old age.
In headscarf and long dress
she came, a tall bird
of clothes. She wondered in
the sunshine outside the woodshed
how she should arrange things
so she could die. I must
write about this. For it happens
everywhere, and there are no
questions to answer. But to
ask is already insight. Only
those questions that are never asked
require answers. I remember
that her hands were no longer
part of her. Idle
they lay in her lap. She saw
with her eyes only darkness
and light. It was silent. I
thought: the silence is creeping
through her body. Soon
it will reach the heart. Soon
I will be alone
here.

To Remember

To remember is
to let the future
intervene in events.
Everything is settled. Even
chaos gets a name. No one
offers any resistance. Fate
wreaks havoc in vain.

Mother, One Autumn Day

A storm rages, locked up
in its narrow hours. Blood­red
the palm of the hand rests above the forest
of spears. Her death was
too great. What happened
only happened. It was morning
or evening. The birds fumbled
on the surface of the sky. The very
great does not happen; it is.
Near my writing hand
I sit now, motionless
with yearning, but without sorrow.
She died, only died.
And the storm abates;
it is free again.

Five Kilometres

Nine years old I run forever
home through the forest. Its
tall, dark creatures are waiting
for me. It is thirty
below zero. In the face
up there stars are beginning
to flame. My body grows slowly
severe. It surrounds me
like something else. A shoe
bursts. I walk in the fire
of the cold; I pray to what
will happen, but all shivering
freezes to iron when that
immense breast opens
on nothingness. I came home
at last, but it was
too late.

At Dusk

I will be forgotten,
he thinks. Oblivion is
a deep mother. No one
will touch you there; no one
will forget you any more.

Nelson Santander – Pontuação

Nelson Santander – Beijo

beijo

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 22/02/2016

Nelson Santander – Chuva

image

Escrito em 1993(?)

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 22/02/2016

Nelson Santander – Quatro poemas sobre o tempo

RELIGIO1

o tempo me fascina
o tempo (os ponteiros fascistas)
de horas assassinas
suas facetas, seus lados

cegos
surdos
mudos me atraem
seus mundos

passados/
presentes/
futuros me traem

subtraem
(o tempo perdido
a perda de tempo:
pretextos para a vida

e a morte)
os relógios de hoje são tão

belos
táteis
frágeis
mesmo nas horas mais negras

brilham
glaciais
antiga-
mente, as horas fluíam enferrujadas

sujas
ocas
foscas
opacas
hoje, no ir

e vir elétrico

e silencioso dos pêndulos-dias,
os galos já não mais anunciam a aurora:
com a precisão digital

do sol,
meu coração bate

e observa os anos
que es-
correm, rapidamente
horas
abaixo

05/1988

TEMPO, TEMPO

SINGULARIDADE

LIMIAR

  1. Notas:
    Os poemas acima foram escritos em fases distintas da minha vida: Religio e Tempo, Tempo, aos 21 anos; Singularidade, por volta dos 40; e Limiar, como indicado no próprio texto, no dia em que completei 49 anos.

    O tempo sempre fez parte das minhas reflexões, ainda que, muitas vezes, de forma inconsciente — como uma sombra persistente que molda não apenas o ritmo da minha existência, mas também o pensamento sobre o que significa ser finito em um universo que parece infinito. Essa presença constante, oscilando entre fascínio e resignação, se revela de modos distintos em cada poema, acompanhando a mudança da minha percepção ao longo dos anos.

    Em Religio, escrito na juventude, o tempo emerge como uma entidade mecânica e opressora, personificada no relógio — ou “religio” (palavra latina do qual deriva religião, e que significava originalmente respeito, reverência ou culto a algo divino), trocadilho que tenta fundir o sagrado e o cronológico. O fascínio inicial (“o tempo me fascina”) logo dá lugar à inquietação diante da efemeridade, em imagens de horas “assassinas” e anos que “escorrem/correm” rapidamente em direção à última volta do ponteiro. Com a diagramação fragmentária, com versos e palavras isolados, eu quis criar um fluxo visual que imita o tique-taque de um relógio. O poema presta tributo ao concretismo e neoconcretismo (minha porta de entrada para a poesia), organizando o texto como se escorresse pela página — feito de areia de ampulheta. Curiosamente, a inspiração do poema não veio de especulações metafísicas, mas da troca de um velho despertador de corda, tiquetaqueante, por um silencioso e compacto relógio a pilha. Às vezes, a beleza e o silêncio são aliados da poesia.

