Tishani Doshi – Poema de Amor

No fim, perderemos um ao outro
para alguma coisa. Espero que seja algo
grandioso – morte ou desastre.
Mas pode não ser assim.
Pode ser que você saia
uma manhã para comprar cigarros,
depois de fazermos amor,
e nunca mais volte,
ou eu me apaixone por outro homem.
Pode ser um lento distanciamento em direção à indiferença.
Seja como for, teremos que aprender
a suportar a possibilidade de que eventualmente
perderemos um ao outro para alguma coisa.
Por que então não começar agora, enquanto sua cabeça
repousa como uma lua perfeita em meu colo,
e os cães na praia estão uivando lá fora?
Por que não buscar a sutura que nos une nesta
noite indiana e rompê-la, só um pouco, para que a queda
possa começar? Porque mais tarde, quando cruzarmos
um com o outro nas ruas, e tivermos que desviar os olhos,
quando tivermos atirado
as partes desprezadas de nossa vida comum
nas gavetas do quarto e o cheiro
de nossos corpos estiver desaparecendo como o doce
definhar dos lírios – do que chamaremos isso,
quando não for mais amor?

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 30/06/2018

Tishani Doshi – Love Poem

Ultimately, we will lose each other
to something. I would hope for grand
circumstance — death or disaster.
But it might not be that way at all.
It might be that you walk out
one morning after making love
to buy cigarettes, and never return,
or I fall in love with another man.
It might be a slow drift into indifference.
Either way, we’ll have to learn
to bear the weight of the eventuality
that we will lose each other to something.
So why not begin now, while your head
rests like a perfect moon in my lap,
and the dogs on the beach are howling?
Why not reach for the seam in this South Indian
night and tear it, just a little, so the falling
can begin? Because later, when we cross
each other on the streets, and are forced
to look away, when we’ve thrown
the disregarded pieces of our togetherness
into bedroom drawers and the smell
of our bodies is disappearing like the sweet
decay of lilies — what will we call it,
when it’s no longer love?

Antonia Pozzi – Novembro

E depois – quando eu partir
restará alguma coisa
de mim
no meu mundo –
restará um fino rasto de silêncio
no meio das vozes –
um ténue sopro de branco
no coração do azul –

E numa noite de Novembro
uma menina frágil
à esquina de uma rua
venderá braçadas de crisântemos
e lá estarão as estrelas
gélidas verdes distantes –
Alguém chorará
em algum lugar – em algum lugar –
Alguém irá procurar crisântemos
para mim
no mundo
quando sem regresso
eu tiver de partir.

Trad.: Inês Dias

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 28/06/2018

Antonia Pozzi – Novembre

E poi – se accadrà ch’io me ne vada –
resterà qualchecosa
di me
nel mio mondo –
resterà un’esile scìa di silenzio
in mezzo alle voci –
un tenue fiato di bianco
in cuore all’azzurro –

Ed una sera di novembre
una bambina gracile
all’angolo d’una strada
venderà tanti crisantemi
e ci saranno le stelle
gelide verdi remote –
Qualcuno piangerà
chissà dove – chissà dove –
Qualcuno cercherà i crisantemi
per me
nel mondo
quando accadrà che senza ritorno
io me ne debba andare.

Leah Silvieus – Espécies invasoras

Algo terrível aconteceu hoje, eu digo
e meu marido corre até mim procurando
por sinais de ferimentos. Não quero contar-lhe o resto:
de como encontrei uma rã-arborícola na canaleta do vidro da porta
do nosso carro, olhando para cima com o que eu então imaginei
ser um olhar de esperança, como a persuadi a entrar em um saco de papel
que carreguei até uma árvore com muita sombra
do outro lado do terreno, como empurrei o saco suavemente,
e esperei. E de como quando eu voltei,
ela olhava para mim, sua perna agora deslocada
no ponto onde eu, em minha pressa, a havia quebrado.
Seu olhar ainda era o mesmo, repleto não
de esperança, como eu havia imaginado, mas
de outra coisa. Eu só estava tentando ajudar, eu disse.
Eu sabia que isso não importava.

Trad.: Nelson Santander

Invasive Species

Something terrible happened today, I say
and my husband rushes to me, searching
for signs of harm. I do not want to tell him
the rest: how I found a tree frog in the door well
of our car, gazing up with what I then imagined
was hope, how I coaxed him into a paper sack
that I carried to a tree with plenty of shade
at the lot’s far end, nudged the bag gently,
and waited. How when I returned,
he stared up at me, his leg now askew
from where I had broken it in my hurry.
His gaze was still the same, full not
with hope as I had once imagined but
something else. I was just trying to help, I say.
I knew that did not matter.

