Yusef Komunyakaa – Ode à Larva

Irmã da mosca-varejeira
& da divindade, você faz mágica
Nos campos de batalha,
Em pedaços de carne suína estragada

& em lugares sujos. Sim, você
Chega à raiz de todas as coisas.
Você é sólida & matemática.
Jesus Cristo, você é implacável

Com a verdade. Ontológica & lustrosa,
Você lança feitiços em mendigos & reis
Atrás da porta de pedra do túmulo de César
Ou em trincheiras abertas num campo de ambrósias.

Nenhum credo ou decreto pode proscrevê-la
Enquanto você dizima cada coisa viva. Pequena
Mestra da terra, ninguém chega ao céu
Sem antes passar por você.

Trad.: Nelson Santander

Ode to the Maggot

Brother of the blowfly
& godhead, you work magic
Over battlefields,
In slabs of bad pork

& flophouses. Yes, you
Go to the root of all things.
You are sound & mathematical.
Jesus Christ, you’re merciless

With the truth. Ontological & lustrous,
You cast spells on beggars & kings
Behind the stone door of Caesar’s tomb
Or split trench in a field of ragweed.

No decree or creed can outlaw you
As you take every living thing apart. Little
Master of earth, no one gets to heaven
Without going through you first.

Manuel de Freitas – Pompe Inutili

a Silvina Rodrigues Lopes

Ninguém nasce; seria descabido
chamar alguém aos resíduos
de placenta que envolvem
um conjunto de órgãos
a tudo ou quase tudo predispostos.

Só os mortos, verdadeiramente,
existem. Escreveram ou não
escreveram livros, cartas de amor,
diários. Não importa: cruzaram-se
connosco, sentaram-se por vezes
à mesma mesa, acreditaram até
no terno suplício do amor.
E tinham mãos reais, ao tocarem
o rosto imberbe de que se despediam.
Um beijo, sobre rugas apenas,
conseguia tornar menos frias as manhãs.

Despedem-se muito mal, os mortos.
Embora, por uma vez, sejam
exactos e sinceros – no momento
em que descem à terra e nos impedem
de partilhar com eles um cigarro,
o último copo, uma espécie de destino.

São terrivelmente reais, os mortos.
A vida inteira não chega
para que possamos matá-los a todos,
um a um, como decerto aconselharia
a mais elementar higiene metafísica.
Dão-nos, contudo, a força necessária
para morrer cada vez mais, tolerando
dias de aluguer, casas ligeiramente
inabitáveis. Porque os outros, na
verdade, não passam de mortos imperfeitos.
Estão, como nós, um pouco demasiado vivos.

Talvez um dia, porém, venham a
assinar um poema assim (e pode até não ser
um poema, muito menos assim), em que se note,
além das influências óbvias, uma certa
– digamos – especialização no horror.
Pois é disso apenas que se trata.

Os mortos sabem-no.
A sabedoria é inútil.
A poesia também.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 06/07/2018

Katia Kapovich – Retrato de um cão como um homem mais velho

Quando o dono dele morreu em 2000 e uma nova família
se mudou para o apartamento de Moscou,
ele foi viver com os vira-latas do parque.
No verão, havia muita comida, as crianças
jogavam fora sanduíches, cachorros-quentes e outras sobras.
Ele não tinha um grande apetite,
e ainda sentia saudades do seu dono.
Ele também estava velho, as fêmeas já não o atraíam,
e ele não tinha mais energia para correr atrás delas.
Então veio o inverno e os pequeninos abandonaram o parque.
A ideia de comer do lixo lhe ocorreu
mas no minuto em que ele começou a revirar a
lixeira virada, uma voz
em sua cabeça disse: “Não, Rex!”
Os vestígios de uma boa educação diminuem
nossas habilidades naturais de sobrevivência.