    Em Tempo, Tempo, também aos 21, a reflexão se expande para o cósmico: as pegadas humanas na Lua — aparentemente eternas — tornam-se metáfora de uma permanência ilusória. São comparadas a uma “velha fotografia”, imóveis e imunes ao tempo ou ao vento, até que o verso final afirma: “a eternidade inexiste”. Aqui, o tempo não é mais pessoal, mas uma força estéril que congela o movimento, revelando um temor implícito diante da insignificância humana no vazio espacial. A estrutura em três blocos pretende emprestar ao texto ritmo de silogismo poético, e o espaço em branco aqui não é apenas pausa, mas vazio físico — ecoando o próprio vácuo lunar.

    Singularidade, gestado por volta dos meus 43, é um dos poemas de que mais gosto, dentre os poucos que escrevi. Nele, tempo e espaço se entrelaçam, inspirados na cosmologia: Big Bang, expansão do universo, o nada que contém o tudo. A existência surge reduzida a um “sopro” ou “espasmo” infinitesimal no meio de “tanto tempo / tanto espaço”. É um momento de escala relativística e de aceitação filosófica da brevidade e da insignificância, em que a ansiedade juvenil se transforma em meditação sobre o absurdo — e também a beleza — da vida como “um curto espaço de tempo”. No plano formal, a palavra “expandindo” literalmente se expande pela página, emulando a expansão do espaço-tempo; já “in- / finite- / si- / mal” — que designa uma existência de extrema pequenez, infinitamente pequena; mínima, ínfima; e que, na matemática, é uma quantidade mais próxima de zero do que qualquer número real, mas diferente de zero — se fragmenta para revelar sentidos ocultos: in (palavra inglesa polissêmica que significa, dentre outras coisas, o que vive dentro e dentrofinite (finito ou limitado, em inglês), si (o eu), mal (no contexto do poema, imperfeição, dor ou limite inerente à vida). O branco e o preto participam ativamente da narrativa visual: a página simula tanto uma explosão cósmica quanto um mapa do universo, com o tempo à esquerda, o espaço à direita e, no centro, a existência — minúscula, como um náufrago em mar aberto. É o poema mais explicitamente visual da série e herdeiro direto das vanguardas concretas.

    Por fim, Limiar, aos 49, traz o tempo de volta ao plano íntimo, agora filtrado pelo humor e pela ironia. A epígrafe de Woody Allen lembra que a vida é mais obra do acaso do que do controle, e o poema registra, com simplicidade, o instante entre o “quase” e o “ocaso”. Aqui, a angústia inicial se converte em resignação bem-humorada, como se, depois de tanto refletir sobre o tempo, restasse apenas celebrá-lo — mesmo sabendo que ele é finito. ↩︎

Nelson Santander – Impermanência

Se há algo mais fascinante do que locais abandonados, desconheço. Toda vez que, em viagem, me deparo com uma casa desabitada há muito tempo, uma estação de trem em desuso ou o esqueleto do que um dia foi uma fábrica, acabo perdendo (ganhando) algum tempo na contemplação do local, tentando adivinhar quem nele pisou, morou ou trabalhou, por quanto tempo aquele espaço perdurou, que dramas humanos ali se desenrolaram.

Tudo nesses recantos em decomposição é desconcertante e belo.

As imagens que ilustram essa postagem1 demonstram o que quero dizer. A devastação preside, mas não é difícil, com um pouco de imaginação, encontrar detalhes que surpreendem pela beleza, pelo inusitado, pelo poético.

Um velho piano que um dia encantou o mundo com acordes de Chopin, Beethoven, Mozart e que já não emite mais um único som há décadas; a igreja decrépita da qual nem Deus mais se lembra; uma estátua decapitada que jamais será uma Vênus de Milo; a piscina seca que hoje não serve de diversão nem mesmo para rãs; um bar no qual apenas velhos fantasmas trocam amenidades e bebem seus uísques cowboy, sem nunca ficarem bêbados; o cinema que outrora exibiu a queda do império romano, longa jornada noite adentro e nunca fomos tão felizes e que agora assiste impassível o próprio the end; trilhos retos e escadas espiraladas que não levam a lugar nenhum; construções sendo devoradas pela vegetação que escala as paredes como labaredas verdes; a cama de casal que testemunhou um amor indomável como o fogo tornar-se fumaça e gelo e cinzas enfim (o que não tem fim sempre acaba assim, diria Humerto Gessinger).