Renata Correia Botelho – o vento a rondar os dragoeiros

morreu Ulrich Mühe e o seu rosto antigo
que olhara em tempos na minha direcção
enquanto ouvia a ‘Appassionata’ de Beethoven,
o amor e ‘As Vidas dos Outros’. eu vira o filme
sozinha, num teatro vazio como uma igreja

abandonada de Tonino Guerra, com a cerejeira
a erguer-se entre as cadeiras e o palco
que ninguém vê. ficou tudo ligado: aquele olhar
subterrâneo que regressava agora a águas fundas,
a minha avó a ajeitar, com os seus dedos térreos,
a planta que morreu com ela, a resignação
das gaivotas ao longo da praia
e as palavras de Borges sobre
as coisas que morrem em cada agonia.

ouvirá Mühe, nos seus auscultadores,
a nostalgia do vento a rondar os dragoeiros?
és tu que cantas, Lhasa, com os melros negros,
a luz melancólica desta manhã?
quem dormirá no colo da minha tia,
protegido pelas suas mãos de árvore?

o que morrerá comigo, avô, quando eu morrer?

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 26/06/2018

Richard Howard – Princípios elementares aos setenta e dois

                  Quando consideramos as estrelas
(o que mais podemos fazer com elas?) e inclusive
reconhecemos entre elas figuras paternas

                  siderais (foi nossa
consideração que as organizou assim),
elas sempre nos ofuscam, pois nós mudamos.

                  Quando observamos a água
(que não pode ser contida, pois não para de transformar-se
em si mesma), é assim que aspiramos nos mover -

                  mas a água nos ultrapassa.
E quando aspiramos nos envolver pelas chamas
(pois quem não trajaria tal vestimenta?)

                  as chamas apenas passam por nós -
esse é o jeito delas de passar.
Mas a terra é uma outra conversa. Peçamos à terra,

                 a última mãe, que nos leve -
para um útero que possamos reassumir. Sim, de fato,
nós podemos ter a terra. A terra nos acolherá.

Trad.: Nelson Santander

Elementary Principles At Seventy-Two

                  When we consider the stars
(what else can we do with them?) and even
recognize among them sidereal

                  father-figures (it was our
consideration that arranged them so),
they will always outshine us, for we change.

                  When we behold the water
(which cannot be held, for it keeps turning
into itself), that is how we would move-

                  but water overruns us.
And when we aspire to be clad in fire
(for who would not put on such apparel?)

                  the flames only pass us by-
it is a way they have of passing through.
But earth is another matter. Ask earth

                  to take us, the last mother-
one womb we may reassume. Yes indeed,
we can have the earth. Earth will have us.

Felipe Benítez Reyes – Uma Forma de Eternidade

Então o medo era isto?
Não os ameaçadores
fantasmas do pensamento e da consciência.
Não os longos corredores de hospitais
com lâmpadas fluorescentes dia e noite.
Nem sequer o tremor de irrealidade
que permanece na alma se te recordas.

O medo, aparentemente, é calmo:

Chega quando fechas a janela
e compreendes que tudo quanto vês
é o mesmo que ontem, e será
igual amanhã e para sempre.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com pequenas alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 25/06/2018

Felipe Benítez Reyes – Una Forma de Eternidad

Pero ¿el miedo era esto?
No los amenazantes
fantasmas del pensamiento y la conciencia.
No los largos pasillos de hospitales
con tubos fluorescentes día y noche.
Ni siquiera el temblor de irrealidad
que se queda en el alma si recuerdas.

El miedo, al parecer, es sosegado:

te llega cuando cierras la ventana
y comprendes que todo cuanto miras
es lo mismo que ayer, y que lo mismo
volverá a ser mañana y para siempre.

Cheryl Pearson – Contando estrelas

O cheiro de gelo nos pinheiros. Frio e verde,
como uma lufada de hortelã. Suas omoplatas como asas de anjo
cortando a grama. Moisés dividiu as águas assim mesmo.
Não foi tão milagroso quanto isto. Nós. Sua pele, a brancura dela brilhando
através do algodão. Você faz um círculo com o polegar e o indicador,
uma lente telescópica. E diz: Vamos tentar contar as estrelas, e eu observo
enquanto você vasculha o universo de ponta a ponta para mim, toda aquela velha e variada luz
numerada, definida, caindo pelo aro ósseo como um punhado de sal.
Agora eu sei. Como as galáxias colapsam.
Como mundos inteiros podem nascer de uma garganta.