Eu o encontrei novamente no início da primavera de 2001.
Ele parecia ótimo. O tom acinzentado lhe caía muito bem.
Seus olhos escuros de pastor eram perfeitamente brilhantes,
como os de um filhote.
Perguntei-lhe sobre como ele estava se mantendo
nesta nova ordem econômica
em que até a espécie humana sofria com a fome.
Em resposta, ele me contou a sua história:
a de como no começo ele pensou que a vida sem seu dono
não valia a pena, como aqueles
que o acariciavam quando ele era um pet
se afastaram dele, e de como uma noite
ele teve uma epifania.

Seu dono apareceu para ele em um sonho,
deu-lhe um tapinha em seu pescoço magro e disse:
“Vamos às compras!” Então, na manhã seguinte, ele pegou o metrô
e seguiu para o mercado de rua
onde costumava ir todos os domingos, onde
os vendedores o reconheceram e o alimentaram,
até à saciedade.
“Talvez você devesse se mudar para perto daquela região…”
sugeri. —“Não, vou ficar aqui”, ele suspirou,
“os velhos não devem alterar seu território. Foi
o que meu humano me disse.”
De fato, ele mesmo soava como um.

Trad.: Nelson Santander

A Portrait of a Dog as an Older Guy

When his owner died in 2000 and a new family
moved into their Moscow apartment,
he went to live with mongrels in the park.
In summer there was plenty of food, kids
often left behind sandwiches, hotdogs and other stuff.
He didn’t have a big appetite,
still missing his old guy.
He too was old, the ladies no longer excited him,
and he didn’t burn calories chasing them around.
Then winter came and the little folk abandoned the park.
The idea of eating from the trash occurred to him
but the minute he started rummaging in the
overturned garbage container, a voice
in his head said: “No, Rex!”
The remnants of a good upbringing lower
our natural survival skills.

I met him again in the early spring of 2001.
He looked terrific. Turning gray became him.
His dark shepherd eyes were perfectly bright,
like those of a puppy.
I asked him how he sustained himself
in this new free-market situation
when even the human species suffered from malnutrition.
In response he told me his story;
how at first he thought that life without his man
wasn’t worth it, how those
who petted him when he was a pet
then turned away from him, and how one night
he had a revelation.

His man came to him in his sleep,
tapped him on his skinny neck and said:
“Let’s go shopping!” So the next morning he took the subway
and went to the street market
where they used to go together every Sunday and where
vendors recognized him and fed him
to his heart’s content.
“Perhaps you should move closer to that area?”
I ventured.—“No, I’ll stay here,” he sighed,
“oldies shouldn’t change their topography. That’s
what my man said.”
Indeed, he sounded like one himself.

Manuel António Pina – Forma, só Forma

Brincarei ainda na infância
lembrando-me agora?
E que recordação
me pensa a esta hora?
O que sou passou
pela minha existência,
tenho uma presença
mas já lá não estou:
sou também lembrança
de alguém em algum sítio,
onde não alcança
o que, lembrado, sinto.
E aí repousa já
tornado esquecimento
um dia que virá
há muito, muito tempo

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 03/07/2018

Ferreira Gullar – Manhã

As portas batem as toalhas voam
o dia se esbaqueia como um pássaro dentro da casa
(ou uma lembrança
dentro da casa)

Véspera do dia em que de repente enlouquecerei.

Joan Margarit – Não jogues fora as cartas de amor

Elas não te abandonarão.
O tempo passará, o desejo se apagará
— esta seta da sombra —
e os rostos sensuais, belos e inteligentes
se ocultarão em ti, no fundo de um espelho.
Passarão os anos. Os livros te cansarão.
Cairás ainda mais
e inclusive perderás a poesia.
O ruído da cidade nas vidraças
acabará sendo tua única música,
e as cartas de amor que houveres guardado
serão tua última literatura.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 01/07/2018

No tires las cartas de amor

Ellas no te abandonarán.
El tiempo pasará, se borrará el deseo
-esta flecha de sombra-
y los sensuales rostros, bellos e inteligentes,
se ocultarán en ti, al fondo de un espejo.
Caerán los años. Te cansarán los libros.
Descenderás aún más
e, incluso, perderás la poesía.
El ruido de ciudad en los cristales
acabará por ser tu única música,
y las cartas de amor que habrás guardado
serán tu última literatura.