Mas para muito além de tudo isso, esses lugares nos fazem lembrar principalmente de que madeira, ferro, pano, papel, pedra, gente, tudo, absolutamente tudo se transforma, e encontra a decadência e se converte em pó e acaba. Só uma coisa permanece: a impermanência. Que tudo o que começa não se presta para existir, mas para terminar.

Tenham todos um ótimo final de semana! Ou algo parecido.

(postado originalmente na página pessoal do autor no Facebook)

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 03/08/2019

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  1. Imagens retiradas da internet ↩︎

Nelson Santander – Cinema Paradiso e a visita cruel do tempo

Há 30 anos, de forma despretensiosa, o diretor italiano Giuseppe Tornatore presenteava o mundo com aquele que, ao longo dos anos, se tornaria um dos filmes mais queridos da história do cinema: “Cinema Paradiso”.

O vídeo que ilustra este texto é o da famosa cena do mosaico de beijos, a mesma que encerra o filme. Sempre me questionei por que este trecho em particular me comovia tanto, em um filme repleto de passagens inesquecíveis: a cena em que Totó recebe um beijo inesperado de Elena, após ficar dias parado na frente da casa em que ela morava para provar que a amava; o momento da demolição do cinema; o excerto em que Alfredo – o simpático projecionista da cidade – projeta o filme na parede da praça; a cena do funeral de Alfredo.

Todos esses fragmentos – verdadeiros minicontos – são dotados de elevada voltagem emotiva. Contudo, não se comparam à cena final, na qual Totó, agora adulto, cabelos brancos e cineasta de sucesso, assiste à projeção de um filme que recebera das mãos de sua mãe, a pedido do recém-falecido Alfredo. O filme, na verdade, é uma colagem de várias cenas de beijos e algumas com erotismo e nudez, que o pároco da sua cidade natal costumava censurar nas películas antes da exibição no cinema em que Totó, quando criança, trabalhava como assistente de Alfredo.

Mas o que faz essa passagem me comover tanto? Seria o contexto e o momento em que o trecho é inserido (logo após a cena que mostra a demolição do cinema)? Ou o delicado tema musical composto por Ennio Morricone, que acompanha o desenrolar da cena?

Não. Ou melhor, não apenas isso. Esses elementos são cruciais para criar em “Cinema Paradiso” um ambiente emotivo que atinge seu ápice na fatídica cena dos beijos. No entanto, embora embevecido pelas cenas anteriores do filme e hipnotizado pela melodia inspirada de Morricone, o que mais me comove na cena é antes o vislumbre que ela nos proporciona de nossa própria efemeridade. Esteticamente, amor romântico e beleza física são opostos à doença, antônimos da decrepitude, a antítese da morte. Nada representa mais estar vivo do que as cenas que aparecem na tela: mulheres sensuais e beijos eróticos, arrebatadores, delicados, violentos, apaixonados, singelos – todos os tipos de beijos que o amor romântico criou para se expressar. E trocados por casais formados por atores que, quando filmaram essas cenas nos anos 20, 30, 40 e 50, estavam no auge de sua juventude e beleza física.

No entanto, a sensação de transitoriedade que transborda na célebre passagem se acentua ainda mais ao lembrarmos que os atores que aparecem nessas cenas estão todos mortos – Silvana Mangano, Vittorio Gassman, Cary Grant, Rosalind Russell, Jane Russell, Doris Duranti, Georgia Hale, Charlie Chaplin, Olivia de Havilland, Errol Flynn, Rudolph Valentino, Vilma Banky, James Stewart, Donna Reed, Vittorio de Sica, Yvonne Sanson, Anna Magnani, Marcello Mastroianni, Maria Schell, Jean Gabin, June Astor, Gary Cooper, Clark Gable, Joan Crawford, Greta Garbo, John Barrymore, Spencer Tracy, Ingrid Bergman. Todos mortos – alguns há mais de 90 anos. Atores e atrizes que conheceram a fama e a fortuna, que foram os mais desejados de sua época, e cuja beleza e juventude, hoje, não passam de poeira.