Trad.: Nelson Santander

Counting Stars

The smell of ice in the pines. Cold and green,
like lungfuls of mint. Your shoulderblades like angelwings
cleaving the grass. Moses parted water like that.
It wasn’t as miraculous as this. Us. Your skin, the white of it shining
through cotton. You make a circle of thumb and finger,
a telescopic lens. You say, Let’s try and count the stars, and I watch
as you sift the universe through to me, all that old assorted light
numbered, defined, falling through the bone ring like so much salt.
I know it now. How galaxies collapse.
How whole worlds can be born in a throat.

Joan Margarit – Shostakovich. Sinfonia ‘Leningrado’

Lembras-te? Joana1 havia morrido.
Íamos para o norte, tu e eu, de carro,
para o apartamento junto ao mar,
e ouvíamos esta sinfonia.
Iniciamos a viagem em uma manhã
luminosa e, dentro da música,
o dia era de muros cobertos pelo gelo,
sombras com sacos meio cheios
e, no lago, trenós com cadáveres.
Como uma pista de aeroporto ao sol,
fugia a estrada, e por trás dos sons se estendia
uma névoa de obuses ocultando
os rastros dos tanques na neve.
Foi em julho, em uma manhã azul dourada
que brilhava no cristal do mar.
Os metais e cordas ressoavam
gloriosamente – no passado, como sempre;
rejeitando a vida, como sempre.

À noite não se ouvia nenhum outro rumor
que o das ondas sob o terraço.
Por outro lado, dentro de nós,
como ocorria dentro da música,
rugia a tempestade de neve e ferro
que desata a história ao virar a página.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: 1. Joana foi uma das filhas do poeta, falecida em 2001, aos 30 anos de idade, em decorrência de um câncer. Portadora de uma doença genética rara, sua presença permeia toda a obra de Joan Margarit. Em sua homenagem, o autor escreveu a coleção de poemas Joana, inteiramente dedicada à filha, e considerada sua obra-prima. Em 2021, tive o prazer de traduzir o livro na íntegra para o blog (aqui).

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 21/06/2018

Joan Margarit – Shostakovich. Sinfonía “Leningrado”

¿Lo recuerdas? Joana había muerto.
Íbamos hacia el norte, tú y yo, en coche,
hasta el apartamento junto al mar,
y escuchábamos esta sinfonía.
Iniciamos el viaje una mañana
llena de luz y, dentro de la música,
el día era de muros cubiertos por el hielo,
sombras con sacos a medio llenar
y, en el lago, trineos con cadáveres.
Como una pista de aeropuerto al sol,
huía la autopista e trás de los sonidos se extendía
una niebla de obuses ocultando
las huellas de los tanques en la nieve.
Fue en julio, una mañana de oro azul
que destellaba en el cristal del mar.
Los metales y cuerdas resonaban
con la gloria, en pasado como siempre,
rechazando la vida, como siempre.

De noche no se oía más rumor
que el de las olas bajo la terraza.
En cambio, dentro de nosotros,
como ocurría dentro de la música,
rugía el temporal de nieve y hierro
que desata la historia al pasar página.

Ada Limón – O real motivo

Eu não tenho nenhuma tatuagem, elas não fazem parte da minha história, e sim da história
de minha mãe. Certa vez, caminhando pela Bedford Avenue quando tinha vinte e poucos anos,

liguei para ela como costumava fazer, como faço. E disse-lhe que queria uma
tatuagem na nuca. Algo discreto, mas permanente,

e como ela é uma artista, eu queria que ela fizesse a arte, um símbolo —
um peixe com o qual eu sonhava todas as noites. Um amuleto aquático, um presente

de mãe em meu corpo. Para ser honesta, pensei que ela ficaria honrada. Mas nós
realmente conhecemos uns aos outros completamente? Um silêncio como num quarto de hospital; ela

estava em lágrimas. Eu jurei que não faria uma. Que não permitiria que uma agulha
tocasse a minha pele, meu braço, meu torso. Eu permaneceria eu mesma, com a pele

com a qual ela me acolheu no mundo. Só mais tarde eu soube que
o problema não era tanto a tatuagem, mas a marca, a ideia

de cicatrizes. O que você não sabe (e é por isso que esta não é a minha história)
é que minha mãe tem cicatrizes de queimadura em grande parte do corpo.