Richard Siken – Mundo visível

A luz do sol derramando-se sobre a sua pele, sua sombra
                                                                    plana na parede.
          O amanhecer partia os ossos do seu coração como gravetos.
Você não esperava por isso,
                        o quarto se tornando branco, a luz astronômica
                                                             golpeando-o em uma torrente de punhos.
          Você levou a mão ao rosto como se para
                         escondê-lo, os dedos cor-de-rosa se tornaram dourados enquanto a luz
fluía diretamente para o osso,
         como se você estivesse dentro do pequeno quarto fechado em vidro
                                                       com cada partícula de poeira iluminada.
         A luz não é nenhum mistério,
o mistério é haver algo que obstrui
                                                              a passagem da luz.

Trad.: Nelson Santander

Em: Refletions Journal – Yale Divinity School, 2005

Visible World

Sunlight pouring across your skin, your shadow
                                                                    flat on the wall.
          The dawn was breaking the bones of your heart like twigs.
You had not expected this,
                        the bedroom gone white, the astronomical light
                                                             pummeling you in a stream of fists.
          You raised your hand to your face as if
                         to hide it, the pink fingers gone gold as the light
streamed straight to the bone,
         as if you were the small room closed in glass
                                                       with every speck of dust illuminated.
         The light is no mystery,
the mystery is that there is something to keep the light
                                                                                   from passing through.

Linda Gregg – Redução

Sem nem mesmo abrir o álbum
percebi de repente, dois meses depois,
que você havia roubado uma foto minha,
aquela colorida, nas ondas gregas.
Depois de ter me machucado tanto,
como você pode também subtrair-me uma foto
de um tempo em que eu ainda não o conhecia?
Do tempo em que eu estava com Jack?
Roubar a pequena prova de que um dia
eu tive uma vida feliz, era amada
e bela?

Trad.: Nelson Santander

Lessening

Without even looking in the album
I realized suddenly, two months later,
you had stolen the picture of me,
The one in color in the Greek waves.
After you had hurt me so much,
how could you also take the picture
from me of a time before I knew you?
When I was with Jack.
Steal the small proof that once
I lived well, was loved
and beautiful.

Patrizia Cavalli – Agora que

Agora que o tempo parece ser todo meu
e ninguém me chama para almoçar ou jantar,
agora que posso ficar observando
como uma nuvem desbota e se desfaz,
como um gato atravessa o telhado
no imenso luxo de uma aventura, agora
que todos os dias me espera
a duração ilimitada de uma noite,
onde não há mais apelos e nem razão
para me despir apressadamente e repousar dentro
da ofuscante doçura de um corpo que me espera,
agora que a manhã nunca chega
e silenciosamente me abandona aos meus planos
em todas as nuances da voz, agora,
de repente, eu desejaria a prisão.

Trad.: Nelson Santander

Adesso che

Adesso che il tempo sembra tutto mio
e nessuno mi chiama per il pranzo e per la cena,
adesso che posso rimanere a guardare
come si scioglie una nuvola e come si scolora,
come cammina un gatto per il tetto
nel lusso immenso di una esplorazione, adesso
che ogni giorno mi aspetta
la sconfinata lunghezza di una notte
dove non c’è richiamo e non c’è piú ragione
di spogliarsi in fretta per riposare dentro
l’accecante dolcezza di un corpo che mi aspetta,
adesso che il mattino non ha mai principio
e silenzioso mi lascia ai miei progetti
a tutte le cadenze della voce, adesso
vorrei improvvisamente la prigione.

Emily Dickinson – “Morrer por ti era pouco…”

Morrer por ti era pouco.
Qualquer grego o fizera.
Viver é mais difícil —
É esta a minha oferta —

Morrer é nada, nem
Mais. Porém viver importa
Morte múltipla — sem
O Alívio de estar morta.

Trad.: Augusto de Campos

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 29/06/2018

Too scanty ’twas to die for you,
The merest Greek could that.
The living, Sweet, is costlier —
I offer even that —

The Dying, is a trifle, past,
But living, this include
The dying multifold — without
The Respite to be dead.