As lágrimas que um arrebatado Totó derrama ao assistir o filme são minhas também. Totó chora a saudade de tudo o que viveu e do que perdeu. A mim me emociona testemunhar, impotente, na película que comove o cineasta, a inexorável marcha do tempo.

PS.: um internauta me avisa que Olivia de Havilland não está morta; tem 102 anos e mora atualmente em Paris. Quando escrevi esse texto, eu podia jurar que havia lido em algum lugar a notícia de que ela falecera há alguns anos. Fica aí uma lição: depois dos 50, jamais confie em sua memória, já que o tempo – a matéria principal do meu texto – também faz estragos nesse campo. De toda forma, a ideia geral que eu quis transmitir permanece intacta – a decrepitude e a senilidade são as características principais da velhice profunda, e só com muita boa vontade dá para dizer que está vivendo quem chegou tão longe na corrida da existência.

PS2.: REPUBLICAÇÃO: o texto foi publicado na página, originalmente, em 23/12/2018. Portanto, onde está escrito “Há 30 anos”, no texto acima, leia-se: “Há 35 anos.”

PS3.: Olivia de Havilland, que ainda era viva quando escrevi o texto original, faleceu em 26 de julho de 2020, aos 104 anos de idade. O gigante Ennio Morricone havia morrido poucos dias antes – em 06 de julho daquele mesmo ano, com 91. E como o tempo é o grande nivelador de tudo, nesse meio tempo morreu também, em 21 de abril de 2022, aos 80, Jacques Perrin, o grande ator que interpreta o Totó adulto. Eu e você que me lê neste momento ainda podemos nos dar o luxo de ver esse e outros filmes e fazer outras coisas, boas e ruins. Mas o tempo está passando aqui também. “Diga-me, o que você planeja fazer / com sua única selvagem e preciosa vida?” (Mary Oliver). Tic tac tic tac…

Nelson Santander – Gene Tierney

Nem Marilyn, nem Greta, nem Ava, muito menos Angelina, Sharon, Julia ou Charlize. Para mim, o rosto mais bonito com que Hollywood nos presenteou em todos os tempos é o dessa beldade das fotos que acompanham esse texto: Gene Tierney, nascida no dia de hoje, em 1920.

Em 1944, ela estreou seu filme mais famoso, o belíssimo “Laura” – uma das obras que ajudou a consolidar no cinema o subgênero de filmes policiais conhecido como film noir.

Falando em beleza, a música tema de “Laura”, com o mesmo título, é também uma das melodias mais marcantes do cinema. Escrita por David Raksin especialmente para a película, nos anos que se seguiram “Laura” foi redescoberta por músicos de jazz e acabou se tornando um standard desse estilo musical, com mais de 400 regravações(!)

Gene se foi em 1991, aos 70. Sua beleza já se havia apagado há décadas – culpa em parte de uma depressão devastadora que lhe tirou o viço e a vontade no auge da carreira, deixando-a incapacitada por anos, e do tempo inexorável, que de tudo nos despoja.

“Laura” – o filme e a canção – permanecem.

Permanece também o meu sentimento de encanto diante dessa três belezas conjugadas.

O poeta John Keats tinha razão:

A beleza é a verdade, a verdade é a beleza
— É tudo o que há para saber, e nada mais.

REPUBLICAÇÃO: texto publicado originalmente na página em 19/11/2018

Nelson Santander – Dois capítulos perdidos de Memórias Póstumas de Brás Cubas

Capítulo ***

ESCOBAR

À entrada do Teatro São Pedro, deparei-me com Escobar, um negociante no ramo cafeeiro, apresentado a mim pelo meu cunhado Cotrim, com quem mantinha relações mercantis. Natural de Curitiba e ex-seminarista, Escobar começava a prosperar na capital, após um início modesto de carreira que fora impulsionado pela ajuda financeira aviada pela viúva do ex-Deputado Pedro de Albuquerque Santiago. Não faças mau juízo da viúva, caro leitor; o próprio Escobar me confidenciou que ela havia cedido o capital a título de empréstimo, exclusivamente por ingerência de seu filho único, Bentinho, que vinha de ser o melhor amigo de Escobar desde os tempos do seminário. Era de conhecimento geral que Escobar possuía uma certa habilidade ou vocação para administrar seus próprios recursos. E os dos outros também. Dizia-se no Andaraí que era dado a aventuras amorosas e que frequentava a casa de Bentinho e sua esposa Capitolina com muita frequência e em horários pouco comuns.