A maioria de uma explosão, que levou o primeiro filho que ela carregava
na barriga; outras, dos enxertos de pele com a pele que eles levaram para cobrir

o que era necessário. Ela tinha vinte e poucos anos quando isso aconteceu.
Na frente do seu estúdio, no centro da cidade. Você tem que entender,

minha mãe é linda. Alta e elegante, magra e forte. Eu nunca a
conheci de outra maneira, sua pele que mapeei com meus dedos

juvenis, a estranha dureza em alguns lugares, os padrões como retalhos aqui,
leitos de rios ali. Ela é assombrosa, sobrenatural, sobreviveu ao fogo,

ao fim do filho por nascer. O calor e a chama e a morte, tudo isso a tornou
algo quase mágico, uma fênix. O que sei

agora é que ela queria outra coisa para mim. Para que eu acordasse todas
as manhãs e reconhecesse minha própria carne, para que essa coisa que ela fez —

eu — permanecesse como ela planejou, para que uma de nós
saísse ilesa.

Trad.: Nelson Santander

The Real Reason

I don’t have any tattoos is not my story to tell. It’s my
mother’s. Once, walking down Bedford Avenue in my twenties,

I called her as I did, as I do. I told her how I wanted a tattoo
on the back of my neck. Something minor, but permanent,

and she is an artist, I wanted her to create the design, a symbol,
a fish I dream of every night. An underwater talisman, a mother’s

gift on my body. To be clear, I thought she’d be honored. But do we
ever really know each other fully? A silence like a hospital room; she

was in tears. I swore that I wouldn’t get one. Wouldn’t let a needle
touch my skin, my arm, my torso. I’d stay me, my skin the skin

she welcomed me into the world with. It wasn’t until later that
I knew it wasn’t so much the tattoo, but the marking, the idea

of scars. What you don’t know (and this is why this is not my story)
is that my mother is scarred from burns over a great deal of her body.

Most from an explosion that took her first child she was carrying
in her belly, others from the skin grafts where they took skin to cover

what needed it. She was in her late twenties when that happened.
Outside her studio in the center of town. You have to understand,

my mother is beautiful. Tall and elegant, thin and strong. I have not
known her any other way, her skin that I mapped with my young

fingers, its strange hardness in places, its patterns like quilts here,
riverbeds there. She’s wondrous, preternatural, survived fire,

the ending of an unborn child. Heat and flame and death, all made
her into something seemingly magical, a phoenixess. What I know

now is she wanted something else for me. For me to wake each
morning and recognize my own flesh, for this thing she made—

me—to remain how she intended, for one of us
to make it out unscathed.

Carlos Drummond de Andrade – A um varão que acaba de nascer

Chegas, e um mundo vai-se
como animal ferido,
arqueja. Nem aponta
um forma sensível,
pois já sabemos todos
que custa a modelar-se
uma raiz, um broto.
E contudo vens tarde.
Todos vêm tarde. A terra
anda morrendo sempre,
e a vida, se persiste,
passa descompassada,
e nosso andar é lento,
curto nosso respiro,
e logo repousamos
e renascemos logo.
(Renascemos? talvez)
Crepita uma fogueira
que não aquece. Longe.
Todos vêm cedo, todos
chegam fora do tempo,
antes, depois. Durante,
quais os que aportam? Quem
respirou o momento,
vislumbrando a paisagem
de coração presente?
Quem amou e viveu?
Quem sofreu de verdade?
Como saber que foi
nossa aventura, e não
outra, que nos legaram?
No escuro prosseguimos.
Num vale de onde a luz
se exilou, e no entanto
basta cerrar os olhos
para que nele trema,
remoto e matinal,
o crepúsculo. Sombra!
Sombra e riso, que importa?
Estendem os mais sábios
a mão, e no ar ignoto
o roteiro decifram,
e é às vezes um eco,
outras, a caça esquiva,
que desafia, e salva-se.
E a corrente, atravessa-a,
mais que o veleiro impróprio,
certa cumplicidade
entre nosso corpo e água.
Os metais, as madeiras
já se deixam malear,
de pena, dóceis. Nada
é tão rude bastante
que nunca se apiede
e se furte a viver
em nossa companhia.
Este é de resto o mal
superior a todos:
a todos como a tudo
estamos presos. E
se tentas arrancar
o espinho de teu flanco,
a dor em ti rebate
a do espinho arrancado.
Nosso amor se mutila
a cada instante. A cada
instante agonizamos
ou agoniza alguém
sob o carinho nosso
Ah, libertar-se, lá
onde as almas se espelhem
na mesma frigidez
de seu retrato, plenas!
É sonho, sonho. Ilhados,
pendentes, circunstantes,
na fome e na procura
de um eu imaginário
e que, sendo outro, aplaque
todo este ser em ser,
adoramos aquilo
que é nossa perda. E morte
e evasão e vigília
e negação do ser
com dissolver-se em outro
transmutam-se em moeda
e resgate do eterno.
Para amar sem motivo
e motivar o amor
na sua desrazão,
Pedro, vieste ao mundo.
Chamo-te meu irmão.