– Escobar, quanto tempo!

– Brás, que satisfação em revê-lo! Estava mesmo precisando falar com você.

Enquanto falava, Escobar me levou para um canto reservado sob a marquise do teatro, quase na esquina. Ele parecia deveras animado, o que me causou estranheza, pois sempre o tivera por reservado e pouco afeito ao alarde.

– Ouvi dizer que você alugou uma casa na Gamboa, perguntou.

Tive um sobressalto. Então já se comentava na cidade acerca do lugar que eu reservara para meus encontros com Virgília? Se Escobar estava sabendo, era possível que a história também já tivesse chegado aos ouvidos do Lobo Neves. Depois do episódio da carta anônima, Virgília me disse que o marido andava muito desconfiado. Será que ele já tinha ouvido alguma coisa sobre a Gamboa?

– Na verdade, a casa não me pertence, respondi; é da dona Plácida, uma senhora que foi agregada na casa de uma velha amiga. Eu apenas fiz um pequeno empréstimo e subscrevi algumas promissórias para que a pobre pudesse dar a entrada.

– Sei, respondeu ele com um meio sorriso; estou eu também à procura de uma casa como essa para acomodar a criada de uma amiga…

As palavras meticulosamente selecionadas e o olhar malicioso com que foram ditas deixaram pouca margem para dúvida: Escobar procurava estabelecer aquela espécie de relação de cumplicidade que às vezes há entre dois homens que se encontram na mesma situação de ilicitude matrimonial. Eu não tinha a menor intenção de manter tal nível de vínculo com aquele sujeito. Não confiava nele. Um homem que se prestava ao papel de comborço do melhor amigo não era alguém com quem se pudesse compartilhar segredos. Para mim, Escobar tinha o caráter de quem seria capaz de enviar um bilhete anônimo ao Lobo Neves apenas para ver o teatro em chamas.

– Dona Plácida tratou pessoalmente dos pormenores do negócio, repliquei secamente, iniciando meu caminho rumo à entrada do teatro.

– Que pena, disse ele, olhando divertido para mim enquanto me acompanhava; tenho uma certa urgência em encontrar algo. A criada que quero ajudar não é casada e está no início de uma gravidez. Quero acomodá-la antes que o estado dela se dê a mostrar. Minha amiga não deseja escândalos.

Então era verdade! Não havia criada alguma. Corria o boato de que dona Capitolina estava grávida. E que Bentinho não era o pai… Não sabia o que pensar disso. Embora eu também mantivesse um consórcio amoroso com uma mulher casada, começava a desenvolver, sem entender bem por que, um sentimento desconfortável de aversão por Escobar. Não conseguia precisar a causa exata daquela sensação. A princípio, pensei que minhas fidúcias decorriam de um desejo próprio por uma espécie de reserva de mercado no ramo dos amores ilícitos. Logo acudi que tal vaidade era uma impossibilidade: provavelmente havia centenas de homens na corte em situação semelhante à minha. Rapidamente compreendi que meu asco por Escobar decorria, na verdade, de um certo ciúme projetivo em relação à situação dos homens traídos em geral. Com efeito, o leitor pode não acreditar, mas às vezes eu fazia um exercício mental de projeção, colocando-me no lugar do Lobo Neves – embora raramente e despido de remorso. E, conquanto não me identificasse em nada com o Bentinho – um sujeito fechado, mal-humorado e desconfiado, com fama de sensível – o que acontecia com ele não me dava nenhuma satisfação particular. Ademais, Escobar se me apresentava como um reflexo mais limitado e menos pretensioso de mim mesmo – uma imagem que não parecia nem um pouco agradável.

– Preciso adentrar, a peça certamente já se iniciou, disse eu, impaciente; pedirei a Dona Plácida que pergunte nas redondezas se alguém sabe de alguma casa para vender ou alugar.

Ele pareceu se lembrar de algo. Contou-me então que estava a caminho da casa de um amigo para discutir um interdito proibitório – presumi logo que o amigo fosse o Bentinho. Antes de partir, pediu-me para manter discrição em relação às suas intenções com a casa, “para evitar maledicências desnecessárias”. Redargui que não se preocupasse.

Ele se despediu e estava prestes a partir, mas se voltou novamente para mim:

– Esquecia-me de contar-lhe; outro dia, em São Cristóvão, encontrei com uma amiga em comum, Virgília…

Olhei-o desconfiado. Ele continuou:

– Ela ia triste, parece que o marido havia sido forçado a desistir da nomeação para presidente de província. Ela me disse que você seria Secretário, é verdade?

– Ainda estava avaliando a conveniência…

– Tomamos um café, continuou ele. Ela é uma companhia muito agradável. E que mulher espetacular! Que magníficos braços ela tem! Mas desconfio de algo…

– Do que suspeita?

– Acredito que ela não é feliz no casamento, respondeu. Vendo meu olhar desconfiado ele continuou: Como eu sei? Bem, você sabe como as mulheres são, elas geralmente evitam abordar certos assuntos, especialmente com homens casados. No entanto, naquele dia no café, Virgília estava especialmente eloquente.

Chegamos a uma das portas de entrada e paramos por um momento. Escobar trazia no rosto uma expressão divertida e gaiata. Segurava levemente meu braço para impedir que eu fugisse.

– Sabe, ela até me confessou algo bastante indiscreto… – disse ele.

– Sim?, acudi eu, já alarmado.

– Disse-me que não tinha um casamento satisfatório, foi sua resposta. Confesso que não me incomodaria em ajuda-la com alguns dos problemas dela…

Tenta imaginar tu, leitor, o pasmo que experimentei! Não era para mim nenhuma novidade a indiscrição e lascívia do Escobar. Mas Virgília confessando insatisfações matrimoniais a um homem conhecido por sua infidelidade à esposa e ao melhor amigo? Ela sequer havia-me dito que tinha se encontrado com Escobar. Sobre o que mais teriam conversado os dois? Teria sido ela a revelar-lhe sobre a Gamboa? As garras do ciúme enterraram-se-me no coração; sentia-me uma espécie de Lobo Neves de véspera. Súbito, me ocorreu o óbvio: se ela trai o marido por que não trairia também o amante?

– Se eu fosse você, não me metia com ela, respondi com aspereza; o marido tem fama de valente e já me confessou que não hesitaria em atirar em quem se aproximasse da esposa, a quem ele idolatra.

Escobar sorriu levemente. Aquele esgar malicioso denotava que ele sabia de tudo: da traição de Virgília e de minha posição privilegiada nesse evento doméstico. De minhas inseguranças em relação ao nosso relacionamento. E de que tudo o que eu podia fazer era inventar essa mentira disparatada sobre o Lobo Neves – que apenas no nome carregava vagas evocações de ferocidade.

Não sei se explico o ódio que senti contra Escobar naquele momento. Desejei que ele se afogasse na praia do Flamengo, onde costumava nadar quase todos os dias, mesmo com o mar bravio.

– Vou levar isso em consideração, respondeu ele, ainda sorrindo daquele jeito velhaco – e se despediu novamente.

Capítulo ****

UM CUBAS! (II)

Permaneci à porta do teatro, sem ânimo para entrar mas com nenhum desejo de partir. Rememorava a conversa que tivera com Virgília naquela tarde, quando ela me confidenciara acerca da carta anônima que o marido recebera dias antes, alertando-o contra mim. Lembrei-me do gesto de recuo que ela fez quando, à saída, pousei-lhe um beijo à testa. Era evidente que já se cansara de mim. Pensei também no Bentinho, destinado a criar como seu, sem jamais suspeitar, o filho que, a se dar crédito ao que dizia o vulgo, o amigo gerara em sua esposa. Um amontoado de sentimentos mal-costurados revolviam em mim. Ciúme, desesperança, raiva e autocomiseração compunham um todo indigesto que me mantinha inerte à porta do teatro.

Enquanto mergulhava em tais pensamentos, avistei, num vislumbre, através da porta aberta, Nhá-loló, acompanhada de seu pai, o Damasceno. Lembrou-me o dia em que a conheci, naquele jantar em casa de Sabina (capítulo XCIII), de como seus olhos permaneceram fixos em mim durante toda a noite. Próximos a eles, vi também um deputado conhecido ao lado da esposa, filha do ministro da Justiça. Estavam rodeados por um pequeno séquito de sabujos (Damasceno era um deles). A imagem dos rapapés suscitou em mim a nostalgia daquele velho desvanecimento que me acompanhou até o fim e espertou novamente a paixão pela notoriedade que, em última instância, acabaria por me matar.

Senti meu ânimo revigorado e até me esqueci por um instante de Virgília quando, enfim, decidi ingressar no teatro. Quais eram, afinal, meus reais sentimentos por ela naquela época? Ainda a amava? Mesmo hoje, aqui na terceira margem do rio, não saberia dizê-lo. Contudo, a maneira como meu ânimo se elevou assim que vislumbrei Nhá-loló sugeria, ao menos, que minha atenção já não se depositava unicamente em Virgília.

Por que, então, as insinuações de Escobar haviam me perturbado tão profundamente? Obviamente, como homem, não gostava de pensar na ideia de ser derrotado na disputa pelo amor de uma mulher, sobretudo porque não poderia recorrer a soluções drásticas – como desafiar o peralta para um duelo – uma vez que a mulher em questão não me pertencia. O amor-próprio, em tais momentos, inflama-se de tal modo que o apego e o despeito se entrelaçam indissoluvelmente com o ciúme. Não o confirmam as Escrituras? “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade”

Mas o que verdadeiramente me desagradava era o fascínio que um sujeito tão vulgar e mal-nascido como Escobar parecia despertar nas mulheres. Como Virgília poderia cogitar substituir um puro-sangue por um matungo?

Ocorreu-me que Virgília pudesse estar repetindo o lance que havia culminado na derrota das minhas pretensões matrimoniais, anos atrás, quando, sem maiores explicações, ela me substituiu pelo Lobo Neves. A diferença é que então éramos todos solteiros e a preterição de um pretendente por outro não passava de um capricho feminino socialmente aceitável. Virgília estava agora casada e eu era seu amante. Ao aceitar a possibilidade de me substituir por outro, ela deixava transparecer uma vontade de explorar outras vias escusas além daquelas que vínhamos trilhando.

Não nego que eu via um certo espírito empreendedor em sua atitude; só não me agradava a ideia de ser eu o negócio a ser sucedido para que ela alcançasse a glória…

Veio-me à memória a expressão de indignação que meu pai bradou quando Virgília me deixou pelo Lobo Neves:

– Um Cubas!

Aquela frase ecoou em meu pensamento e continuei repetindo-a mentalmente, enquanto procurava sofregamente o camarote de Nhá-loló.

– Um Cubas!

Convém intercalar o presente capítulo e o anterior entre a terceira e a quarta oração do capítulo XCVIII.

NOTAS SOBRE ESSA NARRATIVA

Dia desses, em uma página do Facebook, alguém que eu não conhecia nem de vista nem de chapéu postou um trecho curto propondo um exercício imaginativo: e se Machado tivesse promovido um encontro entre Capitu e Brás Cubas?

Comecei a tentar imaginar como seria, mas me ocorreu algo melhor: e se, em vez disso, o encontro fosse entre Brás e Escobar? O contraste entre o bem nascido Brás, típico representante da aristocracia oitocentista e o arrivista Escobar, arquétipo da burguesia do século XIX, poderia resultar em uma cena ainda mais interessante.

Ao iniciar minha narrativa de cara deparei-me com uma dificuldade. Os fatos narrados em Memórias Póstumas de Brás Cubas ocorrem entre 1805 e 1869, respectivamente as datas do nascimento e da morte de Brás. Não é possível precisar por quanto tempo e em que período Brás e Virgília viveram o seu relacionamento ilícito, pois Machado não quis dar datas exatas. Sabemos, todavia, que Brás se encontrou com Virgília uma vez mais, anos depois do término do relacionamento de ambos, em 1855 (Capítulo 130). Sabemos também que, àquela altura, ambos já estavam na fase de madureza pela descrição que Brás faz de sua ex-amante (“A primeira vez que pude falar a Virgília, depois da presidência, foi num baile em 1855. Trazia um soberbo vestido de gorgorão azul, e ostentava às luzes o mesmo par de ombros de outro tempo. Não era a frescura da primeira idade; ao contrário; mas ainda estava formosa de uma formosura outoniça, realçada pela noite.”). E também porque, na sequência, ele dedica um capítulo todo aos seus cinquenta anos de idade (Capítulo 134).

Já a história de ciúmes de Bentinho ocorre mais tarde: Machado não aponta a data de seu nascimento, mas nos conta que, em 1857, ele tinha 15 anos (de onde se presume que ele tenha nascido em 1842 – vide Capítulo II). Escobar, por sua vez, era três anos mais velho do que ele (vide Capítulo LVI) , tendo nascido, portanto, em 1839. Morreu em 1871 (Capítulo CXXII), aos 32 anos de idade. Pela leitura da obra, cogita-se que a suposta traição de Capitu não ocorreu antes do casamento dela com Bentinho, que se deu em 1865 (Capítulo CI). Assim, o suposto caso de adultério, se ocorreu, se deu entre 1865 e 1871, quando Virgília já teria mais de 60 anos. Portanto, cronologicamente falando, seria impossível que Escobar, por volta de seus 29, 30 anos de idade, pudesse ter algum interesse sexual por Virgília…

Não importa, a riqueza dessas criaturas de Machado de Assis é tão grande que me vi obrigado a cometer a heresia de antecipar os eventos narrados em Dom Casmurro para ajusta-los cronologicamente aos das Memórias Póstumas.

Do ponto de vista do Memórias Póstumas de Brás Cubas, o capítulo que imaginei se passa logo após o aborto espontâneo que Virgília sofrera e o recebimento de uma carta anônima por Lobo Neves entregando o caso amoroso de sua esposa com Brás. O caso dos dois está prestes a terminar, mas naquele momento os amantes não sabem disso. Não obstante, ao final do capítulo XCVI (“A Carta Anônima”), Brás relata que ao beijar Virgília na testa esta recuou, “como se fosse um beijo de defunto”. No capítulo seguinte, ele esclarece: “Há aí, no breve intervalo, entre a boca e a testa antes do beijo e depois do beijo, há aí largo espaço para muita coisa: a contração de um ressentimento, — a ruga da desconfiança, — ou enfim o nariz pálido e sonolento da saciedade… “

Em relação a Dom Casmurro, em minha narrativa Brás encontra Escobar logo após a gravidez de Capitu. Àquela altura do romance, Bentinho já havia iniciado sua estratégia de descrever fatos que, no clímax de suas memórias, mostrar-se-iam como verdadeiras peças acusatórias da traição e supostas provas do relacionamento entre Capitu e Escobar. São assim os Capítulo CV, CVI e CVIII. Em cada um desses capítulos, Bentinho conta uma passagem no qual fica subentendido de forma muito sutil o relacionamento de sua esposa com seu melhor amigo (Capitu só concorda em deixar de expor seus braços em eventos sociais depois que Bentinho diz que Escobar aprovava seu desagrado com esse fato; Capitu está com o olhar perdido no mar, o que leva a Bentinho a desconfiar de algo; na sequência, ela diz que estava “somando uns dinheiros para descobrir certa parcela que não achava”, o que, no final, leva à revelação de que Escobar fazia corretagens com as economias de Capitu e que naquele dia estivera com ela antes de Bentinho chegar; etc.).

Finalmente, o ponto de contato entre ambos não podia deixar de ser o Cotrim, cunhado de Brás Cubas, um self-made man na área do comércio, como Escobar.

Acho que não preciso mencionar que minha narrativa é apenas uma brincadeira pseudoliterária. Nem eu sou escritor e ainda que fosse não teria talento suficiente para reproduzir ou sequer imitar o estilo machadiano. Ninguém o tem, aliás. Na literatura latino-americana, Machado é incomparável. Coloca no bolso escritores como Guimarães Rosa, Borges ou Gabriel García Márquez. Na verdade, só vamos encontrar quem o ombreie na mais alta e estrita esfera da literatura mundial – falo de gente como Shakespeare, Dostoiévski, Faulkner.

No entanto, como diria Quincas Borba, “a inveja não é senão uma admiração que luta”. Assim, ao emular um ou dois capítulos das Memórias Póstumas estou apenas tentando ilustrar empiricamente um dos princípios humanitas mais bem elaborados. Se a inveja é uma virtude, como queria Quincas Borba, invejar o maior de todos – a ponto de querer interpolar alguns capítulos desnecessários em sua obra-prima – é sublime.

Independentemente de ter gostado ou não de minha narrativa, uma coisa é certa: você já a leu. Se gostou, caro leitor, ótimo; se não, não te pago com um piparote, como sugere Brás aos seus leitores. Tampouco lamento. Afinal de contas, como diria Quincas Borba, “Verdadeiramente há só uma desgraça: é não nascer.”

Em 20/06/2018

REPUBLICAÇÃO, com alterações no texto: narrativa publicada na página originalmente em 20/06/2018